Escola de Redes


Conheci o famoso "Duna" (1965) de Frank Herbert apenas em 1987. De lá para cá, não parei de ler - repetidamente - todos os seis livros da série, que foi interrompida em 1985 com a morte do autor (+1986).

Cada vez que leio Herbert, descubro mais e mais coisas interessantes. Em parte, minha compreensão das redes sociais, devo-a a ele. Sobretudo a uma frase - uma pérola do segundo livro da série, "O messias de Duna" (1969) - que não me canso de citar: "Não reunir é a derradeira ordenação".

Agora, relendo, pela terceira ou quarta vez, "Os filhos de Duna" (1976) - o terceiro da série - me deparo com um diálogo em que Leto (filho de Paul Atreides que se transmutaria no Imperador-Deus de Duna) diz: "Nós seremos um ecossistema em miniatura... Seja qual for o sistema que um animal escolha para sobreviver, deve basear-se num padrão de comunidades interligadas, interdependentes, trabalhando juntas para o objetivo comum que é o sistema". Ora, o que é isso senão uma poderosa antevisão do que agora chamamos de sustentabilidade (de um ponto de vista sistêmico)? E o que é isso senão um entendimento profundo da dinâmica de rede que nos permite afirmar, como fiz em 2008, sem ter consciência dessa passagem (que, por certo, já havia lido) que "tudo que é sustentável tem o padrão de rede"?

Herbert escreveu uma série ecológica. Mas ele sabia - ao contrário dos ambientalistas atuais, que pensam em salvar o planeta fazendo proselitismo e emprenhando as pessoas pelo ouvido - que nada disso depende do que se chama de consciência. Como epígrafe de um dos capítulos de "Os filhos de Duna", ele colocou na boca de Harq al-Ada, cronista do Jihad Butleriano (a guerra ludista contra as máquinas inteligentes):

"O pressuposto de que todo um sistema pode ser levado a funcionar melhor através da abordagem de seus elementos conscientes revela uma perigosa ignorância. Essa tem sido freqüentemente a abordagem ignorante daqueles que chamam a si mesmos de cientistas e tecnólogos".

Aprendi mais política com Frank Herbert do que na minha longa incursão pelos clássicos. No livro Alfabetização Democrática (2007) indiquei a leitura da série Duna como parte de um programa de aprendizagem em democracia. Reproduzo a passagem:

"Existem também algumas obras de ficção que ajudam a compreender a natureza e perceber as manifestações – explícitas ou implícitas – do poder vertical. Pouca gente se dá conta de que é possível aprender mais sobre política democrática lendo atentamente esses livros do que estudando volumosos tratados teóricos sobre política. Para quem está interessado na "arte" da política democrática é importantíssimo ler, por exemplo, a série de livros de Frank Herbert, que se inicia com o clássico "Duna". Um curso prático de política democrática deveria recomendar a leitura dos seis volumes que compõem essa série: Dune (1965), Dune Messiah (1969), Children of Dune (1976), God Emperor of Dune (1981), Heretics of Dune (1984) e Chapterhouse: Dune (1985). Herbert faleceu em 1986, quando estava trabalhando no sétimo volume da série. Seus livros foram publicados no Brasil pela Nova Fronteira, com os respectivos títulos: Duna, O Messias de Duna, Os Filhos de Duna, O Imperador-Deus de Duna, Os Hereges de Duna e As Herdeiras de Duna. Um bom - e além de tudo prazeroso – exercício de formação política seria tentar desvendar Duna, do ponto de vista daquelas manifestações do poder vertical que se contrapõem à prática da democracia - quer dizer, das atitudes míticas diante da história, sacerdotais diante do saber, hierárquicas diante do poder e autocráticas diante da política – realizando explorações nesse maravilhoso universo ficcional de Frank Herbert".

Herbert parecia saber que a chave para a formação da pessoa como ser singular - e não como mais um indivíduo de um rebanho, mera reprodução de um sistema de dominação - está na desobediência. Um ghola (ao contrário de um clone) só poderia ser despertado dessa forma. Mas um diálogo entre um ghola Duncan Idaho e o bashar Miles Teg, em "Os hereges de Duna" (1984) dá uma pista de que a desobediência deve ser aprendida, não pode ser ensinada:

" - E o que vocês esperam que eu faça?

- Você já sabe.

- Não, não sei. Por favor, ensine-me!

- Você fez muitas coisas sem precisar que o ensinassem a fazê-las. Será que lhe ensinamos a desobediência?"


Ao escrever o Desobedeça (2010) talvez tenha sido inconscientemente influenciado por essa passagem de Herbert. E agora, que estou trabalhando no meu novo livro "Fluzz: vida humana e convivência social nos novos mundos altamente conectados do terceiro milênio", ainda estou sob tal influência. Reproduzo um trecho já rascunhado da introdução do novo livro:

"Nos novos mundos altamente conectados do terceiro milênio, vida humana e convivência social se aproximarão a ponto de revelar os “tanques axlotl” onde somos gerados como seres propriamente humanos. Todos compreenderemos a nossa natureza de “gholas sociais”.

Os tanques onde somos formados como pessoas são clusters, regiões da rede social a que estamos mais imediatamente conectados.

Um tipo especial de ghola: não um clone de um indivíduo, mas um “clone” de uma configuração de pessoas. Toda pessoa, já dizia Novalis em 1798, é uma pequena sociedade; quer dizer, pessoa já é rede! Pessoa é um ente cultural que replica uma configuração. É um ghola social".


No universo ficcional de Duna, os tanques axlotl são mulheres tleilaxu que sofreram um coma cerebral químico induzido, a par de outras intervenções genéticas, para servir como usina de gholas. Os Tleilaxu (ou Bene Tleilax) são uma sociedade fechada de religiosos altamente avançados tecnologicamente, em especial em engenharia genética. Meio assustador, por certo. Mas para entender esse universo de Herbert é preciso ler as camadas da sua escritura: literal, alegórica ou metafórica, simbólica ou até, quem sabe, um pouco mais do que isso.

Como qualquer pessoa que consegue realmente libertar a imaginação, Frank Herbert acaba roçando nos padrões ocultos que estão, por assim dizer, por trás das manifestações visíveis. Sobre isso, aliás, já havia escolhido, para epígrafe do livro que ainda não consegui terminar - "A Rede: Explorações no multiverso das conexões ocultas que configuram o que chamamos de social" - uma outra passagem de Herbert, também de "Os filhos de Duna" (1976):

"E naquele instante ele viu o planeta inteiro: cada vila, cada cidade, cada metrópole, os lugares desertos e os lugares plantados. Todas as formas que se chocavam em sua visão traziam relacionamentos específicos de elementos interiores e exteriores. Ele via as estruturas da sociedade imperial refletidas nas estruturas físicas de seus planetas e de suas comunidades. Como um gigantesco desdobramento dentro dele, ele via nessa revelação o que ela devia ser: uma janela para as partes invisíveis da sociedade. Percebendo isso, notou que todo sistema devia possuir tal janela. Mesmo o sistema representado por ele mesmo e o universo. Começou a perscrutar as janelas, como um voyeur cósmico."

Bem, este tributo é apenas uma nota introdutória à aventura, muito prazerosa para mim, de explorar o universo ficcional de Frank Herbert.

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Comentário de Augusto de Franco em 11 novembro 2010 às 16:16
Há aqui um grupo para os que se interessarem por Duna: http://escoladeredes.ning.com/group/duna
Comentário de Augusto de Franco em 21 maio 2010 às 11:54
Mais um PDF que pode ajudar aos iniciantes: La Bujardilla (s./d.): Instrucciones para leer DUNE y a Frank Herbert
Comentário de Augusto de Franco em 20 maio 2010 às 18:19
Para quem se animou a ler a série Duna, achei um Diccionario Terminologico de la Saga Dune. Pode ajudar.

Este “Primer Diccionario Terminologico de la Saga Dune en Español” nace con el proposito de ser una rapida guia de consulta para todos los amantes y curiosos de “Dune”, creado por Frank Herbert. Es su intencion crecer en contenidos, al igual que lo hace la misma saga con cada nueva novela. Pedimos a los consultores del mismo nos indiquen los terminos que se entienda no estan incluidos en el para su constante progresion. Ademas, enlazo sus contenidos con la “Seccion Dune” del blog, donde se profundiza en los terminos y significados.

Danielared.com

Achei também o quinto volume em versão digitalizada (em espanhol): HERBERT, Frank (1985): Herejes de Dune

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