Escola de Redes

Usei o nome "técnico(s) do(s) time(s)", em função de algumas experiências pessoais em redes, nas quais me descobri fazendo algumas coisas que se diferenciam do que faz um facilitador, animador, moderador etc., sendo mais intrusivas do que esses papéis light normalmente são.

Exemplo: ao avaliar o andamento do um wiki de um projeto em rede, constatei o seguinte (nomes fictícios):

- José não respondeu a uma questão, que é da especialidade dela. Isso travou a discussão, e empacou o processo decisório. Quem é que pode dar um toque para ela? É fundamental realimentar a rede com uma resposta. Ah, seria tão bom se a Nádia fizesse isso, pois é amiga do José. Topa, Nádia? Sim? Então... pode ser até amanhã?

- o Ximenes, que colocou uma pergunta sobre a questão da Busca, não teve resposta até agora. Vai desanimar em relação ao nosso processo participativo. Poxa, mas a resposta tem que vir do João, que é daquele departamento que não gosta muito de dizer o que está fazendo antes de estar terminado, belo e faceiro. Será que dá para dar uma cantada no João para que venha trazer o alimento que a rede precisa? Quem é a melhor pessoa para dar essa cantada? Ah, é a Sílvia, que dá carona para o João.

Concordam que esse papel é fundamental?
Vejam que interessante: as ações não se dão todas no virtual, e o técnico do time é o cara que não se prende ao virtual, nem aos sucedâneos virtuais do antigo "memorando interno", mas zela para que as coisas andem. Vai empurrando o processo através de suas impedâncias e da viscosidade organizacional.

Alguém gostaria de trazer referências bibliográficas para esse papel, mais exemplos, mais elementos para o perfil?

São os meus principais questionamentos atuais.

Um abraço a todos
Sérgio Storch

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Respostas a este tópico

Não gosto muito dessa comparação com um técnico de time. Os novos papéis em uma rede social - como os dos netweavers, dos hubs, dos inovadores (dentre vários outros que estamos descobrindo ou que ainda vamos descobrir) - são um pouco diferentes dos papéis em uma organização hierárquica.

Em geral times são estruturas centralizadas voltadas para a competição (et pour cause). Como dizia George Orwell, nossos esportes ainda são "guerras sem mortes".

Acho que todos os papéis que emergem numa dinâmica de rede (mais distribuída do que centralizada) são fundamentais para o metabolismo da rede, quer dizer, para a emergência ou auto-organização. Se atribuímos a um deles o papel fundamental, geramos centralização porque geramos escassez (quer dizer, obrigamos os fluxos a passar por ali).

Os papéis fundamentais em uma rede social distribuída (mais distribuída do que centralizada: toda vez tenho que repetir isso, pois senão aparece a objeção de que na vida real não existem redes realmente distribuídas e outras platitudes semelhantes), dizia, os papeis fundamentais em uma rede social distribuída são aqueles que aumentam a fluição, ensejam o fluxo do capital social (se preferirmos usar tal metáfora do desenvolvimento), viabilizam a cooperação (ou colaboração, estou usando os dois termos com o mesmo sentido aqui).

Tentativas de evocar imagens ou produzir metáforas a partir de modelos de organizações centralizadas para explicar fenômenos que emergem em estruturas distribuídas, em geral - ao contrário do que se possa acreditar - não facilitam a transição. A meu ver a única transição possível para as redes são... as redes! Se adotamos designadores e explicadores de fenômenos de estruturas hierárquicas, recaímos em protocolos de estruturas hierárquicas.

Começo a perceber que todas as boas discussões que nosso amigo Sérgio Storch propõe aqui versam, em última análise, sobre o mesmo tema. Creio que ele quer fazer uma ponte entre o atual e o vindouro. E vejo dois problemas aqui: 1) o vindouro já veio, não está por vir (e, por outro lado, mesmo que não tivesse chegado, é antecipando futuro que conseguimos interromper a repetição inercial de passado); 2) a proposição de uma mesma discussão de formas diversas pode até ser boa, para captar interesses diferentes de novos atores, mas essa prática reiterada com muita frequência pode deixar abandonadas as discussões iniciadas (e isso tem de fato ocorrido).

Novas maneiras de colocar a mesma questão não vão resolver a questão se não enfrentarmos a questão. Qual a questão?

A questão (a meu ver, é claro) é a seguinte: existe ou não existe a possibilidade de organizarmos as coisas segundo um padrão de rede distribuída (mais distribuída do que centralizada, repito)? Ah!... Existe, mas, veja bem, tem que manter o papel do líder (seja com que nome for: facilitador, coordenador, técnico do time). E, ainda, tem que manter uma certa hierarquia (pois senão... é o caos?). E é preciso ver que o ser humano é só meio colaborativo, tem uma outra metade que é (inerentemente?) competitiva! E mais: diante da escassez de recursos, não há como não estabelecer algum tipo de ordem top down, certo? Na base do espontaneísmo, não vai dar em nada. Aqui mesmo na Escola-de-Redes, se não fosse o Augusto, as coisas não funcionariam! Alguém tem que organizar o conhecimento, fazer algum tipo de gestão, criar alguma taxionomia... Bem, por aí vai.

Ora, se estas são as questões (os pré-conceitos ou os pressupostos) que estão por trás de todas essas discussões que estamos travando, por que não enfrentá-las?

Oi Sérgio,
Vim, mas acho que a discussão estava legal onde estava... :-)
Vou transcrever alguns trechos do seu exemplo, grifando os pontos que me chamaram a atenção:

"[...] qual seria o papel de técnico(s) do(s) time(s) numa rede social?
[...] - a pessoa X não respondeu a essa questão, que é da especialidade dela. Isso travou a discussão, e empacou o processo decisório? Quem dá um toque para ela?
[...] - a pessoa K [...] Vai desanimar em relação ao nosso processo participativo. Poxa, mas a resposta tem que vir da pessoa L, que é daquele departamento que não gosta muito de dizer o que está fazendo antes de estar terminado e coisa e tal. Será que dá para dar uma cantada nela? Quem é a melhor pessoa para dar essa cantada? Ah, é a pessoa A.

Concordam que esse papel é fundamental? [...]"

Puxo a conversa para o meu quintal dizendo que concordo com o José Pacheco (e outros também) quando diz(em) que não existe uma "educação para a ação cidadã" (ou para a ação autônoma, livre, solidária, etc). Por isso consta da Carta de Príncipios da Rede RC a "educação pela e na ação cidadã".

Acredito que o paralelo com as redes - aquelas "mais distribuídas do que centralizadas" :-) - é inteiramente válido: não existe educação para a ação em rede, o que existe é a educação pela e na ação em rede.

Não creio que o exemplo que você deu seja realmente de uma rede social - pelo menos no sentido citado acima. Nesse contexto, talvez o "técnico" seja imprescindível. Mas se seu exemplo refere-se a uma rede social, minha resposta a sua pergunta é outra: definitivamente, o papel de "técnico" não é fundamental. Pelo contrário, é indesejável.

Abraços, Luiz.


Caros Augusto, Leila e Luís

Grato pelos seus comentários.
Acho que fiquei um pouquinho "isolado" nos meus pontos de vista. :-)
Mas gostei de ter despertado essas reações.

Comento:
1. talvez estejamos mesmo falando de coisas bem diferentes. O técnico do time surgiu numa situação concreta em que há o desejo de promover um processo de tomada de decisão em rede, com o fortalecimento da comunicação horizontal entre pessoas que estão habituadas a se expressarem individualmente, e não coletivamente. Pensem em algo do tipo Orçamento Participativo. Claro, nesse caso não há a formação espontânea de uma rede, que acho que é o universo que vcs têm em mente ao criticar o conceito. Há vontade de mudança, que antecede a existência da rede.

2. desejo mesmo discutir esse papel do técnico de time. Para meu aprendizado em redes considero-o fundamental. Talvez não o seja para todos, talvez seja para mais alguns poucos. Ora, estamos na Cauda Longa, e não há motivos para não discuti-lo por parecer despropositado para alguns a priori.

3. A resposta do Augusto talvez contenha algum preconceito, gerado talvez a partir de outras discussões em que assumimos posições polares: Na sua frase: "Se atribuímos a um deles o papel fundamental, geramos centralização porque geramos escassez (quer dizer, obrigamos os fluxos a passar por ali)." Respondo: Nem eu coloquei o técnico do time como fundamental, nem acho que a existência de técnico(s) de time(s) obriga a passagem de fluxos. Por outro lado, redes, mesmo as mais distribuídas do que centralizadas, TAMBÉM PODEM TER O FENÔMENO POLÍTICO, pois são sociais e não mecânicas. PODE HAVER CONFLITO DE PODER, e acho que considerar a existência de grupos, cliques, panelas etc., não é despropositado.

4. Brincando, numa outra discussão eu me coloquei como estando à direita nesse eixo de discussão. Sem brincar, eu me coloco assim: penso haver diversos eixos, e que a análise se empobrece se encararmos tudo com base num único eixo, o do grau de distribuição da rede (remanescência de elementos hierárquicos). Outros eixos:
- independentemente do grau de distribuição: o grau de comprometimento das pessoas com a rede.
- independentemente do grau de distribuição: p grau de acesso real à informação, considerando a sobrecarga e pouca disponibilidade que as pessoas têm para buscá-la, mesmo que esteja disponível.
- independentemente do grau de distribuição: o grau de diferenciação na capacidade de influenciamento nos laços de rede, por mais distribuída que ela seja. Ouço mais uns do que outros.

Enfim, talvez tenhamos diferenças de fundo nos nossos olhares, e isso nem sempre significará que eu (ou outros) trazemos em nossa mente um programa verticalizador. Pode até ser que sim.

Creio que a principal diferença de fundo, presente na discussão do técnico do time, é que eu estou menos preocupado com a construção de modelos puros abstratos (à la concorrência perfeita de Adam Smith), e sim com o aprendizado para lidar em situações concretas, em que temos que sujar as mãos com hierarquias, poder e outras coisas que são inerentes à dinâmica das organizações e redes.

Mas eu gostaria de discutir não apenas este papel (sim, quero aprofundá-lo) e sim o conjunto de papéis, para melhorar minha capacidade de identificar em situações concretas o grau em que cada papel está bem ou mal desenvolvido. Acredito que essa discussão aponte mais adiante para a gestão de competências numa rede social (de novo, entendo que a expressão "gestão" não seja necessariamente hierárquica, pois auto-gestão também é gestão).

Um abraço a todos
Caro Sérgio,

nada demais em pautar múltiplas discussões ao mesmo tempo, com olhares próprios (como cada um de nós tem mesmo): acho que isso é desejável.

O problema que detectei foi outro: pautar muitas discussões e não dar continuidade a elas, reformatando de cada vez a roupagem sem enfrentar o conteúdo. Tem coisas que nosso "time" não pode driblar, mesmo que tivéssemos o melhor "técnico" do mundo (que não é o Dunga).

Todos os seus exemplos de papéis em rede, inclusive nos textos que inauguram discussões abertas por você neste grupo, são exemplos de organizações hierárquicas, como logo percebeu o Luis de Campos Jr em um comentário aqui. Talvez você devesse então propor o seguinte: quais os papéis em uma instituição hierárquica que podem ser estimulados para ensejar a transição dessa instituição para uma organização menos centralizada. Mesmo assim, a meu ver, não poderiam ser chamados de novos papéis sociais em uma rede (e simplesmente porque não são). Ademais, para ensejar a transição de uma organização hierárquica para uma organização em rede é necessário apenas... rede! Eis o ponto. É "fazendo" rede que você transita de uma coisa para outra (redes de stakeholders).

Por tudo que vimos, estudamos, investigamos, praticamos e experimentamos até agora, "técnico de time" não parece ser um desses papéis. O conceito surge na administração deslizado do esporte. Dunga não articula e anima a seleção brasileira: manda nela, decide quem vai jogar e quem não vai, tira um jogador de campo a qualquer hora que lhe der na telha. Enfim...

Como já conversamos em outra oportunidade, para ir no coração dessa discussão você tem que me dizer o seguinte: vamos preservar a função de mandar nos outros ou não? Na prática é isso. Se você declara que não está muito preocupado com "a construção de modelos puros abstratos", ótimo! Quer então descobrir quais os novos papéis que comparecem na regulação de uma rede? Eis uma boa resposta: todos que não impliquem mandar nos outros!

Bem, mas continuo insistindo no seguinte: se não enfrentarmos os pressupostos, a discussão não avança. Quais são os pressupostos, aquelas convicções e crenças que ficam lá no subsolo da nossa consciência (seja lá o que isso for)?

Sugiro aquela lista:

1) Existe ou não existe a possibilidade de organizarmos (já hoje, não amanhã) as coisas (algumas pelo menos, todas que não impliquem funções de comando e controle) segundo um padrão de rede distribuída (mais distribuída do que centralizada)?

2) Em uma rede (mais distribuída do que centralizada) o papel do líder (seja com que nome for: facilitador, coordenador, técnico do time) é necessário? Em que medida? Mono-líder ou pluri-líder?

3) Em uma rede (mais distribuída do que centralizada) temos que manter uma certa hierarquia, pois senão... é o caos?

4) O ser humano é só meio colaborativo, tem uma outra metade dele que é (inerentemente) competitiva?

5) Diante da escassez de recursos, não há como não estabelecer algum tipo de ordem top down? Na base do espontaneísmo, não vai dar em nada?

6) Alguém sempre tem que organizar o conhecimento, fazer algum tipo de gestão, criar alguma taxionomia para os outros?

Se você estiver disposto a enfrentar essas questões, eu topo!
Oi Augusto
Sim, estou disposto a enfrentar todas essas questões. Ou quase todas :-)
Só me dê um tempinho, pois a competição do tempo na família está à toda...
Antecipando: não imagino que seja necessário nada que implique necessariamente mandar nos outros. Sou absolutamente simpático a esse princípio.

Até 2a eu escrevo uma resposta mais completa.
E vamos em frente: gostei que você topou!


Um grande abraço
Sérgio
Caro Sergio,

Suas perguntas são cruciais....

