Escola de Redes

Democratizando as finanças (Hazel Henderson)

A crise financeira gerada por Wall Street e pelos bancos globais “muito grandes para quebrar” está gerando iniciativas locais e demandas para descentralizar e democratizar o mundo financeiro.

Ao mesmo tempo, em nível global, os países que formam o G-20 exigem a democratização das estruturas no FMI e no Banco Mundial, como condição essencial para refletir as mudanças no equilíbrio das forças econômicas. Os países do G-7 e G-8 não são tão importantes agora, quando o grupo G-20, que tomou o centro das atenções.

Enquanto redes de segurança nacionais são espalhadas, através de cortes em orçamentos, a liderança local cresce, oferecendo alternativas criativas para as comunidades que desejam estabelecer economias domésticas bem mais saudáveis:

* Clubes locais de permuta, como o Freecycle.com, Craigslist e LETS e “scrip currencies” (moedas alternativas) proliferam - como ocorre sempre que os bancos centrais e o Fundo Monetário Internacional falham ou aplicam as alternativas erradas que só fazem com que as coisas piorem. Algumas das mais bem sucedidas moedas complementares locais são o WIR na Suíça e o Berkshare nos Estados Unidos, com o equivalente à $2 milhões em circulação e aceita por bancos e negócios em Massachusetts. Moedas complementares similares estão equilibrando necessidades e recursos e estão desobstruindo os mercados locais na Grã Bretanha, Canadá, Austrália, Argentina, Brasil e outros países.
* Empréstimos interpessoais e projetos microfinanceiros estão florescendo em muitos países. Entre muitos podemos citar o Women’s World Banking, Grameen Bank em Bangladesh, hoje duplicado em muitos países, o FINCA e o ACCION na América Latina, assim como as novíssimas versões online, incluindo o Microplace, o Kiva, como também os que emprestam no Prosper.com, nos EUA e o Zopa.com na Grã Bretanha. As cooperativas de crédito, presentes na Europa e nos Estados Unidos há um século, agora estão mais pró-ativas. Essas entidades estão satisfazendo as necessidades locais, atendendo as pessoas mais pobres e melhorando o escopo micro-financeiro e emprestando para os pequenos negócios.
* As associações que reúnem pequenos bancos e negócios locais estão trabalhando uma esfera mais política, se comparadas com as cooperativas de crédito. Nos EUA, elas estão exigindo tratamento igual no TARP e TALF do governo e junto a outros fundos de ajuda que atualmente trabalham junto aos grandes bancos, cujas temerárias políticas de empréstimo acabaram por desencadear a desordem financeira atual. O Venture capital (Capital Empreendedor) e empresas de filantropia empreendedoras, incluindo a Rudolf Steiner Foundation, Acumen e as entidades dos fundadores do Ebay Pierre Omidyar e Jeffrey Skoll estão investindo em empreendimentos sociais que satisfaçam necessidades sociais e, ao mesmo tempo, visem lucros modestos. Tal capital social está criando um novo setor híbrido em diversas economias.
* A Business Alliance for Local Living Economics (BALLE) é uma grande rede nos Estados Unidos da América, como também o New Voice of Business, Green America, a Social Enterprise Alliance, o Fourth Sector Network e o Business-NGO Working Group. O Entrex.net se concentra em ajudar pequenos negócios com seu Índice de Empresa Privada (Private Company Index - PCI) que hoje supera a maioria dos índices do mercado. A britânica New Economics Foundation (NEF) tem gerado iniciativas locais, como o movimento Transition Towns, assim como seu Green New Deal e indicadores alternativos para corrigir o PIB (GDP), avaliando o bem-estar e a sustentabilidade ecológica. A proposta da NEF é de salvar 11.500 postos do correio na Grã Bretanha, com a adição de funções bancárias em todos eles, com o apoio das cooperativas comerciais, pequenos negócios, grupos de interesse público e aposentados e pensionistas.
* “Time banking”, uma idéia de Edgar Cahn, nos EUA (visite o site www.ethicalmarkets.tv) hoje ajuda a população local a se conectar e compartilhar serviços com o Japão, Europa e outros países. Os vizinhos se comunicam, via um “time banker” local e oferecem refeições e auxílio para indivíduos reclusos, cuidar uns dos filhos dos outros, vigiar propriedades, cortar a grama e compartilhar eletrodomésticos. O compartilhamento de veículos já se espalhou, com novas empresas como o Zip Car, nos EUA e outras semelhantes no Canadá e na Europa, onde as pessoas podem dar/pegar caronas, rapidamente, acessando seus Blackberrys e laptops.
* A China hoje abriga muitas iniciativas locais, relacionadas com pequenos negócios formando redes, incluindo o Baidu.com e o Alibaba.com, como também o Qifang.com que oferece empréstimos razoáveis para mais de 25 milhões de estudantes na China. O Circle Pleasure é uma empresa privada que vende cartões, pré-pagos, para o consumidor, uma parceria com a Qifang para oferecer serviços bancários do tipo pessoa-a-pessoa, a primeira empresa privada a receber uma licença bancária do Banco Central da China. Em muitos países na África, serviços bancários por celular já decolaram. Os celulares são a base para as “phone ladies” em vilas na Índia e em Bangladesh, que alugam seus celulares para outras pessoas no vilarejo. Os fazendeiros e pescadores, nas áreas rurais, podem consultar os preços que estão sendo oferecidos nas aldeias e mercados, ao redor de seus vilarejos, usando seus celulares, para obter os melhores preços e mercados para seus produtos.

