Escola de Redes

A ideia de formular alguns princípios da cocriação surgiu na experiência do Festival de Ideias, uma iniciativa do Centro Ruth Cardoso que começou em 2011 e teve continuidade em 2012 e 2013.

 

Nas sessões semanais de cocriação promovidas pela iniciativa surgiu a ideia de decorar o ambiente com um cartaz com as seguintes sentenças:

 

1 - Entrada e tema abertos | Qualquer pessoa pode entrar para cocriar e para propor temas inesperados.

 

2 - Desfecho aberto | Não há um resultado esperado a ser alcançado.

 

3 - Processo free | Não há uma metodologia ou um conjunto de passos que as pessoas devam seguir para atingir um objetivo prefixado. Somente livre-conversação!

 

4 - Estrutura distribuída | Em um campo de cocriação todos interagem em igualdade de condições (não há dirigentes, professores, palestrantes, coordenadores ou facilitadores: todos os cocriadores são netweavers).

 

5 - Dinâmica interativa | A cocriação não tem procedimentos participativos (como a reunião coordenada, a votação e a construção administrada de consenso). Ninguém precisa acatar decisões. Todos são livres para interagir como quiserem.

 

Ao ler esses princípios muitas pessoas ficam em dúvida. A primeira pergunta que em geral vem à cabeça de quem nunca participou de um processo de livre-interação nesses termos é:

 

– Será possível uma coisa assim “dar certo”?

 

Quando pensam mais sobre isso – sem se integrar ao processo de cocriação – a dúvida inicial só tende a aumentar. E aí vêm os questionamentos:

 

– Para quê marcar reuniões sem pauta, sem metodologia, sem programação, onde nada é oferecido? Isso não tem nenhuma objetividade e logo as pessoas se cansarão de ir a um lugar desses, sem atrativos, onde as coisas só acontecem se elas mesmas tomarem a iniciativa de produzi-las. Por outro lado, como conseguiremos manter uma atividade assim, sem projetar resultados esperados?

 

Bem... Nossa experiência tem revelado que não adianta muito dar respostas teóricas para tais perguntas se o objetivo é convencer quem está em dúvida. Não há como ter um entendimento da cocriação sem experimentá-la. A dinâmica da interação só pode ser percebida enquanto interagimos. Como escreveu Johann Wolfgang von Goethe em Poesia e Verdade (1811): “Die Quelle kann nur gedacht werden, insofern sie fließt” (“a fonte só pode ser pensada enquanto flui”) (1).

 

De qualquer modo, mesmo para os que já experimentaram tal dinâmica, parece haver a necessidade de entender melhor o que de fato acontece quando pessoas interagem livremente para criar ideias. Então resolvemos comentar os princípios da cocriação que surgiram da nossa experiência particular e de outras experiências que estão acontecendo neste momento em numerosos lugares do Brasil e de outros países.

 

Quem sabe isso também possa ajudar aqueles que precisam de argumentos para apoiar tais experiências (ou, pelo menos, para deixar que elas aconteçam em seus espaços) (2).

 

 

O QUE É COCRIAÇÃO INTERATIVA

 

Cocriação (co-creation) é o processo pelo qual várias pessoas criam (ou desenvolvem) ideias conjuntamente. A cocriação diz-se interativa (ou em rede) quando tem entrada e tema abertos, desfecho aberto, processo livre (sem metodologia predeterminada imposta a todos, embora qualquer grupo seja livre para adotar a metodologia que quiser), estrutura distribuída e, obviamente, dinâmica interativa.

 

Acontece assim. As pessoas vão para um determinado lugar (físico ou virtual) e lá começam a conversar umas com as outras sobre suas ideias. William Irwin Thompson (1987), em Gaia: uma teoria do conhecimento, escreveu que “as ideias, como as uvas, dão em cacho”. Uma ideia puxa outra, cada ideia namora outras (no plural, hehe), várias ideias são polinizadas por outras formando cachos de ideias congruentes. Se der liga, daí podem sair projetos que serão desenhados e implementados coletivamente. Pronto. Acabou (ou melhor: começou!).

 

Simples demais. É difícil acreditar que isso possa funcionar. Mas tal simplicidade esconde uma alta complexidade. A cocriação interativa depende de um processo extremamente complexo que chamamos de conversação, em que ideias diferentes se combinam e recombinam, da nossa capacidade de bifurcar (fork) e de abrir nossos próprios caminhos (mow = my own way) para criar novas ideias a partir das ideias que interagiram e se polinizaram mutuamente na conversação.

 

Algumas pessoas, por mais que tentem, não conseguem ver o sentido da cocriação interativa (ou em rede). Mas esta é a questão central. Ou esse processo acontece de maneira mais centralizada do que distribuída (sob uma hierarquia) ou ele acontece de maneira mais distribuída do que centralizada (em rede). Para entender a cocriação em rede é necessário perceber as diferenças entre campos de reprodução e campos de criação.

 

Campos de reprodução e campos de criação

 

Em geral vivemos em campos de reprodução, ou seja, ambientes configurados por caminhos feitos para aprisionar e direcionar fluxos, como se fossem sulcos para fazer escorrer por eles as coisas que ainda virão. Nesses campos, dificilmente surge o novo porque as estradas para o futuro já foram pavimentadas por alguém (por algum centro constituído) antes da interação. Em geral quando percorremos essas trilhas repetimos passado.

 

Nossas instituições de todos os “setores” (empresariais, governamentais e sociais) foram estruturadas para a reprodução, não para a inovação. Elas foram desenhadas como campos na rede social para condicionar fluxos, obrigando-os a passar pelos mesmos caminhos. Dentro de tais ambientes instalam-se circularidades inerentes às conversações recorrentes e é isso que convencionamos chamar de “cultura organizacional”. Quando estamos imersos em um desses campos sociais deformados pela hierarquia temos a impressão de que as ideias ali não se renovam, parecendo ser sempre as mesmas.

 

Foi por causa disso que a ideia de inovação ganhou tanta notoriedade, sobretudo nos meios corporativos, que são ambientes de aprisionamento e condicionamento de fluxos. As ideias novas têm mesmo dificuldade de surgir ou de ser identificadas como tais nesses meios, não porque lá não existam pessoas criativas (todas as pessoas são criativas) e sim porque essas pessoas estão imersas em ambientes que não são criativos (posto que foram desenhados para a reprodução e não para a criação). Reprodução é resultado de condicionamento de fluxo, como naquela máquina infernal de Modern Times, o magnífico filme de Chaplin (1936).

 

É por isso que os administradores de organizações ficam tão angustiados com o baixo nível de inovatividade de seus funcionários. Como o modelo de gestão foi desenhado para comando-e-controle, ela dá conta de viabilizar a reprodução, mas é incapaz de ensejar a criação. E é por isso que os gestores corporativos aderem, pressurosos, à velha idéia de co-creation que surgiu no mundo dos negócios: pressionados pelo mercado a inovar para sobreviver, eles querem inovar de qualquer jeito e se isso não está sendo fácil de realizar com o público “interno”, por que não tentar o público “externo”?

 

Eles pensam na base daquela Joy’s Law: os caras mais criativos devem estar em outro lugar e eu tenho que lançar meus tentáculos para capturá-los ou, pelo menos, para ter acesso a eles (com baixo custo, para não inviabilizar meu negócio). Isso também explica o sucesso do crowdsourcing (apreendido pelos administradores como uma espécie de outsourcing).

 

O impulso de se abrir ao ecossistema é basicamente correto, mas o caminho que escolheram, tomado por motivos errados, é errado (pois enquanto permanecer a separação rígida ou a fronteira opaca entrestakeholders “internos” e “externos” não poderá ocorrer a tão desejada open innovation). Um caminho errado levará a um resultado também errado: o índice de inovatividade de corporações que tomaram tal caminho, usando todas as modas mais updated de gestão disponíveis na prateleira de novidades da alta consultoria empresarial (open innovationcrowdsourcingco-creation e o que mais for inventado), não cresceu significativamente. A despeito da intensa autopropaganda dos consultores de inovação, qualquer pessoa inteligente sabe que inovador é quem inova e não quem fala sobre inovação.

 

Mais recentemente estão surgindo práticas de interactive co-creation como open distributed innovation. Ela éopen, ou seja, a entrada e os temas são abertos (qualquer pessoa pode entrar para cocriar e para propor temas inesperados). Seu desfecho também é aberto (não há um resultado esperado a ser necessariamente alcançado). Seu processo é free (não há uma metodologia ou um conjunto de passos que as pessoas devam seguir para atingir um objetivo prefixado: somente livre-conversação). Sua estrutura é distribuída (em um campo de cocriação todos interagem em igualdade de condições; não há dirigentes, professores, palestrantes, coordenadores ou facilitadores: todos os cocriadores são netweavers). E sua dinâmica é interativa (a cocriação não tem procedimentos participativos, como a reunião coordenada, a votação e a construção administrada de consenso. Ninguém precisa acatar decisões. Todos são livres para interagir como quiserem).

 

Mas qual é o objetivo de tudo isso? Ora, o nome já está dizendo. Tal esforço visa a conformar um campo de criação. Na verdade trata-se de criar um abrigo, um refúgio para que as pessoas possam – ainda que durante breves intervalos de tempo – escapar dos campos de reprodução (da Matrix).

 

Para ensaiar a interactive co-creation devemos gerar um campo de co-creation – um ambiente. Como percebeu McLuhan (1974), a inovação tem a ver com ambiente, não com tecnologia; e, poderíamos acrescentar, nem com metodologia (que também é uma tecnologia) (3). Esse ambiente pode ser um lugar físico ou virtual. Ambos parecem ser necessários.

 

Resumindo. Cocriação (co-creation) é o processo pelo qual várias pessoas criam (ou desenvolvem) ideias conjuntamente. Toda criação é uma cocriação na medida em que nenhuma ideia nasce do nada. Nenhuma pessoa concebe uma idéia a partir do zero. Uma ideia é sempre um clone de outras ideias (um clone sempre diferente porque sujeito a um processo variacional).

 

Segundo o conceito de cocriação interativa (ou i-based co-creation como open distributed innovation) todas as ideias são frutos da interação (envolvendo cloning, uma fenomenologia da interação). A cocriação interativa (ou em rede) é imprevisível, intermitente, aberta, distribuída e, obviamente, interativa (quer dizer – o que já não é tão óbvio – não-participativa).

 

O sentido mais profundo dessa elaboração talvez possa ser resumido na frase seguinte:

 

Em uma espécie de invocação de entidades ainda desconhecidas e que não controlamos, ensaiamos na i-based co-creation um novo modo de convivência capaz de dar vida ao simbionte social que prefiguramos quando nos abrimos à interação com o outro-imprevisível” (4).

 

Se ambientes hierárquicos são campos de reprodução (no melhor dos casos, de criação dirigida), então só a livre criação coletiva pode constituir ambientes distribuídos dando à luz a outros mundos.

 

Para configurar campos de criação

 

São campos de reprodução (da Matrix, hehe, para abusar da metáfora) as escolas, as igrejas, as corporações, os partidos, os Estados, as empresas hierárquicas e as organizações sociais tradicionais (como as entidades da nova burocracia associacionista das ONGs, por exemplo). Na verdade todas as organizações hierárquicas são campos de reprodução e, em um sentido amplo do conceito, todas são escolas na medida em que todas são erigidas por pessoas que não conseguem resistir à tentação-docente (quer dizer, à tentação de ensinar para conduzir os outros). Em contraposição, todos os ambientes conformados por redes distribuídas (ou mais distribuídas do que centralizadas) são campos de criação.

 

A melhor maneira de configurar campos de criação e criar ambientes de cocriação. É mais simples do que parece e, ao mesmo tempo, mais difícil do que imaginamos em um primeiro momento. É mais simples porque não implica em fazer muita coisa. É mais difícil porque implica mais não-fazer do que fazer (o que estamos acostumados a fazer). Sim, o mais difícil é resistir à tentação de fazer alguma coisa adicional para turbinar a cocriação. É segurar a ânsia de agir, agir, agir, para produzir um bom resultado.

 

Para fazer isso, entretanto, é necessário resistir àquelas tentações muito comuns, que sempre assolam os que se metem a organizar qualquer atividade coletiva de pessoas. As cinco tentações principais que vêm sendo reveladas pela observação atenta são: 1) resistir à tentação de erigir ou de aderir a um grupo fechado que separe os “de dentro” de os “de fora”; 2) resistir à tentação de obter um resultado já conhecido e, portanto, esperado; 3) resistir à tentação de inventar uma metodologia, um conjunto de passos ou procedimentos urdidos antes da interação e válidos para todas as experiências; 4) resistir à tentação docente, stricto e latosensu; e 5) resistir à tentação de forjar um ambiente participativo (e pouco interativo).

 

Os cinco princípios da cocriação introduzidos e comentados neste texto nada mais são do que alertas para evitarmos cair nessas tentações que são continuamente insufladas pela cultura hierárquica predominante nas organizações tradicionais. Para cada tentação há um princípio correspondente. Mas por trás dessas tentações há, em doses variadas, uma ignorância importante do que são redes (ou do que é a fenomenologia da interação). Em geral achamos que o social é o conjunto das pessoas e não o que está entre elas e, assim, não fixamos nossa atenção no que acontece com as pessoas quando deixamos que elas interajam livremente. Com isso temos imensa dificuldade de perceber que a inteligência coletiva não é a soma das inteligências dos indivíduos reunidos.

 

A seguir vamos examinar cada um dos chamados princípios da cocriação relacionando-os com as mencionadas tentações correspondentes.

 

 

PRINCÍPIO 1 DA COCRIAÇÃO

Entrada e tema abertos

 

Qualquer pessoa pode entrar para cocriar e para propor temas inesperados.

 

Esse princípio é um alerta contra a tentação de erigir ou de aderir a um grupo fechado que separe os “de dentro” de os “de fora” e à tendência de fixar um escopo para a atividade criativa.

 

Podemos fazer chamadas a partir de organizações centralizadas, mas não podemos escolher os “bons” ou os melhores de antemão (vetando a entrada dos “maus” ou dos piores, nem impedir que as pessoas se entrada dos “maus” ou dos piores), nem impedir que as pessoas se articulem em rede, ou seja, interajam entre si e com quem mais quiserem para conceber e desenvolver suas ideias e para realizar os projetos decorrentes dessas ideias por sua própria conta.

 

Podemos propor desafios, inclusive listando temas para convocar o exercício da co-creation, mas não podemos impedir que surjam outros temas na interação. Ou seja, a co-creation tem que ser aberta ao que não estava planejado, ao inesperado (que é, justamente, o sentido de inovação).

 

A cocriação é aberta, mas não apenas no sentido da Open Innovation tal como foi recuperada pela gestão corporativa: para as empresas fechadas, open é o que abre as portas (que, obviamente, estavam fechadas porque... elas são fechadas) da organização ao público “externo” (em geral para alguém de dentro sair da caixa com o objetivo de capturar alguma coisa que está fora e, algumas vezes, para deixar uma pessoa – ou idéia – “estrangeira” nela entrar, sem considerá-la como pertencente a ela de fato). Diferentemente dessa concepção, a co-creation é realmente open, num triplo sentido: a) sua chamada ou convocação para os eventos ou espaços é open (neles qualquer um pode entrar, seja para co-criar em temas previamente escolhidos, seja para propor outros temas, inesperados); b) seu processo é open (é um programa não-proprietário, que pode ser copiado, replicado, modificado e reproduzido, pertencendo, portanto, ao domínio público); e c) seu desfecho é open (imprevisível), como veremos no próximo princípio.

 

 

PRINCÍPIO 2 DA COCRIAÇÃO

Desfecho aberto

 

Não há um resultado esperado a ser alcançado.

 

Esse princípio é um alerta contra a tentação de obter um resultado já conhecido e, portanto, esperado.

 

A cocriação é um processo permanente – ou, talvez melhor, intermitente – tão permanentemente imprevisível quanto a criação, que não tem hora para acontecer, para começar ou para acabar. Os eventos ou processos induzidos de co-creation são momentos ou períodos de cruzamento (ou fertilização cruzada) de trajetórias pessoais distintas, mas a cocriação continua depois dos eventos ou dos processos (e já existia, com outras configurações, antes deles). Toda vez que ocorre um evento ou processo de cocriação instala-se um campo de aprendizagem-criação, um ambiente favorável à busca e à polinização, abrindo uma janela para que as pessoas possam escapar dos campos de ensino-reprodução.

 

 

PRINCÍPIO 3 DA COCRIAÇÃO

Processo free

 

Não há uma metodologia ou um conjunto de passos que as pessoas devam seguir para atingir um objetivo prefixado. Somente livre-conversação.

 

Esse princípio é um alerta contra a tentação de inventar um conjunto de procedimentos urdidos antes da interação e válidos para todas as experiências.

 

Podemos estabelecer regras de convivência, mas não podemos obrigar as pessoas a seguir uma metodologia, uma sequência de passos determinada ex ante à interação.

 

Como já há uma rejeição generalizada em certos meios ao dirigismo clássico, ao comando-e-controle puro e simples, inventamos então metodologias para conduzir o povo docemente pela mão. Declaramos que não queremos comandar e sim facilitar, ajudar e, então, inventamos etapas ou passos para as pessoas percorrerem; ou, ainda, dinâmicas para auxiliá-las a fazer aquilo que queremos que elas façam. A desculpa é, às vezes, bastante elaborada: queremos apenas libertar o potencial criativo das pessoas, mas como essas pessoas – em geral chamadas de “excluídos” – estão impregnadas de uma cultura de obediência ou sujeição, possuem baixa autoestima, foram desempoderadas pelas instituições em que vivem ou não têm os conhecimentos ou os instrumentos suficientes, temos que “dar uma mãozinha”, construindo para elas, antes da interação, um caminho para a sua libertação. Sem isso elas não descobririam que são capazes, não tomariam consciência de que podem inventar, inovar, criar.

 

Parte do mercado de consultoria em inovação vive disso. Parte do mercado da intermediação de diálogos vive disso. Vendem metodologias ou processos participativos que inventaram para “soltar” as pessoas de suas amarras.

 

Na cocriação interativa (ou em rede) qualquer grupo que se conformar em torno de uma ideia é livre para adotar a metodologia que lhe parecer mais adequada. Mas não se pode determinar que todos os grupos de cocriação adotem a mesma metodologia.

 

Assim como o desejo – origem de toda criação – não pode ser enfiado de fora para dentro, transfundido por nenhum método de gestão ou programa de atualização, o processo criativo também não pode ser fabricado artificialmente e replicado. Se pudesse não haveria um problema: bastaria seguir a receita, aplicar a fórmula. Mas como ele é imprevisível, envolvendo um número de variáveis que não conseguimos equacionar, a única coisa que podemos fazer é não atrapalhá-lo. Fundamentalmente, para criar zonas favoráveis à criação (campos de co-creation) o que precisamos é de obstruir ou direcionar o mínimo possível os fluxos, aumentando os graus de liberdade das pessoas para interagir.

 

Nada de seguir princípios orientadores como inspire participationselect the very bestconnect creative mindsshare resultscontinue development (inspirar participação, selecionar os melhores, conectar mentes criativas, compartilhar resultados e continuar o desenvolvimento) – para citar o “The 5 Guiding Principles in Co-creation” empacotados pela Fronteer Strategy (5), que, aliás, já começam cometendo o equívoco de confundir participação com interação e continuam errando ao recomendar a seleção das melhores ideias e das melhores pessoas para lidar com questões complexas e ao mandar conectar as mentes criativas, imaginando que mentes criativas são o mesmo que cérebros de indivíduos criativos.

 

Nada de adotar metodologias com passos orientadores como aquela aparentemente tão simpática adotada pelo Design Thinking (em uma de suas versões): defineresearchideationprototypeobjectives,implementlearn (definir, pesquisar, idear, prototipar, objetivar, implementar e aprender).

 

Tudo isso, que à primeira vista parece ajudar a orientar a atividade cocriativa das pessoas, na verdade atrapalha na medida em que restringe a liberdade de interagir.

 

As pessoas que vivem inventando processos e métodos para que as outras façam coisas que elas mesmas não fazem – meio na base do “quem sabe faz, quem não sabe ensina” – precisam cair na real. Em primeiro lugar precisam entender que a criação não é bem um trabalho. É a satisfação de um desejo, uma realização pessoal, o exercício de uma arte e a fruição de um prazer. Ninguém cria porque foi mandado, ninguém cria obedecendo, ninguém cria seguindo um caminho pré-traçado. Criar é usufruir a liberdade de deixar-se-ir. Livre como quem não tem rumo, diria Manoel de Barros (2010) (6). É perder-se para inventar caminho, diria Clarice Lispector (1969) (7). Os poetas, que são pessoas-fluzz, conseguem captar essa complexidade da simplicidade (ou seria o inverso?).

 

 

PRINCÍPIO 4 DA COCRIAÇÃO

Estrutura distribuída

 

Em um campo de cocriação todos interagem em igualdade de condições (não há dirigentes, professores, palestrantes, coordenadores ou facilitadores: todos os cocriadores são netweavers)

 

Esse princípio é um alerta contra a tentação docente, stricto e lato sensu. É um aviso contra o impulso de querer organizar a auto-organização. Falamos da boca para fora, mas no fundo não acreditamos muito que as pessoas, abandonadas a si mesmas, vão conseguir se organizar (por si mesmas). Então temos que conduzir, direcionar, dar a linha, intervir para que todos entrem na trilha que concebemos e produzam os resultados que esperamos.

 

É impressionante como as pessoas têm dificuldade de se libertar da ideia de que a intermediação é necessária. É por isso que a tentação-docente é muitas vezes travestida como facilitação de diálogo, criação de contexto conversacional ou aplicação de metodologias participativas.

 

Existem ainda muitas pessoas que não veem que intermediação é sinônimo de hierarquia. Quando veem, dizem então que isso é uma prova de que a hierarquia é necessária. Ou acham que há uma hierarquia “do bem” (para ajudar as pessoas a se libertarem) e outra “do mal” (que aprisiona as pessoas). Não veem que toda libertação é, justamente, uma libertação da... hierarquia. Talvez porque não tenham visto ainda que hierarquia é sinônimo de centralização (obstrução de caminhos). E que libertação é sempre distribuição (abertura de múltiplos caminhos). Ou seja, rede!

 

Mas a cocriação interativa é distribuída, não centralizada ou descentralizada. Distribuída de fato, quer dizer, a topologia da rede social que se configura no processo de co-creation é distribuída (ou, pelo menos, mais distribuída do que centralizada). Isso significa que não há hierarquia na cocriação, ou seja, não há a possibilidade de alguém, em virtude do cargo ou posição que ocupa em uma estrutura de poder, mandar nos outros, dizer o que eles devem ou não devem fazer exigindo-lhes obediência. Em um campo de co-creationtodos interagem nas mesmas condições (o CEO e o auxiliar de escritório). E os articuladores e animadores dos eventos ou processos de cocriação não podem conduzir os cocriadores, seja por meio da inculcação de ensinamentos (como se fossem professores), seja por meio de tecnologias ou metodologias que obriguem os fluxos a passar por determinados caminhos pré-traçados. Articuladores e animadores de processos de cocriação são netweavers, não dirigentes.

 

Quando comparecem em sessões de cocriação interativa, os que estão acostumados a cumprir o papel de mediadores, bem como os que estão com medo de perder o seu papel (e, às vezes, o seu trabalho remunerado) de facilitadores, em geral ficam perdidos e não sabem bem o que fazer. Em vez de se juntarem ao processo, iniciando uma ideia ou aderindo a uma ideia já proposta por alguém, eles querem ensinar as pessoas como transformar suas ideias em projetos bem-sucedidos a partir de um conjunto de crenças (ideológicas) sobre as características “vencedoras” que deve possuir o criador da ideia (ou “o” empreendedor – em geral tomado sempre como um indivíduo que soube se destacar), sobre o modelo de negócio com mais chances de sucesso ou sobre como deve ser estruturado o tal business plan (que, sabemos, é “um subgênero da ficção contemporânea”, já tuitou recentemente Luli Radfahrer). Mas todas as evidências indicam que o que ajuda a cocriação é cocriar, não dizer como a cocriação deve ser feita.

 

 

PRINCÍPIO 5 DA COCRIAÇÃO

Dinâmica interativa

 

A cocriação não tem procedimentos participativos (como a reunião coordenada, a votação e a construção administrada de consenso). Ninguém precisa acatar decisões. Todos são livres para interagir como quiserem. 

 

Esse princípio é um alerta contra a tentação de forjar um ambiente participativo (e pouco interativo). Sim, participação e interação são coisas muito diferentes.

 

Para que a co-creation seja baseada, como querem alguns de seus principais formuladores, como Ramaswamy e Gouillart, em uma “full theory of interactions” é necessário ter alguma theory of interaction(8). Mas tudo que esses pioneiros da co-creation escrevem não denota algum conhecimento da nova fenomenologia da interação. Com raras exceções, eles não trabalham com emergência, autorregulação e com os fenômenos associados à inteligência coletiva (como o clustering, o swarming, o cloning, o crunching, as reverberações, os loopings etc.) que estão sendo descobertos recentemente (sobretudo a partir dos anos 2000) pela chamada nova ciência das redes.

 

Qualquer teoria da interação será parte integrante da nova ciência das redes porque ambientes de interação são redes (mais distribuídas do que centralizadas e tão mais interativos serão esses ambientes quanto mais distribuídas ou menos centralizadas forem as redes que os conformam). Mas o paradigma dos próceres daco-creation ainda é o da participação (9), quer dizer, sempre voltado à mobilizar e arrebanhar os atores para que eles sejam partícipes de processos pré-desenhados por instâncias centralizadas (e fechadas). E assim como não pode, a rigor, haver inovação aberta em empresa fechada, também não pode haver cocriação interativa em ambientes configurados para a participação.

