Escola de Redes


Pode parecer incrível, mas nós já descobrimos. Embora, a rigor, não haja nenhuma fórmula, nós já descobrimos a "fórmula" da transição do padrão hierárquico para o padrão rede. Essa "fórmula" é a rede (distribuída).

Dito assim, causa surpresa. Mas é, exatamente, isso mesmo. Estamos agora dando voltas na questão para não ir ao centro da questão: articular e animar redes distribuídas.

Quase sempre é difícil ver o óbvio. E o óbvio, aqui, é o seguinte: se queremos efetuar a transição de uma sociedade ou organização hierárquica (centralizada ou multicentralizada) para uma sociedade ou organização em rede (distribuída), nada mais nos cabe fazer senão netweaving.

O nosso problema não está no desconhecimento da "receita" e sim na nossa incapacidade de mostrar que ela é eficaz. Na verdade, o que nos falta são os argumentos suficientes para convencer os hierarcas e seus prepostos das empresas e das demais organizações (governamentais e não-governamentais) de que é possível, sim, re-organizar as coisas em um padrão distribuído. Não é o caminho (a direção e o sentido do movimento a ser feito) que nos falta e sim o discurso convincente, os exemplos e as tecnologias (e metodologias) para promover e conduzir tal transição. Como não conseguimos "vender" a idéia, achamos que não temos a "fórmula".

Mas nós já temos a "fórmula". Achamos que não temos porque, na maior parte dos casos, não queremos nos organizar - nós mesmos - segundo um padrão de rede distribuída. Então montamos uma empresa de consultoria ou uma ONG hierárquica e queremos sair por aí "vendendo o nosso peixe" para outros hierarcas. É claro que o sujeito (potencial cliente de nossos serviços ou tecnologia) desconfia da nossa conversa. Logo de cara pergunta onde tal coisa foi aplicada com sucesso. Quer conhecer as best practices, porque não quer entrar numa aventura, seguir um maluco qualquer que anda pregando algo que pode colocar em risco seu negócio ou seu projeto.

Uma organização hierárquica copia a outra. É por isso que todas as organizações do mesmo setor ou ramo de negócio são tão parecidas. Não somente seus projetos, produtos e serviços são similares, mas também seus processos de produção, seus modelos de gestão e seus sistemas de governança. Se você chega lá falando uma coisa diferente, sua proposta é de pronto considerada out of topic. E há uma associação, tácita e involuntária na maior parte dos casos (e em alguns casos voluntária: quando existe corrupção), entre compradores e vendedores de tecnologias e metodologias.

Por que? Ora, porque organizações hierárquicas competem entre si (e quando colaboram é para competir com outras organizações hierárquicas). A competição nivela e, mais do que isso, torna os competidores semelhantes. Em qualquer disputa você, mais cedo ou mais tarde, adquire as características do seu adversário. É aquela história: para lutar com o urso você adquire garras de urso. Então o comprador quer comprar o que seus concorrentes compram para não ficar para trás. Mas, ao fazer isso, perde completamente a originalidade e reduz sua capacidade de inovar. E, ainda que não desconfie disso, perde também capacidade de sobreviver (ou reduz suas chances de alcançar sustentabilidade).

Bem, mas aí você chega lá falando da transição do padrão de organização e o seu interlocutor quer ver suas credenciais, seu portfólio, seus cases. E você não tem nada disso para apresentar. Tem apenas as suas idéias... Idéias de que uma organização em rede é mais produtiva, mais inovadora e mais sustentável do que uma organização hierárquica.

Mas suas idéias não valem muito. E, sob certo aspecto, os que olham para você com desconfiança, têm uma certa razão. Porque não é o seu conhecimento que vai conseguir transformar aquela organização hierarquica em uma organização em rede e sim a maneira como as pessoas vão passar a se relacionar dentro da organização. Seu papel - ao contrário do que muitos acreditam - não é fazer a cabeça dos decisores da organização. Em geral eles são pessoas inteligentes o suficiente para entender suas idéias. Mas isso não adianta porque a organização hierárquica, a despeito do que acreditam seus dirigentes, continuará funcionando na dinâmica do comando-e-controle.