Até onde os sistemas financeiros interpessoais podem ir, ultrapassando os grandes e gananciosos bancos, desafiando eticamente Wall Street e seus aliados políticos? O caminho é longo, graças a todas as ferramentas de comunicação que hoje dispomos em todo o mundo. O uso dessas novas ferramentas para compartilhamento de informações ajuda as pessoas a se dar conta, mais uma vez, do real significado do dinheiro, ou seja: apenas uma forma de informação. Hoje é possível fazer negócios usando apenas a troca de informações. Por exemplo, em áreas rurais da Flórida, as estações de rádio têm programas onde os fazendeiros podem anunciar, por exemplo, “Eu tenho certo tempo ocioso com o meu trator e gostaria de trocar por fertilizantes ou sementes de pimenta, melão e berinjela.” O fazendeiro informa seu telefone e as trocas são feitas “fora do ar”. Similarmente, o crescimento das trocas entre os fazendeiros e da agricultura sob contrato permite que os consumidores locais comprem produtos frescos diretamente das fazendas que ficam perto de suas residências.

Todas essas soluções locais e redes de segurança, nos levam a perguntar “Como é que deixamos os grandes bancos e sistemas financeiros centralizados crescerem tanto, até se tornarem predadores das economias de vida reais que produzem a real riqueza mundial”? As populações locais, em todo o mundo, estão se dando conta que podem, simplesmente, ignorar os grandes bancos e os mercados de ações, criando esses serviços localmente. Os velhos e inchados setores financeiros devem ajustar-se, cortar seus bônus e assumir as perdas causadas por suas apostas impensadas no cassino global que eles mesmos montaram. Serviços financeiros verdadeiramente eficientes devem representar menos de 10% do PIB do país. Os mercados financeiros na Grã Bretanha e nos Estados Unidos chegaram a crescer até 25% do PIB, formando metástases com seus “engenheiros financeiros”, predadores da economia real. Agora, alunos procuram trabalho como verdadeiros engenheiros, professores, médicos e empresários.

De maneira bastante real, nossa crise não é uma crise financeira, mas uma crise de percepção. Agora começamos a ver nosso mundo de maneira diferente, longe dos retratos pintados pela mídia em geral. Vemos nossas escolhas com novos olhos. Sabemos que o dinheiro não é sinônimo de riqueza real. Nós aprendemos enquanto testemunhamos os bancos centrais imprimindo dinheiro na TV. A riqueza real é aquela gerada por pessoas produtivas, usando sabiamente os recursos da Terra. O dinheiro é uma grande invenção. Quando administrado apropriadamente, localmente, nacionalmente, globalmente ou eletronicamente é uma ferramenta útil de troca. Acumular dinheiro não é mais uma maneira confiável de armazenar valor. Estamos todos redescobrindo muitos estoques de valor em nossas próprias comunidades. Nós encontramos riqueza muito além do dinheiro. Podemos mudar nossos valores para nos conformar aos novos tempos em que vivemos e restaurar as economias de amor aos seus papéis centrais em nossas vidas.

Hazel Henderson é economista, líder mundial da plataforma Mercado Ético. Autora de vários livros, entre eles Ethical Markets: Growing the Green Economy. Co-criadora do Calvert-Henderson Quality of Life Indicators, juntamente com o Calvert Group. Participou do Comitê Organizador da conferência Beyond GDP no Parlamento Europeu (www.beyond-gdp.eu).

Agradeço ao post de Joana Camilo do Instituto Noa

Exibições: 101

Comentar

Você precisa ser um membro de Escola de Redes para adicionar comentários!

Entrar em Escola de Redes

© 2020   Criado por Augusto de Franco.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço