Escola de Redes

Princípios Educacionais e Mudança de Paradigmas


Como Educador, acredito que a Educação tem um papel crucial na transformação e desenvolvimento das formas de pensar e agir relacionadas à "emergência" do chamado Pensamento Complexo. Também tenho a convicção de que tal papel é hoje, em grande medida, de resistência reacionária às mudanças. Isso não podia ser diferente, dados os princípios arcaicos que ainda são predominantes na Educação (conteudismo, ensino/transmissão, hierarquização, competitividade, etc). Para alterar essa situação, a própria Educação - e os educadores - precisa antes se transformar. Mas como?

A seguir, reproduzo um conjunto de 6 princípios educacionais propostos por uma rede colaborativa de educadores que poderão servir de pontos de partida para um multiálogo.



Carta de Princípos da Rede RC - núcleo SP*

(...) [esta é] uma rede colaborativa formada por pessoas que militam pela transformação da Educação Pública (1). Nossa finalidade inicial é a de promover a comunicação e o apoio mútuo entre pessoas, organizações e projetos que tenham por objetivo contribuir para a superação dos arcaicos paradigmas educacionais vigentes. (...) os modelos educacionais e as práticas educativas possuem decisivas condicionantes sócio-culturais. Este fato exige que, para a transformação da Educação, tenhamos de ultrapassar seu âmbito restrito, englobando as dimensões sociais, políticas e culturais. (...) a Educação atualmente praticada não contribui para que as gerações futuras tenham condição de superar os cruciais desafios postos para e pela humanidade. Mais do que isso, essa educação acaba por incentivar a formação de pessoas que tendem a reproduzir o modo de pensar, sentir, agir e viver que produziram tais desafios. Para que os atuais paradigmas educacionais possam ser superados é necessário estabelecer novas concepções que apontem formas alternativas de pensar, estruturar e praticar a Educação. (...) São estes princípios que, a nosso ver, devem fundamentar a vital transformação da Educação, para que esta possa corresponder às necessidades das pessoas e das sociedades contemporâneas.

1. Educar[se] para a Integralidade

A educação deve contemplar a humanidade dos educadores e educandos em sua totalidade, sendo coerente com a indivisibilidade das dimensões biológica, mental e espiritual de cada pessoa. Assim como cada ser humano possui diferentes limites, possui também diversas potencialidades que poderão, ou não, ser desenvolvidas e expressas a partir das formações e transformações que ocorrem durante toda a vida. Para isso a educação deve ser um processo intencional, contínuo e transformador, que leve a integralidade e que repercuta durante toda a vida.
Desdobramentos: educação integral (2), transdisciplinaridade, currículo aberto, aprender a conhecer-fazer-conviver-ser, educação continuada.

2. Educar[se] em Solidariedade

A educação é um processo relacional, possuindo um caráter social que deve ser assumido nas práticas educativas. A solidariedade, mais do que um objetivo ético a ser atingido, é uma condição primordial para a realização do trabalho educativo. Portanto, este só se desenvolverá plenamente se considerar e incluir as diversas relações entre todos os atores envolvidos: educandos, educadores, gestores, famílias e comunidades. No caso da escola, é indispensável que abra suas portas à comunidade, a fim de constituir-se em pólo integrador e irradiador do saber e do esforço social pela educação, também cabe a escola incentivar a integração dos agentes e espaços comunitários a esse mesmo esforço.
Desdobramentos: comunidade educadora, docência compartilhada, ensino-aprendizagem colaborativo, pedagogia de projetos.

3. Educar[se] na Diversidade

A educação deve contemplar a originalidade e a criatividade das pessoas, valorizando a diversidade humana em todos os seus aspectos: físicos, psicológicos, culturais, etc. As práticas educativas devem ser coerentes com o fato de que as pessoas aprendem melhor segundo seus interesses e motivações, em diferentes ritmos e de diferentes formas. A noção de educação na diversidade, associada aos conceitos de integralidade e solidariedade, permite o reconhecimento tanto de nossas singularidades quanto das nossas igualdades, resultantes de nossas condições humanas e socioculturais. As diferenças, nesse contexto, devem ser consideradas como algo inerente ao ser humano, rompendo-se a lógica binária que nos fragmenta em “iguais” de um lado e “diferentes” de outro.
Desdobramentos: educação inclusiva (3), pedagogia da escuta, ensino não seriado, grupos multietários, educação para a paz, pedagogia da autonomia, educação multicultural.

4. Educar[se] na Realidade

A educação deve servir para a melhora objetiva da realidade na qual ela ocorre, contribuindo para o chamado desenvolvimento local. Para tanto, ela deve ser contextualizada, integrada à vida dos educandos e de suas comunidades, aberta para a troca de experiências e conhecimentos. A educação só possibilitará à pessoa atuar efetivamente na transformação da sua realidade se proporcionar condições de autotransformação. Em outras palavras, é somente através da promoção de aprendizagens significativas que a educação contribuirá para a transformação humana e social.
Desdobramentos: contextualização, extensão comunitária, ensino ativo, aprendizagem significativa.

5. Educar[se] na Democracia

A educação que prepara para a democracia deve se dar através de práticas não-autoritárias, que permitam a ampla participação de educandos, dos educadores, das famílias e da comunidade. Só é possível uma educação para a ação cidadã se a educação for pela e na ação cidadã. As práticas educativas promotoras da liberdade, autonomia, respeito, responsabilidade, eqüidade e solidariedade devem estar associadas aos princípios anteriores para permitir que atinjamos o objetivo maior da auto-responsabilização social (4).
Desdobramentos: educação democrática, não-coercitiva, educomunicação, protagonismo juvenil.

6. Educar[se] com Dignidade

A dignidade específica do ofício do educador é derivada da dignidade reconhecida na pessoa do educando. O educador deve ser cônscio do seu importante papel como agente social, assumindo sua missão como tutor dos educandos e facilitador de suas aprendizagens, entendendo que a educação deve ser solidária e coletiva e a aprendizagem um processo de dupla-via – entre o educador-aprendente e educando-ensinante. O tão almejado resgate da autoridade e a revalorização social e profissional do educador passam, necessariamente, pela reformulação das formações iniciais, pela reflexão e atualização permanente das práticas educativas e, principalmente, pela constante busca da coerência entre o fazer pedagógico e as necessidades educacionais dos educandos, suas comunidades e das sociedades em geral.

* Edição da Carta de Princípios da Rede RC - núcleo SP (íntegra no site).

_________________________________________________

Notas:
1. A educação pública é por nós entendida como aquela voltada para a população em geral e que a todos dê garantias de acesso, sucesso e realização pessoal e social, seja ela de caráter estatal ou privado.
2. A educação integral é vista aqui como aquela que considera as diversas dimensões da experiência humana: sensorial, cognitiva, emocional, moral, ética, política, cultural, estética, artística, etc.
3. O termo educação inclusiva é aqui utilizado com ressalvas, uma vez que seu uso só faz sentido em um contexto excludente.
4. A auto-responsabilização social refere-se à conscientização de que os contextos sociais são responsabilidade de todos e de cada um, visando que as pessoas e comunidades tenham condição de se apropriar das suas realidades e transformá-las.

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Tags: democracia, educador, educação, escola, princípios, transformação

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Comentário de Lía Goren em 9 outubro 2009 às 14:34
Hola Luis
Entré a tu blog para ver como enviarte un mensaje para agradecerte el tutorial de Ning (no puede encontrar cómo, vaya saber que cosa se me escapa de ver...) y me alegré gratamente al conocer tus intereses y al leer los principios que compartís aquí. Me sentí identificada con ellos.
En mi site podrás ver los principios que yo sustento y como en mucho comparto tus intereses y los de las personas con quienes trabajas.
Me da mucha envidia ver que son muchos allí en Brasil quienes valoran la necesidad de un cambio de paradigma profundo, orientado desde la perspeciva de la complejidad y otras vías, como vía de ruptura de los mecanismos reproductivos que representa la enseñanza actual.
En la misma dirección, mi eje central es la familia (y cuando puedo trabajo en lo educativo también) pues el paradigma desde el operan las relaciones en su interior representa los mismos desafíos. Si la familia no comprende la necesidad de un cambio y los beneficios tampoco estará dispuesta a apostar a una educación diferente. Me parece que este también es un factor crítico que no debemos despreciar a la hora de trabajar hacia la transformación.
Si sabés de gente en la Ciudad de Buenos Aires que se interesa en los temas de tu/vuestra propuesta te agradecería que les hagas saber de mi o me digas como contactarlos para poder trabajar colaborativamente y en equipo, como lo hacen ustedes allí.
Saludos cordiales.
Comentário de Clara Pelaez Alvarez em 6 março 2009 às 13:57
Oi Luis!

Verdade Luis, tem muita gente engajada ou pelo menos buscando novas alternativas! A mudança começa a acontecer quando as pessoas com pensamento convergente começam a se agrupar e a
agir.