O papel do técnico dos times de uma rede social me parece uma evolução natural do coordenador de projetos de free software, cujos exemplos emblemáticos são Linus Torvalds no desenvolvimento do Linux ou de Larry Wall no desenvolvimento da linguagem Perl; em resumo o coordenador, neste caso, é um "Ditador Benevolente".

No entanto, diferente das ditaduras no sentido tradicional, onde o oprimido não tem muitas alternativas, nas ditaturas destes projetos os oprimidos podem facilmente votar com seus pés.

A evolução existe pois a viabilidade destas ditaduras depende de uma condição difícil de reproduzir: líderes com grau excepcional de competência técnica combinado à capacidade de motivar um grupo distribuído cultural e geograficamente.

Nas redes sociais o coordenador está livre da obrigação da excelência técnica para poder se aprofundar na
construção das relações.

Além disso, o papel do líder aparentemente é essencial: parece que a auto-organização é possível apenas até uma certa escala. A partir de um certo número de participantes ativos o coordenador é essencial para a viabilidade da comunidade, como vimos no trecho de "To the Finland Station" sobre os socialistas americanos.

Espero ter jogamos mais combustível nesta polêmica....
O depoimento do Flexa, conhecedor profundo da dinâmica do software livre, me ajudou bastante nessa discussão. Aproveito para responder às questões fundamentais que o Augusto colocou:

AF: Você tem que me dizer o seguinte: vamos preservar a função de mandar nos outros ou não?
Resp: Augusto, pode ser que não, mas pode ser que sim. O ser humano real às vezes gosta de ser mandado, como temos visto nas pesquisas e fimografia sobre autoridade e obediência: "A Onda", Milgram, Zimbardo, brilhantemente sumarizados no The Tipping Point. Ora, se é assim, às vezes a própria rede distribuída poderá atribuir a alguém o papel de, se não mandar scrictu sensu, ao menos dizer aos outros o que é aconselhável que eles façam. Para os que não seguem os mandatos da obediência, ninguém precisa mandar. Porém, para erradicar esse legado cultural de autoridade/obediência, são décadas pela frente. Enquanto isso, estamos na transição. Gosto de lembrar algo da mitologia de meus ancestrais: dos hebreus que saíram do Egito, nem um entrou na Terra Prometida, pois foram necessários 40 anos para perderem a memória da escravidão.
Augusto, no "A Alma Imoral", o Nilton Bonder sugere que o Egito dos hebreus não era o Egito da hierarquia real, e sim o Egito dentro da alma de cada um. Portanto: décadas. E se estamos preocupados com transformar, e nao apenas modelar, temos que pensar no ser humano que temos.

AF: Quer então descobrir quais os novos papéis que comparecem na regulação de uma rede? Eis uma boa resposta: todos que não impliquem mandar nos outros!
Resp: pegando o exemplo do técnico do time, ele não implica mandar nos outros. Pode ser coaching, dizendo: olha, se vc fizer a marcação corpo a corpo aqui, e ela fizer ali, o time do outro lado pode começar a funcionar assim e assado. É mandar nos outros? Gostaria de entrar em mais detalhes, mas não posso fazê-lo em ambiente público. Num workshop fechado estarei à vontade para isso.

AF: Quais são os pressupostos, aquelas convicções e crenças que ficam lá no subsolo da nossa consciência (seja lá o que isso for)?
Resp: Esse questionamento é muito rico, e embarco gostosamente nessa crítica e autocrítica. Porém, não é correto supor que qualquer proposição dissidente seja causada por pressupostos e crenças equivocadas. É preciso escuta ativa, isenta de preconceitos.

AF: 1) Existe ou não existe a possibilidade de organizarmos (já hoje, não amanhã) as coisas (algumas pelo menos, todas que não impliquem funções de comando e controle) segundo um padrão de rede distribuída (mais distribuída do que centralizada)?

Resp: Além do caso do técnico do time, que não implica comando e controle, dou um outro exemplo. O papel de recepcionista/coach pode ser perfeitamente distribuídos, sem comando e controle. Depende de estabelecer regras, que podem ser estabelecidas democraticamente. Especifico: numa rede com 2.462 membros que pode chegar a 5.000, poderemos ter, por exemplo, 100 recepcionistas que se alternem em 25 a cada semana, e que dividam entre si, conforme alguma regra que estabeleçam, quem dará as boas vindas aos novos entrantes. Aí não há comando e controle, mas pode haver outros mecanismos de motivação, como por exemplo pontos ganhos pelo desempenho da função.
Trata-se de reinventar, para um ambiente de rede distribuída, processos que já são consagrados nas estruturas hierárquicas, como por exemplo o processo de avaliação de desempenho. É o que faz o Linus Torvald.

