Escola de Redes

Responsabilidade social & organização em rede

Esse é o relato do desenvolvimento de Rede Social a partir da integração do setor público e o terceiro setor.
Por
Claudia Ferreira Matos


O trabalho nos moldes de Rede Social foi o diferencial encontrado pelo Centro de Referência da Assistência Social Unidade Sede para disseminar informações e trocar conhecimentos entre as três instituições que de certa forma contribuem para o trabalho da Assistência Social do Município de Contagem, as Instituições sem fins lucrativos, os setores públicos e as lideranças comunitárias da Regional Sede. Através de pesquisas qualitativas, quantitativas e também por meio de observação percebeu-se a necessidade de se desenvolver um sistema baseado na cooperação. A Rede Social Regional Sede pretende quebrar o paradigma de que a assistência social1 deve ser tratada de forma assistencialista, promovendo assim, mudanças positivas no estado atual dos membros da rede social em prol do desenvolvimento tanto das entidades, lideranças e do próprio setor público como agentes de promoção social das famílias vulneráveis do município.
Entende-se que organização em Redes Sociais é a representação de um sistema migratório, onde, determinadas regiões espaciais trocam pessoas, recursos materiais e informações e estabelecem laços e conexões sólidas que tem como objetivo a facilitação de um bem sucedido auxílio social, visando à necessidade coletiva de agir na sociedade, porém sem perder a identidade individual da entidade ou pessoa. (Degenne e Forsé, 1999: 9-10)
Para se entender o processo de organização em Rede Social como fator descentralizador da Regional Sede – Contagem/MG2 torna-se necessário o entendimento da hierarquia do setor público responsável pela Assistência Social do Município.
A organização da Assistência Social do Município de Contagem é regida pelos princípios, diretrizes e orientações da Constituição Federal de 1988, pela Lei Orgânica da Assistência Social, pelo Estatuto da Criança e do Adolescente e pela Política Nacional da Assistência Social. Essa organização leva em conta os princípios de descentralização, territorialidade e intersetorialidade.
Nesses moldes ocorre a atuação da Secretaria de Desenvolvimento Social, de forma descentralizada, porém de acordo com a territorialidade, organizando-se em bases, local, regional e municipal e suas funções definem-se em Proteção Social Básica, Especial de Média e de Alta Complexidade.
A Diretoria de Proteção Social Básica do Município, foco do estudo destina-se à população que vive em situação de vulnerabilidade social decorrente a pobreza, privação (ausência de renda, precário ou nulo acesso aos serviços públicos) e/ou fragilidade dos vínculos afetivos, prevenindo também situação de riscos por meio do desenvolvimento de potencialidades e aquisições fortalecendo assim o vínculo familiar.
Esses serviços são executados de forma direta nos Centros de Referências da Assistência Social CRAS / Casas da Família3 com o auxilio indireto das entidades e organizações não governamentais da Assistência Social de cada área de abrangência. Daí a importância de se mapear e conhecer essas instituições, propondo um trabalho de forma distribuída (em redes).
Pioneira nesse processo de atuação em redes sociais CRAS/Unidade Sede observou que ao longo do processo de mapeamento das instituições e lideranças comunitárias da Regional Sede, além de se conhecer as entidades, seus coordenadores, cada nome de líderes, e-mails, endereço e telefone era necessário que houvesse uma conexão real promovendo a troca de conhecimentos pertinentes às organizações não governamentais, associações de bairros e lideranças comunitárias.
Entendeu-se também que a atuação em Rede Social na região só poderia acontecer de maneira eficiente quando ocorresse num primeiro momento o nivelamento de informações sobre a Assistência Social, assim como, suas mais diversas formas de manifestação.

Para esse trabalho foram pesquisados os processos de Organização em Rede através dos conceitos de Castells (2000), Gerstein (1993) e outros, Rede Social nos conceitos de Degenne e Forsé (1999), Marketing social enfatizando Kotler (2000) e Schiavo (2008) e Responsabilidade Social segundo Guedes (2004) e Grajew (2002).
A partir do total conhecimento desses conceitos o CRAS/Unidade Sede planejou para final de 2008 e todo o ano de 2009 atitudes para tornar viável a integração das Organizações Não Governamentais (ONG's)1, das Organizações Governamentais (OG's)- entende-se PSF´s, escolas e outros segmentos públicos localizados na regional, e das Associações de Bairros da Regional em redes sociais, fornecendo subsídios teóricos para que essas possam se organizar, beneficiar e agir de maneira a traçar ações que favoreçam toda a comunidade que se encontra em situação de risco social. Além de desenvolver um trabalho paralelo com as lideranças comunitárias que são pessoas que influenciam a vivência social da comunidade, enfatizando a atuação do CRAS/Unidade Sede, divulgando dessa maneira a forma de trabalho, as atividades e serviços desenvolvidos pela mesma proporcionando apoio mútuo para as ações sociais nos bairros.
As metodologias utilizadas para o desenvolvimento das ações que direcionarão a criação da Rede Social Sede foram divididas em duas etapas.

Primeira Etapa

Nesta etapa a pesquisa foi desenvolvida da seguinte maneira:
1)Pesquisa quantitativa para identificar através do mapeamento quantas instituições sem fins lucrativos existe na Regional Sede e dessas quantas ainda estão ativas. Além de identificar os líderes comunitários dos bairros pertencentes à Regional Sede.
2)Observação feita através de pesquisa de campo somente nas instituições, onde através de visitas às mesmas foram observados fatores como localização, infraestrutura, atividades desenvolvidas dentre outras.
Optou-se por Georeferenciar primeiramente as Organizações Não Governamentais (ONG's) e Associações sendo mapeado posteriormente as lideranças comunitárias e em seguida as Organizações Governamentais (OG's) visto que essas já atuam em rede com o CRAS/Unidade Sede e demais órgãos do Município.

Segunda etapa

Após a realização da segunda etapa foram desenvolvidas pesquisas quantitativa e qualitativa para identificar as vulnerabilidades das Organizações Não Governamentais (ONG's) e lideranças comunitárias, identificando também suas forças, fraquezas, ameaças e oportunidades.
Pretendeu-se com essas pesquisas conhecer as entidades e lideranças propondo um trabalho nos moldes enfatizados nas teorias de Castells (2000), contribuindo para o desenvolvimento social igualitário da região referenciada pelo CRAS/Unidade Sede, enfatizando um ponto comum que é a promoção familiar de maneira segmentada, focando a atuação dos agentes parceiros no desenvolvimento de ações sociais para o grupo familiar.

RESULTADOS
Resultados da Primeira Etapa

De acordo com o mapeamento e reuniões realizados em todas as Organizações Não Governamentais (ONG), Associação de bairro e líder comunitário, enfatizando o interesse e a disponibilidade das instituições em serem parcerias na constituição da Rede Social identificou-se:

_ 37 Instituições Sem Fins Lucrativos e
_ 17 líderes comunitários que atuam


Ambos os itens localizados nos 65 bairros pertencentes à região atendida pelo CRAS/Unidade Sede. Estas entidades e lideranças estão dispostas a atuar como parcerias no desenvolvimento da Rede Social da Regional o que levou o CRAS/Unidade Sede a objetivar-se através de conexões e pontos comuns dentro de um sistema determinado; o atendimento às famílias em vulnerabilidade e desse modo priorizando relações de curto, médio e longo prazo com essas instituições e lideranças.

Resultado da Segunda Etapa

Através da pesquisa que se denominou “Construção da Cartografia da Rede Social Sede”, desenvolveu-se a Análise SWOT2 onde pode-se organizar de maneira geral as ameaças e oportunidades, forças e fraquezas das Instituições em Fins Lucrativos da Regional Sede.
Como foi considerado para pesquisas também os líderes comunitários dos bairros atendidos pelo CRAS/Unidade Sede a Construção Cartográfica teve para estes o objetivo de identificar as principais demandas da comunidade, suas principais carências para que se possam desenvolver ações sociais voltadas para esses problemas.
Sendo identificada nesse primeiro momento, uma forte tendência a questionamentos sobre segurança pública e a atuação de um líder comunitário junto à sociedade.

