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Um conceito construído de “juventude” e outras descobertas

Pretendo lançar uma visão crítica sobre a abordagem da temática juventude em nossa sociedade. É preciso conhecer melhor a história e o conteúdo do atual conceito construído sobre juventude, pois isto pode significar que esta, tal qual julgamos conhecer, não passe de uma “invenção burguesa”, literalmente. É preciso ainda levar em conta que este conceito não é válido apenas para a juventude européia, mas também para, no mínimo, a juventude das três Américas, devido aos movimentos político-sociais iniciados a partir das Grandes Navegações. É importante esclarecer, antes porém, que esta afirmação não é uma questão de crítica unilateral, uma vez que este conceito é demarcado inicialmente pela publicação por Rosseau do livro “Emilio”, em 1762, no qual, através da história do jovem protagonista e seu relacionamento com seu professor, o autor ilustrou sua “Teoria Pedagógico-Evolutiva”:

“Rousseau e seu modelo pedagógico têm boas razões para manter afastada a realidade social e sua influência: não se trata simplesmente de integrar o jovem Emilio mediante a socialização dentro de tradições e condições previamente existentes, senão que este deve ter a possibilidade de incidir no futuro, com personalidade fortalecida, como inovador do jogo social. Para poder cumprir tal missão, deve primeiramente se desenvolver como ser humano” (Zinnecker 1987) pp 57.

O esquema geral desta concepção de juventude pode ser esboçado através de quatro pontos básicos:

1. A Juventude como valor social, libertada da órbita das regulamentações pragmáticas e ocupada com valores positivos. Trata-se de uma concepção corporativista em cujo perfil só se enquadrava uma elite masculina de filhos da pré-burguesia.
2. A Juventude como domínio pedagógico, uma vez que “a educação só começa com a juventude”. A vida como meio educativo conformado pelos pedagogos. Isso pressupõe a tomada de partido do pedagogo em favor do jovem, a quem ele passa a proteger da imposição deste ter que se converter em “membro útil”, pois sua missão é converter-se em um “inovador”. Este domínio pedagógico se dá através de uma confrontação entre família e instituições educativas.
3. A Juventude como moratória, como uma época de indulgência dedicada tanto a se encontrar consigo mesmo, como a se por à prova. Esta pausa se dá através da liberação das obrigações sociais. Esta idéia constitui desde então o credo da pedagogia burguesa, assim como da moderna psicologia evolutiva do século XX, que se baseia naquela.
4. A Juventude como evolução e como crise vital produtiva, que vem a ser o conceito clássico da juventude que assinala uma etapa da vida em que ocorrem determinadas tarefas de desenvolvimento especificadas de modo positivo, nas relações com o sexo oposto e na formação do caráter pessoal. Rousseau falava do “segundo nascimento do ser humano”.

Dentro destes quatro eixos podemos enquadrar toda uma conceitualização que foi amplamente e de forma profunda inserida em nossa sociedade “na medida em que a burguesia foi se convertendo na classe social dominante e em que seus conceitos de homem e sociedade se inseriram na ideologia predominante na civilização industrial dos séculos XIX e XX” (Zinnecker 1987) pp.59. Zinnecker enfatiza que esta concepção de juventude se estende desde Rousseau, passando por Spranger, Piaget, Kohlberg e Keniston, ao longo de mais de 200 anos de psicologia evolutiva.

Esta é uma constatação complexa e muito problemática, uma vez que isto significa que “desde a metade do Século XVIII até a metade do Século XX a juventude existia sobretudo no papel e na mente dos teóricos (evolutivos) da juventude”. Isto significa dizer que o que todos estes influentes psicólogos evolutivos acima citados “concebiam como juventude era uma mera idéia, uma concepção utópica do possível desenvolvimento do ser humano em uma fase de sua vida”. Além disso é preciso adicionar que este cabedal teórico tem um motivo e que “a pedagogia da burguesia tem suas razões para apresentar uma idéia ideal como realidade e idade juvenil”. Isto é “parte da dialética da hegemonia da cultura burguesa”, determinada pelo reclame da vigência geral de alguns conceitos fundamentais, como o de juventude, “para reservá-los contemporaneamente para a própria classe e sua produção psicocultural e sociocultural” (Zinnecker 1987) pp. 63.

Zinnecker conclui esta reconstituição histórica do conceito de juventude lembrando que ele foi construído, sustentado e aprofundado ao longo de dois séculos, que ele não passou de um equívoco, mas que se trata de “um equívoco guiado por interesses”, a saber, pelos interesses estratégicos e ideológicos da sociedade burguesa, em sua trajetória de afirmação e conquista de espaços. Por esta razão, a linha de pesquisa de Zinnecker aborda sempre a “história real” e a “história das idéias”, de forma integrada, pois se constata que o que a juventude vivencia é bem diferente do que, sobre ela, se idealiza.

A partir das pesquisas sobre juventude que são desenvolvidas historicamente na Alemanha, a partir do pós-guerra, podemos traçar um perfil de juventude ideal iniciado desde o Século XVIII, com parada obrigatória nos anos 50 do Século XX e chegarmos até os anos 80 com uma visão crítica sobre este conceito, tal qual existente em nossa sociedade. Estas pesquisas apontam para o fato de que os jovens dos anos 50, na Europa, demonstraram com clareza não ter conhecimento desta concepção clássica de juventude, pois não a vivenciavam. Postos a caminho da maioridade, eles foram arrastados pela turbulenta modernização sócio-cultural que se pôs em curso, dentro da qual novas gerações de jovens foram se sucedendo. Estes adultos chegaram aos anos 80 com uma postura surpreendente: eles iniciaram um aprendizado na juventude e continuaram aprendendo ao longo da idade adulta, não legitimando uma esperada quebra de gerações, ou como analisa Zinnecker, “o câmbio na constelação de poderes entre as gerações oferece aos jovens dos anos 80 sempre mais a possibilidade de escapar do status juvenil, no caso de necessidade, declarando-se ‘cidadão em ser humano’” (Zinnecker 1987) pp. 71. Ocorreu então a formação de uma conjuntura social onde ambas as partes – adultos e jovens, cada um a sua maneira – admitiram o enfraquecimento dos conceitos básicos de idades vitais. Mas isto significou o agravamento da contradição entre o que jovens e adultos vivem e o que deles se idealiza.

Através dos anos 90 e entrando nos anos 2000, até os dias de hoje, as pesquisas sobre juventude apontam para um panorama juvenil de magnífica diversidade cultural e onde se insere um não compreendido surgimento progressivo de novos valores e grupos de afinidades culturais, fatores estes que aliados ao ressurgimento de antigos valores em renovação, formam um contexto “multi” que se liga diretamente à conjuntura juvenil (e adulta) dos anos 80, como um ponto inicial de referência. Há, contudo, uma diferença fundamental na juventude surgida a partir dos anos 90, crescente após os anos 90, que se dá através das relações com a mídia, sobretudo através da Internet e que atravessa diametralmente a cena jovem atual. Aqui, já não podemos nos limitar apenas às juventudes européias e americanas, pois a característica não-presencial das novas tecnologias tratou de espalhar todo um conteúdo cultural, em diversos sentidos de trocas.

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