Escola de Redes

Se queremos constituir uma escola de redes, não temos saída. Temos que investigar o assunto. Não inventaram ainda outro modo de aprender a não ser estudando e experimentando. É certo que, como diz o lema adotado aqui, "A escola é a rede". Isso significa que, para pertencer à "escola" - que é uma não-escola - não temos que alisar bancos escolares ou entrar em confrarias acadêmicas. Não temos que nos matricular em cursos ou nos inscrever em programas de capacitação. Mas não significa que não seja necessário estudar, ler os textos que foram escritos pelos que investigam o tema (e sobretudo interpretá-los de forma inovadora), fazer explorações nesse universo temático, investigar as características e aspectos - a fenomenologia e a topologia das redes sociais - e experimentar o viver-em-rede no dia-a-dia, em projetos concretos setoriais ou locais. Se você está conectado aqui e não faz pelo menos algumas dessas coisas, então está no lugar errado!

Não tem jeito. Não basta ficar assistindo um ou outro vídeo e mandando bilhetinhos para os amigos. Tem que estudar. Tem que ler. Tem que interpretar. Tem que explorar. Tem que investigar. Tem que experimentar. É apenas a minha opinião, mas vou repetí-la: se você está conectado aqui e não faz pelo menos algumas dessas coisas, então está no lugar errado!

Digo isso porque, examinando o número de downloads efetuados até agora nos TEXTOS constantes da nossa homepage, verifico que mais de 80% dos conectados não tiveram sequer a curiosidade de baixá-los! Claro que você pode ficar e fazer o que quiser em uma rede distribuída. As regras da Escola-de-Redes não exigem que você faça nada do que estou dizendo. Mas também não me impedem de continuar dizendo: saiba bem onde você entrou. Saiba exatamente do que trata a Escola-de-Redes clicando aqui. Leia, reflita e confira se você concorda mesmo com os objetivos e as visões inaugurais dessa rede distribuída de pessoas. A Escola-de-Redes não é um site de relacionamento ou um espaço genérico de convivência virtual onde cabe qualquer coisa e sim uma coligação de pessoas que se articulam horizontalmente para conhecer mais sobre redes sociais por meio da investigação e da experimentação compartilhadas. Portanto, se você não está interessado(a) em assumir esse propósito, não se conecte. E se já estiver conectado, desconecte-se!

Em contrapartida, a Escola-de-Redes não exige de você nenhum pré-requisito acadêmico, nenhum diploma, nenhum título. Em certo sentido a Escola-de-Redes é uma escola de autodidatismo. Sobre isso, transcrevo aqui alguns trechos da 'Carta Rede Social 172' (de 11/09/08), intitulada

Autodidatismo: a livre aprendizagem humana em uma sociedade inteligente

"Já está passando da hora de recuperarmos Ivan Illich, que publicou, há quase quatro décadas – em uma época em que as pessoas não podiam captar plenamente o alcance de sua visão inovadora –, o célebre Deschooling Society (1971) (1).

[...]

As razões são quase óbvias e já foram expostas na minha ‘Carta Rede Social 170’ (14/08/08) (2). Retomo aqui, de forma resumida.

Embora se declarem instituições laicas, as escolas são, no fundo, igrejas; ou seja, ordens hierárquicas (sacerdotais) que decidem o que as pessoas devem (saber) reproduzir. Graus de aprendizagem (na verdade, de ensino) são ordenações: medem a sua capacidade de replicar uma determinada ordem. Não é por acaso que a educação a distância encontrou fortíssima resistência na academia. Pelos mesmos motivos, os citados processos e programas educacionais extra-escolares são duramente combatidos pelas corporações de professores, que argumentam – sem se darem conta de que, com isso, estão apenas revelando seu caráter sacerdotal – que não se pode deixar a educação nas mãos de leigos…

Todo aprendizado depende da capacidade de estabelecer conexões e reconhecer padrões. Nos dias de hoje, uma criança com acesso à Internet em casa e noções rudimentares de um ou dois idiomas falados por grandes contingentes populacionais (como o inglês ou o espanhol, por exemplo), já é capaz de aprender muito mais – e com mais velocidade – do que um jovem com o dobro da sua idade que, há dez anos, estivesse matriculado em uma instituição de ensino altamente conceituada. Se souber ler (e interpretar o que leu), escrever, aplicar conhecimentos básicos de matemática na solução de problemas cotidianos e… banda larga, qualquer um vai sozinho. Ora, isso é terrível para os que querem adestrar as pessoas com o propósito de fazê-las executar certos papéis predeterminados. Isso é um horror para os que querem formar o caráter dos outros e inculcar seus valores nos filhos alheios.

