Escola de Redes

Aqueles espaços em que vivemos, os chamamos de rede ou comunidade?
Vou utilizar redes e comunidades como forma de explorar a diferença entre um espaço funcional e um relacional. As 'definições' são inspiradas no livro de John Taylor Gatto 'Dumbing us down'¹.


Redes são espaços funcionais


Redes são ambientes de função - são ambientes que conectam dois momentos através de um ato de trans-formação. Nos vemos em ambientes grupais de função porque eles contém algo que é de nosso interesse e em que nos dispomos a interagir com outras pessoas para explora-lo.

A relação fundamental com este espaço é a de propósito, seja ele bem definido ou não. Faço parte da rede dos colegas do clube, rede do grupo de trabalho, redes de discussão, etc. Em cada uma delas podemos identificar nosso interesse e o que fazemos (recebemos ou contribuimos) enquanto em contato com elas, qual a função, o propósito de estarmos parte.

A flexibilidade e oportunidade de contribuir para ambientes em rede certamente aumentou exponencialmente por ajuda tecnológica. Só que acredito que a tecnologia foi além: serviu de inspiração.
Inspirou por ter se mostrado mais dinâmica do que antigas máquinas funcionais isoladas. Além de falarmos de ambientes de redes virtuais, nos inspiramos para solidificar uma forma de organização em grupo que seja mais distribuída que concentrada², retirando a tradição hierárquica que herdamos na nossa forma de organizar-nos.

Em ambientes de função o nosso interesse é restrito a uma família de coisas que fazem parte de nossas inquietudes no presente. A perda de relação entre a função do espaço e nossa inquietude implica no meu desligamento da rede, seja ele abrupto ou gradual. Se pertencer à rede não fizer mais sentido, basta deixar de fazer parte dela.

Como um espaço funcional, redes são espaços de aprendizado focado e/ou grupos de trabalho que geram resultados, são oportunidades de recolher e trabalhar informação e de gerar nova linguagem e/ou traduzir linguagem em acontecimento.

Comunidades são espaços relacionais


Comunidades são espaços de relação - são ambientes que conectam consciências sobre o mundo. Estar em comunidade é estar no espaço de identificar nosso ser e consciência através da diversidade de seres e consciências com as quais nos relacionamos.

Diferente de existir para uma função, comunidades existem do encontrar de mundos em sua completude. Se função existe, é a função fundamental de ser, que não é definida por um propósito em si, mas talvez pela eterna busca de um. Dois seres humanos interagem seus mundos completos em comunidade e da relação criam outros mundos completos.

Um espaço criado pelo interesse de uma pessoa por parte do mundo do outro não pode constituir-se um espaço relacional. O estar presente em um espaço somente com uma parte de si mesmo é não estar realmente presente em um espaço relacional.

Papéis sociais que são característicos de espaços funcionais são relevantes no encontro relacional somente na medida em proporcionam uma diversidade de mundos. É como se retirássemos nossos chapéus de mãe, empregado, atleta ou músico, mas não apagássemos a vivência destes papéis como constituintes de nosso mundo enquanto em relação com o outro.

Em ambientes de relação o nosso interesse é intrínseco a nossa condição humana. Deixar de estar em real contato com outros mundos degenera nossa capacidade de ser - definimos nosso ser através de um mundo que existe em relação. Deixar uma comunidade não é tão simples: não existe criação de sentido de mundo se não existirmos em comunidade.

Viajando entre espaços funcionais e relacionais


Fica bastante clara a relevância de ambos os espaços funcionais e relacionais. Imagino que nenhum espaço deva ter a característica de ser um espaço puramente funcional ou relacional, mas vejo o quanto é mais comum termos consciência dos espaços funcionais no nosso dia a dia e pouco dos relacionais.

Em criando e desenhando espaços funcionais, muitas vezes vemos emergir pequenos espaços relacionais que geram uma sensação de renovação e clareza. Isso é mais do que sensação - realmente novos mundos foram criados .

Criar ou simplesmente poder estar em um espaço relacional requer mais do que um designer ou um artista, requer um mundo em contato com outros mundos. Ser artista neste espaço é não poder estar nele - temos que ser o que somos e estar onde estamos.


Lugar para ler sobre essas coisas


Dumbing Us Down
John Taylor Gatto; New Society Publishers 2005

Disponível em português [PT]: Compreender a escola de hoje: O Currículo Oculto da Escolaridade Obrigatória - Porto Editora



  • ² Visite a comunidade online da Escola de Redes E=R para conhecer mais sobre redes sociais.
  • 'Humberto Maturana e o espaço relacional da construção do conhecimento' por Adriano J. H. Vieira. Disponível online pela Revista Humanitates.

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Comentário de Clara Pelaez Alvarez em 2 junho 2011 às 10:55
Interessante essa fala dele, Lia! Obrigada por compartilhar!
Comentário de Lía Goren em 1 junho 2011 às 23:46

Olá Clara

Estaba leyendo esta entrevista a Clay Shirky y este párrafo me llevó a tu conversa

No livro, eu digo que comportamento é motivação filtrada pela oportunidade. E nossa motivação não muda tanto, de uma geração a outra, mas as oportunidades mudam. Se as pessoas mais novas estão se comportando de uma maneira diferente de nós, é possivelmente porque tiveram a oportunidade de fazer isso.

