Escola de Redes

Simpósio de Campos de Jordão: Conexão é diferente de interação?

Com atraso, atendo solicitação de Augusto e compartilho a conversa que tivemos numa roda de pessoas no Simpósio da Escola de Redes em Campos de Jordão. Juntamos um pequeno grupo que se interessou em refletir sobre uma indagação minha: Conexão é diferente de interação?

O relato traz impressões totalmente pessoais, não me preocupei em anotar o que se falava. Tb não gerou iniciativa posterior. O tema é uma linha de reflexão que venho desenvolvendo na minha lida com redes sociais mediadas pela internet.

Contexto da pergunta:


No universo da comunicação telemática da internet existir é postar. Por isso é desafiante o grande número de pessoas que ficam conectadas e não postam nada, frustrando os facilitadores, gerentes de redes sociais, animadores de redes.

Por que a interação comunicativa é importante na rede? A rede é um padrão de comunicação distribuída, se não há comunicação a rede não "arma". Aquelas linhas que conectam os pontos nas imagens de redes sociais são traços de atos comunicativos entre pessoas, correspondem ao fluxo da informação num dado sistema rede. A conexão é importante, mas não é suficiente, pois não gera fluxo. Gera só estrutura.

A conversa

As falas confirmaram algumas coisas que eu já havia observado e me trouxeram informações novas sobre os comportamentos das pessoas que estão conectadas (registradas) em artefatos de comunicação telemática ( e-groups, ning e outras plataformas para redes sociais) mas não postam. Simplesmente postar alguma coisa pode não gerar alguma conversa, mas pode ser o começo de uma conversa.

Porque não postam e não se comunicam:

1 - muitas das pessoas que entram numa rede e se cadastram em algum artefato de comunicação não tem a menor idéia do que se espera delas como comportamento comunicativo.

2 - muitas das pessoas reproduzem no ambiente virtual o mesmo comportamento cauteloso em termos de interação social que têm na vida presencial: preferem não se arriscar, não dão palpites, não interagem com estranhos.

3- muitos estão ali porque o assuntos os interessa, se beneficiam da inteligência coletiva, mas não se sentem encorajados a contribuir. As vezes, o domínio que têm dos temas em discussão é raso em relação a complexidade com que são tratados por alguns dos outros integrantes da rede. Estão ali aprendendo.

4 - um bom número de pessoas não sabe utilizar os recursos existentes, se intimidam diante da tecnologia e tem vergonha de pedir ajuda. Outros têm medo de dizer alguma coisa e serem mal interpretados, dizer algo "errado, ser ridicualrizado.

5 - grande número adoraria estar contribuindo, mas não têm tempo. Colaborar com qualidade exige dedicação intelectual e investimento de tempo. Se vc não é facilitador, gerente ou administrador de rede ou /e não tem uma renda que suporte seu ócio colaborativo, possivelmente empregue grande parte de sue tempo ganhando a vida com outras coisas. No pouco tempo que sobra, como a vida é o que acontece perto da gente, na interação com os corpos presentes, a interação telemática fica em segundo plano. (É o meu caso, aqui na Escola de Redes).

6 - grande número dos que não postam acompanham o movimento da produção coletiva regularmente, é sua forma de estar presente na rede, apesar de não ter um indicador que faça sua presença visível para os outros membros.

7 - idéias como as redes não são para produzir nada alimentam a fantasia de que o ambiente de rede se estrutura e se sustenta sozinho, sem o investimento e operação das pessoas.

8 - muitos reagem às solicitações de produção e colaboração como um ataque à liberdade anunciada por visões mais anárquicas, libertárias, de redes, vistas como espaço sem regras, sem coordenação, sem hierarquias de nenhum tipo.

