Escola de Redes


Sim, existe uma aprendizagem tipicamente humana conforme a uma inteligência tipicamente humana (sintonizada com o emocionar humano). 

O que poderia caracterizar uma inteligência tipicamente humana? Não é, por certo, o fato de ela ser considerada superior a de outros animais ou de outros seres vivos (o que ela não é realmente se olharmos as longas linhagens filogenéticas de seres que produzem a chamada inteligência coletiva na sua interação, como os cupins construindo um cupinzeiro ou como as bactérias que colonizam nossos corpos como planetas). 

Uma inteligência tipicamente humana não é a inteligência prodigiosa das máquinas que ainda serão inventadas, dos futuros seres cibernéticos. Ademais - e aqui parece estar uma novidade - a inteligência tipicamente humana não é também a inteligência extraordinária de indivíduos extremamente bem dotados de capacidades cognitivas, de prodigiosa memória e de formidável raciocínio lógico. Não. A inteligência tipicamente humana é aquela inteligência empática, que no simples ato de se manifestar ou se exercer, já se acopla estruturalmente à inteligência de outros humanos. É como se fosse o espelhamento, no que cada pessoa tem de único, da inteligência dos emaranhados sociais em que existimos como seres humanos. Não é uma inteligência individual que se combina com outras inteligências individuais. É a inteligência que só emerge em cada um de nós, humanos, porque no próprio processo de sua gênese já incorpora a interação sinérgica, simpática e simbiótica, com outros humanos. E, portanto, é uma inteligência colaborativa (e isso implica que a inteligência competitiva - tão buscada por organizações hierárquicas, no afã de derrotarem seus concorrentes, vencerem seus adversários ou destruírem seus inimigos - não é uma inteligência tipicamente humana). 

Essa afirmação é surpreendente também porque desconstitui as teorias cognitivistas da aprendizagem voltadas a maximizar a inteligência. Ela significa que não é a quantidade de inteligência (passível de ser medida pelos indicadores de inteligência comumente usados nos testes de inteligência) que caracteriza a inteligência tipicamente humana e, ao mesmo tempo, que nossa inteligência não é superior a de outros seres vivos (inclusive de outros animais humanos) e, ainda, que podemos ter inteligências extraordinárias de indivíduos humanos que não são tipicamente humanas. 

A inteligência tipicamente humana é uma espécie de sacramento, uma sombra do que ainda virá (e que será o que será, quando for e toda vez que vir). É uma inteligência humanizante. É a inteligência de um simbionte social se prefigurando.

Quem quiser conversar sobre isso, deixe um comentário.
 

Exibições: 344

Respostas a este tópico

Na minha percepção, a inteligencia propriamente humana está justamente no ato de "ler entre as linhas" , "inter-perceber"  algo em movimento entre o eu ( consciente de si) e o outro ou a coisa. É nesse espaço ou nexo, sentido " entre" é a inteligibilidade humana. Não é algo dentro ou fora e sim entre. 

Essa identificação do movimento entre o eu e o outro ou a coisa caracteriza o movimento do desejo humano de saber. Saber de si em relação ao outro e do outro em relação a si ( " O que ele quer agindo assim?....). 

Olá Augusto,

Buscar entender a inteligência e aprendizagem humanas é um desafio interessante, pois precisamos pular fora da caixinha, trocar as lentes paradigmáticas, olhar para o que aprendemos que existe, e que não existe, ver o que o que aprendemos que não existe, pode ser que exista.

Ser "bobo" ,  é um ato de ousadia, de coragem. é o pecado original da nossa sociedade.

Acho que a maior dificuldade da aprendizagem atual é justamente a imensa capacidade de aprendizagem humana, aprendemos algumas "verdades", que eram, mas já não são, e não conseguimos desaprender. 

A grande dificuldade da aprendizagem é justamente não sabermos como a aprendizagem ocorre. quem aprendeu isso, nos manipula, deixa e rola, ou seja, transforma outros humanos em robos.

A base de tais, são as técnicas de sedução, a fascinação, o encantamento, o deslumbramento.

Mas há luz, pois não somos só fisiologia, há algo a mais nos humanos do que carne: muito interessante a imagem do grupo. 

no link há uma palestra do Sheldrake

https://www.youtube.com/watch?v=97p_Af0uMjM

Tanise

De fato, a questão "o que é ser inteligente?" mudou! Ou não?

Diante do que ocorre na interrelação dos homens para aprender a sobreviver e influenciar na atualidade da tecnologia da comunicação em rede, informatizada, mundial, a inteligência passou a ser objeto de interesse dos estudos como algo separado do humano, voltado para a máquina. A inteligência passou a ser objeto de estudos de analistas das ciências não-cognitivistas, não-humanas.

Ora, se a inteligência humana agora está sendo tratada como coletiva, é importante ressaltar que essa não é uma questão nova. Jack Goody, antropólogo, dos anos 1800, estudou o "pensamento selvagem", muito antes de Pierre Lévy usar essa expressão com o advento da Internet. Para ele, o pensamento era coletivizado pela transmissão ORAL e os membros das tribos ágrafas eram coletivos inteligentes.  

Esse conceito, há alguns anos, passou de coletivo para "colaborativo", "interativo", e outros adjetivos que vem se agregando junto a conceitos que se atribuem mais claros para explicar o que pode ser explicado por outras vias.

Para alguns, como David Ausubel, também dos anos 1800, a aprendizagem significativa nada mais é que a consolidação individual da aprendizagem que necessita ser colocada na prática social. Para isso, precisa fazer SENTIDO para o que aprende. Para aquele a quem "realmente" interessa, ou seja, para o protagonista do ato da sobrevivência e do uso social: o indivíduo que aprende, se ele aprende com o outro, se aprende sozinho, mas em relação ao outro, se colabora para o outro aprender ou se recebe algo do outro para aprender, em todas essas dimensões é UM diante de OUTRO ou de OUTROS. Há trocas, comunicação, uso de signos, símbolos, sinais. Há relações, mesmo que sejam não tão simpáticas, simbióticas ou sinérgicas assim. Muitas vezes, essa aprendizagem passa a ser assimétrica, entrópica e parasitária pela existência de estruturas de PODER. Uns aprendem, beneficiando-se da inteligência de outros para construir e propagar a sua própria inteligência... 

Talvez seja um bom caminho tomarmos o que nos diz Derrick De Kerckove, para quem a tecnologia é a extensão da mente. A tecnologia em rede nos permite amplificar as relações humanas. Permite que amplifiquemos o alcance da comunicação, logo, permite, que amplifiquemos as vias da inteligência. 

Para pensarmos um pouco, segue um dos meus artigos sobre alguns pensadores a respeito da Internet como meio de comunicação. 

MAFRA GONÇALVES, D. . Primeiras Abordagens Teóricas Internacionais sobre a Internet: Reflexos e Tendências na Atualidade da Comunicação Brasileira. Comunicologia (Brasília) , v. 6, p. 229-252, 2013.

https://portalrevistas.ucb.br/index.php/RCEUCB/article/viewFile/533...

RSS

© 2017   Criado por Augusto de Franco.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço