Escola de Redes

Não vejo discussões sobre o caso "Wikileaks" aqui na Escola de Redes. Vamos começar?

Apoio a iniciativa Alexandre. Vamos compartilhar este post com todas as pessoas conectadas à Escola-de-Redes. Quem quer entender as redes sociais deve prestar muita atenção ao que está acontecendo com o #WikiLeaks

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Acho que a conversação está boa. A meu ver deveríamos aproveitá-la para aprofundar os aspectos que a nós interessam como Escola-de-Redes - investigar o fenômeno WikiLeaks do ponto de vista da dinâmica das redes sociais e da sua interação com as organizações hierárquicas - em vez de enveredar para o debate político-ideológico nos moldes do século passado (esquerda x direita, soberania e segurança nacional x anarquismo e libertarismo irresponsável etc.) ou em vez de personalizar o fenômeno em Assange, discutir suas crenças, seus pontos de vista e seu comportamento (se ele foi bom filho, bom aluno, bom marido, bom pai).

Provavelmente não concordo com as opiniões de Assange. Se fosse avaliar o fenômeno por esse viés, concluiria que ele é meio analfabeto em termos democráticos e tem uma compreensão atrasada da sociedade-em-rede. Mas Assange não é o ponto, não, pelo menos, para nós. Desviar o debate para suas convicções ou, mesmo, para suas ações, sua história de vida e seus projetos, é uma maneira antiga - além de incorreta - de tratar a questão.

Já pensaram se fôssemos discutir a invenção da democracia em Atenas a partir da personalidade de Péricles e de sua amante Aspásia? Péricles era um homem comum, que errava tanto quanto acertava (como qualquer um de nós), que ficou vulnerável ao tentar proteger o seu filho, talvez afrontando os próprios princípios democráticos que defendia com elementos de nepotismo, que malversou fundos públicos para erigir monumentos com objetivos de autopropaganda et coetera. E Aspásia, então? Uma prostituta alcoólotra? No entanto, eles interagiam naquele think tank original (no qual também pontificava Protágoras), um cluster que cumpriu um papel tremendamente inovador na rede social ateniense e ao longo da história.

Se fôssemos tomar Péricles e seus interlocutores como heróis ou anti-heróis, elegendo-os como salvadores ou vilões da história, não teríamos tido condições de perceber ali as configurações sociais que permitiram uma das mais significativas inovações políticas que jamais surgiram no período considerado histórico ou civilizado. Nem é o caso de comparar Assange e seus colaboradores com Péricles e seus interlocutores do "partido" democrático. São eventos diferentes de dimensões diferentes em circunstâncias diferentes. Citei Péricles apenas como exemplo, para dizer que o olhar que tenta encontrar nas motivações individuais ou no comportamento pessoal dos atores a razão para explicar os fenômenos sociais e políticos nos quais eles estão envolvidos, pode nos desviar do principal.

Gostaria de abordar, entre outras, questões como as seguintes:

[] Que condições permitiram que WikiLeaks - um pequeno grupo de escoteiros com idéias mais ou menos vagas sobre a transparência, a montagem de sistemas de poder baseados no segredo e a liberdade de imprensa - pudesse estar desempenhando tal papel na primeira década deste século?

[] A estrutura montada por WikiLeaks é mais centralizada ou mais distribuída? Como essa estrutura se relaciona (e por que, aparentemente, priorizou seu relacionamento) com a mídia tradicional (broadcast)?

[] O que explica a enorme solidariedade que WikiLeaks despertou, o engajamento voluntário ou a vontade de colaborar gratuitamente com seu trabalho? Há elementos de swarming civil na movimentação atual #saveWikiLeaks?

Bem, como estas teríamos muitas outras.

Concluo com o parágrafo final do artigo de Clay Shirky, já transcrito aqui neste fórum:


