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A Rede Mundial de Computadores e a subjetividade: uma reflexão

Gostaria de aprofundar um pouco o olhar crítico sobre a rede mundial de computadores, mais especificamente no tocante à exclusão da subjetividade envolvida no processo. Este fato é freqüentemente encarado por muitos pesquisadores e analistas das novas tecnologias com uma boa dose de fascinação ingênua, sendo estes autores fortemente influenciados pelo deslumbre com a chamada globalização e seus desdobramentos, ou marcados por interesses imediatos – geralmente ligados a fatores econômicos e ideológicos. Estas análises acompanham o fenômeno desde sua eclosão e apontam, por exemplo, para uma “corrida do ouro no ciberespaço” num sentido macro, ou para a possibilidade dos “indivíduos que a partir de seus quartos e salas estão ganhando muito dinheiro”, num sentido micro (Edwards 2000). O dualismo destas abordagens também tem um tom emblemático. Ainda vale denotar que, apesar destes mesmos analistas apontarem para o risco do surgimento de “big brohters” na linha George Orwell, a análise crítica do processo sempre para por aí, num misto de realidade com ficção, de concretude com potencialidade.

A maior conseqüência desta conjunção entre novas tecnologias e determinação de conteúdos acaba ocorrendo sobre a noção de realidade que as pessoas desenvolvem a partir dela. Lévy analisa que neste meio, “emerge um conhecimento por simulação que os epistemologistas ainda não inventariaram”, sendo esta uma época em que “a técnica é uma das dimensões fundamentais onde está em jogo a transformação do mundo humano por ele mesmo” (Lévy 1999). No caso da juventude, esta questão assume um tom dramático, devido à fase de formação de suas personalidades e subjetividades. “As companhias de meios e relações públicas cobrem o mundo com imagens que convertem a realidade em ficção e fazem os indivíduos se converterem em imitadores da maneira de viver que se oferecem”, analisa Maria Benites, para quem “sob a etiqueta de globalização estão tendo lugar profundos e compreensivos processos de penetração econômica da sociedade” (Benites 2004) pp. 99. Ou, como analisa Lévy, “somos forçados a constatar o distanciamento alucinante entre a natureza dos problemas colocados à coletividade humana pela situação mundial da evolução técnica e o estado do debate ‘coletivo’ sobre o assunto, ou antes do debate mediático” (Idem).

Esta abordagem crítica pelo flanco da realidade social pode ser corroborada pela proposição de que estas realidades “sintéticas” ou “potenciais” substituem a realidade, que isto leva a uma confrontação não racional de realidades, atitude que vem a destruir a clássica literalidade da educação ocidental, análise que remete às reflexões sobre a “transformação do conhecimento e da problemática do conceito de sujeito” (Fichtner 1999). Nesta perspectiva, é importante observar aquilo que Lévy chama de “história da própria inteligência”, que surge da concepção de que “os coletivos cosmopolitas compostos de indivíduos, instituições e técnicas não são somente meios ou ambientes para o pensamento, mas sim seus verdadeiros sujeitos” e isto determina que a história das tecnologias intelectuais – toda ela – condiciona a história do próprio pensamento, sem determiná-lo (Lévy 1999) pp. 19. Ou seja, sem discutir a relação entre sujeito e realidade, as transformações geradas no pensamento humano, bem como toda a significação social envolvida nisso, qualquer análise da questão corre o risco de cair no senso comum.

Prefiro, contudo, encarar esta questão pelo prisma de suas potencialidades, assumindo de forma consciente seus riscos e tentando compreender produtivamente sua utilização. Nós estamos vivendo um dos momentos intensos em que a química entre as tecnologias de produção e de comunicação se desestabilizou, num longo processo que começou ainda no Século XIX (1), que já viveu outros momentos intensos, mas que – neste momento – “as próprias bases do funcionamento social e das atividades cognitivas modificam-se a uma velocidade que todos podem perceber diretamente” (Lévy 1999). Nesta situação, nossa posição é que a compreensão através da pesquisa e a ação através dos próprios meios disponíveis são fundamentais. Ainda mais porque este histórico comprova que o que está por trás desta nuvem de incompreensão é o próprio ser humano, ou, “apenas indivíduos concretos situáveis e datáveis” (Idem), já que não existe a técnica da técnica, mas sim seus técnicos. A transição da oralidade para a escrita, desta para prensa e, atualmente, daquela para a informática, são vinculados aos respectivos desenvolvimentos sociotécnicos.

(1) Um outro marco de um outro momento de transição que foi estabilizado é o Século XVII. Lá ocorreu a estabilização dos deslocamentos sociais e técnicos causados pela invenção da imprensa, no século XV. Cfe. Lévy, P. (1999). As Tecnologias da Inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. São paulo, Editora 34 Ltda. pp. 10 e Fichtner, B. (1999). Activity Theory as Methodology: The Epistemological Revolution of the Computer and the Problem of its Societal Appropriation. Learning Activity and Development. M. H. e. J. Lompscher. Oxford, Aarhus University Press. pp. 71.

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