Seu papel - se você é um consultor estratégico voltado à inovação e à sustentabilidade - é desencadear uma mudança nos padrões de convivência entre as pessoas da organização. Mas não são as idéias que mudam os comportamentos. São novos comportamentos que podem gerar novos comportamentos. Ninguém muda se não muda o seu viver. Nenhuma organização muda se não muda o seu conviver. Os chamados modelos mentais são sociais. As mentes não são cérebros individualmente parasitados por idéias e sim nuvens de computação da rede social onde rodam determinados programas. Esses velhos programas não param de rodar enquanto os graus de distribuição e de conectividade dessa rede social não muda.

E enquanto você, que quer ser um agente da mudança, não muda o seu viver e o seu conviver, também não pode desencadear qualquer mudança. Se, por exemplo, você vier com esse papo de rede mas trabalhar a partir de uma organização hierárquica, não terá condições de introduzir mudanças. Seu padrão de relacionamento (da sua organização) com a organização que você quer transformar será conservador e não inovador.

Não se trata de coerência. É bom não misturar os canais. Não estamos aqui no terreno do discurso ético. Trata-se da capacidade de introduzir estímulos que podem se replicar em um sistema alterando o comportamento dos agentes do sistema.

Isso exige um outro padrão de consultoria que não aquele do técnico que vai lá vender o seu conhecimento para quem quiser pagar o preço. Só é possível realizar essa consultoria se você for parte do processo, como um dos nodos da rede dos stakeholders da organização. Não é uma aplicação tecnológica ou metodológica que possa ser feita por um agente desinteressado, neutro, imparcial. Você também é transformado na interação. Se não for, não haverá mudança alguma. Os caras vão fazer de conta que acreditam no seu discurso, vão experimentar suas tecnologias e metodologias e, no final, você vai sair mais ou menos como entrou e a organização vai ficar mais ou menos como você a pegou. Vai passar a ter um novo discurso - materializado formalmente em novas declarações sobre visão, missão, valores - mas o conviver que expressa os seus fluxos cotidianos permanecerá (quase) inalterado.

Hierarquia (ordem top down, disciplina, obediência, monoliderança), desconfiança e inimizade, competição, comando-e-controle são características de programas verticalizadores que rodam na rede social da organização. Não são os indivíduos - ou as idéias que estão dentro das cabeças deles - os responsáveis pela reprodução dessas disposições e sim a configuração e a dinâmica dos arranjos em que foram colocados para viver e conviver.

Esses programas verticalizadores (ou softwares centralizadores) já estão rodando há tanto tempo que modificaram o hardware. Não é possível desinstalá-los a partir do discurso ou fazendo a cabeça das pessoas. É necessário mudar o hardware.

Como? Ah! Basta aplicar a "fórmula" que - não é demais repetir - nós já descobrimos. Basta alterar a topologia e a conectividade da rede social composta pelos stakeholders da organização. Se fizermos isso, vão emergir conexões em rede (ordem bottom up, liberdade, autonomia, multiliderança), confiança e amizade, colaboração e auto-regulação como características de programas horizontalizadores (ou softwares distribuidores) que poderão (então) rodar nos novos arranjos em que as pessoas vão passar a viver e conviver.

Não é necessário mudar os indivíduos. É necessário mudar o padrão de relacionamento entre eles (quer dizer, mudar as pessoas). Mas por onde começar para obter tal resultado?

Articulando uma rede distribuída dentro da organização (uma espécie de embrião da rede na qual a organização vai se tornar). Essas pessoas conectadas em rede terão a liberdade de propor mudanças e construir "espelhos" (em rede) dos mecanismos e processos de governança, gestão e produção que estão organizados hierarquicamente. Por exemplo, vão reconfigurar os departamentos, seções ou áreas administrativas da organização, superpondo às caixinhas do velho organograma novos clusters onde as pessoas vão se aglomerar por afinidade (segundo a máxima: "a melhor pessoa para realizar um trabalho é aquela que deseja fazê-lo"). Vão criar redundâncias mesmo, em todos os lugares em que isso for possível. Na verdade, vão criar uma outra (nova) organização dentro da velha.

Mas isso não vai dar uma confusão danada? É claro que vai. Criar uma espécie de Zona Autônoma Temporária dentro da organização, não é uma coisa trivial. Há o risco de bagunçar os atuais processos que, bem ou mal, estão permitindo que a organização sobreviva e muitas vezes se destaque na competição com suas congêneres. Por outro lado, o que se pode ganhar com isso, caso a transição consiga se realizar, é muito mais do que se pode ganhar com qualquer suposta inovação - em geral cosmética - lançada pelas consultorias estratégicas organizacionais da moda, cujo principal resultado é fazer você ficar igualzinho a seus concorrentes. Os indicadores de produtividade, inovação e, sobretudo, de sustentabilidade que uma organização em rede pode alcançar não são comparáveis aqueles que podem ser atingidos por uma organização hierárquica. Não há comparação porque o que muda aqui é a própria natureza da organização.