Over the long haul, we will need new checks and balances for newly increased transparency — Wikileaks shouldn’t be able to operate as a law unto itself anymore than the US should be able to. In the short haul, though, Wikileaks is our Amsterdam. Whatever restrictions we eventually end up enacting, we need to keep Wikileaks alive today, while we work through the process democracies always go through to react to change. If it’s OK for a democracy to just decide to run someone off the internet for doing something they wouldn’t prosecute a newspaper for doing, the idea of an internet that further democratizes the public sphere will have taken a mortal blow.
Em primeiro lugar, atacar o autor do artigo não responde a questão. Acho que precisamos de algo mais sólido. Em segundo, talvez seja inevitável não resvalar em aspectos político-ideológicos. Afinal, enfrentamentos ideológicos têm se tornado cada vez mais frequentes.
Considero pertinentes algumas questões levantadas por Reinaldo Azevedo em seu artigo. A principal é a exacerbação do papel do fundador do WikiLeaks. Usar informações delicadas como argumento para chantagem é baixar demais o nível. Se queremos inventar uma "nova forma" de jornalismo, como declarou o próprio Assange, não podemos jogar fora exatamente o que é mais caro no jornalismo - a ética e a responsabilidade.
Por outro lado, não há a menor dúvida que o WikiLeaks - e outros que possam vir a surgir - cumprem um papel fundamental em pressionar os governos por mais transparência, essencial num ambiente de rede. Mas esse papel não será cumprido se estiver limitado a adotar "um lado"; não pode ficar resumido num antiamericanismo tosco. Perderíamos uma grande oportunidade de consolidar o que considero primordial numa rede: a pluralidade, a igualdade de opiniões e, claro, a transparência.
Extra, extra !

Direto do front da #INFOWAR

Depois dos "espelhos wikileaks" tomando conta do mapa mundi digital, ciber-hackers-ativistas atacam ! > http://bit.ly/gcEq34 >

" Como uma organização, nós sempre tivemos uma posição firme quanto a censura e a liberdade de expressão na internet e se põem contra aqueles que tentam destruí-la de qualquer forma. Nós acreditamos que o WikiLeaks se tornou mais que simplesmente vazamento de documentos, ele se tornou um campo de guerra, o povo versus o governo", disse Coldblood do Anonymous

@VRSS
Confiram debate ocorrido hoje cedo sobre o #WIKILEAKS na 1a edição do LE WEB ( @leweb) evento que visa lançar um olhar sobre o perfil do empreendedorismo digital europeu

> http://bit.ly/e87fU2

@VRSS
Não é o comportamento de Assange que pode explicar isso ou aquilo caro Ronaldo. Conheço bem o Reinaldo Azevedo e ele também me conhece. Valorizo seu papel de defesa da democracia realmente existente contra os governos e os grupos que querem abolí-la, restringí-la ou parasitá-la.

Mas o Reinaldo não conseguiu ver o fenômeno que se insurge com o episódio do Wikileaks porque ele não trabalha para nada com as novas categorias das quais lançamos mão para entender a nova fenomenologia social. Para ele, existem basicamente os indivíduos. E sua democracia é baseada na teoria das elites. Então sua análise é coerente com que ele pensa. E ele pensa basicamente assim: é melhor o império, é melhor o Estado-nação com todos seus enclaves autocráticos garantindo a ordem do que a barbárie da anarquia. No fundo essa é uma variação da visão hobbesiana. Abandonados à nossa própria sorte, sem sermos domesticados por um poder acima de nós, nos engalfinharíamos numa guerra de todos contra todos. Então o Estado tem para ele um papel civilizador, assim como a religião (pois se não houver um deus, tudo é possível em termos morais, não é mesmo). Trata-se, apenas, desse Estado ser legitimado pelos cidadãos em eleições limpas e períodicas e dos governos eleitos respeitarem as regras do direito (interpretadas também pelas elites civilizadoras).

Bem... essa é a visão da democracia dos modernos na sua versão liberal, baseada no indivíduo. Mas tal visão não está mais adequada ao mundos altamente conectados que estão emergindo. Por muitas razões. A democracia não pode ser o resultado de um pacto feito e refeito continuamente pelos indivíduos que se ilustraram e que se comprometeram a manter uma ordem capaz de garantir aos demais indivíduos que eles continuem a conformar sua liberdade aos limites impostos pelos sistemas de poder que formalmente permaneçam legitimados por eleições e respeitem as leis. Isso, é claro, deve ser garantido, mas não para ser reproduzido indefinidamente como é e sim para possibilitar que os cidadãos continuem - com liberdade - inventando novas formas de regular seus conflitos. Possivelmente em mundos altamente conectados essa forma representativo, político, formal da democracia (que chamo de democracia no sentido "fraco" do conceito) deverá dar lugar a novas formas mais substantivas e interativas (que chamo de democracia no sentido "forte" do conceito, na linha da "tradição" democrática que começa com o think tank de Péricles, passa por Althusius, por Spinoza e pelos reinventores da democracia dos modernos até chegar às formas radicais de Dewey: a democracia na base da sociedade e no cotidiano do cidadão, a democracia como expressão da vida comunitária). Esta última será uma espécie de metabolismo das redes mais distribuídas do que centralizadas, algo assim como uma pluriarquia. Muitos não acreditam nisso, mas se a democracia não pudesse ser reinventada novamente (ela já o foi uma vez) ela não poderia ter sido inventada (e reinventada).

