Escola de Redes

Rede é regulação e nada mais. Entrevista com Alexander Galloway

A entrevista foi publicada no site Cultura Digital e ocorreu durante o encontro Redes e Cidadania, promovido pela Cásper. Coloquei um trecho em negrito, pois o teor da informação me chamou a atenção. Segue a entrevista:

Rede é regulação e nada mais. Entrevista com Alexander Galloway

publicado por Henrique Costa

Alexander Galloway

Um dos principais pesquisadores das redes digitais e da sociedade de controle, Alexander Galloway é professor associado do Departamento de Cultura e Comunicação da Universidade de Nova York e autor de Protocol: How Control Exists After Decentralization e Gaming: Essays on Algorithmic Culture (ambos ainda sem tradução para o português).

Ele também escreveu para publicações online, como a CTHEORY e a Nettime, além de ter participado de coletivos de Mídia Tática.

Nesta entrevista exclusiva ao Fórum da Cultura Digital Brasileira, Galloway comenta sua teoria do protocolo e explica porque a internet é mais controlada do que supomos. “É fundamentalmente redundante dizer internet regulamentada. A internet é regulação e nada mais.”

Galloway estará presente ao Seminário Cidadania e Redes Digitais com Langdon Winner e Tim Wu.

Em seu livro “Protocol”, você descreve os protocolos como um instrumento de controle que não é exercido por pessoas, corporações ou governos. Também a interatividade, pensada no início como libertadora, acaba por resultar, na sua opinião, em ainda mais controle. Como essas questões se articulam, quem são os beneficiários deste controle e como estabelecer, nos seus termos, um “contra-protocolo”?

Há conotações nefastas para este termo, controle e, claro, não estou inteiramente evitando-os, no entanto, o principal objetivo de um conceito como “protocolo” é enfatizar o aspecto organizacional, o controle como uma tecnologia ativa de organização. É disso que a cibernética se trata: controle e comunicação em conjunto. Eu tenho usado o conceito de “tragédia política da interatividade” para descrever como a interatividade, que se sustentou até há poucas décadas atrás como o grande objetivo de uma mídia emancipada, agora é hoje a infraestrutura básica da tecnologia global. Em outras palavras, não há nada de emancipatório na interatividade hoje.

Na verdade, há um novo tipo de interatividade online, a interatividade do corpo, o valor codificado que ela produz quando é capturada, massificada e digitalizada por sistemas de monetização. Isto é o que a interatividade significa hoje. Um corpo é sempre “cybertyped”, ou seja, é sempre rotulado com um certo conjunto de marcadores de identidade afetiva. Não se trata simplesmente que um corpo deva estar sempre falando, ele deve estar sempre “falando-como-algo”. Sempre que um corpo fala, ele sempre fala já como um corpo codificado com uma identidade afetiva (gênero, ética e nacionalmente digitado, e assim por diante), determinada como tal por várias infraestruturas recíprocas e pela formação da identidade. Isto é parte do que eu estou tentando explorar sob o conceito de “protocolo”.

No Brasil, assim como em países como a França, recentemente surgiram iniciativas no âmbito legislativo de criar restrições à internet, obrigando, por exemplo, provedores de acesso a denunciar práticas como “downloads ilegais”. Que cenário você prevê para a liberdade de expressão na internet?

Saliento que o protocolo está fora tanto dos poderes comerciais e jurídicos não para afirmar que esse tipo de poder não exista. Muito pelo contrário: eles existem. No entanto, reduzir a lógica da infraestrutura da máquina para a lógica dos governos e corporações é falso. Máquinas em rede tem sua própria lógica, e pelo menos no início esta lógica era altamente resistente a antigas formas de poder exercido por antigas formas de soberania. O que estamos vendo hoje, no entanto, após esse período inicial de organização em rede, é uma reinvenção da soberania no âmbito de redes, uma “centralidade-de-rede” se você preferir. É por isso que uma das entidades mais poderosas do planeta pode ser uma entidade de rede: o Google. É por isso que o novo sistema de comando jurídico global pode ser um comando de rede: o Empire.

Como você interpreta a ideia de um marco regulatório civil? Você acredita que o Estado tem um papel na formulação de políticas públicas para a rede?

