Escola de Redes

Cada um de Nós é uma Multidão

Do site do Centro de Psicossíntese de São Paulo (indicação do Fabio Novo no Facebook)

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Cada um de Nós é uma Multidão  

por Diana Whitmore (#)

O artigo a seguir foi extraido do livro de Diana Whitmore Joy of Learning, Aquarian Press, Dartford, UK - 1990, capítulo 4. O artigo foi traduzido para o português por Andrée Samuel. [nota do Redator]

Mary, uma jovem de 11 anos, acorda cedo para ter um tempo na companhia de sua mãe antes dessa ir para o trabalho e Mary para o colégio. Esse momento especial para Mary e para a mãe é vivido tranqüilamente lendo um livro e conversando sobre o dia que terão pela frente. Mary curte muito esses momentos nos quais sua mãe é muito amorosa com ela e tende a regredir para um comportamento de uma criança com idade inferior à que ela de fato tem. Ela busca a segurança, o afeto e a atenção de sua mãe de um modo muito infantil, evocando na mãe sentimentos de proteção, de pegá-la no colo e abraça-la.

Mary vai para a escola, encontra sua amiga e parece ser uma pessoa diferente. Com a sua amiga Mary parece mais velha, orgulha-se de suas notas da aula de artes parecendo estar muito confiante em si e à vontade. Ela diz para a amiga a que farão após as aulas e ela decide que jogos jogarão no recreio. Ela claramente é o líder nessa relação sendo que a sua amiga tem um papel de subserviência.

No caminho da escola Mary e sua amiga encontram dois meninos de sua classe e, novamente, o comportamento de Mary se modifica. Agora ela é agressiva e impetuosa, caçoando dos meninos e provocando-os, irritando-os chegando até o ponto de empurrar um deles. Ela claramente não gosta de um dos meninos e demonstra-lhe isto verbalmente e através do seu comportamento.

Na escola, na aula de matemática, mais uma vez o comportamento de Mary se modifica dramaticamente; agora ela parece confusa, perto das lagrimas e incapaz de trabalhar. Pede a ajuda constante do professor, não compreende a tarefa a ser feita e é surpreendida copiando a lição de outra criança. Quando confrontada com esse comportamento, ela chora copiosamente dizendo que é burra, é incapaz de fazer a lição de matemática e que é um fracasso.

À tarde, na sua aula predileta – artes – Mary se sai brilhantemente demonstrando um grande talento artístico e muita criatividade. Ela está radiante, cooperativa contribuindo para animação da sala. Ela ajuda as outras crianças demonstrando sensibilidade e compaixão.

Num período curto de tempo Mary demonstrou cinco tipos diferentes de comportamentos, indo de um extremo ao outro. Ela parece ser diferentes pessoas e pode estar confusa pelo seu próprio comportamento inconsistente chegando até a pensar que deve haver algo errado com ela. Ela pode estar assustada com seu comportamento agressivo e procurar contrabalança-lo sendo uma boa menina.

Há tantas partes diferentes em nós e tantas variedades de comportamentos e estados internos nos quais entramos que tudo isto parece estar fora do nosso controle consciente. Podemos nos sentir às vezes como sendo várias diferentes pessoas, a despeito de nós mesmos. Quando uma criança se comporta mal, geralmente sente que o fez a despeito de si mesmo – ele não queria realmente ser difícil ou causar o transtorno pelo qual está sendo repreendido.

Assim como as crianças se percebem agindo diferente em situações diferentes, o mesmo ocorre com os adultos – até mesmo com os educadores. É claro que nosso comportamento como educadores varia em função daquilo que acontece na nossa vida pessoal, daquilo que sentimos e do como nossas crianças estão se comportando. Nosso estado interno pode mudar repentinamente da paciência e compaixão para a irritação e o desgosto. Nosso diretor aparece na sala de aula e nos tornamos o professor ideal, orientando a classe com muita habilidade. Podemos estar claramente conscientes da nossa necessidade de impressiona-lo com nossos talentos educacionais. Quando Mary se mostra confusa e chorosa durante a aula de matemática, podemos às vezes sentir compaixão e pacientemente ajuda-la nesse momento difícil para ela. Em outros momentos, talvez por ter sido aquele um dia extenuante, nos sentimos cansados com esse seu comportamento e não lhe damos atenção achando que já está na hora dela aprender a não ser mais uma “criancinha”.

Podemos facilmente perceber nossa própria multiplicidade reconhecendo o quanto modificamos nossa aparência na vida, nossa auto-imagem, nossa percepção e nosso comportamento em relação aos outros assim como nossa experiência interior. A vida pode nos parecer: uma luta, uma dança maravilhosa, um jogo prazeroso, uma tarefa a ser cumprida ou uma existência plena de significado. Um modo de perceber essa multiplicidade é através do modelo das subpersonalidades.

As subpersonalidades são configurações autônomas dentro do todo da personalidade. São identidades psicológicas, co-existindo como uma multiplicidade de vidas numa pessoa; cada subpersonalidade tem padrões de comportamentos específicos e características individuas formando uma entidade relativamente unificada. Cada uma delas tem um estilo e uma motivação por si só que é freqüente e surpreendentemente diferente das outras subpersonalidades. De um certo modo, cada um de nós é uma multidão. Numa criança pode ter o aprendiz cooperativo, o artista brilhante, o super leitor, o rebelde, a criança regredida, o organizador, o palhaço da classe, o amigo amoroso, o sabotador, a boneca adorável, o líder maduro, etc. No educador pode ter a mãe frustrada, o “baby sitter” que se sente aborrecido, o santo satisfeito, o mártir sacrificado, a atriz fracassada, o psicólogo analítico, a autoridade intolerante, o idealista irritado, o doador cansado, o facilitador paciente, o pragmático rígido ou o professor sábio. Cada um dessas características ou subpersonalidades disparatadas demonstrará posturas e mesmo estados físicos únicos; terá suas qualidades emocionais próprias e terá uma determinada atitude mental com crenças, atitudes e visão de mundo correspondentes.

