Escola de Redes

Um texto antigo chamado Avatamsaka Sutra descreve o universo como uma rede infinita gerada pelo desejo de Indra, uma divindade hindu.


Em cada conexão dessa rede infinita há uma jóia maravilhosamente polida e infinitamente facetada, que reflete, em cada uma de suas facetas, todas as facetas de todas as outras jóias da rede. Uma vez que a própria rede, o número de jóias e o número de facetas de cada jóia são infinitos, o número de reflexões também é infinito. Quando qualquer jóia nessa rede infinita é alterada de qualquer forma, todas as outras jóias na rede também mudam.

A história da rede de Indra é uma explicação poética para as conexões algumas vezes misteriosas que observamos entre eventos aparentemente não-relacionados. [...] À primeira vista, experimentos envolvendo partículas subatômicas conduzidos ao longo de algumas décadas sugerem que tudo o que foi conectado em um momento retém essa conexão para sempre.

(Yongey Mingyur Rinpoche, em "A Alegria de Viver")

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Comentário de Augusto de Franco em 24 fevereiro 2010 às 12:16
Sim, Angela, de onde você copiou este texto que digitei prossigo pendurando outros também muito interessantes do Amar e Brincar. Abraços.
Comentário de Clara Pelaez Alvarez em 24 fevereiro 2010 às 12:04
Angela...perfeito!
Comentário de Angela Regina Pilon Vivarelli em 24 fevereiro 2010 às 9:21
CULTURA PATRIARCAL
Humberto Maturana (1993)

Transcrição do tópico intitulado Cultura Patriarcal do capítulo Conversações
Matrísticas e Patriarcais do livro de Humberto Maturana e Gerda Verden-Zöller
(1993): Amor y Juego: Fundamentos Olvidados de lo Humano -

Desde el Patriarcado a la Democracia, traduzido e publicado no Brasil como Amar e Brincar:
fundamentos esquecidos do humano - Do patriarcado à democracia (São
Paulo: Palas Athena, 2004).

CULTURA PATRIARCAL

Os aspectos puramente patriarcais da maneira de viver da cultura patriarcal
européia – à qual pertence grande parte da humanidade moderna, e que
doravante chamarei de cultura patriarcal – constituem uma rede fechada de
conversações. Esta se caracteriza pelas coordenações de ações e emoções
que fazem de nossa vida cotidiana um modo de coexistência que valoriza a
guerra, a competição, a luta, as hierarquias, a autoridade, o poder, a
procriação, o crescimento, a apropriação de recursos e a justificação
racional do controle e da dominação dos outros por meio da apropriação da
verdade.
Assim, em nossa cultura patriarcal falamos de lutar contra a pobreza e o
abuso, quando queremos corrigir o que chamamos de injustiças sociais; ou
de combater a contaminação, quando falamos de limpar o meio ambiente;
ou de enfrentar a agressão da natureza, quando nos encontramos diante de
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um fenômeno natural que constitui para nós um desastre; enfim, vivemos
como se todos os nossos atos requeressem o uso da força, e como se cada
ocasião para agir fosse um desafio.
Em nossa cultura patriarcal, vivemos na desconfiança e buscamos certezas
em relação ao controle do mundo natural, dos outros seres humanos e de
nós mesmos. Falamos continuamente em controlar nossa conduta e
emoções. E fazemos muitas coisas para dominar a natureza ou o
comportamento dos outros, com a intenção de neutralizar o que chamamos
de forças anti-sociais e naturais destrutivas, que surgem de sua autonomia.
Em nossa cultura patriarcal, não aceitamos os desacordos como situações
legítimas, que constituem pontos de partida para uma ação combinada
diante de um propósito comum. Devemos convencer e corrigir uns aos
outros. E somente toleramos o diferente confiando em que eventualmente
poderemos levar o outro ao bom caminho – que é o nosso –, ou até que
possamos eliminá-lo, sob a justificativa de que está equivocado.
Em nossa cultura patriarcal, vivemos na apropriação e agimos como se
fosse legítimo estabelecer, pela força, limites que restringem a mobilidade
dos outros em certas áreas de ação às quais eles tinham livre acesso antes
de nossa apropriação. Além do mais, fazemos isso enquanto retemos para
nós o privilégio de mover-nos livremente nessas áreas, justificando nossa
apropriação delas por meio de argumentos fundados em princípios e
verdades das quais também nos havíamos apropriado. Assim, falamos de
recursos naturais, numa ação que nos torna insensíveis à negação do outro
implícita em nosso desejo de apropriação.
Em nossa cultura patriarcal, repito, vivemos na desconfiança da autonomia
dos outros. Apropriamo-nos o tempo todo do direito de decidir o que é ou
não legítimo para eles, no contínuo propósito de controlar suas vidas. Em
nossa cultura patriarcal, vivemos na hierarquia, que exige obediência.
Afirmamos que a uma coexistência ordenada requer autoridade e
subordinação, superioridade e inferioridade, poder e debilidade ou
submissão. E estamos sempre prontos para tratar todas as relações,
humanas ou não, nesses termos. Assim, justificamos a competição, isto é, o
encontro na negação mútua como a maneira de estabelecer a hierarquia
dos privilégios, sob a afirmação de que a competição promove o progresso
social, ao permitir que o melhor apareça e prospere.
Em nossa cultura patriarcal, estamos sempre prontos a tratar os desacordos
como disputas ou lutas. Vemos os argumentos como armas, e descrevemos
uma relação harmônica como pacífica, ou seja, como uma ausência de
guerra – como se a guerra fosse a atividade humana mais fundamental.
Comentário de Augusto de Franco em 24 fevereiro 2010 às 7:18
Sim, as imagens são belíssimas. Recomendo vivamente, Angela (e Clara, que fez o comentário abaixo) que vocês leiam o livro de Maturana e Zöller (1993): Amar e Brincar (o título de uma tradução em português publicada pela Palas Athena em 2004).

Maturana de certo modo modificou o passado ao reconstruir um caminho possível para o surgimento do emocionar patriarcal. Devo dizer que tudo que ele fez é um escândalo para os que descobriram as riquezas espirituais da tradição (seja na sua versão hindu, que surgiu na velha India alterando o modo-de-emocionar do povo dravídico que ali vivia, seja em qualquer outra versão derivada ou conexa à verticalização do mundo que chamamos de Precedente Sumeriano).

Quando conheci Maturana, na Universidade de Chile, em 1999, dei para ele um texto com uma interpretação muito parecida com a que desenvolveu no seu "Amor y Juego" (a versão original do "Amar e Brincar"), que até então não havia lido. Ele leu e achou que fazia sentido. Este texto hoje não está mais disponível, porém ecos dele podem ser encontrados online no Sociedades de Dominação e Sociedades de Parceria.

Não estou negando a beleza nem a sabedoria contida nas tradições espirituais brotadas como "flores de lotus" das sociedades patriarcais e hierárquicas que surgiram a partir do quinto milênio antes da Era Comum. Imagino que é até possível que elas sejam irrupções de um emocionar de parceria que ficou aprisionado quando começaram a rodar na rede social programas verticalizadores. Assim, o padrão de rede (já presente na "rede-mãe") pode de fato ter re-emergido aqui e acolá, furando o bloqueio ou abrindo brechas ou fendas... Ou seja, não nego nada! Apenas re-interpreto.

Escrevi este comentário porque vejo que Angela tem estudado o budismo tibetano e postado aqui algumas mensagens fazendo analogias interessantes dos nossos temas da E=R com visões das tradições espirituais (como, aliás, é o caso deste post). Este é um convite a uma nova maneira de olhar.
Comentário de Clara Pelaez Alvarez em 23 fevereiro 2010 às 9:16
Que coincidência! Ontem mesmo conversando sobre redes evoquei essa imagem de Indra, que é lindíssima!

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