A educação em uma sociedade-rede

Em uma sociedade-rede, a educação é uma conseqüência dos meios interativos disponíveis na rede. São esses meios que conformam ambientes sociais (clusters) capazes de ensejar aquele tipo de interação caracterizada como educativa. Ou seja: a escola é a rede!

Dominar a leitura e a escrita, saber calcular e resolver problemas, ter condições de compreender e atuar em seu entorno social, ter habilidade para analisar fatos e situações e ter capacidade de acessar informações e de trabalhar em grupo, são geralmente apresentados como objetivos do processo educacional básico. No entanto, para além, muito além, disso, os novos ambientes educativos em uma sociedade-rede tendem a valorizar outras competências ou habilidades, como a de identificar homologias entre configurações recorrentes de interação que caracterizam clusters (e, conseqüentemente, reconhecer potenciais sinergias e aproveitar oportunidades de simbiose), saber não apenas acessar, mas produzir e disseminar informações e conseguir não apenas trabalhar em grupo, mas fazer amigos e viver e atuar em comunidade.

Sociedades em que as redes são as escolas serão sociedades desescolarizadas, como queria o visionário Ivan Illich.

De certo modo, tudo o que parece realmente necessário para a convivência ou a vida em rede, como a educação para a democracia, a educação para o empreendedorismo e para o desenvolvimento ou a sustentabilidade, não comparece nos currículos das escolas. Não pode ser por acaso. Isso talvez corrobore a constatação de que a escola é uma das instituições que mais resistem ao surgimento da sociedade-rede.

[...]

Vou falar agora da necessidade de investir em uma velha-nova modalidade educativa: o autodidatismo. Velha porque foi assim que tudo começou. Nova porque, nos dias que correm, uma criança, uma pessoa adulta ou idosa navegando, lendo e publicando na Web é, fundamentalmente, um autodidata.

Não adianta torcer o nariz. Na sociedade que está vindo, todos serão autodidatas, por mais que queiramos condicionar a empregabilidade à formação escolar e acadêmica.

A escola como meio de exclusão

Como escrevi recentemente, em Escola de Redes: Novas Visões (2008), na sociedade-rede “você é importante na medida de sua capacidade de exercer uma dessas três funções [hub, inovador ou netweaver] e não de seu exibicionismo, de sua desenvoltura em usar os semelhantes como instrumentos para sua projeção ou de sua auto-reclusão estudada, baseada em uma opinião muito favorável sobre si mesmo ou baseada em seu currículo” (3).

Colecionadores de diplomas e títulos acadêmicos não terão muitas vantagens em uma sociedade inteligente. Suas vantagens provêem da idéia de que a sociedade é burra (e eles, portanto – que compõem a burocracia sacerdotal do conhecimento – são os inteligentes). Para se destacar dos demais – quando o desejável seria que se aproximassem dos semelhantes – os sábios precisam que a sociedade continue burra.

Estamos vivendo há séculos sob o controle de uma burocracia sacerdotal do conhecimento. Permita-se-me uma outra auto-citação, ainda do Escola de Redes: Novas Visões. “Você fez um estudo interessante sobre determinado assunto, mas a burocracia sacerdotal do conhecimento acadêmico não lhe dá crédito; você tenta ler (ou escrever) alguma coisa inédita, mas não consegue entender (ou ser entendido) por razões estranhas à racionalidade formal (lógica e metodológica) ou substantiva (semântica incluída) do texto: certamente está havendo algum tipo de intervenção hierárquica, que seleciona alguns caminhos na rede em detrimento de outros. Algum programa particularizou uma região da rede instaurando códigos de reconhecimento e permissões. Se você não possui as credenciais (um título, por exemplo, com o qual os mesmos de sempre se condecoram mutuamente em um circuito fechado de quem leu as mesmas coisas, participou das mesmas conversas, quer dizer, compartilhou voltas em torno do mesmo assunto ou da mesma maneira de abordá-lo), seu acesso é proibido. Para esse tribunal epistemológico — que se arroga o direito de dizer o que é e o que não é válido em termos de pensamento — todos são culpados de heresia em princípio. Você tem que ser absolvido por ele, de antemão, para ser aceito” (3).

