Escola de Redes

UMA ESPÉCIE DE "CÓDIGO DE ÉTICA" DO EMPREENDEDOR EM REDE

Campanha contra o Dick Vigarista. Mesmo que você esteja precisando "fazer seu nome", recuse convites para trabalhar de graça. É indigno!

Comecei a propor no Twitter, na falta de uma expressão melhor, uma espécie de Código de Ética do Empreendedor, usando a tag #CE_E

Pode dar uma boa discussão, lá e aqui.

Até agora já temos os seguintes artigos, que ainda devem ser lapidados e ordenados:

• Ganhar muito pelo seu trabalho – cobrando caro, o quanto for, pelo seu produto ou serviço – é sempre legítimo.

• Ganhar com o trabalho alheio, traficando influência para fechar contratos e depois subcontratar subremunerando pessoas desavisadas ou necessitadas é vergonhoso.

• Tratar as outras pessoas sempre como potenciais clientes é uma atitude prejudicial, ao seu próprio negócio e aos negócios alheios. Outras pessoas podem ser parceiras ou amigas, não necessariamente clientes.

• Só se deve aceitar trabalhar pro bono em empreendimentos pro bono.

• Captar trabalho pro bono para empreendimentos com fins lucrativos é coisa de vigarista.

• Seja transparente ao propor um trabalho cooperado. Usar as pessoas escondendo informações quanto aos reais objetivos de um trabalho é sacanagem. [Sugestão do @chinabhz]

• É indigno aceitar convites para trabalhar de graça feitos por pessoas remuneradas para fazer tais convites (a menos que essas pessoas estejam prestando serviço para algum projeto pro bono – mas mesmo assim é meio estranho).

. Pedir várias propostas a fornecedores, roubar as melhores idéias e entregar o projeto a alguém da tchurma: também é coisa de vigarista.

. Idem: pedir um orçamento detalhado para ontem e depois sumir ("os mais pentelhos ainda te chamam para uma reunião, lá, no bunker deles: prá sermos 'brifados'") [Sugestão do Marcelo Estraviz]

[Três sugestões do Fernando Domingues sobre procedimentos ilegítimos:]

- Pedir proposta apenas para ser mais uma entre três opções e justificar alguem ja pré-escolhido.

- Pedir proposta detalhada e depois transforma-la no briefing oficial para leiloar e entregar o trabalho a quem fizer pelo menor preço.

- Barganhar preço de um projeto ao máximo e depois de aprovado ir solicitando novos itens como se você tivesse obrigação de atender, em nome de nossas "boas relações" ou de "trabalhos futuros".

. Também não é correto fundar uma organização sem fins lucrativos, dedicada a causas nobres, humanitárias, de inclusão dos excluídos, de defesa de direitos universais, de salvação do planeta ou da espécie humana, conseguir financiamento ou patrocínio para promover eventos ou outras atividades e contar com trabalho não pago - recrutado em nome desses excelsos objetivos - para conseguir realizar tais eventos ou atividades, de forma que, dos recursos obtidos, sobre mais para cobrir seus custos (incluídos aí a remuneração de apenas pessoas da organização).

. Trabalhar em uma organização sem fins lucrativos não lhe dá o direito de (nem a legitimidade para) não pagar o trabalho alheio

. (O número de Ongs que se comportam como empresas tem crescido muito nos últimos tempos. É um modo de enganar o público). Você quer ganhar dinheiro? Legal! Venda seus produtos e serviços Mas não se disfarce de organização sem fins lucrativos.

• Nunca se deve prosperar na base da esperteza, deixando de pagar o trabalho alheio.

Acrescente sua sugestão usando o campo de comentários abaixo. Ou lá no Twitter.

A idéia é que isso possa se aplicar, em especial, ao empreendedor em rede. É claro que não será um código de ética stricto sensu. Aliás, não acredito muito nesse papo de ética a partir de interesses. Mas em correntes de opinião, sim. Manifestar indignação contra os espertinhos pode ter algum efeito (os espertinhos são aqueles caras que querem prosperar as custas dos outros).

Tomei tal iniciativa porque já estou me exasperando com tantos convites que recebo semanalmente de grandes e pequenas organizações para trabalhar de graça. Os caras dizem coisas assim:

"- Olhe, sinto muito, mas seu preço está muiiiito acima de nosso orçamento";

"- Já esgotamos nosso orçamento para este ano, mas quem sabe no próximo seja possível contratá-lo";

"- Infelizmente não temos possibilidade de arcar no momento com esses custos, mas mesmo assim gostaríamos muito de contar com a sua presença";

"- Somos uma organização sem fins lucrativos. Você não poderia, no nosso caso, fazer um booom desconto?";

"- Não temos budget para pagar honorários";

"- Convidamos você porque reconhecemos sua experiência ou seu conhecimento acumulado no tema e tem muita gente aqui que adoraria ouví-lo".


Aí eu pergunto sempre se o evento (ou a outra atividade) para o qual estão me convidando é sem fins lucrativos. Uns dizem que sim, outros dizem que não. Quando dizem que sim eu pergunto em seguida: "- E você, está recebendo alguma coisa para me fazer tal convite?" A pessoa responde: "- É claro, trabalho aqui e preciso sobreviver". E eu retruco: "- E eu, não preciso também sobreviver?" A conversa costuma morrer nesse ponto.

Os que dizem que não, são, em geral, mais sinceros e também mais caras-de-pau. No máximo insinuam que minha remuneração será a publicidade ou a reputação que obterei com a atividade.

Organizo eventos há algumas décadas. Quase sempre sem fins lucrativos. Mas quase sempre faço um fund raising para trazer palestrantes e outros profissionais que vivem disso. Teria vergonha de pedir de graça a única coisa que essas pessoas têm para vender.

Mas tenho notado que tem crescido muito o número de empreendedores e de organizações que não têm um pingo de vergonha de pedir de graça a única coisa que profissionais como eu têm para vender. Outro dia (2009) o Chris Anderson escreveu sobre isso (se não me engano em Free):

"Você pode ler, gratuitamente, meus conceitos genéricos e aplicá-los a suas situações. Mas, se quiser, ou precisar, de minha presença, para convencer um diretor a experimentar estas idéias, adaptar os conceitos genéricos que divulgo, em meus artigos e livros, para atender sua situação particular, ensiná-los em cursos ou apresentações, terá que pagar minhas despesas e minhas horas de trabalho. É do que eu vivo."

Tive que colocar no meu site uma coisa parecida:

Todas as conversas presenciais profissionais (incluindo palestras) com Augusto de Franco são remuneradas. Ele faz trabalho pro bono, por iniciativa própria, mas não aceita convites para trabalhar de graça, sobretudo feitos por pessoas remuneradas para fazer tais convites. Eventualmente, pode discutir convites para trabalhar pro bono em um evento se as pessoas que o convidam também estiverem trabalhando pro bono para realizar esse evento.

É claro que não adiantou. A cara-de-pau não tem limites. Muitas vezes quem cumpre esse papel não vai nem ganhar nada (financeiramente) com isso. Faz para agradar o chefe: "- Olhe só, chefe, o que eu consegui, na manha: levei o cara no bico".

Quase ninguém reclama. Uns por que não querem parecer impertinentes. Outros para não perder potenciais clientes ("vou aceitando de graça, vendendo simpatia e fazendo amizades e, quem sabe, amanhã ou depois, eles me contratam"). Outros, ainda, porque estão precisando mesmo - desesperadamente - ganhar qualquer dinheiro para sobreviver e precisam aproveitar qualquer chance ou se sujeitar a qualquer condição.

É triste.

Então, você tem alguma sugestão para o nosso pseudo "código de ética"? Se tiver, deixe no campo de comentários abaixo. Ou lá no #CE_E

Aquele abraço!

Exibições: 2550

Comentar

Você precisa ser um membro de Escola de Redes para adicionar comentários!

Entrar em Escola de Redes

Comentário de Lía Goren em 11 julho 2010 às 1:22
Concordo de principio a fin.
No recibo tantas invitaciones como a Augusto, hehe, pero he atravesado por situaciones equivalentes a todos sus ejemplos.

En el mismo sentido, me fastidia cuando me comprometo con algo que me ofrecen "pro bono" y que luego, una vez comprometida con ese tipo de servicio, me cambian las reglas de juego y resulta que tengo que pagar...

Prefiero que me digan -como pasaba en argentina con las tarjetas de crédito- "te la doy gratis por un año". Nunca las acepté porque todavía sigo firmemente decidida a no tener tarjeta de crédito ( aprendí a vivir sin ellas y con la mínima dependencia de los bancos) pero valoré la transparencia de la oferta. Conservaba mi derecho a elegir.
Comentário de Augusto de Franco em 10 julho 2010 às 19:01
Novo artigo para o #CE_E: Pedir várias propostas a fornecedores, roubar as melhores idéias e entregar o projeto a alguém da tchurma: também é coisa de vigarista.
Comentário de Marcelo Estraviz em 8 julho 2010 às 9:23
Eu resolvi a questão da seguinte forma: Voluntariamente, palestro só até 2 horas se for em sampa. Se for fora, palestro gratuitamente em troca de 2 diárias de onde for (e a passagem, claro). Mais que isso, cobro por hora e não regateio o valor da hora. Se é caro pra eles, peço que alterem de 8 para 6 horas, ou de 16 para 12, nunca abaixo o preço.

E nunca mais aceitei subcontratação. Cansei de construir pirâmide alheia.
Comentário de Clara Pelaez Alvarez em 8 julho 2010 às 8:56
É.... concordo! Também vivencio esses problemas!

Este é o caso mais comum:

"Ganhar com o trabalho alheio, traficando influência para fechar contratos e depois subcontratar subremunerando pessoas desavisadas ou necessitadas é vergonhoso.

É exercido por todas as empresas de TI, consultorias e empresas que trabalham com serviços, de modo geral. É preciso desenvolver um projeto, e esse projeto precisa de 10 pessoas. Cobra-se do cliente R$300,00/hora/pessoa e paga-se R$80,00/hora/pessoa. É exatamente assim que surge essa assimetria social de riquezas. É assim que uns enriquecem e outros não.

Essa é a essência do capitalismo, no meu entender!

© 2019   Criado por Augusto de Franco.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço