Escola de Redes

O que é ensinar? Quem é um professor? (*)

Humberto Maturana

Alguma outra pergunta?

Sim, Professor. Que é um professor? Ou, quem é um professor?

Humm (pausa)

(Risos)

(Escreve ao quadro negro:)
Professor, Mestre. E, portanto, está aqui: ensinar. Creio que aqui aparece este conceito.
O que é ensinar? Eu lhes ensinei a Biologia do Conhecer? Sim, se alguém abre a porta desta sala... (desloca-se até a porta, simula ouvir alguém que bate à porta e, então, se desculpa, e diz a outro alguém: ) ... “Nesta sala está o Professor Humberto Maturana ensinando Biologia do Conhecer” (desloca-se de volta: )
Eu lhes ensinei a Biologia do Conhecer? Em um sentido, com relação à responsabilidade perante a Faculdade, eu lhes ensinei a Biologia do Conhecer.

(Risos)

Mas o que fizemos nós ao longo deste semestre?

Desencadear mudanças estruturais.

Desencadear mudanças estruturais, desencadear perturbações. E como fizemos isso?

Em coordenações de coordenações de ações.

Em coordenações de coordenações de ações. Ou, seja: vivendo juntos. Claro, uma vez por semana, viver juntos uma hora, uma hora e meia, duas horas, ou, alguns estudantes, que permaneceram comigo mais horas... isso era viver juntos. Vocês podem dizer: “Sim, mas eu estava sentado escutando”. Isso se estavam verdadeiramente escutando, como espero.

(Risos)

Estavam sendo tocados, alegrados, entristecidos, enraivecidos... Quer dizer, se passaram todas as coisas do viver cotidiano. Mexeram com as idéias, rejeitaram algumas. Saíram daqui conversando isto e mais aquilo... “Estou fazendo um trabalho...” Estavam imersos na pergunta: “Como prosseguir de acordo com o que lhes ia passando, vivendo juntos, comigo, em um espaço que se ia criando comigo.”
Então, qual foi a minha tarefa? Criar um espaço de convivência. Isto é ensinar.
Bem, eu ensinei a vocês. E vocês, ensinaram a mim?

Sim.

Claro que sim! Ensinamo-nos mutuamente. “Ah, mas acontece que eu tinha a responsabilidade do curso, e ia guiando o que acontecia”. De certa forma, sim, de certa forma, não. De certa forma, sim, porque há certas coisas que eu entendo da responsabilidade e do espaço no qual me movo nesta convivência, e tinha uma certa orientação, um fio condutor, um certo propósito. Mas vocês, com suas perguntas, foram empurrando esta coisa para lá, e para cá, e foram criando algo que foi se configurando como nosso espaço de convivência.
E o maravilhoso de tudo isso é que vocês aceitaram que eu me aplicasse em criar um espaço de convivência com vocês. Vocês se dão conta do significado disso? Foi exatamente igual ao que ocorreu quando vocês chegaram, como crianças, ao jardim de infância, e estavam tristes, emburrados, a Mamãe se foi, estão chorando, “Ahhh, eu quero minha mãe”, e chega a professora, e oferece a mão e vocês a recusam, mas ela insiste, e, então, vocês pegam sua mão. E o que se passa quando a criança pega na mão da professora? Aceita um espaço de convivência.
Com vocês se passou a mesma coisa. Em algum momento, aceitaram minha mão. E, no momento em que aceitaram minha mão, passamos a ser co-ensinantes. Passamos a participar juntos neste espaço de convivência. E nos transformamos, em congruência... De maneiras diferentes, porque, claro, temos vidas diferentes, temos diferentes espaços de perguntas, temos experiências distintas. Mas nos transformamos juntos, e agora podemos ter conversas que antes não podíamos.
E quem é o professor? Alguém que se aceita como guia na criação deste espaço de convivência. No momento em que eu digo a vocês: “Perguntem”, e aceito que vocês me guiem com suas perguntas, eu estou aceitando vocês como professores, no sentido de que vocês me estão mostrando espaços de reflexão onde eu devo ir.
Assim, o professor, ou professora, é uma pessoa que deseja esta responsabilidade de criar um espaço de convivência, este domínio de aceitação recíproca que se configura no momento em que surge o professor em relação com seus alunos, e se produz uma dinâmica na qual vão mudando juntos.

(*) Transcrito do trecho final da aula de encerramento de Humberto Maturana no curso de Biologia Del Conocer, Facultad de Ciencias, Universidad de Chile, Santiago, em 27/07/90. Gravado por Cristina Magro; transcrito por Nelson Vaz.

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Comentário de Cezar Roberto de Camargo Morris em 19 julho 2009 às 23:07
Ines, estou chegando na escola, e este seu recorte ajuda a me situar, obrigado. Navegar é preciso, "criar espaços de convivência" não é preciso. Sendo trabalhador da saúde mental meu interesse por redes (ecológicas) vem a algum tempo transformando minha prática clínica com grupos, e entendo que tratar, dar atenção ou cuidar de "quem experimenta um sofrimento psíquico além de sua capacidade de responder evolutivamente a ele" é aceitar a responsabilidade de criar e compartilhar oportunidades de um convívio sem hierarquias rígidas, com inteligência e com amor (palavras que poucas vezes necessitam ser explícitas, mas quanto mais estiverem presentes melhor) que valem por uma terapia. Portanto se a Rede é a Escola, então de forma análoga a Rede pode ser a Terapia Social e Ecológica.
Encantado com o conteúdo desta escola de redes, meu comentário é mais para expressá-lo. Obrigado a todos e meu reconhecimento a quem criou este espaço, Augusto de Franco. Ines, continuarei ligado em seu blog, Abraço.
Comentário de Clara Pelaez Alvarez em 12 julho 2009 às 17:06
Que bom que vc gostou da idéia Ines!
Toda a inspiração para o meu trabalho veio do Moreno: vejo o Neuroteatro como uma recriação do teatro do espontâneo e a Neurometria é uma sociometria melhorada...
Não conheço o pessoal da PNL!
Comentário de Ines Cozzo Olivares em 12 julho 2009 às 15:17
Absolutamente espetacular! Um psicodrama atualizado com as descobertas das neurociências. Não vejo a hora de participar. Obrigada pela explicação :)

P.S.: O pessoal da PNL que trabalha com os psicogeográficos, posições perceptivas e PNL de terceira geração já sabe disso? Vai causar um reboliço... rs
Comentário de Clara Pelaez Alvarez em 11 julho 2009 às 12:13
Ines, o cérebro aprende por movimento (como estou certa, vc já sabe). As mesmas estruturas neurais envolvidas com o aprendizado também respondem pelos movimentos. A idéia do Neuroteatro é pensar em ação, pensar fazendo. Propõe-se uma cena básica (de qualquer tema que se queira tratar) representada por atores. O público é chamado a refletir sobre o tema e o movimento. Pode-se trabalhar com retrospectiva (o que aconteceu antes), prospectiva (o que pode vir a acontecer) ou alterando o "agora". O público se torna dramaturgo, diretor e ator, direta (qq pessoa pode subir ao palco e desempenhar qq papel) ou indiretamente (as pessoas podem pedir que a trupe represente suas idéias) O palco se torna um espaço de simulação da realidade, um "como se", um espaço criado e modificado coletivamente.
É, mais ou menos, essa a idéia...
Comentário de Ines Cozzo Olivares em 11 julho 2009 às 11:39
O que é exatamente neuroteatro, Clara?
Comentário de Clara Pelaez Alvarez em 11 julho 2009 às 11:34
Sim Ines, vamos abrir o Congresso com uma apresentação de Neuroteatro.
Essa de Deus, foi ótima! rs rs
Comentário de Ines Cozzo Olivares em 4 julho 2009 às 20:49
Sim, eu sei...
Dizem que quando Deus ouviu, pela primeira, que Ele tinha criado o Homem à sua imagem e semelhança, Deus riu muito...

Comentário de Ines Cozzo Olivares em 4 julho 2009 às 20:47
Sim Clara, eu compreendo.
Neuroteatro, você disse?
Vocês estarão no Congresso de Neuroaprendizagem também?
Comentário de Clara Pelaez Alvarez em 3 julho 2009 às 12:57
Ines, cometi um engano.

Achei que dia 19 caísse numa sexta-feira (olhei o mês de junho, ao invés de julho) só agora vi que cai num domingo! Infelizmente não poderei estar com vocês como havia dito.
Tenho ensaios com a trupe do Neuroteatro nos finais de semana e tenho que estar presente.
Espero que você compreenda e me desculpo de novo pela falta de atenção!

Estou certa que outras oportunidades surgirão!

Grande abraço.
Comentário de Clara Pelaez Alvarez em 2 julho 2009 às 11:08
É isso aí Ines! Ótimas suas colocações...

Não nos esqueçamos que não existe neutralidade no universo. Qualquer tipo de saber será sempre antropomórfico.

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