AF: 2) Em uma rede (mais distribuída do que centralizada) o papel do líder (seja com que nome for: facilitador, coordenador, técnico do time) é necessário? Em que medida? Mono-líder ou pluri-líder?
Resp: minha crença é de que ele é imprescindível. Medida 100%. Pluri-lider para que a rede seja sustentável. Mono-líder leva à morte da rede. A diferença, em relação à rede centralizada, é que o papel de líder não é necessariamente auto-assumido (mas pode ser, como no caso do Linus Torvald), mas emergente. O comportamento e proatividade das pessoas tornam-as líderes, se as outras "votarem com os pés" e as seguirem. Nada a ver com mandar nos outros.


AF: 3) Em uma rede (mais distribuída do que centralizada) temos que manter uma certa hierarquia, pois senão... é o caos?

Resp: não vejo essa causalidade nesta direção. Vejo a hierarquia como um fenômeno possivelmente espontâneo e contingente, emergindo do próprio caos. Temos que ter? Não. No limite, ela se estabelece sem que tenhamos que ter ou alguém diga temos que ter.



AF: 4) O ser humano é só meio colaborativo, tem uma outra metade dele que é (inerentemente) competitiva?
Resp: o ser humano é mais complexo do que essa dualidade. Além da polaridade colaborativo/competitivo, existem características humanas em outros eixos: acomodado, passivo, carente de direção, egocêntrico, narcisista etc. A boa notícia é, a meu ver: todas essas características podem ser compatibilizadas com a colaboratividade, dependendo de serem atendidas as necessidades humanas, à la hierarquia de Maslow ou a qualquer outra de suas versões mais modernas. As necessidades humanas são diversificadas, só isso. Se não forem atendidas colaborativamente, o indivíduo irá lutar para que sejam a despeito dos demais: competição. Portanto, colaboratividade competente pode espremer o espaço para a competitividade. Trata-se de considerar que a colaboratividade requer design, processos, cuidado com as necessidades de cada um etc. Considerando toda a complexidade do ser humano e de suas limitações, sem simplificá-las.

AF:5) Diante da escassez de recursos, não há como não estabelecer algum tipo de ordem top down? Na base do espontaneísmo, não vai dar em nada?
Resp: na base do espontaneísmo vai dar sim, se houver espaço para que se manifestem as diferenças e emerjam as lideranças. A proteção contra a "lei de ferro da oligarquia" só é possível se houver processo permanente de formação de novas lideranças.

AF: 6) Alguém sempre tem que organizar o conhecimento, fazer algum tipo de gestão, criar alguma taxionomia para os outros?
Resp: Ahá! Sim, há papéis na organização do conhecimento que alguém sempre terá que fazer. Pode ser um, vários, ou serem papéis rotativos, que todos possam ocupar em determinado momento. No kibbutz, infelizmente morto, todos tinham que ir para a cozinha em determinados momentos. Em Mondragon, todos são elegíveis para o Conselho de Administração. Caso de um papel específico: o bibliotecário. Imprescindível para uma rede, embora isso não requeira diploma (aí sim está o aspecto deshierarquizador, e não na presunção de que o papel seja desnecessário). E é um papel que pode também ser exercido de forma alternada.

aUGUSTO: TALVEZ TENHAMOS AGORA UM PONTO DE DISCÓRDIA SIM.
Penso eu: o vetor deshierarquizador esta não na supressão de papéis, e sim na igualdade de oportunidade de todos terem acesso a quaisquer papéis, desde que processos de seleção baseados na auto-organização os legitimem, e de terem acesso à capacitação para que possam exercer esses papéis.
Isso implica FORMAS COMPLEXAS DE GOVERNANÇA, com as quais o mundo hierárquico não nos preparou. Temos que inventá-las.


AF: Se você estiver disposto a enfrentar essas questões, eu topo!
Resp: Enfrentei essas questões, agora vamos enfrentar as discussões de cada um dos papéis, e de como cada um deles pode ser desenvolvido nas redes, sem hierarquizá-las. Eu gostaria muito de discutir casos específicos, que evidentemente não podem ser expostos em ambiente público.

Um grande abraço

Sérgio
Caro Sérgio, essa história de que "o ser humano real às vezes gosta de ser mandado..." denuncia um padrão complicado que perpassa todas as suas respostas. A única maneira de erradicar isso que você imagina ser uma introjeção da dominação é deixando de replicar o mando - e por mando entendo aqui o que ele é realmente: comando-e-controle.

Mas, ao contrário de você, não estou interessado em transformar nada (muito menos em modelar, seja lá o que isso for). Perdão por fazer abaixo uma relativamente extensa auto-citação do texto Uma Introdução às Redes Sociais, que está no meu livro de 2008, Novas visões (que abriu nossa Biblioteca-Editora):

"Muita desilusão prematura com as redes nasce de uma incompreensão profunda do que elas significam realmente. Quem quer usar as redes porque está na moda ou porque imagina que, assim, conseguirá ampliar seu poder, em geral, não se dá muito bem. Até mesmo quem quer usar as redes para promover transformações em nome de uma causa, muitas vezes, fica decepcionado. Por quê? Porque a rede não é um instrumento para fazer a mudança. Ela já é a mudança.