É fundamentalmente redundante dizer “internet regulamentada”. A internet é regulação e nada mais. Basta olhar para os protocolos. O “C” no TCP/IP significa “Control”. Eu sou contra a ideia, que ainda é bastante comum, de que a internet é uma força que, fundamentalmente, elimina regulação, hierarquia, organização, controle, etc. Redes distribuídas nunca estão “fora de controle” – este é o pior tipo de ilusão ideológica. A questão fundamental, portanto, nunca é se existe ou não controle, mas de preferência perguntarmos: Qual é a qualidade desse controle? De onde ele vem? Ele é dominado pelos governos, ou é implantado no nível da infraestrutura das máquinas? Não tenho a pretensão de responder à questão sobre o poder do governo, pois há décadas e séculos de textos dedicados aos excessos do poder estatal. Ainda podemos ler esses livros. A minha contribuição é meramente ao nível da infraestrutura e da máquina. Qual é a especificidade da organização informacional? Esta é a questão básica da protocolo.

Com base em seu conhecimento sobre o contexto da internet no Brasil, como você vê a atuação de grupos de mídia tática, ativistas e pesquisadores e qual seria uma proposta de defesa da internet livre no país?

Quero aprender muito a partir do contexto brasileiro. Minha sugestão inicial é que, com o aumento do poder do formato de rede, é importante compreender a organização e o controle social em relação às três frentes: o Estado, o setor comercial e o setor industrial. Ativistas de mídia tática já estão conscientes disso e estão mobilizando seus esforços em todas as três frentes. Por exemplo, eu considero o sistema operacional Linux uma vitória dramática no setor comercial, mesmo que tenha muito pouco a dizer sobre o poder do Estado sobre o poder da infraestrutura. Não tenho certeza se temos visto ainda um movimento “contra-protocolo” muito ativo. Mas este será, certamente, o local da luta que virá.

Fonte: http://culturadigital.br/blog/2009/10/30/entrevista-com-alexander-g...

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Comentário de Sisi em 8 novembro 2009 às 19:36
Com ou sem controle (não importando de onde vem), a sobrevivência do poder de escolha e acesso a informação e da união de forças humanas estará garantida, enquanto as pessoas puderem manter seus braços e olhos tão longos quanto a variedade de conteúdos da internet e da interação que ela propicia.
Comentário de Augusto de Franco em 6 novembro 2009 às 13:14
Galloway parece entender mais de Internet do que de rede social. Aliás, ele confunde distribuição com descentralização. É claro que numa rede distribuída (com 100% de distribuição) não haverá controle, nem hierarquia (simplesmente porque é impossível fazer isso sem centralização). Mas como a Internet não é propriamente uma rede social, nem é uma rede distribuída, ele está certo quando diz que ela "não elimina regulação, hierarquia, organização, controle". Mas a afirmação de que "redes distribuídas nunca estão “fora de controle” – este é o pior tipo de ilusão ideológica" (se ele não foi traído pelo tradutor) revela uma certa ignorância da topologia distribuída.

Outro problema é a afirmação (se ele não foi traído pelo tradutor): "a questão fundamental, portanto, nunca é se existe ou não controle, mas de preferência perguntarmos: Qual é a qualidade desse controle? De onde ele vem? Ele é dominado pelos governos, ou é implantado no nível da infraestrutura das máquinas?". Nada disso, a questão é mesmo a da intensidade do controle, ou seja, o grau de centralização (se é que estamos falando de redes).

Esse pessoal que chegou às redes via Internet (a maioria dos que escrevem ligeiramente sobre isso, por certo, não Castells, não Capra, não Barabási, não Watts e tantos outros investigadores da nova ciência das redes) é que não conseguem separar bem o padrão de organização dos instrumentos e ferramentas tecnológicos. Particularmente o "A theory of networks" de Galloway e Thacker - conquanto tenha um nome pomposo (e pretensioso) - me pareceu um livro muito fraco.
Comentário de Augusto de Franco em 6 novembro 2009 às 12:56
No site do Galloway não encontrei seus dois livros citados para download:

PROTOCOL — How Control Exists After Decentralization (MIT Press: 2004)

GAMING — Essays on Algorithmic Culture
(University of Minnesota Press: 2006).

Será que ele é favorável ao Domínio Público?

De qualquer modo, já temos dois livros dele na BIBLI.E=R:

GALLOWAY, Alexander & THACKER, Eugene (2007): The Exploit: a theory of networks

GALLOWAY, Alexander & THACKER, Eugene (2003): Protocol, Control and Networks

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