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Realmente o Web 2.0 é um fenômeno de integração social da racionalidade moderna?

Em alguns meus artigos e, sobretudo, na minha Tese de doutorado em Ciências Sociais, que será proximamente publicada na rede, estou desenvolvendo um sistema interpretativo da racionalidade moderna, baseado no conceito de função recursiva (no sentido que o conceito de função recursiva tem na Teoria da Computação). Me parece evidente que as redes do Web têm muito a ver com os conceitos de cálculo e algoritmo e, portanto, têm muito a ver com as principais coordenadas interpretativas do meu sistema. Tento, logo embaixo, de definir breve e sumariamente essas coordenadas, esperando com isso de levantar interesse sobre a questão destacada no final dessa mesagem e que considero uma questão essencial para entender a real força democrática dos mídias sociais e, em particular, das redes sociais.

A Teoria das funções recursivas afirma que a lógica das funções numéricas e idêntica a dos algoritmos, pois ambos são funções recursivas. Isso significa que tanto a representação matemática do mundo, quanto os processos formais pelo quais se pode agir sobre e no mundo, têm uma origem comum, e a função recursiva constitui essa origem. A consequência sociológica dessa descoberta é que a linguagem cognitiva dominante (o cálculo matemático) e a linguagem performativa dominante (os processos formalmente regulados com que se produzem e se utilizam muitos dos objetos de nossa vida quotidiana) têm uma lógica comum. A recursividade constitui essa lógica. Ela entra constantemente em nossa maneira de ver, produzir e utilizar as coisas. Utilizamos a lógica do cálculo não somente quando lidamos com números, mas também quando estamos envolvidos em um esquema burocrático ou quando executamos as centenas de cliques que nos são impostos pela lógica dos computadores, dos telefones, dos controles remotos, etc.

A equivalência lógica entre o cálculo e o algoritmo permite de encontrar o elemento unificador dos principais fenômenos ligados à racionalidade moderna: ciência, mercado, burocracia e, na alta modernidade, consumismo e comunicação mediada por computadores. Mas, apesar de se apoiar na lógica das funções recursivas, a racionalidade que está na base desses fenômenos produziu resultados bem diferentes com referência a questão da integração social. De um lado, a cultura do cálculo, enquanto afastava fisicamente as pessoas - em conseqüência sobretudo da expansão dos mercados - ofereceu os instrumentos para os homens continuarem interagindo nesse novo plano distanciado no tempo e no espaço; de outro, a lógica de processo, na forma tomada pelo modelo burocrático-industrial, determinou uma separação entre os indivíduos que não era conseqüência de um distanciamento físico, mas do fato de os indivíduos ser “encapsulados” em passos do processo algorítmico. Nos meus artigos, chamo (retomando um conceito de Giddens) de “integração por distanciamento tempo-espaço” aquela primeira consequência da cultura do cálculo; pelo contrário, chamo de “desagregação por distanciamento lógico” a segunda consequência. No distanciamento lógico, os indivíduos estão isolados socialmente, embora eles podem se encontrar lado a lado nos processos administrativos (tanto como funcionários, quanto como usuários), nos da produção industrial (tanto como operários, quanto como consumidores) e – hoje em dia – na moradia dos condomínios, na circulação de carros, etc.

Ora – esta me parece a pergunta principal – a lógica das redes de computadores parece ainda “não tomar partido” de forma clara entre a integração por distanciamento tempo-espaço e a desagregação por distanciamento lógico. Se, como acredito, os “Socialnomics” representarão o marco distintivo da próxima “onda longa” da economia mundial (quinto ciclo de Kondratieff), para entender melhor o rosto que o futuro de nossa sociedade terá precisa entender até que ponto os mídias sociais – e, sobretudo, as redes sociais – inclinam para a integração por distanciamento tempo-espaço e não para a desagregação por distanciamento lógico.

Se alguém estiver interessado em conhecer melhor os conceitos em cima, os artigos já publicados que tratam deles são:

1. TOTARO, Paolo. Le origini logiche della disaggregazione sociale. Rassegna Italiana di Sociologia, anno 50°, n° 2, p. 227-250, Abr/Jun 2009.

2. TOTARO, Paolo. A tensão entre cálculo e classificação como dinâmica da exclusão social. Ciências Sociais Unisinos, v. 45, p.16-26, Jan/Abr 2009. Disponível em: http://www.unisinos.br/publicacoes_cientificas/images/stories/Publi...

3. TOTARO, Paolo. Três opções estratégicas para os recursos humanos do Brasil. Teoria & Pesquisa, v. XVII, n° 1, p.121-133, Jan/Jun 2008. Disponível em: http://www.teoriaepesquisa.ufscar.br/index.php/tp/article/viewFile/...

4. TOTARO, Paolo. A metamodernidade da ciência galileiana. Vertentes , v. 27, p.35 - 44, Jan/Jun 2006.

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