Comentário de Lía Goren em 1 junho 2011 às 13:03

Es así, Clara. Totalmente de acuerdo. Sólo que, al mismo tiempo, reconozco que es un artificio mental separar al ser humano de su contexto, no somos por fuera de la red de la que formamos parte, y el contexto son otras personas haciendo cosas, tomando decisiones, amando, ofreciendo trabajo o no, robando, soñando, cantando, publicando noticias... que están en relaciones de interdependencia con nosotros.

Yo digo que no 'somos' por fuera de la trama de la que formamos parte y lucho con eso en el trabajo con familias. Suelen decir: mi hija/o "es" así, "lo lleva en los genes, igual que su abuelo" No es así y lo compruebo a cada paso. Los padres producen cambios en la relación y resulta que ese niño o niña "no era" así o resulta que "los genes del abuelo no eran los únicos disponibles", jaja. Todo es cultural.

Augusto dio en la conferencia una sintética definición de cultura que me gustó y no lo alcancé a anotar mientras escuchaba desde Buenos Aires. Creo que se acerca a lo que observo en mi trabajo.

Qué es primero, el huevo y la gallina? No creo que haya tal polaridad operante ni tales relaciones causales lineales. Es una pregunta 'antigua'. Me doy cuenta de que estoy tan entrenada todavía en el pensamiento lineal y en observar sistemas estables que casi no encuentro palabras para definir otro tipo de comprensiones.

Seguimos batendo papo por aquí Clara! Abç.

Comentário de Clara Pelaez Alvarez em 1 junho 2011 às 9:11

Lia, penso que na tua fala você evidencia que os seres humanos se adaptam e reagem ao contexto, sempre! Entendo que não há análise possível sem considerar o contexto.

 

Comentário de Lía Goren em 1 junho 2011 às 1:45

Después de un buen rato de leer y releer algunas cosas que me sugería esta conversa iba cayendo en un lugar que se acerca al de Augusto C, y no por romántico sino por exceso de realismo.

Alcanzo a comprender que estamos al borde del quiebre de este modelo de "generación de escasez" (obrigada Nilton de que me lo recuerdes en esos términos), de consumo excesivo, de individualismo a ultranza. Al mismo tiempo, estoy observando que muchos grupos humanos están comenzando a mudar su el concepto de riqueza y están promoviendo procesos de trabajo y consumo acordes con esos cambios. Esta conversa y el interesante comentario de Clara acerca de que "o novo nasce como opção e não como substituição do velho" me gustó muito y me recordó la crisis de fin del 2001 en Argentina. Fue un momento muy difícil para la gran mayoría de la población. Lo que más me sorprendió en ese entonces fue que algunos de los grupos, que ya estaban en situaciones de mucha pobreza desde antes de la crisis, fueron quienes más rápida y creativamente generaron respuestas con alto grado de colaboración y creatividad para salir adelante. Proyectos cooperativos autogestionados o sistemas de trueque funcionaron bastante bien durante un largo tiempo. 

Lamentablemente, el mejoramiento de la situación económica derivó en todo un sistema de asistencialismo que, a mi modo de ver, cooptó estos movimientos, manipulando mentes, proyectos y pertenencias a partir del control de los dineros públicos para dar asistencia social.

Creo que quizás, gradualmente, cuando la maquinaria jerárquica pierda el poder de control (aunque no soy economista ni analista política creo que hace rato que está pasando) "o novo nasça como opção e acabe em uma substituição do velho".

Cuando en Argentina para una parte importante de la población no había nada para consumir y casi nada para producir, sólo se tenían los unos a los otros. Algunos (me incluyo a mi mísma y a mis hijos) pudimos apreciar que no hay riqueza mayor que esa.

La esperanza que tengo es que nos demos cuenta de esto 'antes' de que el mundo se nos caiga pedazos.

Guau, cómo me movilizan estas conversas! Obrigada y abç.

Comentário de Clara Pelaez Alvarez em 31 maio 2011 às 16:08

Penso que o que tem definido, essencialmente, a vida neste planeta é a busca por recursos para a sobrevivência, e isso tem sim impactado as relações humanas.

 

Estamos em processo de transição... redes mais distribuídas já estão emergindo de forma natural!

 

Acho, como disse o Augusto Cuginotti, que vai surgir uma nova noção de riqueza e, portanto, novas formas de distribuição.  Eu não sei, por exemplo, por que precisamos de dinheiro para viver num planeta que é nosso. Já tivemos algumas conversas aqui na ER sobre isso. Existem várias propostas por aí de novas moedas e bla bla...