Acabei de postar um vídeo (Como os gafanhotos percebem o sinal para enxamear) Que me fez pensar que, como os gafanhotos, também percebemos sinais de mudanças, e no nosso caso, ao invés de roçar pelos, trocamos idéias.

Abraço
Comentário de Luiz de Campos Jr em 4 março 2009 às 5:37
Obrigado novamente, Augusto. Me junto a você nas sugestões de leitura, eu já havia lido o post e baixado o livro - que estou lendo bem mais lentamente do que gostaria...

Clara, permita-me assinar tudo que disse acima, fazendo um destaque: "No mais, já há algumas centenas de anos questionamos a educação. Textos têm aos montes, idéias também. Em que momento vamos sair da discussão e passar para a ação é que estou querendo descobrir".
O José Pacheco costuma utilizar-se de uma paráfrase dizendo algo como "já quando me iniciei na educação, tudo que deveria ser feito para salvá-la já havia sido escrito, faltava apenas salvá-la". E ainda falta.

Então da onde vem meu otimismo? Ele parte exatamente das ações de que tenho tomado conhecimento e, por vezes, participado. O caso da Escola da Ponte (aqui) é emblemático, mas existem muitas outras acontecendo neste nosso imenso país.

Incluo essa carta de princípios dos RC-SP como um exemplo, não enquanto um texto retórico ou uma carta de intenções, mas como um conjunto de parâmetros para a ação. Sei que nesta nossa E=R estão, pelo menos, 13 membros dos RC, buscando mais subsídios para orientar suas a ações. Essa rede é composta por centenas de pessoas de todo o país, educadores, diretores e coordenadores de escolas estatais e privadas, urbanas e rurais, coordenadores em instituições privadas, professores universitários, militantes leigos... muitos participantes solidários em ações efetivas na transformação dos paradigmas educacionais.

É necessário possibilitar a conexão dessas pessoas conhecedoras e empreendedoras de tais iniciativas - que têm de ser realizadas burlando o sistema oficial, burocrático, hierárquico e estorvador. Assim poderemos nos permitir um maior otimismo com relação à transformações efetivas.

Abraços.
Comentário de Clara Pelaez Alvarez em 3 março 2009 às 15:13
Então Luis, ao invés de trabalhar, não resisti a dar uma olhada no teu texto...

Muito interessante, mas fica-me a sensação de que a pergunta fundamental nesta história é: O que é, ou qual é a estrutura da realidade? Creio que a partir da resposta a esta pergunta é que emerge todo o resto...
No mais, já há algumas centenas de anos questionamos a educação. Textos têm aos montes, idéias também. Em que momento vamos sair da discussão e passar para a ação é que estou querendo descobrir. Na experiência que tive nas escolas o que percebi é que reune-se as professoras trata-se determinado tema, redes, complexidade, sustentabilidade ou o que seja, tem aquele debate as pessoas se colocam, acham legal, e quando saem dali voltam tranquilamente ao seu jeito mais que conhecido de dar aula. É como se só o fato de falar a respeito de novos temas seja suficiente... Pra te dizer a verdade estou com overdose de leitura, de textos, de idéias escritas. Em última análise está todo mundo dizendo a mesma coisa com abordagens diferentes. E existe um padrão bem interessante na história: idéias, de fato revolucionárias, demoram dezenas e até centenas de anos para serem incorporadas ao padrão de pensamento social. Acho que o caminho é sempre o multiálogo e a ação. Duro mesmo é partir para ela (a ação).

Bem, acho que só falta amarrar uma ponta. Quando disse que educação é instrumento de poder estava citando um economista chamado John Kenneth Galbraith que coloca 3 espécies de poder, diferenciando-os segundo os meios pelos quais se exercem: o poder coercitivo que garante a submissão através de sanções, o poder compensatório que oferece incentivos ou recompensas e o poder condicionado que é aplicado pela mudança de crenças mediante a persuasão ou a educação. Referia-me a este último tipo de poder, o de disciplinar (não por acaso é o governo que determina as estruturas e dinâmicas dos centros de educação). Não por acaso, quem não tiver o aval desses "centros de educação" não tem chance nenhuma na inclusão social. Quanto menos formos educados para pensar menos vamos questionar e mais fácil vai ser o gerenciamento das nossas vidas por parte do Estado.
Comentário de Augusto de Franco em 3 março 2009 às 11:22
Algumas notas sobre Educação para a Democracia, Luiz. E um conjunto de referências para o que chamei de Alfabetização Democrática.

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