Foi isso. :-)

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Comentário de Carlos Boyle em 7 setembro 2009 às 10:01
Vivianne recibí tu mensaje, estuve de viaje el fin de semana, me pongo al día y te contesto
Comentário de Haroldo Vilhena em 6 setembro 2009 às 20:09
(Cópia do que foi enviado diretamente para a Viviane)
Viviane,
Primeiramente queria dizer que a sua resposta me trouxe momentos de emoção.
Por outro lado, às vezes de uma forma dura, a vida tem me mostrado que “nada esta errado”. Que um perturbador pode gerar o novo, ou a percepção que nosso equilíbrio é muito vulnerável ao outro, quando deveria ser vulnerável apenas a nós mesmo.
Este movimento da Escola de Redes também me encanta e imagino o tanto de trabalho que não gera para o Augusto.
De qualquer forma encerro esta resposta com um pensamento da tradição judaica: “não me responda com respostas prontas, mas sim com novas perguntas”. É assim que imagino a rede, trazendo o novo a cada dia, estando aberto ao novo, ou então não, e assim permitindo a reflexão, a melhor compreensão da visão do outro, ratificando ainda mais nosso processo de aprendizado nesta fase terrena da nossa caminhada.
Comentário de Vivianne Amaral em 6 setembro 2009 às 17:32
Haroldo, vejo que há muitas visões de redes, muitas teorias sobre redes. O importante é que, seja qual for a que adote, ela tenha sentido para vc e seja coerente com tua trajetória. Pelo que tenho encontrado no mundo real das redes, não teórico, a comunicação distribuída é tendência; a auto-organização está em potência, pois depende de certas condições; a horizontalidade nas relações é um emergente que resulta do acontecimento simultâneo de diversas característas nas interações humanas: autonomia, co-responsabilidade, pertença, cooperação, consciência da interdependência, cooperação, acolhimento. Quando conseguimos criar um ambiente de comunicação com estas características estamos realmente numa relação de aprendizagem e interação distribuída, todos-todos. Mas como tudo é dinâmico, esta situação também é instável: qualquer movimento na malha da rede pode criar um ponto de verticalização, um novo agrupamento, uma nova configuração, desarmando aquilo que parecia estar num ponto ótimo.
abraços
Comentário de Haroldo Vilhena em 5 setembro 2009 às 15:24
Vivi,
Concordo com cada ponto expressado por voce. Sinceramente ainda tenho muitas duvidas sobre o verdadeiro conceito de rede que o Augusto debateu em algum dos topicos que li aqui na escola.
Na Minha concepção um participante que não pese pesoalmente (digo aquele que cria demandas sem contribuir) pode estar eventualmente como um divulgador, ou até vir a indicar um futuro grande personagem da escola.
No meu caso, diversas destas situações expostas pela Viviane acontecem, desde falta de tempo, em certas épocas, até falta de uma renda fixa que me garantisse participar de forma mais efetiva sem comprometer a sobrevivencia.

Abraços a todos.
Comentário de Vivianne Amaral em 4 setembro 2009 às 15:27
Augusto, agradeço o convite, posso fazer o texto, depende do prazo de entrega.
Qto as colocações de Boyle:
1 trabalho com uma visão de rede social mediada pela internet como sistema aberto. O processo é comunicação, a estrutura é a rede fisica de computadores que suporta a comunicação, o padrão é rede. As redes com as quais trabalhos são finalísticas, são acionadas com objetivos. Chamo de redes operativas. Minha abordagem é bem operativa, pois trabalho com facilitação , tutoria, gerência de comunidades virtuais. Vou desenvolvendo conhecimento a partir de demanda reais do meu fazer, não tenho ( ou sigo) uma teoria pronta que aplico. Tenho os princípios dos sistemas abertos e modelo no aqui e agora com eles. Vejo que trabalhamos com visões diferentes.
2 O padrão é imaterial, é um conjunto de princípios que ordena os fluxos entre os elementos de um determinado sistema. Ele se corporifica na estrutura, que é gerada pelos fluxos que acontecem no sistema.

