Escola de Redes

Quando vivemos nossa convivência (social) produzimos um novo tipo de vida (humana): essa é a idéia básica do jogo O Melhor Lugar do Mundo.

Assim, aqueles desejos – mesmo individuais, tanta vez incorretamente considerados egoísticos – capazes de ser recompensados pela própria interação, serão estimulados no jogo. Desejos tão simples como: brincar e jogar; cantar, tocar instrumentos e dançar; comer e beber (compartilhar alimentos e bebidas); celebrar e comemorar (festejar); compartilhar histórias e experiências; dar e receber presentes; namorar; co-criar; colaborar e ajudar (ajuda-mútua); e compartilhar (com-viver) uma mística ou espiritualidade (excetuadas as formas religiosas ou sectárias que promovam separações entre o fiel e o infiel).

As ações decorrentes da realização de tais desejos, que serão ressignificadas como ações cósmicas (organizadoras do cosmos social), têm um peso relevante no jogo na medida em que são encaradas como tentativas de conversar com a rede-mãe (aquela que existe independentemente de nossos esforços conectivos voluntários) e de prefigurar o simbionte social: o novo tipo de vida (social) que aprendemos a detectar quando vivemos nossa convivência.

O Melhor Lugar do Mundo é um jogo para captar a secreta magia (na verdade, uma “antropo-urgia”) dos pequenos atos cotidianos.



BRINCAR E JOGAR

 Brincar e jogar são fundamentos esquecidos do humano (um esquecimento produzido pela hierarquia). Sociedades baseadas na exaltação do (e na escravização pelo) trabalho desvalorizaram esses atos cotidianos tão livres e prazerosos que merecem, então, ser ressignificados.

Nas sociedades submetidas a sistemas hierárquicos espera-se que pessoas adultas não brinquem nem joguem (só um pouquinho, de vez em quando), mas... trabalhem! Levem a vida a sério e se levem a sério para obter, como prêmio por sua seriedade no trabalho árduo, sucesso na vida ou na carreira, se destacando dos semelhantes para sair da vala comum (das pessoas comuns). Tudo isso, é claro, não passa de uma perversão.

O próprio jogo O Melhor Lugar do Mundo já é um processo de reativação dessa dimensão básica do humano: o homo ludens. No jogo ela é estimulada por meio de incentivos positivos e ressignificada como um ato cósmico de sintonização com o social. Atividades que estimulem brincadeiras – com a presença de crianças, adultos e idosos – são muito bem pontuadas no game.

Brincar e jogar são, ademais, oportunidades especiais de interação humanizante. Já se disse que em uma hora de jogo você conhece o outro mais do que em cem horas de conversa (ou algo parecido).

A brincadeira e o jogo vão adquirindo outro status nos mundos altamente conectados. Tudo vai virando jogo. Com a abolição do trabalho (repetitivo) a atividade produtiva (inovadora) vai se exercendo como creative game e vai materializando aquele sonho de Bob Black (1985) quando disse: “O que eu gostaria realmente de ver acontecer é a transformação do trabalho em jogo”.

E social games de um novo tipo – como O Melhor Lugar do Mundo – vão substituindo os programas ditos sociais ou de desenvolvimento.


CANTAR, TOCAR INSTRUMENTOS E DANÇAR

 Assim como brincar e jogar, cantar, tocar instrumentos e dançar foram formas de tentar conversar com a rede-mãe que conseguiram sobreviver sob a civilização hierárquica. Nos desejos, muitas vezes inexplicáveis, de quem sente que não consegue viver sem se dedicar a tais atividades, nunca está, num primeiro momento, um propósito planejado de fazer sucesso e se destacar dos semelhantes. Depois isso pode de fato acontecer, sobretudo quando a pessoa amadora é capturada por alguma organização hierárquica. No início ela quer apenas vibrar no mesmo ritmo da intermitente criação, acompanhar a vida nômade das coisas, respirar com elas, reconhecer e ser reconhecida por outras pessoas capazes de se deixar empatizar...

A dança, a música... são movimentos de sintonização. Depois vem alguma fraternidade disciplinando tudo, ensinando você a ser dervixe. Em algum lugar perdido da Ásia Central, entre o Cazaquistão, o Uzbequistão, o Turcomenistão, o Arzebaijão, sabe-se lá, eles vão treiná-lo até que você repita exatamente os mesmos movimentos sincronizados, execute as mesmas evoluções com perfeição. Não é que não haja conhecimento ali (deve haver, e muito). No entanto, não é mais de conhecimento que se trata. Os pássaros e os peixes fazem isso, apenas aglomerando, enxameando, imitando (clonando), enfim, interagindo com os semelhantes em seus mundos pequenos (amassados). E a forma como eles expressam suas interações – por flocking ou shoaling – revela o metabolismo do simbionte natural: apenas deixando acontecer. Trata-se agora de fazer alguma coisa correspondente em relação à segunda criação do mundo: o simbionte social.


COMER E BEBER (COMPARTILHAR ALIMENTOS E BEBIDAS)

 Em algum momento de nossa história evolutiva o proto-homínida que nos precedeu compartilhou o alimento com seus semelhantes iniciando o seu processo de humanização. Arqueólogos descobriram que os precursores dos seres humanos transportavam o alimento de um lugar para outro e distribuiam esses alimentos entre os membros do grupo. Ou seja, eles partilhavam o alimento. Podemos dizer que a atitude básica que nos torna humanos é esta: a partilha do alimento e não o uso da ferramenta para matar (a transformação da ferramenta em arma). São dois pontos de vista completamente diferentes. Em um, como assinalou Thompson, temos uma definição tecnológica da cultura humana, na qual a ferramenta separa fundamentalmente a cultura da natureza. No outro, temos uma definição social da cultura humana, na qual o ato de partilhar o alimento estabelece uma relação entre natureza e nutrição.

Ressignificação: comer e beber coletivamente reestabelece uma sintonia com nossa natureza humana (com o caráter social da natureza humana). O banquete (ágape) é uma expressão de amor fraterno. O simpósio – de sympósion: originalmente beber e conversar – é uma forma de aprendizagem coletiva e enseja o que hoje se chama de collective creativity e de collective knowledge.

A celebração, parte integrante do jogo O Melhor Lugar do Mundo, quase sempre envolve o compartilhamento de alimentos e bebidas.


CELEBRAR E COMEMORAR (FESTEJAR)

 No jogo O Melhor Lugar do Mundo, se você estiver em dúvida entre uma reunião e uma festa, não hesite em desistir da primeira. A festa é sempre preferível. É uma linguagem reconhecida pelo social, recompensada pela interação e mais pontuada pelo jogo.

Diz-se que o humano é naturalmente celebrativo. É um modo de estabelecer uma sintonia com o fluxo da vida (e não é por acaso que as celebrações ancestrais via de regra estavam ligadas ao ciclo natural de nascimento, crescimento, envelhecimento e morte).

Em O Melhor Lugar do Mundo a celebração faz parte da liturgia do jogo. É um modo de comemorar, tornando pública (leituourgia) a realização de um desejo.


COMPARTILHAR HISTÓRIAS E EXPERIÊNCIAS

 Ouvir e contar histórias e experiências que promovam encantamento ressintoniza o social e, assim, é uma atividade recompensada pela interação e pontuada no jogo.

Mais do que isso, porém: o storytelling faz parte de O Melhor Lugar do Mundo. É o modo pelo qual um desejo realizado é difundido, disseminado para os players, por meio de textos, apresentações, áudios e videos.

A plataforma do social game vai, além disso, ativar uma timeline capaz de permitir a construção de um relato atualizado da história de cada país ou dos seus percursos de desenvolvimento.


DAR E RECEBER PRESENTES

 Dar e receber presentes evoca uma ecologia (da dádiva) para além de uma economia (da troca): quando você paga para ter alguma coisa, tudo fica na mesma, mas quando você ganha alguma coisa, aí sim você é verdadeiramente enriquecido.

Sim, as interações econômicas não são apenas de troca. Há uma economia, ou melhor, uma ecologia da dádiva. Quanto você troca uma coisa por outra não ganha nada: substitui uma coisa por outra. A máxima cínica (às vezes atribuída ao hinduísmo) “tudo que não é dado está perdido” significa “é dando que se recebe”, sim, mas não porque você dá instrumentalmente esperando receber algo em troca (como no chamado altruísmo recíproco interpretado por economistas) e sim porque, na ecologia do seu ecossistema comunitário, dar é a maneira de, para usar uma linguagem poética, deixar passar o fluxo da vida. O fluxo voltará para você na forma de maior capacidade de se transformar em congruência com as mudanças do meio. Ou seja, a dádiva faz parte da capacidade biológico-cultural – extremamente relevante em nossa história evolutiva – de conservar a adaptação.

A doação é altamente valorizada no jogo O Melhor Lugar do Mundo. E a criação de datas comemorativas e festividades para a troca de presentes também será estimulada e recompensada pelo game.

 

NAMORAR

Como diz um conhecido site de relacionamentos com 24 milhões de pessoas registradas: “be2 leva você ao amor de sua vida”. Por que não? Por que o desejo de namorar deveria ser excluído da lista dos fatores que influem decisivamente no metabolismo das redes de desenvolvimento comunitário?


Tudo que conta aqui é o namoro. Casamento (o contrato, em geral de exclusividade) sem namoro, não é recompesado pela interação e, consequentemente, também não é recompensado no jogo. O Melhor Lugar do Mundo pode ser encarado, nesse sentido, como uma agência de namoro e sua plataforma cumprirá o papel de um site de relacionamentos amorosos (lato sensu, porém, compreendendo eros, filos e ágape) dentro de cada país social criado.

 

APRENDER

Aprender é, antes de qualquer coisa, estabelecer conexões, reconhecer padrões, linguagear e conversar (no sentido que Humberto Maturana confere a essas noções). Na verdade, aprender é interagir: se adaptar, imitar, colaborar (a linguagem é uma forma de colaboração, talvez a sua forma básica).

Em O Melhor Lugar do Mundo os desejos de aprender são altamente valorizados. E comunidades de aprendizagem em rede, conformadas para experimentar sistemas sócio-educativos – como os arranjos educativos locais e assemelhados – sobretudo quando não reproduzem as burocracias do ensinamento chamadas de escolas, não são baseadas na relação professor-aluno e estimulem o collective knowledge são excepcionalmente bem pontuadas.

 

CO-CRIAR

Assim como o chamado collective knowledge, a collective creativity também é fortemente estimulada pelo jogo O Melhor Lugar do Mundo. A formação de ambientes de co-creation será muito bem pontuada pelo jogo.

Mas não se trata propriamente de coworking, um novo padrão de trabalho que, diz-se, segue uma tendência mundial contemporânea. Não é uma porção de pessoas trabalhando juntas (em termos de contiguidade espacial), cada qual com um objetivo e sim comunidades de pessoas compartilhando atividades criativas.

O Melhor Lugar do Mundo não valoriza nem recompensa o trabalho e sim a criatividade e o empreendedorismo. Porque trabalho não é uma atividade recompensada pela interação e não promove sintonização com o social: pelo contrário, o trabalho repetitivo, o trabalho que exige sujeição e obediência, o trabalho que significa o abandono do próprio sonho para se subordinar a execução do sonho alheio é uma das causas da perda de contato com a rede-mãe. Alugar a própria força e inteligência para a execução de atividades que não respondem aos próprios desejos é mais ou menos assim como vender a alma. O Melhor Lugar do Mundo é um jogo de criação de alma (ou humanidade) e não de seu aniquilamento.

 

COLABORAR E AJUDAR (AJUDA-MÚTUA)

A colaboração e a ajuda-mútua é o principal fundamento do social game O Melhor Lugar do Mundo. Na verdade, é tudo: trata-se de um jogo colaborativo.

Quando uma pessoa ajuda outras pessoas em uma comunidade de players ou quando uma comunidade ajuda outra comunidade a realizar o seu desejo, elas são muito bem pontuadas no jogo, fazem jus a badges especiais e viram (ou entram na) história do país!

 

COMPARTILHAR UMA MÍSTICA OU ESPIRITUALIDADE

Excetuadas as formas religiosas ou sectárias que promovam separações entre o fiel e o infiel, não há qualquer problema em compartilhar uma mistica ou espiritualidade com outras pessoas.

Serão especialmente reconhecidas no jogo as formas de espiritualidade recompensadas pela própria interação, abertas ao compartilhamento fortuito e não fechadas em clusters dos que professam a mesma fé.

A estes assim chamados pequenos atos cotidianos, acrescenta-se apenas um:

 

EMPREENDER COLETIVAMENTE

Empreendimento coletivo é qualquer ação social (lato sensu, incluindo o que se chama de cultural) ou empresarial que reúna pelo menos três pessoas.


O Melhor Lugar do Mundo é um jogo de empreendedorismo coletivo, quer dizer, voltado para a realização do sonho, do desejo de uma pessoa que precisa de outras pessoas – que têm sonhos ou desejos congruentes – para materializar o seu sonho e realizar o seu desejo.

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