É assim que a escola, nos últimos séculos, não foi um meio de inclusão, mas de exclusão. Nesse tipo de platonismo (como todo platonismo, autocrático), o “doutor” (o sábio) era um representante do mundo dos incluídos, que se destacava do mundo dos excluídos (os ignorantes). Até hoje, no Brasil, se for pego cometendo um crime, quem tem curso superior merece prisão especial: seu diploma lhe confere o direito de não ficar na mesma cela que os sem-diploma (os ignorantes). Sim, o seu suposto conhecimento atestado por títulos lhe dá uma condição superior e é a própria lei que lhe reconhece o direito de se destacar dos semelhantes. Barbaridade!

É claro que hoje as coisas devem – e já podem – ser colocadas de outra maneira, envolvendo redes ou comunidades de aprendizagem, sobretudo no que se refere à educação em casa (homeschooling) e à educação comunitária (communityschooling), esta última em um sentido mais abrangente do que o da comunidade sócio-territorial, envolvendo clusters de aprendizagem (ou seja, comunidades como redes com alto grau de distribuição e conectividade). Fala-se até, por analogia com os APL (arranjos produtivos locais), de “AEL” (Arranjos Educativos Locais), mas o sentido de local aqui deve ser estendido para abarcar, além de comunidades territoriais, todos os tipos de redes identitárias.

A sociedade-escola

A sociedade sem escola de Illich deveria ser, assim, renomeada como a sociedade-escola, desde que fique claro que se trata da sociedade-rede; ou seja, estamos falando da cidade educadora, ou, mais precisamente ainda, das comunidades educadoras que se formam na sociedade-rede.

Nesse sentido, não são os aparatos educativos hierárquicos, enquistadas dentro da sociedade, que educam basicamente: na medida em que a sociedade de massa vai dando lugar à sociedade em rede, é a própria sociedade (local, no sentido ampliado) que educa, por meio das comunidades (clusters) que necessariamente se formam em seu seio.

Comunidades educadoras são, antes de qualquer coisa, comunidades de aprendizagem, quer dizer, comunidades-que-aprendem. E a pessoa, como continuum de experiências pessoais intransferíveis e, ao mesmo tempo, como série de relacionamentos, aprende por estar imersa (conectada) em um ambiente educativo (4).

O fundamental é aprender a aprender

A educação básica não deveria ser baseada na transferência de conteúdos temáticos secundários e sim na disponibilização de ferramentas de auto-aprendizagem e de comum-aprendizagem. Para reprogramar a educação básica deveríamos começar perguntando o que é necessário para que um indivíduo e uma comunidade possam fazer o seu próprio roteiro de aprendizagem. Do ponto de vista do autodidatismo, temos então uma resposta em 10 pontos:

1 – Reconhecer padrões

2 – Estabelecer conexões

3 – Ler na sua língua natal

4 – Interpretar o que leu

5 – Escrever na sua língua natal

6 – Fazer contas (as operações matemáticas básicas)

7 – Aplicar os conhecimentos básicos de matemática na sua vida cotidiana

8 – Ler em outra língua (da globalização, quer dizer, falada por um grande contingente populacional espalhado por vários países e mais de um continente)

9 – Argumentar (rudimentos de lógica)

10 – Navegar e publicar na Internet

Esses são os requisitos e as ferramentas contemporâneas da inclusão educacional. Quem dispõe deles pode caminhar sozinho; ou seja, de posse de tais instrumentos, cada um, em função de suas opções pessoais, pode traçar seus próprios itinerários de formação e compartilhá-los com suas redes de aprendizagem. Esses são os requisitos para o autodidatismo.

A chamada pré-escola (ou melhor, a educação da primeira infância) deveria se concentrar nos dois primeiros itens (além da fala, é claro). E o passo seguinte deveria ser – quer por meio da escola básica, quer por meio da educação extra-escolar: na educação em casa (homeschooling) e na educação comunitária (communityschooling) – promover o aprendizado dos oito itens restantes. Mas mesmo que a escola básica se dedicasse precipuamente a isso, mesmo assim não se poderia abrir mão da educação em casa (a primeira rede na qual o ser humano se conecta), nem da educação comunitária (a primeira expansão dessa rede, envolvendo os vizinhos, os amigos e conhecidos mais próximos).

Educação para a democracia e para o desenvolvimento

Para além da escola, essas duas redes serão também indispensáveis na próxima etapa curricular, na qual devem comparecer os primeiros conteúdos temáticos substantivos. Não, não se trata de nada (ou quase nada) do que atualmente compõe os currículos escolares. Trata-se, por incrível que possa parecer, da educação para a sustentabilidade, quer dizer, para a vida (em um sentido ampliado, envolvendo os ecossistemas, inclusive o ecossistema planetário) e para convivência social. Isso compreende duas “disciplinas” (se for possível falar desse modo) interligadas: a educação para a democracia e a educação para o desenvolvimento.