3- Vejo duas dimensões no padrão rede qdo aplicado às relações humanas: um morfologia ( estrutura de pontos distantes conectados) e as dinâmicas, geradas pela comunicação distribuída ( ou tendendo a distribuída).
4 o que tenho percebido é que há muitas formas de inserção nas redes, muita diversidade de interesses ao se conectar, pessoas procuram benefícios diferentes, tem expectativas diferentes
3 - em relação a formação de vínculos, a comunicação pela internet, desde que não permite ainda a plenitude do ato comunicativo, dificulta a tecelagem dos vínculos. Na verdade a maioria das pessoas fica numa situação de afiliação, não chegando a desenvolver pertença. Mas é possível tb que esta situação de afiliação seja suficiente para que ela colha os benefícios que quer da rede: infomação segmentada, qualificada, contatos, acompanhamento panorâmico do tema/setor, etc.
4 -Como a complexidade deriva tb da diversidade, é importante conseguir lidar ( do ponto de vista da facilitação) com as diferentes formas de adesão.
abraços
Comentário de Augusto de Franco em 4 setembro 2009 às 8:52
Excelente comentário, Boyle. Sugiro que você tome o resumo acima como base para um artigo (de umas 5 páginas = 10 mil caracteres) sobre o assunto. Explico minha proposta: vamos fazer uma espécie de roteiro sugestivo para os novos (e para os velhos também, por que não?) conectados aqui na Escola-de-Redes. Este texto que estou agora encomendando-sugerindo a você, integraria tal roteiro.

Vivianne também poderia fazer um, no mesmo sentido, desenvolvendo genericamente seus 8 pontos.

Que tal?
Comentário de Carlos Boyle em 4 setembro 2009 às 8:08
Vivianne, como siempre muy importantes tus contribuciones. Estoy de acuedo en particular con los 8 puntos que señalás pero no estoy de acuerdo con tu visión de una red.
La pregunta es ¿ por qué habriamos de tener una conexión si no es para que por ella circule algo? Del caso que así fuera ese vínculo tendería a extinguirse, como los vínculos que uno teje con los familiares de una ex pareja, luego de la separación estos tienden a desaparecer.
Creo que se cae en el error de creer que una red es algo dado, de una forma dada y volviendo a las redes faminiares amorosas, cuantas parejas, novios, novias, esposos esposas tiene o lleva una persona a lo largo de su vida, se podría decir que por períodos muchas, por otros unos pocos, en otros uno solo, en casos ninguno. La imagen de la red cristalizada en una topología, digamos proveniente de una ARS es solo una foto instanténea de la red en ese momento.
Otro tema es diferenciar red de sistema, podríamos concebir a la red como la infraestructura por donde funciona el sistema, en cuyo caso podría haber sistemas que no necesitan de una interacción muy fluida, como los servicios secretos, o la red de parientes lejanos, los tíos segundos, los primos segundos, los vecinos del barrio, los compañeros de la escuela. Aquellas relaciones con las que uno se identifica muchísimo pero que practicamente no las cultiva.
Por esto último, no se podría estar hablando de "reglan generales", dado que la red está allí para que por sobre ella corra el sistema y el sistema funciona gracias a que hay una red de interacciones que le hace de soporte. Como las partes de un cuerpo y su sinergia.
No obstante estas observaciones creo que estos 8 puntos son válidos, incluso para las redes no virtuales de interacción directa. Creo que de lo que se trata es de crear identidades, contribuir a crearlas, negarse a integrarlas, ejercer diferentes grados de indentificación, generar mayores o menores castigos para quienes traicionen, etc. Lo importante es cuan grande, que grado de flexibilidad o cuan abarcativa podrá ser esa identidad para poder mantenerse en el tiempo. Y esa identidad se tiene o no se tiene, poco podemos hacer por ella.
Comentário de Augusto de Franco em 4 setembro 2009 às 5:27
Muito bom!

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