Mas essa mudança não é uma transformação do que existe em uma coisa que não existe e sim a liberdade para que o que já existe possa ser capaz de regular a si mesmo. Sim, as pessoas ficaram completamente alienadas nos últimos dois ou três séculos com esse “modelo transformacional” da mudança, que pressupõe um agente de vontade capaz de promover, organizar e liderar a mudança. Isso não ocorre na natureza nem em qualquer outro sistema complexo — e a sociedade humana é um sistema complexo. Na natureza e no mercado (que também são sistemas complexos), por exemplo, as mudanças seguem a combinação de um “modelo variacional” com um “modelo regulacional”. Os sistemas complexos adaptativos são aqueles que aprenderam a se auto-regular — e só redes podem fazer isso, razão pela qual esses sistemas, seja o cérebro humano ou um ecossistema, sempre se estruturam em rede — de sorte a poderem se adaptar às mudanças (variações aleatórias) internas e externas. Ou a fim de poderem “conservar sua adaptação” (uma boa definição de sustentabilidade), fazendo e refazendo, continuamente, congruências múltiplas e recíprocas com o meio.

Essa idéia de que você tem que se transformar em uma pessoa diferente (que você não é) foi uma coisa ruim que colocaram em sua cabeça. Você não precisa se transformar e sim despertar para suas imensas potencialidades. Da mesma forma, a sociedade não precisa ser transformada em outra coisa: ela precisa ser simplesmente o que é quando as pessoas se conectam entre si horizontalmente, sem a introdução de muros, escadas, portas e fechaduras, cuja função é obstruir a livre fluição, criando toda sorte de anisotropias no espaço-tempo dos fluxos".

1 - Sobre o papel do técnico, não sei de onde você tirou a idéia de que "ele não implica mandar nos outros". É claro que um consultor que faz coaching pode ressignificar o termo, dizendo que é também uma espécie de técnico. Mas os técnicos que conhecemos mandam mesmo nos seus times, porque aquela forma de organização (time) é, em geral, centralizada e, além disso - mas não por acaso, formada para competir com estruturas similares.

2 - Sobre as crenças que ficam lá no subsolo da nossa consciência, isso é uma constatação, não um juízo de valor (a mesma constatação, aliás, que você fez, embora, a meu ver, avançando perigosamente o sinal e, com isso, confirmando minha hipótese, quando disse que "o ser humano real as vezes gosta de ser mandado"). Os preconceitos, como você vê, estão fundeados lá no "andar de baixo" (da consciência). E não estou me referindo, como você supôs, a "proposições dissidentes" e sim a um modo-de-olhar condicionado por pressupostos e crenças da sociedade hierárquica, que nos afeta a todos, não só a você. Você, entretanto, meio que "passou um recibo" quando veio com a história de que "o ser humano real as vezes gosta de ser mandado".

3 - Sobre a possibilidade de organizarmos (já hoje, não amanhã) as coisas (algumas pelo menos, todas que não impliquem funções de comando e controle) segundo um padrão de rede distribuída (mais distribuída do que centralizada), minha pergunta não casou com sua resposta. Não perguntei sobre novos papéis exigidos na regulação de uma rede (até porque acho que tais papéis emergirão da dinâmica da rede em vez de serem pré-desenhados por alguém interessado em administrar - leia-se, controlar - uma rede). Quero saber se você acha possível fazermos isso (organizar nossas iniciativas de modo mais distribuído do que centralizado). E aí, se você responder que sim, quero saber se as organizações que você organizou são mais distribuídas do que centralizadas. E se não forem, quero saber por que? Não, não estou me metendo na sua vida: cada um deve fazer o que bem entende. Estou apenas forçando as perguntas para tentar dizer que não "fazemos redes", a meu ver, não porque essa possibilidade não exista e sim porque ainda estamos presos aos esquemas de comando-e-controle. E estamos presos a estes esquemas quase sempre porque não queremos experimentar alternativas. Não experimentando alternativas não mudamos o lugar de onde vemos as coisas.

Não interessa saber o que faz ou deixa de fazer o Linus Torvald. Interessa saber o que nós fazemos ou deixamos de fazer, sobretudo isso: o que deixamos de fazer. Veja, caro amigo Sérgio, se trata aqui muito mais de não-fazer! Trata-se de confiar na rede, confiar nas pessoas. Ao contrário da hipótese hobbesiana (segundo a qual, abandonados à sua própria sorte os seres humanos se engalfinhariam numa guerra de todos contra todos), penso que seres humanos - na ausência de estruturas de comando-e-controle - se clusterizariam de acordo com o fluir coletivo das redes a que estão conectados. Isso sugere um outro fundamento antropológico para nossas reflexões. Por isso fiz aquela outra pergunta: se achamos que o ser humano é (somente ou também) inerentemente competitivo.