A educação para a democracia (em um sentido deweyano do termo) compreende a educação para vida comunitária, para os modos cooperativos de resolução de conflitos e para as formas de relacionamento que ensejam a regulação social emergente (as redes).

A educação para o desenvolvimento (humano, social e sustentável) deve compreender, por sua vez, o empreendedorismo (e a chamada pedagogia empreendedora) e o desenvolvimento local (ou comunitário).

Todo o restante é suplementar. Pasmem! Mas é isso mesmo. Saúde (incluindo educação física, alimentação e nutrição), artes e literatura, ofícios, história, ciências, filosofia e espiritualidade – são conteúdos importantes, mas não são educação básica em um sentido sistêmico, de acesso a ambientes favoráveis a aprendizagem. Isso não quer dizer que as pessoas não devam aprender essas coisas. Cada um deve aprender o que quiser, o que for necessário para o desenvolvimento de suas potencialidades e para a execução dos papéis sociais que optou por desempenhar. Mas à educação societária (ou comunitária) – à educação como domínio público – cabe se concentrar naqueles dez requisitos para a auto-aprendizagem e naquelas duas dimensões temáticas da educação para a sustentabilidade (democracia e desenvolvimento) que têm a ver com os padrões de vida e de convivência social.

A educação para a livre aprendizagem humana em uma sociedade inteligente

A educação para o autodidatismo deve se preocupar basicamente com isso, com a educação como domínio público. Essa é a “formação básica” do autodidata – que constituirá o ser humano inteligente em uma sociedade inteligente do futuro – que deveria ser priorizada pela rede familiar, pelas redes comunitárias e pelas hierarquias escolares básicas (a escola fundamental nos seus primeiros anos).

E depois? Bem, depois serão os autodidatas que – eles próprios tendo condições de caminhar com suas próprias pernas, desde que aprenderam a aprender – vão dizer o que querem aprender e o que não querem. Em uma sociedade livre, não podemos ficar enfiando conteúdos na cabeça dos outros para cumprir os papéis que desejamos que eles cumpram. Sobretudo não deveríamos, com base na falta de possibilidade (em geral econômica e social) da maioria da população, de fazer escolhas em um leque mais amplo de alternativas, ficar ensinando corte-e-costura para as meninas e carpintaria ou mecânica para os meninos. Isso pode interessar aos donos da fábrica de confecções, de móveis ou da fábrica metalúrgica e da montadora de automóveis, que querem que os filhos alheios aprendam tais ofícios, mas raramente se dispõe a matricular seus próprios filhos nessas escolas técnicas, reservando-lhes um lugar em alguma carreira acadêmica, “superior”, na qual eles vão aprender a mandar nos outros ou a ter melhores condições de auferir altos salários, lucros e outros benefícios. Como se pode ver, aqui não estamos mais no terreno da educação como domínio público, ainda que muitas das escolas (estatais) que se dedicam ao adestramento da força de trabalho sejam (ditas) públicas.

Alguns retrucam que esse tipo de educação para o autodidatismo não pode ter avaliação da aprendizagem, mas isso é falso. A avaliação passa a ser feita em coletivos mais amplos, passa a ser uma avaliação da sociedade – uma avaliação pública stricto sensu – e não a avaliação privada de uma confraria sacerdotal. Em vez das notas e dos títulos conferidos por uma corporação de professores, por uma banca acadêmica, os autodidatas serão avaliados pelo que produzem. É a árvore avaliada por seus frutos e não pelos certificados que recebeu da organização dos botânicos.

Isso já acontece com os escritores. Escritor é quem escreve e quem é reconhecido pelos leitores (que lêem seus livros e os recomendam) e não quem recebe autorização para escrever de uma corporação qualquer de escribas ou um conjunto de opiniões favoráveis dos críticos literários. Somente em regimes autocráticos as pessoas têm que ter autorização para publicar o que escrevem. Mas mesmo em regimes formalmente democráticos existem quistos autocráticos (como corporações profissionais ou acadêmicas) querendo impor proibições para tal exercício (como ocorre hoje, por exemplo, com a obrigatoriedade do diploma de curso superior de jornalismo para exercer a função jornalística).

As academias científicas também impõem restrições autocráticas. As revistas científicas reconhecidas são dirigidas por conselhos editoriais – que se constituem, como vimos, como verdadeiros tribunais epistemológicos (e, no caso das áreas humanas e sociais, freqüentemente também como alfândegas ideológicas) – aos quais cabe dizer o que um estudioso pode ou não pode publicar (a começar pela exigência de diplomas do autor como condição prévia para aceitar sequer receber e examinar o seu paper). Muitas vezes um jovem estudante de astrofísica fica meses esperando um parecer favorável à publicação de um artigo em que relata as importantes descobertas que fez.