A organização em rede deixará de ser uma unidade administrativo-produtiva isolada e passará a ser uma coligação móvel de stakeholders. Isso significa que ela não contará apenas com os capitais econômicos e extra-econômicos, sempre limitados, que seus investidores ou constituidores são capazes de aportar. Para dar um exemplo, em termos de capital humano, ela não terá à sua disposição apenas algumas dezenas ou centenas (ou, em alguns casos, poucos milhares) de cérebros que contratou e é capaz de pagar e sim dezenas e centenas de milhares. Assim, não terá as dificuldades inerentes - e os custos correspondentes - do aprisionamento de corpos (que sustentam os cérebros alugados) que foi capaz de realizar e funcionará, em grande parte, lançando mão do peer production e do crowdsourcing.

A organização em rede importará a custo zero (ou por baixo preço) capital social (que é um recurso caríssimo) do meio onde está situada. Se as populações locais começarem a fazer parte da rede de stakeholders da organização, elas também farão parte da comunidade de negócios ou de projeto em que ela se transformará. Isso reduzirá drasticamente os famosos custos de transação, além de trazer outras vantagens inimagináveis atualmente.

Mas este já é assunto para um próximo post.

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Comentário de Catherine Henry em 8 julho 2009 às 20:00
Caro Augusto,
Não costumo comparar seres humanos com animais. Atenho-me ao ser humano como ele é na convivência. Por exemplo, quando falo de um certo traço de personalidade como o de ser lider, vejo nos meus filhos, os que são lideres desde pequenos bbs. Aqui por exemplo nesta rede, vc é o lider; por vários motivos o vemos assim, a começar pelo fato de que a iniciativa foi sua e que vc é detentor de um conhecimento que não temos nesta escala. Isso o torna digno de ser "seguido", mesmo que seja para contradizê-lo.
Como ser humano vivo em rede e como profissional tb. Nunca me acostumei a ser comandada nem à rotina de uma organização formal e portanto sempre coordenei projetos mais pessoais com parceiros que formam minha rede. Hoje estou baseando as aulas de internet que dou presencialmente numa rede NING (www.comunidade-brasil.org) que usamos para "criar" cultura de rede (cooperação, compartilhamento...). para exercitar ferramentas de publicação (slides, videos, ...) e para sedimentar conceitos que vimos em aula. É uma ferramenta maravilhosa quando aliada ao presencial.
Hoje em dia já vemos grandes organizações (bancos por exemplo) reunindo toda a diretoria numa sala só, em volta de uma só grande mesa...quem sabe não esteja ai um pequeno embrião de uma mudança de paradigma...não sei...continuo com a opinião de que o ser humano não escapa de programas mentais somente por estar em novos ambientes de relacionamento. Diria que não adianta colocar uma roupa limpa e nova sobre um corpo sujo, ou passar perfume como faziam meus antepassados franceses, rsrsrs.
A Rede é a socioterapia mas ela sozinha não é suficiente. Precisa haver aplicação na vida real. Para isso, a gente tem que empreender primeiro uma revolução pessoal.
Isso de nenhuma forma invalida aos meus olhos qualquer experiência de rede como as nossas...estimula a aprofundar-se em si mesmo, e descobrir novos caminhos...
Comentário de Augusto de Franco em 8 julho 2009 às 6:25
Creio que agora podemos extrair deste debate mais alguns subsídios para o trabalho do grupo Transição Organizacional.
Comentário de Julio Carvalho em 7 julho 2009 às 12:57
Eu faço rede, conheço muitas pessoas que vivem em rede tbm, na maioria pessoas que estão a margem, ... pessoas comuns,que não fazem parte de nenhuma instituição, religião, programa assistencial, empresa etc, ... ou como os USA gostam de falar, algum TEAM, urgh ! ... no máximo um time de futebol, porque o Brasil não é muito dado a hierarquias, aqui até a lei é 'frouxa', e nossos exércitos desfilam com fardas coloridas e mulheres nuas em apoteose, ... Alias, hoje não consigo mais conceber a possibilidade de estar vivo se não fosse em rede, imagine se o oxigênio fosse distribuindo hierarquicamente como seria? O que eu quero dizer com isso é que, desdo big bag , as coisas só aconteceram porque estão em relação umas com as outras, não há nada fora da relação, e de toda as estruturas do universo, o ser humano é o único que vive baseado na ilusão de que está separado de todo o resto, ou só pode se relacionar através de 1 único padrão.