Não-fazer significa deixar rolar, deixar fluir ao invés de tentar enquadrar, administrar, criar sulcos para ordenar e capturar as fluições futuras. Por isso acho proveitoso observar os novos papéis emergentes em uma rede, mas acho ocioso (e prejudicial) tentar antever quais seriam tais papéis baseados no pressuposto de que o ser humano gosta de ser mandado ou de que o se não organizarmos as coisas será o caos.

4 - Sobre a hierarquia, no caso das sociedades humanas, é claro que não a vejo como você: "como um fenômeno possivelmente espontâneo e contingente, emergindo do próprio caos". Ela não se estabelece naturalmente, Sérgio. Nisso acompanho integralmente a visão de Maturana (para o qual o ser humano só pode se constituir como tal a partir da cooperação) e acrescento: só há hierarquia onde há geração artificial de escassez. É uma longa discussão que acompanha uma longa reflexão.

5 - Sobre a questão da ordem top down: você centra sua resposta na questão das lideranças. Eu centro no grau de distribuição-conectividade da rede. São dois pontos de vista. Tenho certa aversão às ideologias liderancistas porquanto - mesmo quando tentam dizer o contrário - todas elas tentam legitimar o mono-liderancismo. Não é a toa que a literatura empresarial - embasada no padrão comando-e-controle - tenta enfatizar tanto o papel do líder.

6 - Ainda sobre os papéis, no caso, o papel de gestor do conhecimento. Instituir rotatividade não resolve o problema, Sérgio. O problema é a pré-definição dos papéis, o problema é querer se antecipar à dinâmica da rede para dizer, por exemplo, que o bibliotecário é "imprescindível para uma rede". Quem disse? E, ao dizer isso, a partir de que lugar ou contexto faz tal afirmação? Pois eu penso que nenhum papel pré-definido é imprescindível em uma rede. Imaginamos tais papéis (esse do bibliotecário e tantos outros que você sugere ou aventa) a partir do que vemos nas dinâmicas das organizações hierárquicas.

7 - Você afirma: "o vetor deshierarquizador esta não na supressão de papéis, e sim na igualdade de oportunidade de todos terem acesso a quaisquer papéis". Ora, Sérgio, quê papéis, se eles não existem fixados de antemão? Você mesmo responde: "desde que processos de seleção baseados na auto-organização os legitimem". Ah!... Está certo: aí muda tudo, não é mesmo? Se você leva em conta a auto-organização é ela que definirá quais são os papéis.

8 - Sobre a discussão: sim, você começou a enfrentar as questões que sugeri - o que muito me alegra - mas isso não significa que o passo seguinte seja "enfrentar as discussões de cada um dos papéis, e de como cada um deles pode ser desenvolvido nas redes, sem hierarquizá-las". Penso que nosso papel aqui não é discutir os tais papéis imaginados e sim discutir como se forma socialmente um papel observando o que ocorre em redes mais distribuídas do que centralizadas.

Um grande abraço também.
Olá Augusto.
Essa discussão me motiva a ponto de ser a primeira coisa que leio ao ligar o computador de manhã.
Leio e fico com as perguntas. Vou de novo pedir um tempo para responder, pois a profundidade de suas respostas torna cada vez mais desafiante dar respostas à altura. Chegará o momento em que pedirei água, por falta de quilometragem em estudo. Mas ainda guento um pouquinho mais... :-)
Faço uma meta-observação sobre aprendizagem e conteúdos: fico muito feliz em reler os seus textos no calor da discussão, pois há coisas que não tinha pescado em leituras anteriores. Curiosamente, para a nossa discussão, essa constatação meio óbvia de que biblioteca (no sentido amplo) é fundamental, lembra o papel social que exercem as pessoas que vão lá buscar nos seus arquivos e memórias os conteúdos que contribuem na hora certa para a pessoa certa. São poucos os que são capazes e se dispõem a fazer isso. É um papel que, a meu ver, é essencial para sustentar a qualidade cognitiva de uma rede, e que emerge, não requerendo uma pré-definição.
Eis, portanto, mais um papel a discutirmos.
Percebo que um dos eixos da discussão é a questão: o termo "papéis" deve evocar necessariamente a noção de que são pré-definidos? Quando eu uso esse termo, não o carrego com este significado, e sim de um conjunto de características que, se existem numa comunidade (de forma espontânea ou pré-definida), tendem a provocar um efeito sistêmico diferente de quando não aparecem.
Mas não responda ainda, pois tentarei ser mais denso do que isso.