Tudo isso faz parte da organização sacerdotal do conhecimento (etimologicamente, uma hierarquia), que não é mais compatível com a sociedade em rede que está emergindo.

Mas na sociedade-rede que está emergindo, nosso astrofísico já encontrou uma saída: agora ele publica suas descobertas imediatamente em seu próprio blog, sem pedir autorização a ninguém. Outros astrofísicos, que também têm seus blogs, lêem o que ele escreveu e interagem com ele. O único resultado é que enquanto o tribunal espistemológico dos pós-PHDs em astrofísica estão pensando se aceitam ou não aceitam seu artigo, a ciência avançou pela polinização mútua das idéias e dez novos artigos sobre o mesmo tema apareceram sucessivamente. Formou-se uma rede. E a rede avaliou a aprendizagem daquele jovem astrofísico por meio de um processo criativo, gerando mais aprendizagem coletiva.

Se não houver retrocesso no processo de emergência da sociedade-rede, tudo será assim. As notas, os certificados, os diplomas e os títulos continuarão existindo, mas as pessoas que realmente importam – quer dizer, que se conectam para aprender e produzir juntas – darão cada vez menos bola para essas autorizações hierárquicas.

Por outro lado, autodidatas são pessoas capazes de aprender também a se auto-avaliar. E a compartilhar sua avaliação em grupos de estudo.

Voltar a ler: o caminho do audidata

O velho alquimista Altus (1677) que desenhou o Mutus Liber (um belíssimo livro de gravuras), escreveu em toda obra apenas uma frase, na sua décima-quarta prancha: “Ora, lege, lege, lege, relege, labora et invenies”. Chamo a atenção para a insistência de uma parte do lema alquímico: lê, lê, lê, relê... Ao alquimista, como autodidata, cabia encontrar o caminho (ou construir seu próprio caminho) por meio da leitura.

Para quem já adquiriu a condição de autodidata, muita coisa pode ser feita por meio de programas alternativos de leitura – individual ou em grupo.

Para quem já adquiriu tal condição – ou seja, para quem já aprendeu a aprender – é sempre melhor fazer um esforço autodidático para ler as obras fundamentais de qualquer assunto do que se matricular em um curso superior e ficar assistindo aulas de professores que reproduzem as modas da época, indicam bibliografias (em geral fotocópias de partes de textos clássicos, resenhas e análises que interessam mais aos trabalhos acadêmicos que eles estão fazendo no momento do que ao aluno) e que, via de regra, não leram, eles próprios, a maioria dos textos básicos sobre a matéria que ensinam.

Sim, sobre qualquer assunto é necessário ler pelo menos uma parte dos textos básicos: alguns clássicos, com certeza, mas também alguma coisa contemporânea. A lista completa pode chegar, dependendo do tema, a centenas de títulos. Digerir tudo é meio impraticável, sobretudo se considerarmos que não basta ler os textos. O estudante deve procurar se informar sobre o autor e sobre as circunstâncias em que produziu sua obra. Deve ler um ou dois artigos de especialistas contextualizando a obra. E não pode trocar a leitura dos textos (fontes) pela leitura do que disseram sobre esses textos. Ao contrário do que se pratica nas academias, é preciso que o estudante vá primeiro beber direto na fonte para depois fazer o que quiser (ou puder).

Aulas não servem para muita coisa. Se houver um grupo de meia dúzia a uma dúzia de estudantes interessados e esse grupo puder organizar seminários regulares sobre cada um dos textos, será o ideal. Leitura individual e conversações. E pronto. Ou quase.

Por último, é bom que o estudante escreva um pequeno comentário (curto como um artigo de jornal, pois a capacidade de produzir uma síntese é um dos indicadores de compreensão) sobre o texto que leu. Não é para resumir, resenhar, “fichar” ou copiar (ou repetir com outras palavras) o que disseram o autor ou seus comentadores e críticos. É para descobrir coisas novas, formar uma opinião própria que tente acrescentar alguma coisa ao que já foi dito. Se adotássemos tal exigência nas nossas universidades, o índice de reprovação seria multiplicado por 10 (ou, quem sabe, por 20). Aliás, na pós-graduação, bastaria proibir as citações (obrigando o estudante a dizer o que ele realmente pensa sobre o assunto) para eliminar 90% das teses de mestrado e doutorado, em especial nas áreas de “humanas”.

