Escola de Redes

Divagando em explorações sobre diversos conceitos da dinâmica das redes, pensei algo que compartilho aqui com todos.

O que percorre o fluxo? Bom, em FLUZZ temos explorações muito interessantes, mas estava pensando em abordar outro aspecto.

O que vimos em alguns pontos de FLUZZ trata-se mais da Força, ou da inércia que cria a correnteza do rio. Mas este inércia conduz algo, ela não é vazia. A Força (Te) flui água, e ela: o conteúdo.

Não, não desejo defender a importância do conteúdo, sabemos que de nada importa à dinâmica das redes. O que desejo, é resignificar nossa visão de conteúdo (pois, independente da interação, ele sempre está lá presente), e quem quiser, pode chamar por qualquer outra coisa.

O conteúdo não é conteúdo algum, a informação não é informação alguma, o símbolo não é símbolo algum. A mensagem, seja como for, não o é por si mesma, tal como entendemos.

E ainda, a mensagem não é importante. Mas isso, dentro do contexto da dinâmica da rede, ou seja, quando analisa-se o comportamento que acompanha seus fenômenos. O importante é a interação, e não a mensagem. Com esta (corretíssima) visão, acabamos por despersonalizar a pessoa (dentro do contexto que desenvolvo a seguir e em certo ponto, até porque diz-se: ela já é rede).

Para haver interação, e condição para tal, é necessário haver acoplamentos estruturais. Como se originam? Pela simples abertura (ao outro-imprevisível) entre as partes? Pelo estado de dar-receber-transformar em simbiose? Aqui é onde gostaria de resignificar o conteúdo, pois acredito que a visão complementa.

Neste ponto, levanto duas questões: a) a importância do conteúdo para a pessoa e b) o conteúdo como “chave” interacional.

Para que haja interação, é necessário que o meio (fluxo) esteja exibindo uma mensagem com a qual me identifico e reconheço, caso contrário, na maioria das vezes, nem me aperceberia de qq coisa exposta. Quero dizer que se não houver ressonância do conteúdo que entra em contato com a pessoa, dificilmente ela se envolveria com determinado ambiente ou interação. É claro que reconheço e entendo quando a livre-interação se propaga no fluxo me influenciando indiretamente, mas mesmo assim, poderia me sentir um estranho no ninho. Deve ser raro quando informações que não me tocam de nenhuma maneira possam servir de meio ou condutoras à interação p2p. E conteúdos relevantes, passam a ser aqueles reconhecidos por minha memória (claro, memória como pessoa, ou seja, compartilhada por uma rede de sujeitos, e ainda, memória como tudo que vivenciei, pensei, e senti, no passado, o mesmo no presente, ou ainda, pela pura fantasia projetada de um futuro).

Se eu vou a qualquer evento, se eu leio um livro, se eu comento algo que vi com alguém, se alguma coisa me chama atenção de modo peculiar, se eu percebo algo que outros podem não perceber, enfim, é porque tais conteúdos me interessam e/ou são reconhecidos por mim.

Penso que este conteúdo memorial flui na rede através de arquétipos ou símbolos, uma vez que são capazes de sintetizar, através de uma única “forma”, vários significados semelhantes (por isso mesmo, não iguais) para diferentes pessoas daquele mesmo emaranhado. Quero dizer que um mesmo símbolo pode ter diferentes visões ou significados de acordo com cada pessoa, uns mais, outros menos semelhantes entre si.

Porém, este símbolo, este arquétipo, ele não é criado pela pessoa-emissor ou pela rede-emissora, ainda que a Força que toca o fluxo (colocando o símbolo em movimento) tenha origem nele (a pessoa), mas sim, este processo de criação arquetipal (ou dos símbolos) é de uma dinâmica metamorfoseante onde, à medida que flui pelos emaranhados, vai adquirindo novas feições através de um modo que chamaria de simbologia emergente, de forma que, com esta emergência, vai se contextualizando como "chave" que permite os devidos acoplamentos estruturais por toda a rede.

Resumindo, conteúdo (neste novo contexto) é importante sim, não para a rede, mas somente do ponto de vista da pessoa (unique), pois possui uma natureza simbólica emergente, no qual o símbolo em si ou seu significado não é importante, para tão somente servir de chave ao acoplamento estrutural que permite, por fim, a interação. E arrisco dizer que este movimento “imaterial” acompanha todo fenômeno físico, ou aqueles que passam a estar envolvidos para que o contexto simbólico emergente cumpra sua função interativa e seja percebido.

Perdoem-me usar uma expressão para tal “conteúdo” um tanto quanto estética demais, carregado-o de forma ou do sentido da visão, quando na verdade, este acoplamento está além dos 5 sentidos, ainda que sua finalidade tenha necessidade de se utilizar ou estar envolvida de todos eles (e além, semelhante àquela situação em que sentimos deformações na rede). Mas para usar uma imagem tosca, estes símbolos emergentes dão a “liga” existente entre os nodos numa simples representação gráfica de rede.

Mais uma vez, o conteúdo não é importante, uma vez que ele passa a ser produzido de forma emergente pelo próprio fluxo, ao tocar cada pessoa em seu multi-percurso. É o Te (força que se deixa fluir) em contato com a pessoa que cria o conteúdo, este, uma metamorfose ambulante, chave semântica de todas as portas (pessoas em acoplamento ou interação).

A interação muda comportamentos, mas ensaio aqui que ela não age por si só, uma vez que para “abrir a porta” que permite a interação, se faz necessário um reconhecimento (qualquer), cuja identificação permite o acoplamento. Este reconhecimento é o de um símbolo (matriz de si mesmo para qualquer idioma ou pessoa), cujo significado não foi produzido por uma pessoa (somente impulsionado por ela), mas sim, criado de forma emergente pela própria nuvem social que estabelece ligações únicas com cada micro-rede que toca. Este símbolo emergente, como chave que abre a porta da interação, influi psíquica e fisicamente sobre a pessoa, permitindo os fenômenos decorrentes da interação, ou seja, comportamento.

Não é que um conteúdo a ser emitido à rede não é importante, na verdade, penso que ele é irrelevante, uma vez que a própria rede o resignifica por emergência entre seus pares. Neste sentido, não vejo tanta disparidade com a visão de Maturana e Varela, mas quando penso que este conteúdo é como colocado aqui, não se trata também de “transmitir uma informação”, mas em transformá-la em “doce” para que a dinâmica estrutural de cada pessoa deseje degustá-lo.

O que acham a respeito? 

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Comentário de Augusto de Franco em 15 fevereiro 2014 às 12:09

Exato, Marcelo!

Comentário de Marcelo Maceo em 15 fevereiro 2014 às 8:11
Justamente Augusto. Indo na direção do seu exemplo, e esclarecendo um pouco mais a visão que expus, eu estou sugerindo uma outra ideia para conteúdo, além de um processo de entendimento intelectual, além de pura informação ou mensagem transmitida. Estou vendo o conteúdo (já é melhor buscar algum outro nome, rs) como uma dinâmica própria da rede, ou seja, ele não é a informação transmitida/recebida. O que transmitimos? Neste contexto, para mim, parece mais ter haver com uma qualidade de força, que podemos entender como vontade. Esta força, esta vontade, lançada ao Fluxo, entra na dinâmica que coloquei como símbolo (pode até ser chamado tbm conteúdo) emergente. Então seria como se a rede, através de uma dinâmica peculiar, passasse a resignificar aquela vontade num processo semiótico capaz de tornar a interação possível entre os pares, ou como disse, abrindo as portas para a interação. Cheguei a dizer no texto inicial que este "conteúdo emergente" não passava apenas no intelecto, e que talvez, inclusive pudesse ter algum resultado para além dos 5 sentidos. Ou seja, em duas pessoas interagindo, mas que não falam a mesma língua, a vontade de comunicar algo pode assumir, ao outro, uma forma que não foi articulada na transmissão (pois esta o foi apenas em vontade), mas sim, criada de maneira emergente pela rede, por aquele fluxo particular, e esta "obra de fluzz" foi personalizada para aquela pessoa que recebeu o influxo, de modo haver reconhecimento e, consequentemente, interação. Então, o conteúdo (num entendimento comum) acho que nunca é relevante, posto que mesmo que forcemos a barra querendo enfiar algo na cachola de alguém, o fluxo sempre irá resignificar aquela vontade, unindo elementos da nuvem social para se encontrar com a memória de cada pessoa. Isso ainda penso que se encontra com a ideia de que cada pessoa possui um entendimento diferente sobre as mesmíssimas coisas, o que é interessante replicando nas micro-redes sobre o comportamento sobre educação, ciência, política etc.
Comentário de Augusto de Franco em 15 fevereiro 2014 às 7:39

Eu acho bom, Marcelo. Tendo a concordar com isso. O conteúdo não é relevante para explicar o comportamento coletivo (da rede), mas é significativo para a pessoa que interage enquanto singularidade no campo, redemoinho no fluxo. O mesmo vale para o que chamam de consciência. No entanto, para o acoplamento estrutural nem sempre ele é relevante. Por exemplo, duas pessoas que se encontram numa região distante e falam línguas diferentes podem realizar acoplamento estrutural sem um conteúdo intelectual (por assim dizer). Os corpos vivos interagem de vários modos (podem se abraçar, se acariciar, acasalar ou mesmo se apoiar um no outro). A informação não pode ser separada de quem supostamente a recebe e emite e, assim, inclusive ela (para ter significado) deve estar submetida ao processo de interação.

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