Escola de Redes

Entrevista com o criador do Update or Die, um dos 50 maiores blogs do Brasil

O blog Update or Die (UoD) está entre os 50 melhores e maiores do Brasil. Não. O coletivo Update or Die está entre os 50 melhores e maiores blogs do Brasil. Porque, como diz seu criador e gestor, Wagner Brenner, Update or Die é um movimento que se utiliza de um blog. Seu tema é inovação e sua produção, coletiva e colaborativa; são mais de 200 "updaters", profissionais de áreas diversas como publicidade, cinema, música, fotografia, design e moda. O tom, baseado no estímulo da curiosidade e na paixão de pessoas interessantes e interessadas, endossa a missão de ser um movimento de atualização pessoal por meio do aprendizado informal. Foi esse o processo que Brenner desenhou para ele próprio seguir aprendendo continuamente – e com prazer. Publicitário experiente, Brenner era diretor de criação sênior da McCann-Erickson quando optou pelo update, que virou estilo de vida, que virou negócio. E um negócio em expansão, já que o Update or Die deve iniciar em breve operações em Portugal e nos Estados Unidos.

Aqui ele enfrenta os temas espinhosos dessa ferramenta da internet 2.0. A ferramenta blog morreu, como disseram Nicholas Carr e Silvio Meira, ou não morreu, conforme defendido por Chris Anderson? Blogs bons precisam ser o suporte de algo maior, como uma missão ou um movimento? Eles dão vazão à inteligência coletiva ou desinformam e emburrecem as pessoas? Empresas realmente combinam com esse tipo de rede social? Será que o blog é apenas mais um trabalho que não parece trabalho para não ser remunerado?

Você foi alto executivo de uma grande agência de publicidade, a McCann-Erickson, e agora é um blogueiro –e por opção própria. Um profissional de recursos humanos desses que analisam carreiras talvez dissesse que esse foi um movimento descendente no gráfico [risos]. O que você diria?
Eu tenho problema com o rótulo “blogueiro”. Acho que o blog ficou associado a pequenas ou microcelebridades do mundo da blogosfera, sustentados por jargõezinhos da moda, e e esses caras acabaram personificando os blogs. Do mesmo jeito que tem motoqueiro e motociclista, que são duas coisas completamente diferentes, tem blogueiros e blogueiros. É como se a gente tivesse vendo televisão, por acaso sintonizasse uma novela mexicana e a partir daí achasse que televisão se resume a novela mexicana, em qualquer canal que você entre.

Então, o Update or Die não é um blog?
Não. A gente prefere chamá-lo de coletivo. Ao contrário do que a maioria das pessoas pode achar, ele não é um blog, só faz uso de um blog. Ele é um movimento que celebra a vontade de mudar –essa curiosidade, essa inquietação, que algumas pessoas têm de buscar o novo e o jeito mais fácil disso acontecer é por meio de um blog. O Update or Die nem nasceu como blog. Na época que eu ainda era publicitário trabalhava em agência, em 2003, a gente começou a mostrar algumas referências para os clientes, primeiro em reuniões presenciais, depois pela internet. E isso fez um sucesso muito grande, porque a gente saiu do dia-a-dia de apresentar campanha para uma prática de captar informações e abrir horizontes.

Você falou de informações. Mas hoje as pessoas reclamam de excesso de informação e déficit de conhecimento. Blogs são heróis ou vilões nesse filme?
Podem ser as duas coisas; e tanto heróis como vilões costumam ter grandes poderes. Blogs primam por disponibilizar um volume insano de informações –que antes se perdiam por não passarem pelos gargalos da mídia tradicional– e democratizar a emissão dessas informações, o que pode ser bom e ruim ao mesmo tempo. Muitos que deviam falar e não conseguiam agora podem; só que outros não deveriam falar e também podem. Agora, precisamos refinar o filtro. Mas, na balança, as vantagens ganham disparado. As informações vão virando conversas e eventualmente viram conhecimento. Temos mais pessoas conversando com mais pessoas, como em uma grande festa. O segredo é saber quem você puxa para o canto pra conversar.
Precisamos aprender a conversar, e isso quer dizer aprender a aprender. Diante do novo, só há duas opções: adaptar-se ou morrer, update or die, daí o nome do nosso blog. Mas para que isso aconteça é preciso perder os preconceitos e afiar o bom senso. As coisas mais interessantes muitas vezes aparecem de forma sutil. E a ansiedade por consumir informação atrapalha. Pessoalmente, evoluí bastante em relação a isso: antes achava que tinha que consumir toda a informação disponível, que era desperdício não aproveitar, como um adolescente em churrascaria rodízio. É um consumismo que vem muito do nosso modelo de vida mesmo, de ser "proprietário" das coisas. Mas a verdade é que o volume de informação atual nunca será coberto individualmente. O negócio é desacelerar, escolher bem e saborear mais. Aliás, as palavras "sabor" e "saber" têm a mesma raiz.
Então, eu pratico o aprendizado informal, o autodidatismo, e venho desenvolvendo meu próprio método para isso –cada um deve desenvolver o seu.

Você não se angustia mais com o excesso de informações da internet?
Eu acho que eu evolui nesses últimos anos a minha opinião a respeito do information overload. No começo, eu achava que tinha que consumir absolutamente toda a informação que tivesse disponível –na minha cabeça, era um desperdício não aproveitar, como se eu fosse um adolescente indo na churrascaria e pensando vou pagar 70 paus de qualquer jeito, vou comer que nem um louco, qualquer bobagem que me trouxerem. Depois que você começa a freqüentar a churrascaria mais vezes, você percebe que você não precisa se empanturrar; pode ser um pouco mais seletivo. Isso é consumismo e vem muito do nosso modelo de escola.
Para as pessoas que estão passando por esse momento de angústia hoje, digo o seguinte: eu estou nisso 24 horas por dia e já sei que nada sei mesmo. Não existe a menor possibilidade, mesmo que você morra e nasça quatro vezes seguidas, de você consumir a quantidade de conhecimento que existe hoje no mundo. Então, como eu disse, crie seu próprio método de aprendizado e saboreie. Apenas saboreie.
Se você for lá em casa agora, a gente vai abrir a porta da sala e vai ter dois livros abertos lá. Ai a gente vai subir a escada e na outra sala vai ter mais três livros abertos. E isso é um pouco a imagem do que acontece na minha cabeça mesmo, porque assim eu começo a consumir e vou consumindo muitas coisas ao mesmo tempo –e às vezes eu me perco um pouco nesse sentido. Para contrabalançar, eu tenho umas coisas do tipo me colocar um tema para estudar durante o mês de janeiro.

O Peter Drucker fazia isso também. Ele se propunha a passar um ou dois anos estudando um assunto e ia fundo. Por esse raciocínio, blogs são heróis quando dão vazão à inteligência coletiva, e são vilões quando desinformam e/ou emburrecem as pessoas. Certo? Para quem navega na internet, você pode descrever qual é a linha que separa as duas coisas?
Acho que tudo passa pela curva de maturidade de usar a ferramenta de um jeito legal. Quando você entra na internet é a mesma coisa de você estar numa feira, todo mundo gritando, você não sabe se é banana ou se é ‘chuchu’, fica muito mais difícil.