Bom não vou querer contar uma historinha aqui, muito menos afirmar algo, só sou um cara que percebe que na sociedade ocidental, a milênios existe a cultura de um deus único, o SOL, e montou-se uma estrutura hierárquica baseada nisso, ..filho dos deuses, imperadores, reis , ditadores, generais, pontífices, ovelhas que não sabem viver sem seus pastores, presidentes, estados, o super-homem nazista, o homem de ferro URSS, o superman USA , (nem o Clark Kent sobreviveu a informação distribuída em rede), pai de família, juiz, astros pop, esportistas pop, celebridades... ,e todos que se aproveitam do modelo de hierarquia para fazer todos os outros trabalharem pra eles,... e ainda hoje procuramos 1 Sol a adorar, 1 sistema totalitário a seguir ,ou somos obrigados à fazê-lo.
Mas agora sabemos que o universo não tem um centro, existe o espaço, e nele uma diversidade praticamente infinita de Sois, e que é justamente essa diversidade que compõe o universo, e não um único sol, ou uma única galáxia, e é nesse ponto que gostaria de chegar;... acredito que a riqueza da vida está na diversidade, e não só no mais bonito ou mais forte ou no perfil padrão, é a diversidade que corrobora significativamente e dá credito , e colorido, a forma de organização em rede.
Não é possível a existência de grande diversidade , e com isso a ampliação dos horizontes da vida, sem uma rede densamente distribuída, em qualquer dimensão que se olhe. Então pasmem Srºs e Srªs , nos estamos no país de maior diversidade biológica e cultural do mundo! E arrisco dizer que estamos no País de melhor relacionamento do mundo,( e olhe q eu sou curitibano hein gente), faz parte da nossa natureza megabiodiversa. Olhem a sua volta, o Brasil é rede por natureza, porque o povo mesmo , sempre seguiu sua natureza, não precisamos fomentar guerras para garantir nosso estilo de vida, não somos o individuo, somos o diverso.
Infelizmente, as pessoas que estão muito acostumadas a viver hierarquicamente, receiam que a diversidade possa trazer o caos, elas não conseguem conceber a ordem sem ela ser ditada por alguma " autoridade ", elas não acreditam que o comando e o controle pode estar na mão de todos e de cada um, e não só de uma única 'lei', e dos representantes dessa 'lei'. Isso é; elas não acreditam nelas próprias, e ter, o comando e o controle da própria cabeça ainda é uma idéia muito avançada. Para concluir , eu digo, não temam Srªs e Srºs, o caos sempre gerou uma ordem infinitamente superior a qualquer hierarquia humana. O Brasil parece caótico, mas é justamente essa maleabilidade nas relações, que será a referencia para o mundo sair da crise , e se harmonizar com seu meio ambiente e com o Universo. Brasil = Diversidade = Rede.
Comentário de Vera Maria dos Santos Moreira em 7 julho 2009 às 8:05
Ás vezes dentro de uma estrutura hierárquica fortemente centralizada há locais onde as pessoas trabalham em rede. Num grande hospital onde trabalhei o Centro de tratamento de queimados era uma ilha diferenciada. Lá as pessoas trabalhavam em equipes multidisciplinares, havia reuniões semanais com todos os membros da equipe e os familiares dos pacientes. É um local de muita dor, com pacientes graves, grandes queimados, inclusive crianças, mas o clima entre as pessoas é tão bom que ninguém quer sair de lá, as pessoas tem orgulho de seu trabalho, há uma produção científica relevante e uma cooperação incrível entre todos.
Há exemplos de municípios onde um trabalho em rede foi implantado e o resultado foi espantoso. Em Sorocaba, que tem 600000 habitantes a mortalidade infantil diminuiu em 50%.
Recebi dados publicados numa revista sobre municípios brasileiros. O Brasil tem 5564 municípios, alguns com indicadores sociais de países ricos. Os índices de criminalidade de Maringá, no noroeste paranaense, são comparáveis aos de Amsterdã, a capital da Holanda. Sua taxa de homicídios é de 7,9 para cada 100 000 pessoas. No resto do país, alcança 35,5. A cidade venceu o crime ao criar um canal permanente de comunicação entre a polícia e a sociedade, que, hoje, paga diretamente algumas das despesas da corporação. Acho que devíamos ver o que está dando certo perto de nós, inclusive isso que o Augusto falou sobre as redes de que participamos, inclusive esta nossa. Eu sou uma iniciante na escola de redes, mas já participei de redes distribuídas, inclusive uma internacional que tinha milhares de participantes, mas só uma minoria escrevia.
Abraço.
Comentário de Augusto de Franco em 7 julho 2009 às 7:29
Penso como você, Luciana. É uma aposta. Minimalista, sob certo ponto de vista (como diz o Algarra, nas redes, menos e mais). É tão complexo o tema que a solução só pode ser simples. E você sacou: nós não conhecemos o final.

O simples é: se o propósito é a rede, vamos então "fazer redes" (já sei, que não se pode "fazê-las" stricto sensu etc., mas me refiro a 'conformar o ambiente que enseja a sua articulação e fornecer as metodologias e tecnologias interativas que viabilizem o netweaving').

Quando é que a solução se torna complexa? Quando queremos "fazer redes" (atenção pessoal: no sentido acima!) e fazemos tudo menos "fazer redes" (idem).

Para ver se é assim ou não é, vamos fazer - nós que estamos interagindo neste debate - um pequeno balanço:

1) De quantas redes participamos? Não vale twittar, estar registrado em um site de relacionamento (tipo Facebook, MySpace ou Orkut), em uma lista de discussão (como o Google G) ou em uma plataforma interativa (tipo Ning, Elgg ou Noosfero) A menos que tais ferramentas estejam sendo usadas para articular e animar redes de pessoas. Não vale contar as reuniões de ONGs e outras organizações hierárquicas das quais participamos frequentemente (a menos que essa seja uma, vamos dizer assim, "estratégia" para animar uma rede de pessoas - conquanto a tal da reunião não seja um bom mecanismo de netweaving).

2) [Para os que são consultores empresariais ou assemelhados na sociedade civil] Nas consultorias que temos prestado, quais os processos de rede que temos induzido, facilitado ou estimulado?

3) [Ainda para os que são consultores empresariais ou assemelhados na sociedade civil] Nossa entidade ou empresa que presta consultoria tem quantas pessoas? Se não somos só nós, sozinhos (e a organização é apenas uma formalidade legal para poder receber doações, financiamentos ou pagamentos), como essas pessoas estão organizadas: hierarquicamente (com diretoria, funcionários, fornecedores etc.) ou em rede?

4) Como nos relacionamos com as pessoas próximas a nós: participamos de redes no nosso local de moradia, estudo, trabalho, lazer ou em torno de nossos temas de interesse?

É claro que se deve evitar uma confusão aqui ao usar a palavra 'rede'. Quando falamos de rede estamos nos referindo a um padrão de organização distribuído e não ao termo matemático 'rede', que compreende, de um ponto de vista topológico, todos os padrões de organização, do mais centralizado, passando pelos descentralizados, até o mais distribuído. Por isso sugeri a seguinte convenção: rede distribuída é aquela que tem graus de distribuição maiores do que de centralização.

Essa confusão é, muitas vezes, apresentada como desculpa para não "fazer redes" (naquele sentido assinalado acima). Então a pessoa diz mais ou menos assim: não é possível ter redes realmente distribuídas (a não ser em pequenos grupos). Logo, nem eu, nem ninguém, participa de fato de redes (distribuídas, entendendo-se por isso a "utopia" de uma rede numerosa de pessoas com 100% de distribuição).

Por outro lado, isso também não significa que, se nas redes realmente existentes, nunca atinjamos (a não ser em pequenos grupos) 100% de distribuição, então a hierarquia é inevitável. Há uma armadilha aqui. É uma armadilha do pensamento. Que é frequentemente aproveitada como um pretexto ideológico para não "fazer redes" (naquele sentido acima).