Contribuições das redes sociais na economia popular e na educação

Os resultados preliminares da pesquisa indicam que a rede social vem contribuindo para o desenvolvimento da regional, inclusive com o setor da educação, uma vez que proporciona a existência de um espaço econômico, que também se transforma em um lugar de geração de empregos e assim contribuindo com o aumento da renda da comunidade local, que pode ser considerada uma prática socioeconômica.
O conceito de prática socioeconômica nesta pesquisa, está muito interligado com o conceito de economia popular, entendido por Carbonari (2008) como sendo uma “economia centrada na busca de condições de satisfação das necessidades – sempre novas – dos seres humanos, na perspectiva do bem viver de todos e para todos. A serviço, portanto, do homem – invertendo a lógica fetichista da economia capitalista”.
Embora para que esta economia popular se desenvolva é necessário que a comunidade local esteja organizada, assim a importância atualmente da presença forte da sociedade civil. Sendo a sociedade civil o conjunto das organizações e instituições não governamentais e voluntárias, que formam a base de uma sociedade3. Assim pode se acreditar em uma transformação das relações sociais. Pois de acordo com Carboni (2008) “não cabe a este ou àquele governo fazer a transformação social, cabe aos produtores e consumidores, aos agentes sociais, à cidadania organizada, promovê-la, pela construção, desde já, de novas relações, de relações populares e solidárias”.
Com a comunidade podendo usufruir desse espaço econômico popular, gerando empregos e aumentado sua renda, conseqüentemente aumentará também seu nível educacional, onde os cidadãos voltam a buscar a educação, não apenas no sentido de voltar à escola4, mas também nasce o interesse pela educação para a participação política ativa.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

O processo de se organizar em Rede Social na Regional Sede acontecerá ao longo do ano de 2009, para que ao término desse processo ela possa, seguindo as teorias de Franco (2008), funcionar como sistemas complexos e adaptativos, aprendendo se auto-regular, adaptando-se às mudanças a fim de terem uma definição de sustentabilidade, fazendo e refazendo, continuamente, congruências múltiplas e recíprocas.
Indo além de um sistema baseado na cooperação, a Rede Social Regional Sede pretende desenvolver um sistema de colaboração, onde ocorrerá a quebra do paradigma de que a Assistência Social deve ser tratada de forma assistencialista. Sendo realizadas ações através da troca de informações e conhecimentos que podem promover mudanças positivas no estado atual dos membros da rede social em prol do desenvolvimento tanto das entidades, lideranças e do próprio setor público como agentes de promoção social das famílias vulneráveis do município.
A partir das análises das pesquisas da primeira e da segunda etapas, algumas ações foram desenvolvidas, tais como: Após análises conjuntas das pesquisas realizadas relacionando-as com os conceitos estudados viu-se a necessidade de condicionar os dois atores da rede social às mesmas fontes informacionais, visto uma grande distância dos atores das ações sociais que acontecem de forma contínua no Município de Contagem. Fato que pode ser analisado por contextos culturais e de localização.
Num primeiro momento foi importante concentrar as informações para ambos atores da rede sobre a real atuação do CRAS/Unidade Sede na Regional. Feito isso foi proposto encontros distintos onde para as Instituições sem Fins Lucrativos a proposta consistiu em participação de seminários ao longo do ano com temas voltados para a Assistência Social como um todo.
Dentre os temas sugeridos para serem trabalhados em conjunto ressaltam-se a responsabilidade e marketing social, a atuação dos conselhos assistenciais do município e as documentações necessárias para ser uma organização sem fins lucrativos e para a captação de verbas do setor público e privado.
Já aconteceram dois seminários onde se notou a grande participação dos representantes das Organizações Não Governamentais (ONG's) parceiras na construção da Rede Social Sede e um aumento da articulação dos mesmos com os conselhos Assistenciais do Município.
Com as lideranças o trabalho está sendo desenvolvido através de grupo de foco, onde a discussão de determinado assunto pertinente a todos cria vínculos cada vez maiores entre os bairros, além de aumentar a colaboração dos mesmos na construção de propostas de melhorias sociais comuns a todos.
Finalmente, as redes sociais vêm contribuindo para o desenvolvimento da regional, inclusive com o setor da educação, uma vez que proporciona a existência de um espaço econômico, que também se transforma em um lugar de geração de empregos e assim contribuindo com o aumento da renda da comunidade local, que pode ser considerada uma prática socioeconômica.

FUTURAS PESQUISAS

Esta pesquisa sobre Responsabilidade social & organização em rede e ações estratégicas do setor público para a interligação dos trabalhos sociais na Regional Sede – Contagem/MG ainda não terminou. Algumas novas etapas estão em fase de desenvolvimento, como demonstrado a seguir:trabalhar em rede social com o CRAS/Unidade Sede.
Ao final de 2009 pretende-se ter todo o subsídio teórico necessário para a efetivação da Rede Social Sede, onde a atuação poderá ser linear como prevê a teoria.

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