O aprendizado informal é a chave? Para adultos em especial? Estes parecem ter mais dificuldade de aprender do que as crianças...
Sim, o aprendizado informal é o caminho. Não acho que os adultos tenham mais dificuldade; têm mais resistência. Porque nada mais poderoso do que experiência andando de mãos dadas com curiosidade. Hoje vivemos num “hopi hari do saber” –meu avô não tinha acesso a 10% das coisas que estão ao meu alcance– e não brincar é uma pena! Uma lan house na periferia pode, de certo modo fazer mais diferença para um garoto sem oportunidades do que o ensino formal.
Tudo que a gente aprende naturalmente, sem precisar ir para a escola, é aprendizado informal. Foi assim que aprendemos a falar, a andar de bicicleta, a conquistar a primeira namorada e até a trabalhar –a gente vê alguém fazendo, se interessa e aprende. Lembra do seu primeiro emprego? Você aprendeu olhando para a mesa ao lado. Porém, há um paradigma clássico no mundo corporativo: 20% das coisas que você aprende dentro da empresa vêm do ensino formal e 80% do informal, embora 80% da verba seja investida no formal e 20% no informal. Está tudo invertido.
Pois essa possibilidade de aprender sozinho foi brutalmente potencializada pela internet. Seja lá qual for o objeto da sua curiosidade, tem algum craque por aí disposto a “dividi-lo” com você. São os chamados mavens, os aficionados. Em cinco minutos de conversa com um, você aprende o que levaria anos para alcançar –sem exagero. Já encontrou alguém que entenda muito de música numa festa? Ele passa um volume de dicas e sugestões que você levaria uma eternidade para decobrir sozinho ou formalmente. A conversa flui numa linguagem simples, que eu chamo de “infantilizada”, de quem fala como fã, não como acadêmico. Aliás, o traço principal de gente inteligente é a curiosidade, não a erudição.. E eu odeio jargões, são obstáculos à fluidez da informação. Boas idéias podem ser explicadas –pelo menos por alto– como se estivéssemos falando com uma criança de 10 anos.
Não existe maneira mais rápida e eficiente do que outra pessoa para nos ensinar coisas. Jay Cross, um dos que mais gosto nessa área do informal learning, parece um velhinho contando a história da Chapeuzinho Vermelho quando transmite conhecimento. Aliás, o Jay Cross diz, por exemplo, que você aprende mais numa sala de café do que numa sala aula, ou mais na biblioteca do que numa sala de aula, desde as coisas mais práticas até as mais elaboradas. Por isso, eu acho um absurdo empresa que você não pode entrar na internet no site que você quiser.

Como você, Wagner, aprende? Ou melhor, como organiza sua navegação pela internet com foco no aprendizado –e na captação de posts? Você pode citar algumas ferramentas, pessoas e sites de referência para quem quer se aprofundar neste mundo, coisas descobertas na sua expedição de aprendizado pessoal?
Eu acho que aprendi a ser ‘fuçador’ já na minha profissão. Aparecia uma conta nova de um produto que você desconhece totalmente –como foi, no meu caso, a dos absorventes Sempre Livre– e você tinha de se virar e ir atrás para entender aquele universo. Esse sempre foi um lado muito gostoso da minha profissão, o de ter que aprender, e eu continuo fazendo isso, agora bem mais do que antes até.
Outra coisa é que estou aberto a entender esse mundo, temos todos de estar. Já aprendi que uma boa ideia pode vir de qualquer lugar.

Mas, para tudo isso, precisa saber navegar, né?
Verdade. Acho que na nossa geração, dos imigrantes da internet, isso pode ser um pouco mais desafiador. Para nós, por exemplo, é impossível você pegar do novo sem comparar com o braço do antigo. Mas para o meu filho, por exemplo, que é um nativo da internet, não tem estresse, porque para ele já é natural tudo isso.
Vou te dar um exemplo bacana dele. A gente foi viajar lá pra Disney e lá teve um show do Indiana Jones ao vivo, a pedra rolando atrás do ator, o cara correndo, e o meu filho, que nem sabia quem era o Indiana Jones, achou aquilo sensacional. Voltamos para cá e ele já foi numa loja de videogames e descobriu que tinha um dos Indiana Jones. Aí ele perguntou, “papai o que o Indiana Jones faz?”. Respondi: “ele é um arqueólogo. E ele: “o que é arqueólogo?” Eu comecei a explicar o que o arqueólogo faz e ele quis saber se tinha mais jogos do personagem sobre isso. Eu perguntei: “Como é que a gente pode descobrir?” E ele logo respondeu: “internet”. Entramos no YouTube, tinha jogos com musiquinha e, do lado do computador tinha um teclado. Aí ele já começou a tirar a música. Dá para ver que o processo de aprendizado, que ele não vai esquecer nunca mais, é completamente outro com os nativos digitais. Não é pelo produto, é pela processo, que começa com a curiosidade.