Um abraço
Sérgio
Augusto, nesta trilha de discussão da rede "Value Networks" encontrei leituras que fortalecem os teus argumentos. Vale a pena conhecer. Eis uma msg que recebi hoje

Starting with my first book (Unleashing Intellectual Capital) I took a hard look at the anthropological evidence of our kind (Homo sapiens) going back about 200,000 years. What I found is that we operated in very small networked social systems (the largest tribes had about 150 members and there were no "assigned" leaders)-for starters see Yellen, J.E. (1990) "The Transformation of the Kalahari Kung," Scientific American, April, pp. 99-105.

Later I got into evolutionary/molecular biology and neuroscience. There I found that humans (all biological entities) are self-organizing systems by design from our basic molecules to the entire body even extending to the immediate environment surrounding us. What that shows me is that we are individually made-up of networks and are, in turn, members of social networks external to our bodies. Further, all these dynamics are emergent.

In essence, there is no life without mutually beneficial relationships/networks whether between cells or people. That's how we survive and develop/maintain our identities as individuals and groups.

Charlie

www.UnManagement.com
Amigos
Meses depois, encontrei um reforço para o conceito de "técnico do time" que tentei transmitir no início dessa discussão. Deram-lhe o nome de "Business Ecosystem Orchestrator"


É um thread bastante longo, e que conta com opiniões de pessoas chave na discussão de redes sociais: Patti Anklam, Cindy Gordon, e outros autores conhecidos.

Quem quiser destrinchar comigo a discussão inteira, indo aos diversos links indicados, é muito bem vindo.
Estou em busca de aprofundamento desse conceito para o workshop que farei sobre wikis em 16/3, e que dará destaque aos papeis organizacionais para que os wikis desenvolvam o seu potencial.

Alguns trechos da discussão, bastante longa e muito rica:
- A "business ecosystem orchestrator" is a person who helps organizations and networks find and expand their unique "sweet spot."

- A "business ecosystem orchestrator" is a person who helps
organizations and networks find and expand their unique "sweet spot"
in order that constituent companies compete to unite disparate
contributors to create powerful total solutions or experiences. He /
she ensures the system is well nourished and fertilized so that
individual people are honoured for their respective contributions and
feel confident in adapting existing roles or adopting new ones in
serving the whole.

- it depends... on the definition of eco-system. I think that
orchestration is about realising a process while finding "unique
"sweet spot" " is just an accidental secondary consequence of the
orchestration. A "business ecosystem orchestrator" exists not to help
"organizations and networks find and expand their unique "sweet spot""
but make the business eco-system work.


Um abraço a todos
Sérgio Storch
Ufa! Cai aqui depois de ler o primeiro tópico do grupo "Papéis da rede" em relação à questão do "recepcionista" e foquei a leitura no diálogo de Augusto e Sergio com objetivo de acompanhar a resposta ao tópico citado, mas também estender meu pitaco ao tema "técnico do time"...

Sergio,
Eu ainda não li o livro do Augusto (portanto, posso estar cega ao que ele propõe) mas acho essencial a questão do olhar os membros da rede como protagonistas pelo seu próprio conhecimento. É neste sentido que mudam as perguntas em relação aos papéis, mas continua o desafio de como construir então essas mudanças em alguns ambientes como no mundo corporativo?

Não conheço a bibliografia que propõe agora em inglês nem tive tempo de lê-la, mas acompanho algumas iniciativas de empresas em redes sociais na área de comunicação e tenho vontade de sacudir de raiva os tais "estrategistas" porque eles erram justamente na tecla que Augusto insistiu contigo, querem determinar aquilo que precisa ser escarafunchado. Essa é facilidade do novo século. Agora vc pode ouvir outro, não precisa vender a verdade da empresa...Mas ninguém arrisca isso no mercado corporativo. é um tal de replicar o velho modelo no uso das novas propostas que é raro encontrar algum projeto inovador na área.

Por outro lado, pensar em "como ouvir o outro" também tem sido minha busca, por isso, meu interesse pelo tema. Tenho lido mais bibliografia da área de comunicação: cultura da interface, do steve johnson, explica um pouco isso ao falar do papel dos agentes e, neste sentido, acho que o "papel" do técnico tem muitas caracteríticas definidas por lá. outro livro mais técnico que traz essas respostas do "técnico" é a biblia da arquitetura da informação, o chamado urso branco (mas é muito técnico, não aconselho, porém acho que conhecer o conceito ajuda a pensar nessas possibilidades). Começo agora a ler os evangelizadores de Gramsci porque acredito que o conceito de "intelectuais orgânicos" pode facilitar muito o pensar em como ouvir o outro quando temos interesse de usar redes sociais para objetivos específicos de um grupo de interesse. assim que terminar essa leitura, espero lembrar de voltar por aqui para continuarmos este tema caso haja interesse da sua parte.

Abraços e parabéns pelo diálogo!

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