A rigor nenhum conhecimento pode ser transferido. O conhecimento é sempre criado e recriado ou reconstruído; de certo modo, inventado. Quem não inventa nada, não aprende nada.

A “prova” final de um curso autodidático é escrever alguma coisa original, inventada. Inventada, sim: não acredite nos que vão dizer que isso tem que ser “assim” ou não pode ser “assado”. Produza, publique sem pedir autorização a ninguém e depois arque com as conseqüências expondo-se a crítica.

A árvore se conhece pelos frutos. Não é necessário um fiscal para dizer se o fruto é bom ou ruim segundo suas concepções e seus gostos. Se as pessoas puderem chegar até a árvore, colher os frutos e experimentá-los, saberão se vale a pena comê-los até o fim. Ponto.

O fim dos colecionadores de diplomas

Já há bastante gente pensando assim. Headhunters inteligentes se impressionam muito pouco com a coleção de diplomas apresentados por um candidato a ocupar uma vaga em uma instituição qualquer.Querem saber o que a pessoa está fazendo. Querem saber o que ela pode ser a partir do que pretende (do seu projeto de futuro) e não o que ela é como continuidade do que foi (da repetição do seu passado). Está certo: como se diz, o passado “já era”. O novo posto pretendido não será ocupado no passado e sim no futuro. Então o que é necessário avaliar é a linha de atuação ou de pensamento que está sendo seguida pelo candidato.

Em breve, as avaliações de aprendizagem serão feitas diretamente pelos interessados em se associar ou em contratar (lato sensu) uma pessoa. Redes de especialistas de uma área ou setor continuarão avaliando os especialistas da sua área ou setor. Mas essa avaliação será cada vez horizontal. E, além disso, pessoas avaliarão outras pessoas a partir do exame das suas expressões de vida e conhecimento, pois que tudo isso estará disponível, será de domínio público e não ficará mais guardado por uma corporação que tem autorização para acessar e licença oficial para interpretar tais dados.

Cada pessoa terá a sua própria wikipedia. Ao invés de aceitar apenas as oblíquas interpretações doutas, passaremos a verificar diretamente a wikipedia de cada um, aquilo que David de Ugarte (2007) chamou de contextopédia: o arquivo-vivo que contém as definições dos termos habituais, os pontos de vista, as referências, os trabalhos e as conclusões sobre os assuntos da sua esfera de conhecimento e de atuação (5). Quem gostar do que viu, que contrate ou se associe ao autor daquela contextopédia. Ponto final."


Notas e referências

(1) ILLICH, Ivan (1971). Deschooling society. New York: Marion Boyars, 1971. O original está disponível on line neste link. Existe tradução brasileira: Sociedade sem escolas. Petrópolis: Vozes, 1985. A íntegra já está disponível neste link.

(2) Para ler clique aqui.

(3) FRANCO, Augusto (2008). Escola de Redes: Novas Visões sobre a sociedade, o desenvolvimento, a Internet, a política e o mundo glocalizado. Curitiba: Escola-de-Redes, 2008.

(4) Como articulador do Comitê Científico do X Congresso Internacional de Cidades Educadoras (São Paulo, 24 a 26 de abril de 2008), propus um conjunto de 27 questões provocativa para o debate dos participantes, cujo sentido geral era explicitar duas dimensões ainda não suficientemente exploradas ao longo de quase duas décadas de experiências desse interessante movimento surgido em 1990 em Barcelona: a) as relações entre cidade educadora e democracia (democracia entendida aqui quer como regime político formal, quer como experiência de convivência social, na base da sociedade e no cotidiano do cidadão); e b) as relações entre cidade educadora e os processos individuais e coletivos de aprendizagem potencializados pela emergência das redes sociais distribuídas. Em uma proposta de resolução – que não foi objeto de apreciação pela plenária final do Congresso – propus sobre isso treze pontos como conclusões. Para ler clique aqui.

(5) Cf. UGARTE, David (2007). O poder das redes. Porto Alegre: CMDC/ediPUCRS, 2008.

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Comentário de Nilton Lessa em 6 janeiro 2009 às 11:05
Caro Sílvio,

Concordo contigo. A mim inclusive pouco interessa discussões sobre reformar a escola pois a vejo como um "todo coerente": coerente e ineficiente. Mas como corpo "coerente", bastante eficaz em repelir toda mudança realmente significativa; e bastante eficaz em "pasteurizar" e fagocitar corpos estranhos: basta ver como "encaixotou" as tecnologias digitais em "curriculo", laboratório, etc. Já há críticas suficentes à escola: para mim já soa até como uma perda de tempo ficarmos coletando mais e mais evidências sobre a inadequação do modelo.