Li um post muito interessante seu sobre leitura 2.0. Imagino que seja algo que nasceu da experiência do blog. Você poderia falar sobre isso e sobre como os bits do blog vêm modificando sua relação com o mundo dos átomos?
Tem modificado basicamente minha maneira de me relacionar com as fontes de informação. Hoje em dia eu pego um livro e lhe dou chances de me pegar. Faço uma leitura circular dele mesmo, de não seguir do começo até o fim em linha reta, como quem desce a rodovia dos Imigrantes até a praia. A gente não tem que ler o livro todo mais para chegar a conclusão de que o livro é ruim. A gente dá uma folheada para ver o que o próprio autor destacou como sendo uma coisa importante e ai já pega um pouco do critério e do tom do autor. Se ele é um cara que entrega rápido ou se deixa tudo para o último capitulo, por exemplo. No Outliers, do Malcolm Gladwell, quando eu li o primeiro capitulo pensei “que coisa maravilhosa, como é que esse cara descobre essas coisas”, mas no segundo capitulo ele começou a justificar o primeiro capitulo, o terceiro capitulo idem, e assim ele foi até o fim do livro provavelmente. Então, eu não cheguei até o fim, o primeiro capitulo bastou. Você tem que apreender o flow, o deixar fluir.

De novo, precisa aprender a navegar para fazer essa leitura circular...
É, e precisa vencer preconceitos também. Tem preconceitos de todos os lados.

Um bom blog precisa ser o suporte de algo maior, como uma missão ou um movimento?
O blog pode ser visto como o suporte para uma missão maior, sim. E essa missão maior é, em primeiro lugar, desenterrar um volume insano de informação que existe por ai e que antes tinha que enfrentar um gargalo de ser publicado –ou por uma revista, ou por um jornal, ou por qualquer meio tradicional de divulgação de informação. Se você imaginar a comunidade dos cientistas, por exemplo, a quantidade de informação que esses caras tem guardadas e que só podiam ser divididas antigamente por publicações do meio, você vê claramente o papel de um blog científico atualmente. Hoje em dia um cientista consegue divulgar isso de uma forma muito maior.
A segunda missão é a democratização da informação. Todo mundo hoje tem um megafone na mão –uns têm até um trio elétrico à sua disposição–, ou seja, todo mundo tem essa capacidade de sair falando. É evidente que isso tem um lado ruim também –muita gente não tem o que dizer e mesmo assim sai por ai falando. Mas só o fato de você ter a possibilidade de responder a qualquer coisa que tenha sido publicada sobre você, por exemplo, já compensa esse lado ruim.
E a terceira missão, ou o terceiro papel legal do blog, é dar voz a pessoas que até então não tinham voz por problema de censura, por exemplo, como acontece no Irã. Por exemplo, é uma loucura o fenômeno dos blogs no Irã –acho que é o terceiro país com mais blogs–, exatamente por essa razão.

Mas na China, por exemplo, não tem blog, não pode...
É, você tenta fazer e os caras cortam. No Irã eu acho que já conseguiram driblar isso.

Um blog pode ser realmente útil, e até profissional, sem descaracterizar-se?
Blog bom nasce de uma paixão. O meu nasceu lá em 2003, ainda dentro da agência, para colecionar as coisas que eu fuçava e dividi-las com colegas e clientes. Sou um fossador por natureza e sempre tive a certeza do poder das referências; eu entendia quanto essa "atualizada" podia contribuir para viabilizarmos projetos mais ousados. A paixão foi tanta que decidi usar minha experiência em consumo para tentar empacotar conhecimento de formas mais simples e gostosas, ajudando nesse processo de "update de gente". Contei com o incentivo do [publicitário] Walter Longo que teve a visão de transformar isso em negócio e me pôs uma “pilha danada”.
Quanto ao uso corporativo, ele pode ser sensacional desde que a paixão e a transparência se mantenham. Temos vários business blogs no escopo do UoD, como o da Livraria Cultura, o da Young & Rubicam, o de vocês e o da Bullet, e todos têm gente apaixonada por “consumir a vida” de modo geral –nenhum virou um jornalzinho digital. Queremos ajudar a criar grupos dentro das empresas para aproveitar o poderoso patrimônio da inteligência coletiva dos funcionários.
Agora há outro sentido de profissonal mais perigoso, que é o do blog que vira veículo e perde a vocação. Tomo cuidado para não deixar o lado comercial interferir no nosso foco do conteúdo diferenciado e do aprendizado informal. Mais do que popular, queremos mesmo é ser relevantes na vida das pessoas, estimular sua curiosidade. É processo, mais do que produto. A qualidade do conteúdo do Update or Die é uma unanimidade. Mas é apenas consequência de um processo –esse, sim, muito legal: gente obcecada, descobrindo e dividindo suas descobertas em tempo real.
Basta lembrar que os updaters são todos voluntários, ninguém ganha nada para escrever. Isso é o que garante a paixão nessa história e, de certo modo, também garante o profissionalismo, porque as pessoas se envolvem e se autogerenciam. Não tenho trabalho algum com o gerenciamento desses colaboradores. Na verdade, tento é não atrapalhar.

