Escola de Redes

No tópico Questionário para produção de matérias sobre CIRS, já respondi as questões propostas pela Juliana.

Criei este tópico para responder a outras questões que ela me endereçou em mensagem privada nesta plataforma.

1 - Você reafirma com constância que a promoção do evento é das pessoas que compõe a Escola-de-Redes e não da Escola-de-Redes. Essa afirmação constante se deve a quê?

Digo porque é verdade e porque é assim - só pode ser assim - segundo as "regras" da Escola-de-Redes. Como não temos, nem teremos, nenhum mecanismo de aferição da vontade coletiva (seja lá o que isso for, embora não ache possível tal conceito), como a votação, o sorteio, o rodízio ou a construção administrada de consenso, e nenhum mecanismo de direção ou coordenação para encaminhar tal "vontade", não há como ser de outro jeito. Tudo que acontece na E=R é fruto da iniciativa de pessoas conectadas à E=R.

Alguém propõe uma coisa, quem concordar com o que foi proposto, se agrega à proposta. E quem não concordar? Quem não concordar não segue, propõe outra coisa ou não propõe nada. É incompatível com os modos de regulação, vamos dizer assim, sintonizados com o padrão de rede, a imposição da vontade da maioria à minoria ou outras barbaridades autocráticas que ficaram enquistadas em certas apropriações da democracia.

2 - Que habilidade é fundamental a um netweaver para que, de fato, tenha sucesso em sua função de animador de rede, sem que acabe agindo como dono da rede? Qual a diferença entre netweaver e mediador?

Esta questão exigiria uma resposta um pouco mais longa do que cabe aqui. Nada pode garantir, a priori, que um articulador e animador de rede (netweaver) acabe se comportando como uma espécie de dono da rede. O netweaver é, de certo modo, um mediador, mas a palavra mediador não é boa: evoca mediação de conflitos, de opiniões e propostas (e às vezes de comportamentos) divergentes ou colidentes. Embora isso frequentemente ocorra de fato em agrupamentos humanos do atual padrão civilizatório, o pressuposto reafirma algo que representa uma realidade hierárquica, quando as redes apontam para uma superação das bases desse tipo de interação social (ou anti-social, como diria nosso Maturana). A palavra mediador supõe ainda que possa haver um sujeito acima do conflito ou infenso às suas influências, que operará desinteressadamente para encaminhar a regulação mais adequada.

Algumas considerações sobre o netweaver, segundo a visão apresentada aqui, estão na minha recente coletânea "2009: 10 escritos sobre redes sociais".

3 - Existe algum tipo de formação, qualificação ou pré-requisito para ser um netweaver?

Sim, existe, embora, a meu ver, netweaving seja uma arte, não uma ciência. Na verdade é a arte da política. No mesmo texto indicado acima, esbocei alguns desses elementos que comporão o último capítulo do livro "Netweaving" (ainda em elaboração) intitulado Netweaver-HowTo.

4 - Como você vê o futuro do uso de ferramentas tecnológicas como o NING? Tem prazo de validade, ajudam de fato em processos em rede?

Claro, todas as tecnologias têm prazo de validade (só não sabemos qual), assim como as mídia (e as chamadas agora mídias sociais). Plataformas interativas como Ning, Elgg, Noosfero, Wordpress B, são melhores para o netweaving do que os sites de relacionamento (como Facebook, Orkut, MySpace), as plataformas semi-interativas de microbloging (como o Twitter) e os blogs, portais agregadores de blogs e sites.

O Ning será aposentado quando surgirem ferramentas melhores. O Ning tem a vantagem de ser web e se amigável, ao contrário de algumas plataformas interativas mencionadas acima. Vai ser difícil superá-lo no curtíssimo prazo.

5 - Acho que ao darmos nome às coisas as materializamos. O mesmo acontece com a Escola-de-Redes. Quais são as estratégias que você, como netweaver desta rede, usa para que a rede não se institucionalize?

Zelar pelos nossos princípios fundantes e pelos nossos acordos de convivência. Cito agora os fundamentais: a E=R é uma rede de pessoas (físicas) e não de instituições hierárquicas; a E=R não adota nenhum mecanismo de produção artificial de escassez (nada de votação, sorteio, rodízio ou construção administrada de consenso) e sim características pluriárquicas da lógica da abundância; a E=R não é um ambiente de participação e sim de livre interação: não formamos patotas, não erigimos igrejinhas, não falamos em nome de qualquer coletivo; não temos coordenação ou direção, não temos um único netweaver (embora o Ning conceda privilégios exagerados aos criadores e administradores da plataforma), não permitimos a propaganda de produtos ou serviços comerciais etc.

6 - Sem apoio, patrocínio, correalização... como se dá a captação / mobilização de recursos para um evento como este, já que tradicionalmente em nossa sociedade quem investe quer aparecer?

A pergunta se refere à CIRS. Parte dela já está respondida no meu comentário ao tópico Questionário para produção de matérias sobre a CIRS (que, pela natureza das perguntas, deveria ter como título "Questionário para produção de matérias sobre a Escola-de-Redes").

Em suma, pegamos uma boa carona na CICI2010 - Conferência Internacional de Cidades Inovadoras. Neste caso específico foi a única forma de viabilizar o encontro. Mas já fizemos outros encontros sem patrocínio institucional: fizemos dois ou três encontros de Grupos em capitais e fizemos um chamado Simpósio da Escola de Redes (em Campos do Jordão) para o qual várias pessoas contribuiram com o que podiam, mobilizando em alguns casos suas instituições: o simpósio se realizou no Centro Universitário do Senac ao lado do Grande Hotel, mas as viagens, hospedagens, alimentação foram custeadas pelas próprias pessoas que participaram.

Poderíamos também, no caso da CIRS, ter procedido da mesma forma, mas creio que não conseguiríamos reunir todas as condições num espaço de tempo tão curto.

Uma nota final: penso que boa parte das questões que estão por trás das questões acima, seriam esclarecidas, sem necessidade de respostas casuísticas, com a compreensão da lógica da abundância.

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Obrigada, Augusto. Abraço.

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