Escola de Redes

LIVRO: Duna (Dune). Frank Herbert (1965)

FILME: Duna (“Dune"), de Alan Smithee e David Linch (1984) [Atenção: ao clicar no link você tem que baixar o filme, não é possível assisti-lo no Dropbox]

HERBERT E O JIHADISMO FREMEN

Um depoimento pessoal (de Augusto de Franco), escrito em julho de 2010 e publicado na Escola-de-Redes:

"Conheci o famoso "Duna" (1965) de Frank Herbert apenas em 1987. De lá para cá, não parei de ler - repetidamente - todos os seis livros da série, que foi interrompida em 1985 com a morte do autor (+1986).

Cada vez que leio Herbert, descubro mais e mais coisas interessantes. Em parte, minha compreensão das redes sociais, devo-a a ele. Sobretudo a uma frase - uma pérola do segundo livro da série, "O messias de Duna" (1969) - que não me canso de citar: "Não reunir é a derradeira ordenação".

Agora, relendo, pela terceira ou quarta vez, "Os filhos de Duna" (1976) - o terceiro da série - me deparo com um diálogo em que Leto (filho de Paul Atreides que se transmutaria no Imperador-Deus de Duna) diz: "Nós seremos um ecossistema em miniatura... Seja qual for o sistema que um animal escolha para sobreviver, deve basear-se num padrão de comunidades interligadas, interdependentes, trabalhando juntas para o objetivo comum que é o sistema". Ora, o que é isso senão uma poderosa antevisão do que agora chamamos de sustentabilidade (de um ponto de vista sistêmico)? E o que é isso senão um entendimento profundo da dinâmica de rede que nos permite afirmar, como fiz em 2008, sem ter consciência dessa passagem (que, por certo, já havia lido) que "tudo que é sustentável tem o padrão de rede"?

Herbert escreveu uma série ecológica. Mas ele sabia - ao contrário dos ambientalistas atuais, que pensam em salvar o planeta fazendo proselitismo e emprenhando as pessoas pelo ouvido - que nada disso depende do que se chama de consciência. Como epígrafe de um dos capítulos de "Os filhos de Duna", ele colocou na boca de Harq al-Ada, cronista do Jihad Butleriano (a guerra ludista contra as máquinas inteligentes):

"O pressuposto de que todo um sistema pode ser levado a funcionar melhor através da abordagem de seus elementos conscientes revela uma perigosa ignorância. Essa tem sido freqüentemente a abordagem ignorante daqueles que chamam a si mesmos de cientistas e tecnólogos".

Aprendi mais política com Frank Herbert do que na minha longa incursão pelos clássicos. No livro Alfabetização Democrática (2007) indiquei a leitura da série Duna como parte de um programa de aprendizagem em democracia. Reproduzo a passagem:

"Existem também algumas obras de ficção que ajudam a compreender a natureza e perceber as manifestações – explícitas ou implícitas – do poder vertical. Pouca gente se dá conta de que é possível aprender mais sobre política democrática lendo atentamente esses livros do que estudando volumosos tratados teóricos sobre política. Para quem está interessado na "arte" da política democrática é importantíssimo ler, por exemplo, a série de livros de Frank Herbert, que se inicia com o clássico "Duna". Um curso prático de política democrática deveria recomendar a leitura dos seis volumes que compõem essa série: Dune (1965), Dune Messiah (1969), Children of Dune (1976), God Emperor of Dune (1981), Heretics of Dune (1984) e Chapterhouse: Dune (1985). Herbert faleceu em 1986, quando estava trabalhando no sétimo volume da série. Seus livros foram publicados no Brasil pela Nova Fronteira, com os respectivos títulos: Duna, O Messias de Duna, Os Filhos de Duna, O Imperador-Deus de Duna, Os Hereges de Duna e As Herdeiras de Duna. Um bom - e além de tudo prazeroso – exercício de formação política seria tentar desvendar Duna, do ponto de vista daquelas manifestações do poder vertical que se contrapõem à prática da democracia - quer dizer, das atitudes míticas diante da história, sacerdotais diante do saber, hierárquicas diante do poder e autocráticas diante da política – realizando explorações nesse maravilhoso universo ficcional de Frank Herbert".

Herbert parecia saber que a chave para a formação da pessoa como ser singular - e não como mais um indivíduo de um rebanho, mera reprodução de um sistema de dominação - está na desobediência. Um ghola (ao contrário de um clone) só poderia ser despertado dessa forma. Mas um diálogo entre um ghola Duncan Idaho e o bashar Miles Teg, em "Os hereges de Duna" (1984) dá uma pista de que a desobediência deve ser aprendida, não pode ser ensinada:

" - E o que vocês esperam que eu faça?

- Você já sabe.

- Não, não sei. Por favor, ensine-me!

- Você fez muitas coisas sem precisar que o ensinassem a fazê-las. Será que lhe ensinamos a desobediência?"

Ao escrever o Desobedeça (2010) talvez tenha sido inconscientemente influenciado por essa passagem de Herbert. E agora, que estou trabalhando no meu novo livro "Fluzz: vida humana e convivência social nos novos mundos altamente conectados do terceiro milênio", ainda estou sob tal influência. Reproduzo um trecho já rascunhado da introdução do novo livro:

"Nos novos mundos altamente conectados do terceiro milênio, vida humana e convivência social se aproximarão a ponto de revelar os “tanques axlotl” onde somos gerados como seres propriamente humanos. Todos compreenderemos a nossa natureza de “gholas sociais”.

Os tanques onde somos formados como pessoas são clusters, regiões da rede social a que estamos mais imediatamente conectados.

Um tipo especial de ghola: não um clone de um indivíduo, mas um “clone” de uma configuração de pessoas. Toda pessoa, já dizia Novalis em 1798, é uma pequena sociedade; quer dizer, pessoa já é rede! Pessoa é um ente cultural que replica uma configuração. É um ghola social".

No universo ficcional de Duna, os tanques axlotl são mulheres tleilaxu que sofreram um coma cerebral químico induzido, a par de outras intervenções genéticas, para servir como usina de gholas. Os Tleilaxu (ou Bene Tleilax) são uma sociedade fechada de religiosos altamente avançados tecnologicamente, em especial em engenharia genética. Meio assustador, por certo. Mas para entender esse universo de Herbert é preciso ler as camadas da sua escritura: literal, alegórica ou metafórica, simbólica ou até, quem sabe, um pouco mais do que isso.

Como qualquer pessoa que consegue realmente libertar a imaginação, Frank Herbert acaba roçando nos padrões ocultos que estão, por assim dizer, por trás das manifestações visíveis. Sobre isso, aliás, já havia escolhido, para epígrafe do livro que ainda não consegui terminar - "A Rede: Explorações no multiverso das conexões ocultas que configuram o que chamamos de social" - uma outra passagem de Herbert, também de "Os filhos de Duna" (1976):

"E naquele instante ele viu o planeta inteiro: cada vila, cada cidade, cada metrópole, os lugares desertos e os lugares plantados. Todas as formas que se chocavam em sua visão traziam relacionamentos específicos de elementos interiores e exteriores. Ele via as estruturas da sociedade imperial refletidas nas estruturas físicas de seus planetas e de suas comunidades. Como um gigantesco desdobramento dentro dele, ele via nessa revelação o que ela devia ser: uma janela para as partes invisíveis da sociedade. Percebendo isso, notou que todo sistema devia possuir tal janela. Mesmo o sistema representado por ele mesmo e o universo. Começou a perscrutar as janelas, como um voyeur cósmico."

Bem, este tributo é apenas uma nota introdutória à aventura, muito prazerosa para mim, de explorar o universo ficcional de Frank Herbert".

[Fim da transcrição] 

E agora, mais de quatro anos depois, Duna volta à cena, desta feita para ser explorado do ponto de vista do surgimento de padrões autocráticos, sobretudo na organização dos fremen: uma alegoria de Herbert para os mujahidin (ou jihadistas). Mujahidin (مجاهدين; também transliterado como mujāhidīn, mujahedin, mujaidim, etc.) é a forma plural de mujahid (مجاهد), que se traduz literalmente do árabe مجاهدين (muǧāhidīn), como "combatente" ou "alguém que se empenha na luta (jihad)", embora o termo seja frequentemente traduzido como "guerreiro santo".

No programa de investigação-aprendizagem sobre reconhecimento de padrões autocráticos o livro Duna constitui material de pesquisa do décimo e último módulo. 

DUNA

O décimo - e último - filme do programa é Duna (Dune), de David Lynch (1984). Em 10.191 d. C., a substância mais cobiçada do universo é a especiaria (melange, especiaria, traduzida ridiculamente na versão dublada por "tempero"), encontrada somente no planeta desértico Arrakis, conhecido como Duna. Depois que seu pai é assassinado pelo cruel Barão Harkonnen, o jovem Paul Atreides descobre que seu destino está ligado à Duna, onde terá início uma batalha monumental que irá redefinir o cosmos.

O filme de Lynch não faz jus ao livro de Frank Herbert (sobretudo por um absurdo ecológico cometido no final, abreviando para minutos um processo que levou séculos - a volta da chuva em Duna - e introduzindo com isso um milagre que destrói a lógica da narrativa). No entanto, contém detalhes interessantes para o reconhecimento de padrões (com destaque para o figurino de Bob Ringwood).

O livro homônimo de Frank Herbert (1965) já foi tratado aqui.

No programa de investigação-aprendizagem sobre reconhecimento de padrões autocráticos esse filme constitui material de pesquisa do décimo - e último - módulo.

Danienlared (num site hoje desativado) fez em 2010 o seguinte resumo da trama (em espanhol):

"La Casa Atreides, recibe del Emperador Paddishah imperial Shaddam IV Corrino, el feudo del planeta Arrakis (llamado tambien Dune) para encargarse de la explotacion de la especia o melange, una sustancia unica en el universo, y de vital importancia. Quien controla la especia, controla el universo.

La familia, comandada por el Duque Leto Atreides, con su concubina Bene Gesserit Dama Jessica, su hijo Paul, y sus fieles servidores, el Mentat Thufir Hawat, el Doctor Suk Wellington Yueh, y los Maestros de armas Gurney Halleck y Duncan Idaho, emprenden el viaje desde Caladan para tomar el control de Arrakis.

Para una Casa menor, como es la Atreides, es un gran honor, pero en realidad es una trampa que preparan los anteriores poseedores del feudo, los Harkonnen y el Emperador Corrino, como venganza por pasadas rencillas con el Duque Leto. El plan Harkonnen incluye la traicion del Dr.Yueh una vez esten instalados en la capital de Arrakis, Arrakeen, e consiste en un ataque de los invencible soldados Sardaukar imperiales, vestidos con uniforme Harkonnen.

Los Atreides huelen la trampa, y tratan de establecer alianzas con los desconocidos y salvajes Fremen, habitantes del desierto profundo, cosa que consiguen en un principio. Pero el ataque se produce y caen los Atreides, que son capturados. El Dr.Yueh implanta en la boca del Duque un diente con un gas venenoso, para que mate al Baron Harkonnen, señor de esa Casa. A cambio, Yueh preparara la huida de su concubina Jessica y su hijo Paul. El Duque falla en su intento, asesinando al Mentat del Baron, Piter DeVries, pero Jessica y Paul si logran, tras utilizar los poderes de la Voz contra los soldados Harkonnen que los transportan al desierto para dejarlos alli y que se los coman los gusanos de arena (especie unica de este planeta), huir, y entrar en contacto con los Fremen. El Naib Fremen, Stilgar, les da cobijo.

Debido a las manipulaciones religiosas de la Missionaria Protectiva de la Bene Gesserit, los Fremen ven a Paul como el Mesías que guiará a su pueblo en la transformación del arido Dune en un ecosistema verde. Su lider, el planetologo imperial Liet-Kynes, muere a manos de los Harkonnen. Jessica acepta convertirse en la Sayyadina de los Fremen, y supera la Agonia de la Especia. Al estar embarazada en ese momento, su futura hija, Alia, sera una “abominacion”, una niña con todos los conocimientos de una Bene Gesserit adulta. Paul adopta el nombre fremen de Muad’Dib y conoce a Chani, encargada de protegerle y enseñarle las costumbres Fremen. El amor surgirá entre la pareja, y Chani será su compañera. Con ella, tiene un hijo que morira en un ataque Harkonnen a un sietch Fremen.

Paul Muad’Dib se convierte en el líder de los Fremen, guiándoles en una revolución contra los Harkonnen y el Emperador, saboteando la producción de especia. Pero ademas sus poderes prescientes aumentan día a día. Paul, para descubrir si es verdaderamente el Kwisatz Haderach, se somete a la Agonia de la Especia, que supera tras un coma.

Una vez recuperado, Paul Muad’Dib vence con sus fieles Fedaykin y los Fremen, a los hasta entonces invencibles soldados Sardaukar imperiales, en la Batalla de Arrakeen. Ya en el Palacio, frente al Emperador, derrota en un combate a muerte al heredero de los Harkonnen, Feyd-Rautha. Obliga al Emperador al exilio, toma por esposa a la hija mayor de este, Irulan Corrino (como gesto ante las demas Casas del Landsraad), y se proclama Emperador del Universo Conocido. La Yihad de Muad’Dib se extiende por todos los planetas del universo hasta la victoria final".

Para quem tiver interesse, todos os livros da saga Duna estão apresentados em um tópico do grupo DUNA da Escola-de-Redes que pode ser acessado neste link

QUESTÃO PARA REFLEXÃO 10

Questão Única - Quais indicadores de um modo de regulação autocrático podem ser percebidos nos mundos ficcionais do livro Duna de Frank Herbert e no filme Duna de Alan Smithee e David Linch?

Esta questão não é de múltipla escolha. Você deve deixar sua resposta discursiva no campos de comentários abaixo.

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