Blogs e empresas realmente combinam? Como é sua experiência com seus clientes empresariais, entre os quais a HSM se encontra, aliás?
Veja bem: não somos uma produtora digital que faz blog. Por isso, o que a gente tenta é levar para os nossos clientes uma possibilidade de criar uma comunidade dentro de suas empresas. Se blog e empresa combinam? Sim, porque blog dá vazão ao patrimônio geralmente negligenciado que toda empresa tem: o patrimônio da inteligência dos funcionários. Afinal, pela ótica daquela empresa, são todos pessoas qualificadas para estarem na posição onde estão, certo? E essas pessoas precisam ter uma sinergia entre elas para gerar valor para fora, para o mercado.
A gente fechou recentemente, por exemplo, um contrato para fazer o blog da Livraria Cultura, cujos ótimos vendedores –que estão mais para consultores, na verdade– representam um patrimônio incrível. Você chega lá e pergunta alguma coisa de um livro e eles sabem tudo porque são apaixonados por aquilo; todos lá têm esse perfil. Na HSM é a mesma coisa; vocês são apaixonados pela área de vocês.
Existe uma barreira nos blogs corporativos, e não é tecnológica, como alguns podem supor. Por incrível que pareça, é uma barreira cultural. Existem alguns lugares em que as pessoas se sentem meio intimidadas para escrever, com medo de se exporem, de como podem ser interpretadas. A pessoa tem que estar preparada para encarar a exposição do blog; saiu na chuva, é para se molhar.
Um diferencial nosso é o conteúdo cruzado. Para que o blog corporativo não vire um jornalzinho de empresa, fazemos que não seja só pelas pessoas da empresa. Inserimos conteúdo de updaters convidados –fornecedores, parceiros, clientes– e dos próprios canais do Update or Die. Isso é importante, como eu disse, porque uma boa ideia pode vir de qualquer lugar. E precisa ser cuidadosamente protegida por todos na empresa depois. É uma bolinha de sabão numa fábrica de prego, ela tem muita chance de estourar no meio do caminho, porque tem que passar por muita gente, e vai subindo devargazinho na empresa, então é muito difícil mesmo ela chegar lá mesmo. Deve ter cumplicidade dos dois lados para proteger essa bolha, porque senão ela não acontece.

O que costuma acontecer quando você vai apresentar a ideia de um coletivo numa empresa, por exemplo?
Você percebe que todos no começo ficam assim meio angustiados, com o pé atrás. Aí eu começo com o discurso que tem lugar para todo mundo e que mesmo não pertencia a esse universo. A primeira vez que eu fiquei na frente de um computador foi em 1994!!!
O lance é conseguir derrubar os preconceitos. Se você entra com esse preconceito contra o mundo virtual e começa a desdenhar do tipo “isso ai é tudo fútil demais”, já está se matando. É um suicídio lento nos dias de hoje. Tem de ir com o espírito de aprender. Estamos todos aprendendo.