Ora... no fundo, no fundo, nós sabemos que isso tudo é um artifício. Ao propor, por exemplo, a Escola-de-Redes, poderíamos ter feito uma assembléia e escolher uma diretoria. Poderíamos ter desenhado departamentos. Poderíamos ter estabelecido critérios de recrutamento e procedimentos centralizados de aceitação de uma adesão. Poderíamos ter escrito um estatuto normatizando os processos de decisão (tipo a votação e o colégio dos votantes, o rodízio na direção, a construção administrada de consenso, o sorteio para ver quem "representa" a "entidade" ou fala em nome dela etc.) e a destinação do patrimônio (sim, porque haveria de ter algum patrimônio, mesmo que simbólico) e as demais regras de funcionamento (para aquisição de bens e serviços, contratação de funcionários - pois como podemos funcionar sem ao menos uma secretária, hehe? - e para a remuneração da diretoria (o board) e da equipe (o staff). Em suma, poderíamos ter nos organizado - como é de praxe - segundo um padrão de organização centralizado ou multicentralizado. Mas não fizemos nada disso. Pois bem: mesmo assim, mesmo tendo aberto mão de todas essas coisas, isso não significa que sejamos uma rede distribuída (com 100% de distribuição). Mas significa que o sentido (a direção do movimento) é o de uma rede distribuída (com graus de distribuição maiores do que de centralização). Vamos chegar lá? Não sabemos. Sabemos, porém, que se tivéssemos mantido todas aquelas centralizações e filtros que caracterizam uma organização hierárquica - alegando que "tem que haver uma transição" ou "que uma organização em rede distribuída é uma utopia" - aí sim é que teríamos mais dificuldades para aumentar nosso grau de distribuição. É simples: se quero chegar a um lugar, não posso caminhar na direção contrária. Se quero extinguir uma regra ou instância, não posso começar por obedecê-la ou mantê-la.

Então é este, a meu ver, o coração do debate. Falar e escrever sobre redes, estudar redes, fazer investigações sobre redes é muito importante (este é, aliás, o objetivo desta Escola-de-Redes). Mas nosso entendimento profundo não se dará se não vivenciarmos redes. E, mais importante ainda para os propósitos da transição organizacional, não conseguiremos induzir a formação de redes a partir de organizações hierárquicas e dinâmicas que são próprias de estruturas centralizadas (ou mais centralizadas do que distribuídas). Porque somente redes podem gerar redes.
Comentário de Luciana Annunziata em 7 julho 2009 às 0:04
Entendi a simplicidade do raciocínio do Aquino. Pode funcionar, ou não... Depende de quanto temos internalizado o padrão de hierarquia e controle, de pisar na cabeça dos outros caranguejos.
Só é possível perceber isso embrenhando-se ha história do grupo e construindo com eles uma relação onde uma certa rede possa aparecer. (Eu estou exatamente no meio disso!)
A rede é um convite. Um projeto numa organização não é um convite (se você foi chamado, melhor ir, principalmente se a sua empresa está numa fase de mudança...). A rede é voluntária, nem todos estão preparados para sua ética ou estão conscientes do que ela de fato implica: incerteza, entrega para relações, oferta de si mesmo sem saber onde tudo vai dar. Não é simples, não aumenta salário nem garante promoção.
Lembrei-me das experiências com psicodrama, do Psicodrama da Cidade que fizemos com a Marisa Greeb aqui em São Paulo. Quanto as pessoas não estão conscientes das dinâmicas e modos "controle", hierarquia, status e tantos outros que as habitam todos os dias.
Talvez dentro de uma zona autônoma possa surgir uma rede, talvez ela tenha mais chance se nós, como facilitadores, netweavers ou apenas pessoas profundamente presentes consigamos evidenciar a dinâmica da rede, grifando o que ela significa. Com o convite mais claro, fica quem quiser, vive isso quem quiser e acreditar na possibilidade de um viver mais sustentável e quiser aguentar o trabalho e a alegria que dá estar aqui.
Assim dito, parece uma espécie de seita do bem, mas não é disso que estou falando. Acredito, sim, que muitas pessoas não estão preparadas para uma experiência em rede porque não a entendem profundamente e não estão disponíveis . Nesse caso, melhor mesmo que não façam parte, pelo menos não no momento de sensibilização do qual estamos falando, pois assim elas serão candidatas a um próximo encontro com a idéia de rede e não "sabotadoras" (mesmo que involuntárias).
No teste final, se vamos conseguir algo ou não, se será o pessimismo ou o otismo, não sabemos. Nós tampouco conhecemos o final do nosso trabalho. Ele será uma resultante da rede realmente formada, assim como nós mesmos, depois dela.
Comentário de Augusto de Franco em 6 julho 2009 às 18:42
Sim, Cathy, são os seres humanos os responsáveis, mas como seres humano-sociais que somos, nosso viver depende do viver de outros seres humanos. Isso é mais do que "o ambiente": são os universos onde nos movemos, interagimos e somos. Os programas verticalizadores estão dentro da nossa mente, é verdade, mas a mente não é o cérebro do indivíduo e sim uma nuvem que o envolve e conecta com os cérebros de outros indivíduos. De sorte que nossos modelos mentais são, afinal, sociais mesmo. Esse é o motivo pelo qual os treinamentos e as chamadas lavagens cerebrais não mudam realmente os comportamentos. Quanto o cara volta do treinamento, a mente carrega "nele" novamente o programa que ele quis deletar ou substituir por outro. E isso vai acontecer enquanto as circularidades inerentes às redes de conversações das quais ele participa continuarem as mesmas. Uma psicoterapia não basta aqui. Seria necessário uma socioterapia.

Pois bem. O que disse em meu post é que essa "socioterapia" é a rede (mais distribuída do que centralizada, por isso o índice de distribuição conectividade deve ser > 50% e essa medida não tem a ver propriamente com eficácia). Penso que, se em vez de ficarmos avaliando as possibilidades, nos dispuséssemos a experimentar redes distribuídas, avançaríamos bastante. E a grande questão é: por que não fazemos isso? Por que quando nos metemos a organizar redes, em geral conectamos organizações hierárquicas (grande parte das chamadas redes são coligações, frentes ou alianças de burocracias, pequenas ou grandes, de entidades com diretoria, ou não são?). Por que quanto temos a idéia de fazer alguma coisa, chamamos logo as pessoas nas quais confiamos e estabelecemos uma fronteira entre os "de dentro" e os "de fora"? E, não raro, competimos com os "de fora" (como compete grande parte, já não direi, das empresas, mas, inclusive, das organizações do chamado terceiro setor - às vezes com uma ferocidade maior do que aquela que vemos no mercado - por financiamentos). Queremos demarcar o nosso quadrado. E queremos reinar nele.

Por que? Porque pensamos com os modelos mentais-sociais que herdamos. São programas que estão rodando na rede (e nossa cabeça esta dentro dela), são memes que se replicam "automaticamente", como esse de que "uns são líderes, outros liderados", ou de que nada pode funcionar sem hierarquia, ou de que por natureza somos seres competitivos. Não tiramos essas "evidências" da natureza (e Margulis, Maturana, Strohman e tantos outros já nos mostraram isso desconstituindo as bases pretensamente científicas dessas crenças). Na verdade projetamos essas coisas na natureza (e aí achamos que existe um chefe no formigueiro ou um líder nos pássaros que voam em bando numa formação delta - Boyle, aliás, postou aqui um interessante artigo sobre isso). Pelo contrário, em todos os sistemas vivos temos multiliderança, liderança temporária, ajustamentos recíprocos de comportamentos.

Quanto às perspectivas, não sou tão pessimista. As redes já trouxeram muitas mudanças ao longo da história. O surgimento da democracia na Atenas da época de Péricles foi o resultado de uma ação em rede. A rede estava por trás de tudo o que aconteceu na história no sentido de desconstituição de autocracia e de hierarquia. E a rede é a responsável por esse nosso bom debate.
Comentário de Luiz Algarra em 6 julho 2009 às 18:16
Amigos, as pessoas tem seu tempo e espaços alocados nas empresas. A hierarquia corporativa controla as prioridades de cada indivíduo a partir de uma lógica de preservação do conjunto. Cada cadeira, mesa, sala e andar tem uma finalidade e um respectivo responsável. O tmepo é visto como um recurso valioso já que as pessoas são renumeradas pelo número de horas que dedicam a estarem aplicados a alguma tarefa. Quem tem amigos trabalhando em corporações conhece como é o dia-a-dia destas pessoas.

Então pergunto: quando, onde e como as pessoas farão amizade dentro das instituições?

Os refeitórios são separados. A linha de produção é separada da administração. A gerência não encontra com a diretoria que nunca tem contato com o chão de fábrica. A turma de atendimento de loja não conhece pessoalmente o pessoal do suporte técnico que opera no call center. As regionais nunca se encontram. Os departamentos só se falam através de suas lideranças que se encontram apenas em reuniões deliberativas. E assim por diante.

Nos intervalos de tempo e espaço deste emaranhado de processos, procedimentos, regras, normas e padronizações, as pessoas conseguem se ver, se falar e se encantar umas com as outras? Claro que sim, mas de modo bastante restrito. Até os poucos espaço de aprendizagem nas empresas é limitado. A velha fórmula do adestramento e capacitação ainda impera, em salas de aulas repletas de gente entendiada pelos intermináveis powerpoints!

Também não acredito que alguém possa fazer redes, elas apenas ocorrem de modo humano e espontâneo. Mas se as pessoas vivem em espaços onde a espontaniedade não é vista como uma valor, pelo contrário, é percebida como dispersão, falta de foco e perda de tempo, como as redes poderão emergir?

Então digo que posso sim fazer redes. Do mesmo modo que um médico naturalista amigos meu cura. Ele simplesmente orienta que o paciente abandone uma série de práticas que o estão levando ao stress emocional e à sobrecarga alimentar. Quando o paciente segue seus conselhos, em pouco tempo o corpo recupera um bem-estar típico de quem está realmente vivo!

Posso sim fazer redes. Concordo com o Augusto, já descobrimos a fórmula. Ela é como uma espécie de detergente que limpa, purifica e desintoxica. Não é algum itpo de elixir mágico, ou penicilina especial criada por algum pesquisador nums laboratório. Essa fórmula não tem autor. Ela é constitutiva da espécie humana. Somos seres cuidadores e quem não é cuidado morre!

Para fazer redes, menos é mais! Mas para conseguirmos que os lideres de negócio aceitem e invistam em MENOS, é preciso que as pessoas que nos contratam estejam minimamente conscientes do cenário em que vivemos hoje.

Quem tem algum poder de mando em alguma empresa ou instituição, e já percebe que a seu redor a sociedade vive um momento de transição que exige uma visão sistêmica-sistêmica que inclua antroposfera e biosfera, bem, estas pessoas estão desejosas de algo que talvez só as redes não-centralizadas possam trazer.

Estas pessoas existem. E eu sigo conversando em redes para tentar encontrá-las.
Comentário de Catherine Henry em 6 julho 2009 às 17:48
Augusto: "Hierarquia (ordem top down, disciplina, obediência, monoliderança), desconfiança e inimizade, competição, comando-e-controle são características de programas verticalizadores que rodam na rede social da organização. Não são os indivíduos - ou as idéias que estão dentro das cabeças deles - os responsáveis pela reprodução dessas disposições e sim a configuração e a dinâmica dos arranjos em que foram colocados para viver e conviver."

São também os seres humanos os responsáveis pela reprodução de um determinado programa sim. Não é só o ambiente em que se relaciona que o "força" a agir e pensar e sentir daquele jeito x. Se assim não fosse, para que serviriam as psicoterapias que nos dão a clareza necessária para deletar ou monitorar o tal programa. Esse programa que nós adquirimos já dentro da barriga da mãe (um feto ouve e ve) nos molda de uma forma determinada. E essa forma determinada de ser (humano) é que está errada. Nós criamos nossos filhos errado. Nós fomos criados errado.
Além disso há as diferenças de personalidade das pessoas. Uns são lideres, outros são liderados. Isso de ter comando me parece uma lei da natureza. Não sei...só sei que enquanto o ser humano, ele próprio, não fizer sua revolução pessoal, a rede só será uma ferramenta de comunicação mas não de revolução.
A Rede é o ambiente de exercício de uma nova humanidade. Mas enquanto ela não trouxer para o mundo real mudanças significativas na vida de todos e de cada um, será uma "abstração", um sonho.
Para nós que já funcionamos em rede em nossa vida real, fica parecendo que isso que sonhamos é possível agora. Não é. Cada vez mais estamos vivendo a concentração de poder nas mãos de tão poucos. Estamos rumo a um governo mundial, com bancos de dados de todos nós. Somos monitorados... e não creio que tenhamos o tempo necessário para evitar essa nova ordem mundial. Sou muito pessimista quanto ao que podemos fazer aqui pela rede para evitar que esses senhores cheguem a contento.
Comentário de Augusto de Franco em 6 julho 2009 às 17:35
"Matou", Pedro Aquino: é isso aí. E o debate está ficando muito bom.

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