Escola de Redes

Um curso sobre democracia do ponto de vista das redes

Se você desqualifica algum argumento dizendo que ele é um argumento do inimigo, não há mais possibilidade de conversação e de debate racional. Não haverá entendimento, polinização mútua de ideias e cocriação de nada.

É como conversar com um fiel de uma religião militante que, por princípio, está fundada no pressuposto de que é a única verdadeira. Por isso um kafir (infiel) jamais conseguirá entrar em acordo com um jihadista do Hamas ou do Hezbollah.

Mas isso vale também para as religiões laicas, baseadas em visões de mundo totalizantes, que têm narrativas para explicar tudo e mais um pouco, sejam essas visões consideradas de esquerda ou de direita, revolucionárias ou conservadoras, não importando muito a origem de suas doutrinas.

Visões doutrinárias são sempre obstáculos para a apreensão da democracia, porque colocam barreiras à livre interação e à miscigenação cultural entre os diferentes.

Se se trata de combater uma visão estabelecida com outra visão também estabelecida, não há como ensejar o surgimento de novas visões. Ou seja, não há possibilidade de inovação e ficamos congelados em algum lugar do passado. Tudo vira uma guerra cultural, onde o principal é desqualificar e deslegitimar o inimigo.

Todas as doutrinas que se erigem no combate a outras doutrinas rivais precisam do inimigo para crescer e conquistar adeptos. Por isso, qualquer seita que pretenda revelar ao mundo a verdadeira doutrina tem um comportamento semelhante e incompatível com a democracia na medida em que se constitui na dinâmica da guerra contra outras doutrinas (consideradas como falsas) enquanto que a democracia é um modo não guerreiro de regulação de conflitos (que não precisa de doutrina, quer dizer, que não precisa reafirmar a prevalência de nenhuma doutrina sobre as demais para se exercer).

Quando se diz que a democracia é sem doutrina, isso não significa que as pessoas não possam acreditar nas doutrinas que quiserem e sim que elas não podem exigir a adesão prévia a uma doutrina como condição para praticar a política, adotando critérios extra-políticos para validar alguma ação política como correta, verdadeira ou boa, antes da interação.

Tomando uma metáfora da física contemporânea: como podemos explicar a um codificador de doutrina que o ato de medir destrói um possível emaranhamento quântico e literalmente cria a realidade experimentalmente mensurada? Não é que não possamos. É que não devemos. Porque é inútil. Por que não adianta explicar.

O ato de criar uma narrativa doutrinária é um modo de evitar possíveis nuvens interativas, formadas ao léu, criando uma realidade baseada em uma ordem pré-formada que só é vista desde os clusters de medidores que são criadores de (suas próprias) realidades. Se você pertence a um desses clusters não conseguirá ver nada diferente do que eles veem, não porque não queira e sim porque está, de certo modo, produzindo o que vê. O papel da doutrina não é explicar a realidade, mas criar uma realidade.

Por isso a democracia não é bem coisa de professores. Por isso não se aprende democracia na academia. Não se trata de ensinar um conteúdo específico (para que alguém possa conhecê-lo) e sim de um deixar-aprender. Cursos de democracia devem ser programas de investigação-aprendizagem, onde as pessoas possam ter oportunidades de refletir nos seus próprios termos, pesquisar o que lhes interessa e interagir com outras pessoas que estão percorrendo itinerários semelhantes ou conexos (se assim desejarem).

No Democracy Unschool estamos abrindo um primeiro itinerário de aprendizagem sobre democracia intitulado Sem Doutrina. Para mais informações, clique neste link.

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Eu me inscrevi dia 15 de agosto, mas até agora só recebi um e-mail de confirmação. É assim mesmo?

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