Escola de Redes


Se você começa pelo meio não chega ao fim. O fim é o começo.

Em mundos em rede devemos nos preocupar com a interatividade, não com a quantidade. E interatividade não é mais quantidade de interação e sim mais abertura à interação fortuita, quer dizer, não planejada como ação instrumental, urdida para obter um resultado esperado. Não é acordar uma hora mais cedo para interagir mais e sim estar mais aberto à interação com o outro-imprevisível. E não é como um plano de negócio.

Agora que a plataforma da Escola-de-Redes completou cinco anos (na verdade a E=R surgiu antes, em junho de 2008) e alguns de nós comemoramos e coisa e tal, sou novamente assaltado por uma antiga preocupação. E daí? O que significa isso?

É uma preocupação antiga. Tanto assim que, bem antes de ser divulgada a plataforma, em 24 de novembro de 2008, publiquei o texto "Articule você também uma Escola-de-Redes". A ideia era expandir a ideia (de escolas-não-escolas de redes, pois a escola é a rede) e não fazer crescer uma organização específica. De qualquer modo, depois de divulgada a plataforma em dezembro de 2008, ela cresceu em número de registrados e tem hoje 9.608 pessoas conectadas (que se registraram por sua própria decisão e vontade, não foram incluídas por ninguém por mecanismos ad hoc de "convite" como os que existem no Facebook, em que terceiros podem incluir um novo membro). No entanto, mesmo assim, isso significa muito pouco. 

Não importa muito se são 900, 9.000 ou 90.000! Esses números podem não significar quase nada se essas pessoas não usarem a plataforma (que é uma mídia social, uma ferramenta interativa, não uma rede social) para interagir. Para ver se está havendo interação em uma plataforma observamos o número de tréplicas (não basta verificar réplicas e curtidas), a velocidade com que roda a timeline (registro de atividades de pessoas diferentes), a responsividade de um post compartilhado (porcentagem dos que leem e dos que recompartilham), para citar alguns indicadores mais banais. Mas mesmo esses indicadores são bastante inadequados. Eles ainda estão na pré-história das redes. Vou citar apenas um exemplo desconcertante: não é necessário que todas as pessoas ou que maioria das pessoas ou que uma porcentagem significativa das pessoas usem a plataforma. É apenas necessário que, quando usem, as que usem o façam de modo interativo.

Outro exemplo: a responsividade, mesmo que não seja um indicador suficiente de interatividade, às vezes seus resultados são significativos e às vezes nem tanto. Por exemplo, a apresentação chamada "Um roteiro para quem está entrando na Escola-de-Redes" ultrapassou 100 mil views só no Slideshare. É um número expressivo, mas não diz muito, a não ser pelo que revela em termos do interesse crescente das pessoas por um assunto relativamente abstruso (sim, pois não é um viral, não é um vídeo de 3 minutos: é uma bibliografia acompanhada de sentenças não-triviais, relativamente árduas em termos teóricos, sobre a nova ciência das redes). Mesmo assim...

Interação não é adesão e nem participação. Número dos que aderiram a uma plataforma não significa muita coisa a não ser para quem está pensando com a cabeça de marketing. Se estamos querendo fazer netweaving (ou seja, articular e animar redes) - e não capturar redes para pescar em aquário - adesões numerosas significam muito pouco. 

Isso é o óbvio, mas agora vem o que não é tão óbvio: número dos que participam, intensidade dessa participação, profissão de fé declarada de participantes, coraçõeszinhos postados pelos que estão cheios de amor para dar... e outros sinais de quem quer se inserir num grupo ou patota, além de não significar grande coisa em termos de interação, podem ser obstáculos à livre interação. 

Como assim? Isso não parece um absurdo? Pois é... Parece mesmo um absurdo para quem não entendeu a diferença entre participação e interação. Livre interação significa resistir à tentação de pertencer a um grupo. Na medida em que você se identifica com um grupo, a interação não é mais livre: ela fica aprisionada pelo campo social desse grupo, pela demarcação identitária que o define ou delimita, pelas fronteiras reais ou imaginárias (dá no mesmo, desde que você se comporte como se tal fronteira existisse) entre esse grupo (o seu grupo) e os demais grupos (os dos outros). Essas separações entre nós (um inner circle) e os outros é um atributo da participação, não da interação.

Sei que é difícil entender isso, mas é fundamental. Não que você não possa interagir em um grupo. É claro que pode e isso é mesmo inevitável na medida em que tudo que interage clusteriza. O que você não pode é ser o cara daquele grupo específico e, ao interagir, não interagir mais como pessoa (concreta) e sim como uma entidade configurada como representação (abstrata) daquele grupo (um grupo específico). A melhor solução interativa para isso é não interagir apenas em um grupo, mas em vários grupos. Com isso você corre menos riscos de ser o representante de um grupo e passa a ser conhecido e aceito por todos como um interagente em vários grupos (o que netweavers devem ser mesmo: navegantes de interworlds). O interagente é o ser humano propriamente dito que você é: a sua pessoa.

Com três pessoas já podemos fazer uma rede. Três pessoas pode ser mais significativo, em termos de interatividade, do que trezentas arrebanhadas participativamente ou três mil contadas (como cabeças) adesivamente.

Não tenho bem certeza de se estou conseguindo me fazer entender. O emaranhado é a pessoa. Em termos humanos - quer dizer: sociais - a pessoa é tudo!

Portanto, não se preocupe com a quantidade. Simplesmente comece a se comportar em rede com as pessoas. O que virá (depois) você não pode saber (antes). Não planeje para os outros e, sobretudo, não planeje os outros. Não queira envolver as pessoas e conduzi-las ou induzi-las para obter algum resultado (que só você pensou aí na sua cabecinha genial) a partir delas. E, sobretudo, não confunda os meios - as estruturas, os prédios, os equipamentos, as tecnologias - com a rede. Se você começa pelo meio não chega ao fim. O fim é o começo. O fim e o começo é a rede. E redes acontecem quando as pessoas interagem. Ponto.

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Comentário de Augusto de Franco em 26 fevereiro 2014 às 6:06

Pois é, Gilberto!

Comentário de Gilberto Fugimoto em 25 fevereiro 2014 às 9:46

Augusto,

A interatividade em redes virtuais continua(rá) sendo um desafio.

Com os mecanismos e plataformas que dispomos alguns temas (geralmente financeiros e politicos) despertam interesse geral. Senão, só passividade; todos em broadcasting.

Talvez até não seja ruim, pois se inventarem algum mecanismo de realidade virtual ampliada para interação talvez seja um dispositivo de intervenção comparável mesmo à MATRIX do filme.

Comentário de Alcivan Nunes Vieira em 9 dezembro 2013 às 7:21

De fato, a participação deliberada já pressupõe o desejo de interagir. E uma interação qualificada sem os modismos típicos das chamadas "redes sociais" e seus desdobramentos aleatórios. Espero deste espaço reflexões sobre a educação enquanto política, princípio e meio para pensarmos uma sociedade diferente. 

Comentário de Fabio Andriani Paiva em 6 dezembro 2013 às 18:28

Parabéns pela diferença que você faz nas redes! Milhares de views de standup não tem interatividade mas têm muito preconceito. Grupos no facebook estigmatizam e odeiam outros grupos. A diferença é um incômodo na rede mas na vida real é o que de mais interessante tem para se conviver. Os deptos. de Marketing dominam todas as mídias com suas pesquisas e modelos de seres humanos. Sua voz diferenciando quantidade e interatividade vem elucidar em socorro das pessoas que criam para que a internet seja um lugar de enriquecimento humano e não de compra e venda de modos de ser humano. Obrigado pelos vídeos e textos que você criou! Parabéns e milhares de anos para a sua rede! Que ela veio para nos enriquecer como seres vivos!

Comentário de Miguel Gaspar Neto em 5 dezembro 2013 às 16:59

Percebi ao ler esse texto muito reflexivo, que os meios mudam muito mais que os fins em relação a busca humana por mais conhecimento . Talvez até possamos unificar os diversos fins, acho que não seria difícil, e se iniciarmos pelo fim, teríamos um ponto de partida, que poderia ser um nó de uma rede mais ampla.

Comentário de Maria Cecilia de Souza em 4 dezembro 2013 às 18:42
Excelente reflexão... O último parágrafo é especial... É uma aprendizagem. É preciso começar, mas concordo,que muitas vezes em função da quantidade perdemos a qualidade... É preciso selecionar, separar o joio do trigo.. Ñ perder o tempo da interação real..! Obrigada!
Comentário de Eduardo dos Santos Melo em 4 dezembro 2013 às 17:12

Eu sou novato.  Novatíssimo.  Não tenho muito tempo sobrando dos meus afazares, no momento, mas, não vejo a hora de poder interagir mais.  Excelente proposta, E= R.

Comentário de Aureo Magno Gaspar Pinto em 4 dezembro 2013 às 16:54

Augusto... depois de uma profusão 'over' de muitos grupos, trocas, interações virtuais e presenciais, como que num ciclo de expansão e recolhimento, segui por um período, no qual continuo, de maior interação olho-no-olho, cancelei conta no Facebook, reduzi newsletters e LinkedIns ... e continuo a admirar e contar sobre a E = R, mas agora ao pé de ouvido, em torno da fogueira. Fases. E quiçá outros também não passem por estas fases?

Comentário de Lúcio dos Santos Ferreira em 4 dezembro 2013 às 15:08

Augusto, de uma honestidade irritante.

Adorei.

Comentário de antonietA PereS em 4 dezembro 2013 às 9:16

 

 o que me impressiona é a qualidade ,em quantidade,  que encontro aqui há 5 anos.

  celebro !   \o/

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