Então penso que as categorias sociológicas e políticas que usávamos para discutir essas coisas nos séculos passados revelam-se impotentes para analisar o que acontece neste dealbar do terceiro milênio com WikiLeaks. O Reinaldo não pensa assim (pelos motivos que expus acima e por outros). Talvez você, Ronaldo, também não pense assim. Mas se nos coligamos aqui para estudar as redes sociais (um tema na fronteira do conhecimento atual) o mínimo que podemos fazer - e que esperamos uns dos outros - é que nos esforcemos para discutir as coisas de um novo ponto de vista: inclusive no que tange à política, tal esforço também deve ser feito na fronteira das teorias políticas correntes, buscando novos constructs para entender uma realidade diferente daquela em que as velhas concepções, que reificavam essa abstração chamada indivíduo, foram forjadas.




Ronaldo Trentini disse:
Em primeiro lugar, atacar o autor do artigo não responde a questão. Acho que precisamos de algo mais sólido. Em segundo, talvez seja inevitável não resvalar em aspectos político-ideológicos. Afinal, enfrentamentos ideológicos têm se tornado cada vez mais frequentes.
Considero pertinentes algumas questões levantadas por Reinaldo Azevedo em seu artigo. A principal é a exacerbação do papel do fundador do WikiLeaks. Usar informações delicadas como argumento para chantagem é baixar demais o nível. Se queremos inventar uma "nova forma" de jornalismo, como declarou o próprio Assange, não podemos jogar fora exatamente o que é mais caro no jornalismo - a ética e a responsabilidade.
Por outro lado, não há a menor dúvida que o WikiLeaks - e outros que possam vir a surgir - cumprem um papel fundamental em pressionar os governos por mais transparência, essencial num ambiente de rede. Mas esse papel não será cumprido se estiver limitado a adotar "um lado"; não pode ficar resumido num antiamericanismo tosco. Perderíamos uma grande oportunidade de consolidar o que considero primordial numa rede: a pluralidade, a igualdade de opiniões e, claro, a transparência.
Augusto, mais uma vez tiro o chapéu.

Eu estava com muita dificuldade de exprimir minha visão crítica sobre o Wikileaks, e você trouxe, adicionalmente a colocações do Reinaldo Azevedo, as palavras que me faltavam, de uma crítica democrática não liberal.

Acho o Wikileaks um grande tema para a explorar as possibilidades e limites da democracia deste século (que certamente não será um web-anarquismo). Gostaria de fazer uma conexão com um outro tema: o da regulação - ou controle social - da mídia. Como a sociedade em rede pode encontrar mecanismos de regulação que não passem pelo Estado e tampouco sejam corporativistas? Acho que o Wikileaks é um caso particular dessa questão maior, e já traz aspectos que podemos não estar enxergando e que podem ser vitais para a discussão dessa questão maior. Você vê essa conexão? Que aspectos podem ser destilados do Wikileaks para a questão maior?

Não apenas a tua opinião e a dos companheiros da E=R são importantes, mas também podemos ganhar muito com as reflexões que fluem na rede de leituras que cada um está fazendo sobre essas questões.

Faço aqui uma contribuição pessoal, na questão da facilidade com que aderimos ao mal: assisti ontem no TED, do Philip Zimbardo - "How people become monsters ... or heroes". Acho que os fenômenos tanto do apoio incondicional ao Wikileaks quanto da sua condenação estão na mesma categoria de efeito manada das respostas fáceis. Que pensamentos isso provoca?

Um abraço
Sérgio
Maravilha a discussão!

Eu estava bem mais preocupado em baixar arquivos, copiá-los e publicá-los em qualquer/todos os lugares possíveis. Ajudar no que for possível em suma. Ai aqui surgem discussões, refinamentos das notícias... ehehe bacaníssimo!

Este link http://wikileaks.bandsal.at é um site espelho que não tem apresentado falhas. E aqui http://wikileaks.bandsal.at/mirrors.html estão os links para todos os atuais 1289 sites espelhos disponíveis. inclusive alguns brasileiros, maneiro. É a partir destes links que consigo pesquisar coisas.

No cablegate há muitos relatos de conversas entre Lula, Zé Dirceu, Mercadante e embaixadores, sobre acordos bilaterais e sobre a ALCA. Há relatos sobre guerras, espionagens, etc. E destaque para um release brasileiro, poucos países têm release específico. Creio que são apontamentos de fatos interessantes ao pensar sobre wikileaks, e imaginem (?!) o que pode ter em todos os docs.

abração!
CAMPNHA DO AVAAZ

"Para os EUA e outros governos e empresas ligadas à perseguição ao WikiLeaks:
Nós pedimos o fim da perseguição ao Wikileaks e seus parceiros imediatamente. Pedimos respeito pelos princípios democráticos e leis de liberdade de expressão e de imprensa. Se o Wikileaks e seus jornalistas parceiros violaram alguma lei eles deverão ser levados à justiça. Eles não devem ser sujeitados a uma campanha de intimidação extra-judicial."


http://www.avaaz.org/po/wikileaks_petition/?cl=849359828&v=7723
ganhei o dia assistindo esse vídeo Sérgio. Muito bom!

Sergio Storch disse:
Augusto, mais uma vez tiro o chapéu.

Eu estava com muita dificuldade de exprimir minha visão crítica sobre o Wikileaks, e você trouxe, adicionalmente a colocações do Reinaldo Azevedo, as palavras que me faltavam, de uma crítica democrática não liberal.

Acho o Wikileaks um grande tema para a explorar as possibilidades e limites da democracia deste século (que certamente não será um web-anarquismo). Gostaria de fazer uma conexão com um outro tema: o da regulação - ou controle social - da mídia. Como a sociedade em rede pode encontrar mecanismos de regulação que não passem pelo Estado e tampouco sejam corporativistas? Acho que o Wikileaks é um caso particular dessa questão maior, e já traz aspectos que podemos não estar enxergando e que podem ser vitais para a discussão dessa questão maior. Você vê essa conexão? Que aspectos podem ser destilados do Wikileaks para a questão maior?

Não apenas a tua opinião e a dos companheiros da E=R são importantes, mas também podemos ganhar muito com as reflexões que fluem na rede de leituras que cada um está fazendo sobre essas questões.

Faço aqui uma contribuição pessoal, na questão da facilidade com que aderimos ao mal: assisti ontem no TED, do Philip Zimbardo - "How people become monsters ... or heroes". Acho que os fenômenos tanto do apoio incondicional ao Wikileaks quanto da sua condenação estão na mesma categoria de efeito manada das respostas fáceis. Que pensamentos isso provoca?

Um abraço
Sérgio
João Paulo, este tema - o da nossa facilidade de nos tornarmos monstros - é um dos temas de minha vida, em função do paradoxo entre o passado de inquisições e holocaustos, e o papel opressor que hoje um Estado com que sonhei exerce sobre o povo palestino.
Leio muito sobre isso. Especificamente sobre o Zimbardo (e sobre Stanley Milgram, seu precursor, que por coincidência é também o cara que sacou a questão dos 6 graus de distância), sugiro ler:
- o post de Rodolfo Araújo sobre O Efeito Lúcifer. .
E meu post sobre o filme "A Onda" e o Pensamento Grupal.

Mas eu gostaria que me ajudassem a desvendar links entre este assunto e o caso Wikileaks. Eu sinto que tem coisas fortes nessa relação, mas não consigo identificá-las.







João Paulo Brandão Barboza disse:
ganhei o dia assistindo esse vídeo Sérgio. Muito bom!
_________________ Faço aqui uma contribuição pessoal, na questão da facilidade com que aderimos ao mal: assisti ontem no TED, do Philip Zimbardo - "How people become monsters ... or heroes". Acho que os fenômenos tanto do apoio incondicional ao Wikileaks quanto da sua condenação estão na mesma categoria de efeito manada das respostas fáceis. Que pensamentos isso provoca?
Além de ter o Wikileaks como objeto de estudos para a E=R, é interessante ver também a forma como se organiza os hackers da Operação Payback. Salas de IRC fervem em discussões e pessoas com pouca noção de programação também se engajam e se tornam hackers ao interagir com os hacktivistas do "Anonymous". Por exemplo, muitos não-hackers aderiram aos ataques de DDoS. Isso nunca aconteceu antes. Com mais ou menos informação, todos nós podemos ser de alguma forma hackers, em uma estrutura muito mais distribuída do que centralizada. Interação > Participação?

Termino com essa frase q achei fantástica "No, Anonymous is a legion of simple people frustrated by cocky govts, NOT hackers! You can join too"

Canais de comunicação:
irc://irc.anonops.net
Radio Operation Payback | Listen live 24/7: http://radio.tritnaha.com/listen.m3u
Twitter: @Op_Payback

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