 

Em ambientes configurados para (ou pela) participação ficamos procurando os nodos que se destacam não somente por entroncar fluxos (atuando como hubs), mas pelo seu poder de impedir que o fluxo escorra por múltiplos caminhos (atuando como filtros ou obstáculos à livre interação). O arrebanhamento participativo pressupõe líderes destacados; no caso, pessoas com alto capital humano, inovadores outliers, criadores excepcionais. O modelo é coletivo, sim, porém centrado nos indivíduos. Quer se beneficiar do efeito-crowd, mas por razões quase estatísticas: garimpando bem miríades de contribuições teremos mais chances de encontrar algumas pepitas preciosas... (10).

 

Tal modelo não leva em conta que para ter boas ideias é preciso ter muitas ideias, não porque descartaremos as ideias ruins, peneirando para ficar apenas com poucas e boas e sim porque toda ideia pode (quem sabe?) ser boa como reagente catalisador ou vetor polinizador no emaranhado maior das ideias que se agrupam e se dispersam, ficam inertes e de repente enxameiam, aparentemente divergem e até se contrapõem, mas, em alguma dimensão, se clonam continuamente e... quando menos se espera, o emaranhado sofre alguma mutação que permite que ideias inicialmente díspares ou incongruentes se encaixem numa nova síntese.

 

Sim, o modelo não leva em conta que para ter ideias extraordinárias precisamos das ideias ordinárias. Que ideias extraordinárias não têm origem em pessoas extraordinárias. Que todas as pessoas, a depender dos arranjos em que estão configuradas, podem cumprir um papel criativo para que o conjunto seja criativo. E eis que surge aquela pedra preciosa, logo identificada pelo seu brilho. Mas – convém repetir – como escreveu o físico Marc Buchanan (2007) em O átomo social: “Diamantes não brilham por que os átomos que os constituem brilham, mas devido ao modo como estes átomos se agrupam em um determinado padrão. O mais importante é frequentemente o padrão e não as partes, e isto também acontece com as pessoas” (11).

 

Ou seja, o modelo implicado na co-creation participativa não tem nada a ver com rede e seus construtores não parecem estar muito familiarizados com o assunto (redes). Do contrário se preocupariam mais com os ambientes do que com as características dos indivíduos, mais com capital social do que com capital humano, mais com a interação do que com a participação, mais com a liberdade para criar do que com as metodologias (e os manuais e os guias) urdidas para, supostamente, promover e conduzir a criação.

 

É incrível que seja assim quando todas as investigações já realizadas sobre grupos criativos mostram que não se pode explicar a sua criatividade (ou o seu alto índice de inovatividade) pela soma das características intrínsecas dos indivíduos agrupados. Um cluster de gênios não produz necessariamente uma ideia genial. E nada garantiria que um grupo de clones de Albert Einstein fosse capaz de produzir uma teoria da relatividade melhor do que a que ele produziu (aparentemente) sozinho. (E o mais interessante dessas receitas manualizadas para produzir criatividade é que em nenhum lugar onde elas foram aplicadas surgiram assim tantos Einsteins).

 

Porque as redes têm o seu próprio metabolismo. Às vezes um único input originado de uma pessoa considerada medíocre é o fator decisivo para constelar uma concepção criativa sintetizada por uma pessoa considerada genial (que passa a ser considerada genial por tal motivo, pelo fato de ter conseguido expressar uma síntese, como resultado de um processo que percorreu, como relâmpagos que se bifurcam sucessivamente, os múltiplos caminhos da rede). A mente brilhante, a mente genial é sempre responsável pela ideia genial, mas a mente não é o cérebro (individualizável posto que residente no corpo físico de um indivíduo) e sim uma nuvem social. Bem... aqui começa a conversa.

 

 

NOTAS

 

(1) GOETHE, Johann Wolfgang von (1811). Memórias: Poesia e Verdade. Brasília: Hucitec, 1986.

(2) Este texto está baseado em um estudo mais longo publicado em janeiro de 2012 pelo autor. Cf. FRANCO, Augusto (2012). Cocriação: reinventando o conceito:

http://www.slideshare.net/augustodefranco/cocriao-reinventando-o-co...

(3) Cf. McLuhan em uma palestra pública – intitulada “Viver à velocidade da luz” – em 25 de fevereiro de 1974, na Universidade do Sul da Flórida, em Tampa, explicando o que entendia por seu famoso aforismo “o meio é a mensagem”: “Significa um ambiente de serviços criado por uma inovação, e o ambiente de serviços é o que muda as pessoas. É o ambiente que muda as pessoas, e não a tecnologia. (Mc Luhan por McLuhan, de David Staines e Stephanie McLuhan (2003). São Paulo: Ediouro, 2005. Título original: Understanding me: lectures and interviews. http://trick.ly/4ra

(4) FRANCO, Augusto (2011). Fluzz: vida humana e convivência social nos novos mundos altamente conectados do terceiro milênio. São Paulo: Escola-de-Redes, 2011:

http://www.slideshare.net/augustodefranco/fluzz-book-ebook

(5) PATER, Martijn (2009). “Co-Creation’s 5 Guiding Principles”:http://www.fronteerstrategy.com/uploads/files/FS_Whitepaper-Co-crea...