Para mim o ponto é discutir e projetar formas de estruturação de redes de aprendizagem, onde cada um dos nós (os ambientes de aprendizagem) compartilhem dos ideais de construção de um ser humano autônomo, crítico e solidário.

Há desafios de várias ordens a serem superados, principalmente quando falamos de crianças: logísticos, comunicacionais, epistemológicos. É importante superarmos os desafios práticos de organização de uma rede de aprendizagem deste tipo; como diz o ditado, o "diabo mora nos detalhes".

Sobre os adultos, sou de opinião meio "curta e grossa": quem se construiu como um ser heterônomo, pouco há a ser fazer; para quem já não é autodidata, quem não aprendeu a aprender (navegar nas incertezas, suportar as frustrações, ) e principalmente conectar-se com o prazer de fazer e aprender o que deseja aprender) já é tarde demais. (graças a Deus existem pessoas que pensam diferente de mim. Mas como o tempo e energias são finitos, cada um dos nós de uma rede pode se dedicar ao que realmente acredita)

Creio que neste ponto Thomas Kuhn pode ajudar: quando se construir suficiente massa crítica de "crentes" num novo paradigma, o antigo será substituido pela morte natural dos seus proponentes mais ativos.

Abraços fraternos,
Comentário de Nilton Lessa em 6 janeiro 2009 às 9:12
Prezada Lia, prezado Augusto,

Os conceitos de sistemas dinâmicos complexos e sistemas emergentes são outros exemplos de conhecimentos que já fazem parte do mainstream da ciência há pelos menos 3 décadas e que ainda hj são tratados apenas em cursos de graduação(sendo otimista) e pós-graduação, mesmo que as principais ideias de sistemas emergentes e sistemas complexos são perfeitamente acessíveis a jovens e crianças. Tenho vários exemplos concretos de crianças de 7,8 anos que, ao se envolverem no desenvolvimento de um jogo de sua criação, intrinsecamente estavam tendo que modelar o “mundo” como um sistema descentralizado, baseado na interação de múltiplos atores, cada um deles com regras de comportamento simples.

Eu acho até esperado que
- a física quântica que nos diz que a realidade é intrísicamente não-determinística;
a teoria do caos(sistemas complexos) que demonstra que mesmo que a realidade fosse regida por príncipios determinísticos, pode abrigar, mesmo em exemplos de equações simples, uma indeterminação prática absoluta: qualquer mínima mudança nas condições iniciais levaria a futuros completamente divergentes;
a “descoberta” dos sistemas emergentes que demonstra que para haver “ordem e progresso” não é necessário que exista uma hierarquia de onde necessariamente emana a “ordem”

não encontrem guarida na instituição “escola” atual, que se apoia fortemente em hierarquia (em todos seus aspectos, regimentais e epistemológicos) e na promessa que oferece à sociedade de que pode garantir a condução de uma criança de um estado A para um estado B, (caso, óbvio, ela siga os passos determinados pela hierarquia).

Quem quiser trocar ideias sobre oportunidades de oferecer a crianças formas de expressão (“coisas” que elas possam construir, virtual ou concretamente) e que intrinsecamente envolvam “pensar quanticamente ou probabilisticamente”, “pensar descentralizadamente”, e congêneres, tenho muito interesse no tema.

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Sobre o texto inicial de Augusto concordo com todos os pontos principais. Eu apenas substituria o ítem 10 “Navegar e publicar na Internet” por 10- Ser “fluente digitalmente”.
As tecnologias digitais oferecem uma possibilidade de “empowerment” que transcende o “navegar e publicar na Internet”,( em absoluto eu querendo diminuir o grande significado e impacto específico e revolucionário deste ítem.). Mas não há porque não “comer o bolo todo” e ficar apenas com “uma fatia”.

Sei que “fluente digitalmente’ soa vago ( e hj em dia perigosamente “encaixotado” e definido em termos de competências A, B ou C). O que quero dizer é que é importante que cada indíviduo incorpore e se aposse das tecnologias digitais como tecnologias da inteligência, que podem expandir o poder de expressão, pensamento e articulação de cada um,de acordo com o “gosto e interesse do freguês”. Há toda uma literatura sobre o tema que pode ser consultada caso de interesse de alguém. Sugiro os artigos e pesquisas do Prof Mitchel Resnick, Seymour Papert e Alan Kay. Uma palestra tb explicativa de uma das facetas do “fluente digitalmente” é a do Prof. Paulo Blikstein, que recentemente esteve conosco aqui no Rio. disponível em http://videolog.uol.com.br/video.php?id=392639