Comentário de Augusto de Franco em 31 maio 2011 às 15:58

Penso um pouco diferente. Não vejo uma infra-estrutura econômica determinando ou condicionando uma super-estrutura política (sim, estou me referindo às redes e tudo isso faz parte do "metabolismo" da rede). Tudo isso é uma coisa só (e provavelmente é outra coisa que se passa no espaço-tempo dos fluxos quando interpretamos certos movimentos nos emaranhados como 'produção', 'consumo', 'negócio') e quando separamos a geração e distribuição de riquezas do restante caímos num modelo explicativo que impede a apreensão do fluxo. Tudo é ecologia (em termos sistêmicos) e a economia é um delírio muito semelhante àquele que funda o dogma, o símbolo e a doutrina religiosas.

O fato de sempre terem existido redes sociais não é a novidade. A novidade é a volta da possibilidade de termos redes mais distribuídas do que centralizadas, não como uma exceção, uma brecha (fugaz como a Agora ateniense) e sim como um novo padrão societário (com um novo modo de regulação correspondente). É uma volta porque, muito provavelmente, no alto Neolítico tinhamos também tal possibilidade, mas nos seis milênios que se seguiram, após o surgimento do Estado-Palácio-Templo sumeriano, não a tivemos mais (a não ser como experiência fugaz). Agora a temos novamente, mas não em razão do "avanço" tecnológico-produtivo. Só houve tal "avanço" (interpretado assim como um "avanço" pela direção que tomou) porque os padrões de interação social possibilitaram que assim fosse (sempre repito que se a Internet tivesse sido inventada por aqueles engenheiros bundudos soviéticos, nela jamais poderiam rodar redes P2P: os caras roteavam por Moscou até as ligações telefônicas entre duas cidades siberianas separadas por 15km e... distantes mais mil km de Moscou).

As idéias não vieram de Marte e sim dos emaranhados (tangles) emaranhados aqui mesmo. O chamado pensamento econômico (Economics) é impotente para perceber isso porque trabalha com a ficção chamada indivíduo e não vê que pessoa-já-é-rede. Então eles laboram a partir da crença segundo a qual o comportamento coletivo pode ser explicado a partir do comportamento dos indivíduos, que os indivíduos se movem tentando sempre maximizar os seus interesses e que tais interesses são, ao fim e ao cabo, egotistas. Uma camada abaixo dessa crença, imersa na escuridão, repousa, é claro, a crença fulcral: o dogma religioso (que nada tem de científico) de que os humanos são inerentemente competitivos.

Todo pensamento econômico é uma tentativa de legitimar a crença na impossibilidade da cooperação (e, conseqüentemente, das redes e da democracia). O curioso é que isso não afeta somente o juízo, mas também a emoção (e a disposição para interagir). O físico Mark Buchanan (2007) em "O Átomo Social" conta uma história deliciosa sobre a aplicação do conhecido Jogo do Ultimato (para avaliar o altruismo). A pesquisa mencionada por ele "analisou como estudantes pós-graduados de diversas áreas se comportavam em jogos de colaboração semelhantes ao dos fazendeiros descritos por David Hume [passagem sempre evocada nos textos sobre capital social, i. e., o conceito precursor do conceito de rede social], e constataram que estudantes de psicologia e matemática se comportavam da mesma maneira que as outras pessoas. No entanto, o único grupo que se destacou, foram os estudantes de pós-graduação em economia, que aparentemente tinham absorvido a convicção de que os outros sempre agirão em seu próprio interesse e por isso agiam da mesma maneira, se recusando a colaborar com muito mais freqüência que os outros estudantes".

Comentário de Augusto Cuginotti em 31 maio 2011 às 14:44

Olá Clara e Nilton,

Achei bem interessante essa conversa. Olhando para as revoluções e ciclos com meus olhos de hoje, me parece que tudo gira em torno de produzir e consumir, mesmo depois de caminharmos para uma produção mais distribuída.

Talvez algo novo esteja nascendo, mas que não seja essencialmente novo, só um adereço do velho, uma modificação nas relações de poder distribuindo melhor a produção e o consumo.

Talvez uma redefinição de riqueza possa ser a próxima camada do novo no futuro. Bom, talvez eu esteja sendo romântico...

Comentário de Clara Pelaez Alvarez em 31 maio 2011 às 14:13

Sim, Nilton, bem lembrado. Essa é uma das características deste novo ciclo: as ferramentas de produção se tornam acessíveis a "todos".... No ciclo anterior (a industrialização) as ferramentas de produção demandavam enormes quantidades de capital.

Comentário de Nilton Lessa em 31 maio 2011 às 13:02

Oi Clara,

Estamos tb vivendo, provavelmente, o início de uma nova revolução, quando as tecnologias para produzir bens tangíveis e até mesmo uma certa fração da produção de bens de capital estão se tornando mais "pessoais" (isto é , acessíveis do ponto de vista de know-how e investimento ) a grupos "normais" de pessoas.

Impressoras 3D de baixo custo, e em parte "replicáveis" (isto é, capazes de gerarem a maioria das peças para novas impressoras); CNCs"domésticos"; plataformas eletrônicas open-source; soluções de maquinários open-source, etc.

Tecnologias para geração e distribuição de energia mais P2P também estão começando a ficar maduras. Enfim, creio que tem muita gente já optando por fazer nascer novas configurações. Veremos.

 

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