(6) Alusão ao verso de Manoel de Barros (2010) – “Livre, livre é quem não tem rumo” – em “Menino do Mato”. Cf. BARROS, Manoel (2010). Poesia Completa. São Paulo: Leya, 2010.

(7) Alusão ao verso de Clarice Lispector (1969) – “Perder-se também é caminho” – em LISPECTOR, Clarice (1969). Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

(8) Ramaswamy, Venkat & Gouillart, Francis (2010). The Power of Co-Creation: Build It with Them to Boost Growth, Productivity, and Profits. Simon & Schuster, Free Press.

(9) Cf. FRANCO, Augusto (2011). É o social, estúpido! Três confusões que dificultam o entendimento das redes sociais:

http://www.slideshare.net/augustodefranco/o-social-estpido

(10) Como diz o manual da Fronteer Strategy, um dos passos fundamentais para administrar a co-creation é “select the very best”, pois “co-creation works with the 1%” (A). Segundo esse manual existe uma regra emergente: 1% das pessoas (que estão no cume da pirâmide), em qualquer comunidade, gera a maioria da produção criativa do grupo, 10% seriam compostos por “sintetizadores” e todos os demais (dos 100% que totalizam a pirâmide) seriam apenas consumidores. Obviamente é uma visão mercadocêntrica do mundo, mas a despeito disso é uma apreensão errada da hipótese do 1%, que faz sentido na rede (tendo a ver, entre outras coisas, com a refiação em redes P2P) e não na pirâmide (B). (A) (12) Cf. PATER, Martijn (2009). “Co-Creation’s 5 Guiding Principles”: http://www.fronteerstrategy.com/uploads/files/FS_Whitepaper-Co-crea... | (B) Cf. Cf. FRANCO, Augusto (2009). O Misterioso 1%:http://www.slideshare.net/augustodefranco/o-misterioso-1

(11) BUCHANAN, Marc (2007). O átomo social. São Paulo: Leopardo, 2010.

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Respostas a este tópico

Excelente texto Augusto. O melhor de tudo é conseguir colocar em prática todos esses 5 princípios da cocriação. Na universidade onde fiz meu mestrado, UFG, criamos um ambiente onde todos os mestrandos e orientadores podem de maneira similar expor suas ideias ou pesquisas, para que o restante das pessoas possa contribuir com os respectivos projetos. O resultado tem sido muito proveitoso, até porque não tínhamos uma expectativa ou um resultado esperado desses constantes debates, queríamos somente interagir e ver o que acontecia. O projeto desenvolvido na minha própria dissertação teve uma alteração fundamental, propiciada pelas ideias complementares expostas pelos colegas. Similarmente, também já pude contribuir significativamente com os projetos de meus pares. Assim, vamos acompanhando o que todos os pesquisadores vêm desenvolvendo ou projetando, e o processo de criação ou de concepção de uma nova ideia acaba sendo coletivo e principalmente estimulante. Digo principalmente, pois é notório o entusiasmo de cada um em poder interagir com seus pares, e de alguma forma contribuir para o refinamento de uma ideia. Venho percebendo que na maioria das vezes, a grande maioria dos pesquisadores interage espontaneamente durante as sessões, e se mostra engajada no processo co-criativo. Até mesmo temas de dissertações de mestrado já foram propostos ou alterados durante as sessões, jamais por meio de imposições centralizadas. Pelo contrário, os próprios idealizadores de um determinado projeto, por vezes percebem com as interações que o caminho pode ser modificado, com grandes possibilidades de produção de uma ideia melhor. Mestrandos, assistentes e orientadores utilizam do mesmo tempo para expor suas ideias, e são igualmente agraciados pelo poder da interação de todos os demais. Não existe impedimento de fluxo neste grafo completo, onde a distribuição e o coeficiente de aglomeração são todos máximos! O tempo ainda é curto para as sessões, mas já é um começo. Espero sinceramente que este processo amadureça, e que possamos cada vez mais colher seus belos frutos.

"Para tentar explicar o mistério da origem das ideias, teremos de começar nos livrando deste equívoco comum: uma ideia não é algo único. Mais parece um enxame". 

Steven Johnson

 

 Caro Augusto, os principios da co-criaçao que voce descreve no texto sao muito interessantes e se articulam de modo bem coerente e interdependente como se espera que aconteça entre os variados elementos de um sistema interativo ou rede distribuida. Tudo isto funciona  bem na teoria mas como é na pratica? Sei que foram feitas experiencias praticas neste sentido nas varias ediçoes do festival de ideias. Mas para mim nao foi possivel saber mais do espirito da coisa pois  morando fora nao pude estar presente no festival e por outro lado os videos que assisti falam da co-criaçao mas nao mostram as interaçoes nem o processo co-criativo acontecendo. Gostaria muito de ter uma experiencia de co-criaçao virtual, mas aonde? Existe atualmente um ambiente para este fim ou um tal espaço ainda deveria ser criado? (digo isto ja que o grupo de co-criaçao para o qual entrei  foi criado para discutir o seu texto Co-criaçao e nao me pareceu ter a carateristica de co-criaçao espontanea interativa e expansiva como voce sugere neste texto. Ou nao? Saudaçoes, Gilberto                                                          

Na prática funciona quase todo dia, Gilberto. Porque não é nada diferente do que é na teoria. Experiências virtuais não são tão boas como as presenciais, é fato. Talvez porque nossas plataformas não sejam i-based (baseadas em interação), mas p-based (baseadas em participação). Grupos criados para discutir nunca poderão oferecer experiências de cocriação (em geral são mais participativos do que interativos). A cocriação acontece quando você tem uma ideia (parte sempre do desejo) e outras pessoas interagem com você para desenvolver e materializar tal ideia. Ou vice-versa. Pode ser qualquer ideia, pouco importa. 

A cocriação interativa não acontece quando você junta gente para discutir qualquer assunto segundo uma lógica que produz escassez. Aí alguém fala alguma coisa. Você levanta o dedo, pede a palavra, e diz que concorda ou discorda ou concorda com isso mas não com aquilo. Em suma, quando coisas assim acontecem a parte de você que é convocada não é a parte criativa, aberta ao futuro e sim aquela parte que quer conferir se o que você está recebendo está de acordo com suas convicções, valores, experiências, conhecimentos. Aí não dá mesmo. Grupos de discussão, assembléias, sobretudo se adotarem modos de regulação que produzam artificialmente escassez (como a votação, o sorteio, o rodízio ou a produção administrada de consenso) são uma espécie de check-in com o passado.

Texto publicado por Nedio Antonio Seminotti na sua página aqui na E=R, que reproduzo abaixo:

Contribuições a cocriação

O texto de Augusto de Franco sobre cocriação produz reflexões. Muitas! É radicalmente esclarecedor e expõe com contundência todas as dificuldades e equívocos dos métodos da moda que pretendem inovar.  É uma proposta radical na medida em que sugere livrar-se das estruturas hierárquicas, dos líderes, do programa/método que prevê os passos a serem seguidos na criatividade e inovação. Libertar-se também da participação para dar espaço à interação com... Penso que seja necessário um movimento com essa radicalidade como meio de romper com heranças da tradição da modernidade.

Acho que precisamos radicalizar para nos livrar disso tudo, e, quem sabe, como isso, logo adiante possamos experimentar contemplar o E, não apenas o Ou. Acolher uma coisa E outra coisa (a estrutura e a rede, por exemplo). Não apenas uma coisa OU outra. Concepção que é recomendada pelo pensamento complexo proposto por Morin. Lidar com a complexidade significa, entre outras tantas coisas, distinguir e ligar. Distinguir uma forma de pensar de outra. Colocar em diálogo concepções distintas e semelhantes através da dialógica (lógicas que se complementam, competem entre si, se contradizem etc.). E esperar e desejar que a conversação, o diálogo, a dialógica sejam generativos. Façam emergir novas lógicas que recursivamente possam modificar as lógicas originais, mesmo que sejam acompanhadas pelo caos, o sem sentido etc.

Acrescentaria ao apontado por Augusto outra dificuldade para cocriar. Aquela que se refere a pressão que sofre a pessoa que tem um papel proeminente na instituição ou empresa, no grupo social e mesmo na rede, para que se coloque como exemplo a ser copiado. É extremamente difícil pra esses líderes sair desse papel e evitar de ser modelo no exercício do método, exemplo para formulação das ideias ou modos de ser. Não exercer esse papel exige aguentar a pressão dos demais em interação com ele. Abandonar o narcisismo, desinflar o ego, comumente inflado pelos que só querem copiar. Desvencilhar-se disso tem se revelado uma tarefa difícil, segundo constato nos achados de pesquisas.

Além disso, quero contribuir ao debate proposto trazendo a informação de que Jacob l. Moreno, criador do psicodrama e da expressão psicoterapia de grupo, na segunda e terceira décadas do século passado contribuiu para a noção de rede. Essa contribuição é reconhecida por alguns pesquisadores como, por exemplo, José Luis Molina, que faz parte dos textos da Escola de Redes. Moreno criou a expressão ‘átomo social’ pra se referir ao grupo pessoas mais próximas do protagonista, em co-ação e co-experiência  com o protagonista, no ‘teatro espontâneo’. Este teatro é motivado pelos acontecimentos do cotidiano das pessoas comuns. Não é um teatro que reproduz os feitos de reis e/ou rainhas e heróis de uma nação, como o teatro clássico.

Moreno deu o nome de rede social ao conjunto de átomos sociais interligados. Segundo ele temos, então: a pessoa que exerce o papel de protagonista em co-ação e co-experiência com outros; o coletivo de pessoas em co-ação  com ele constituem o átomo social; e o conjunto de átomos compõem a rede sociométrica.

 É oportuno considerar o contexto em criou esses conceitos. Foi diante da possibilidade de pensar que Deus poderia estar morto (como havia afirmado Nietzsche). Nesse contexto, as pessoas poderiam abandonar sua condição de criaturas para passarem a ser demiurgos, criadores do mundo. Entregando-se a co-experiência e a co-ação poderiam criar o mundo rompendo com a ideia de sermos apenas cópias semelhantes a Deus. 

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