Abraços fraternos,

Nilton Lessa
Comentário de Lía Goren em 4 janeiro 2009 às 19:41
De todas las cosas que "conecté" mientras leía, comparto un tema que hace mucho me surgió como gran pregunta. Fue cuando descubrí que la física moderna, la física cuántica y las teorías de sistemas, etc. nacen en los años 1930 y pico. Teniendo en cuenta solamente este aspecto del conocimiento disponible, tantas veces he insistido en comentar a mis hijos lo poco preparados que los ha dejado la escuela cuando sólo han visto la misma física que he visto yo durante mi educación, una física de porquería, que fractura el mundo, la realidad, que bloquea nociones tan escenciales como la interdependencia, la variabilidad y la felexibilidad que todo sistema sustentable debe poseer (perdón si suena un tanto elemental, son temas difíciles) que no cuestiona el orden racionalista, académico, de verdades sagradas, como comenta Augusto en el artículo.
También lo he planteado como pregunta a directivos de escuelas o docentes secundarios. Segir enseñando esa 'fisica' significa formatear en lo más inútil del pensamiento a los estudiantes. ¡Qué desperdicio de tiempo y vida! Lo digo por mí misma, tantos años aprendiendo estupideces y ahora no me alcanza todo el tiempo del mundo para poder procesar y movilizar tantas ideas interesantes...
Deberíamos escribir también lo que sentimos, no sólo lo que pensamos, quizás...
Saludos cordiales
Lía
Comentário de Wilame Jansen em 28 dezembro 2008 às 6:24
Há uma dificuldade em adicionar contribuições ao texto de Augusto, porque ele quase esgota os assuntos. Disse: quase - ainda bem, porque é impossível esgotar qualquer assunto. Mas que ele tenta, tenta.
Eu tenho uma longa experiência com o autodidatismo. Cumpri as exigências burocráticas da formação profissional (vestibular, graduação, especializações e outros prós), mas o fiz com muito má vontade, confesso. Precisei trabalhar desde cedo, e achava perda de tempo assistir aula. O professor, de todos os níveis, dava-me a impressão de que não lia nada há anos. Repetia fórmulas ultrapassadas e, por falta de assunto, fazia “chamadas” intermináveis, aluno, por aluno, aluno por aluno. A cadência que ajudava a passar o tempo dele me fazia “viajar”. Imaginava-me em casa lendo: quanta coisa para aprender! E eu ali cumprindo um ritual sem sentido.
Há uns dez anos fui convidado pelo departamento de extensão de uma Universidade do Recife para falar sobre um tema atual à minha escolha. Ao iniciar a palestra, fiz uma pergunta: Com a queda do muro vocês concordam que o mundo mudou? Segui-se um caloroso debate de quase meia hora entre os participantes, todos concordando. Depois que a coordenadora do evento acalmou os ânimos dos concordantes, fiz a segunda pergunta: E vocês, mudaram os currículos de suas disciplinas, ou continuam ensinando (?) as mesmas coisas, usando as mesmas apostilas e indicando a mesma bibliografia? Aí o mundo veio abaixo, com acusações mútuas. E eu não precisei dizer mais nada.
Essa é uma história apenas curiosa, mas o que eu queria mesmo dizer é que as redes estão ajudando muito o meu autodidatismo. Wilame Jansen
Comentário de Carlos Boyle em 27 dezembro 2008 às 19:57
Duro, duro, duro! rsrsrs. Concordo con vc.
Hallo que sería interesantem y creo que vc lo dijo en alguna oportunidad que cada uno de nosotros cuente su itinerario. Leí muchos de los textos ofrecidos, creo que faltan algunos, el mío por ejemplo. Hay bibliografía en los libros de cada uno de nosotros que es la que nos formó a cada uno y está ligado al derrotero de cada uno. Mi acercamiento a las redes es desde lo político social, pero mi mirada es desde los sistemas, recuerde que tengo una formación ingenieríl.
Concuerdo que los títulos acá lejos de simplificar el lenguaje lo enturbian y como esta es un nueva disciplina es mas facil sincerarse como que todos estamos haciendo el camino. Un camino nuevo.
Por último creo que cada uno se siente mejor o mas cómodo o mas feliz investigando y escribiendo sobre lo que nos gusta mas que lo que nos toque investigar. Tal vez esto deje baches, zonas oscuras a las que nadie se le anime, allí vamos a tener que trabajar en conjunto.
Por último Augusto tenes razón, no hay proporción entre actividad (participación) y cantidad de conectados. Tal vez seas muy duro pero tenes razón

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