Você acha que a ferramenta blog já é madura? Alguns, como o Nicholas Carr e o Silvio Meira, acham que ela até já morreu... Na verdade, vou reformular a pergunta: os blogueiros estão matando o blog?
Esse modo de colocar a coisa é interessante! Não sei se eles vão matar, mas eu acho que muitos estão fazendo um bom trabalho tentando fazer isso... [risos].
O problema do blog é que virou rótulo, atitude e moda –e isso pode acabar com toda a espécie. Existe uma curva de maturidade no uso das ferramentas digitais: o Twitter, por exemplo, ainda está no começo da curva; o blog está bem mais adiante. Mas não dá para analisar o fenômeno blog como se fosse uma coisa só; tem blogs de todas as cores hoje em dia, dos cat blogs aos que derrubam governos. A gente até prefere chamar o Update or Die de coletivo justamente para não nos enquadrarmos no rótulo.

O que você recomenda que nossos leitores façam em suas empresas? Blogging ou updating?
Updating, claro! Trata-se de um processo, não de um produto. O updating não tem fim, é para a vida toda. Mesmo que você vire um hermitão. Tanto é que o blog Update or Die é apenas uma parte do grupo Updaters, temos outras frentes como os encontros em empresas, os Updaters’ Talks –ainda restritos aos updaters mas que devem ser abertos ao público com o tempo–, a utilização dos updaters em processos de avaliação e consultoria, e muitas outras iniciativas que estão por vir... Acho que existe uma oportunidade de sair do atual modelo “palestra” e levar ao público a visão do curioso em vez da do "especialista". Queremos deixar todo mundo com vontade de continuar aprendendo sempre, sem estresse e com prazer, e não apenas empacotar um discurso.
Eu acredito em pessoas. Acho que uma pessoa sozinha pode interferir na vida de muitas, pode mudar os rumos de uma empresa inteira. Mas para que essa mágica aconteça é preciso acreditar de fato nisso. As empresas devem estimular as iniciativas individuais e as pessoas devem tomar as rédeas do próprio desenvolvimento, pessoal e profissional. É preciso prestar atenção ao que fazemos nos finais de semana, quando somos mais autênticos. É preciso não cair na armadilha de querer ser como todo mundo, repetir jargões, agir como o resto do rebanho. Dentro de cada um de nós existe algo de único, que pode fazer toda diferença. Só que você preciso investir um tempo para saber o que é. Viva o autodesenvolvimento. Update or die!

E como ninguém deseja a morte, o caminho é esse mesmo [risos]. Mas quais são os horizontes e fronteiras de um negócio de atualização pela internet como esse? Como expandi-lo, por exemplo?
A gente nunca planejou, mas, por conta dos nossos updaters expatriados –temos gentes em Atlanta, Nova York, São Francisco, Madri, Barcelona, Londres, China–, temos recebido leitores desses lugares. A gente tem muita leitura de Portugal hoje em dia, por exemplo. E, assim, vamos abrir um coletivo no mercado de Portugal este ano. E também pretende também abrir um coletivo nos Estados Unidos, com conteúdo em língua inglesa, que é um passo bacana também, porque A língua inglesa a gente acaba atingindo um público bem maior. A gente está vendo como utilizar um pouco dos posts que já são publicados aqui no Brasil, mas a intenção é criar redes de updaters de lá também. São várias caixinhas a serem abertas.

O mundo da gestão é um mundo baseado na mensuração de desempenho. Como se mede o sucesso de blog? Como você mede o sucesso do Update or Die?
Dá para medir sucesso de duas maneiras, uma mais racional e outra mais emocional. Racionalmente a gente vê grandes anunciantes ligando e querendo fazer a parceria com a gente, acompanha todas as métricas de audiência. Porém a mensuração emocional é a mais legal; é quando você perde a paternidade do que criou. É um momento iluminado que parece –oh!– que toca uma música. É quando outras pessoas se apaixonam pelo seu filho e vão tomando conta dele se fossem seus pais também. Hoje vejo as pessoas que escrevem lá no Update or Die, e fico com orgulho de ter conseguido criar um ambiente interessante o suficiente para atrair as pessoas tão interessantes que escrevem lá. Isso é métrica de sucesso.


Entrevista de Jorge Carvalho
Newsletter HSM Online, 11/02/09

Exibições: 154

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