Cada subpersonalidade tem sua própria maneira de se relacionar e de se expressar. Freqüentemente, as subpersonalidades são reativas ao ambiente e são estimuladas por eventos. Por exemplo, se eu retornar do trabalho e encontrar a casa bagunçada, minha subpersonalidade “arrumadeira” aparece, eu me sinto com raiva e me recuso a cozinhar o jantar. Se uma criança se comporta mal, o educador pode ter evocada a sua subpersonalidade “autoridade intolerante”; se por outro lado a mesma criança está assustada, o “facilitador paciente” pode emergir. Da mesma maneira, uma criança pode se comportar de um modo cooperativo e sensível na classe, e se transformar em monstro em casa.

Uma grande limitação para o desenvolvimento da criança, e para a emergência de sua própria personalidade única, pode ocorrer quando ela se identifica fortemente com um familiar e quando essa identificação é tão completa que ela se torna um retrato vivo desse familiar, possuindo todos os maneirismos e idiossincrasias dessa pessoa. O modelo de subpersonalidade pode ser usado para aliviar esse estado não saudável, desviando a atenção para outras subpersonalidades, mesmo para subpersonalidades desconhecidas, permitindo-lhes soltar essa identificação.

Quando uma pessoa está identificada com alguma de suas subpersonalidades, sua vivencia é de que ela é essa subpersonalidade e, como conseqüência, ela perde o acesso com o todo que é a sua personalidade. Por exemplo, se eu estiver identificada com uma subpersonalidade predominantemente emocional, estarei sendo governada pelos meus sentimentos e estarei afastada da minha mente racional. Se eu estiver identificada com uma subpersonalidade profissional poderei estar afastada dos meus sentimentos e/ou de minha intuição. As subpersonalidades em si não são limitantes; é a nossa identificação inconsciente com elas que é limitante.

Assagioli descreveu a incongruência que aparece às vezes entre as subpersonalidades quando escreveu:

“Não estamos unificados; freqüentemente achamos que o estamos, porque não temos muitos corpos nem muitos membros, nem porque uma mão geralmente não machuca a outra. Porém, metaforicamente, isso é exatamente o que acontece conosco. Várias subpersonalidades lutam continuamente: impulsos, desejos, princípios, aspirações são envolvidos numa briga continua.”

Idealmente nós queremos o acesso à nossa personalidade inteira para escolher um comportamento apropriado de acordo com a situação de nossa vida. Nossas subpersonalidades são como músicos de uma orquestra; com cada instrumento tocando a sua própria musica, a desarmonia e talvez o caos resultarão. Evidentemente a orquestra precisa de um maestro que dirigirá os instrumentos para criar uma sinfonia harmoniosa. Todos os músicos são necessários, mesmo que em certos momentos um ou outro seja chamado a apresentar-se solo. Freqüentemente nossa experiência do dia a dia é semelhante à desarmonia de uma orquestra, com as diversas partes nossas procurando uma expressão e controlando inconscientemente nosso comportamento, em vez de se organizar de uma maneira complementar.

Estamos todos sujeitos a nos deparar com forças desconhecidas dentro de nós mesmos. Podemos nos perceber ressentidos ou ameaçados por algo ou alguém; é de grande importância que façamos um exame cuidadoso das motivações subjacentes a esses sentimentos. Talvez estejamos vivenciando uma situação que nos confronta com nossa idiossincrasia de como gostaríamos que as coisas fossem; talvez essa situação e/ou essa pessoa representa algo com o qual inconscientemente temos medo de nos confrontar. Quando não damos a devida atenção a esses estados internos, quando os deixamos de lado ou os jogamos em baixo do tapete, nossa percepção da realidade e nossas relações tendem a se dar de um modo distorcido.

Diana Whitmore      

(#) Diana Whitmore: Psicoterapeuta; MA em Educação Confluente, pela Universidade de Califórnia; estudando PhD em Educação pela Universidade de Surrey; fez treinamento didático com Dr. Roberto Assagioli, fundador da Psicossíntese; fez treinamento de Psicossíntese Humanística no Instituto Esalen, Califórnia.

Presidente, e anteriormente Diretora Executiva, do "Psychosynthesis & Education Trust" Centro de Psicossíntese de Londres, que foi fundado pelo Dr. Roberto Assagioli em 1965; Diretora Fundadora do "COUI / UK - Children: Our Ultimate Investment"; Vice-Presidente do Conselho do "COUI / USA - Children: Our Ultimate Investment"; dirige atualmente o programa "Teens & Toddlers" para prevenção de gravidez nas adolescentes; Membro do Conselho de Diretores do "Findhorn Foundation College"

Com mais de 28 anos de prática de psicossíntese, ela treinou numerosos profissionais em psicoterapia, aconselhamento e educação em toda Europa. Autora dos livros "The Joy of Learning - A Guide to Psychosynthesis in Education" Ed. Crucible / The Aquarium Press, UK - 1990 e "Psychosynthesis Counselling in Action" Ed. SAGE Publications, London - 2000.

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