Escola de Redes

Fala-se muito, de uns tempos para cá, de "modelos mentais". A coisa pegou. Eles seriam determinantes (ou quase) do comportamento do indivíduo (o portador da "mente" que abriga o "modelo"), sobretudo diante de inovações. Assim, o cara (ou a cara) teria maior dificuldade (ou facilidade) de aceitar alguma coisa nova, diferente daquelas a que está acostumado(a), em virtude de algum efeito do seu modelo mental de modelar o processo pelo qual ele(a) percebe e interpreta a novidade.

A hipótese é verossimilhante, não há dúvida. Mas pode levar a algumas inferências problemáticas. Por exemplo, pode nos levar a achar que sem mudar o modelo mental dos indivíduos, não há como realizar uma mudança nos coletivos em que esses indivíduos participam (organizações, empresas, comunidades etc.). E isso, por sua vez, pode nos levar a querer abrir a cabeça dos sujeitos para que eles mudem o seu modelo mental. Uma parte considerável dos treinamentos ou processos de capacitação voltados à inovação, assumem, de maneira declarada ou implícita, esse objetivo. Trata-se de mudar o modo como o cara (ou a cara) pensa, como sua mente funciona. Algumas vezes, infelizmente, pelo proselitismo, não raro baseado em algum apelo de natureza ética ou na tentativa de sedução por um belo sonho de futuro. Queremos então "emprenhar as pessoas pelo ouvido". Colocar lá dentro da cabeça delas alguma sementinha que, ao germinar, vai ser capaz de mudar o seu modelo mental.

Mas a mente não é a cabeça. Não está propriamente dentro de nada. Ela envolve o ser humano como um todo. E o ser humano, como um todo, não é apenas um ser individual, mas também um ser social. É um continuum de experiências individuais intransferíveis e, ao mesmo tempo, um entroncamento de fluxos que o ligam aos outros seres humanos com os quais se relaciona (e, talvez ainda, como no conceito budista de mente, a outras coisas).

Quando falamos, pois, de modelo mental, não estamos falando da mente do indivíduo como se fosse uma coisa que ele possuísse. Na verdade e em certo sentido, o indivíduo é mais possuído pela mente do que a possui. A mente é uma nuvem. Mais ou menos como no clouding computing. E a computação aqui ocorre na rede social a que o indivíduo pertence. Se não mudarmos o software que "roda" nessa rede, não há como mudar o tal modelo mental.

É por isso que os processos de treinamento baseados na impregnação das mentes individuais costumam não ser bem-sucedidos. Pegamos as pessoas, as submetemos a um processo de deep immersion, elas parecem ter mudado de visão sobre aquelas coisas que queremos que elas mudem e, depois, quando essas pessoas voltam para seus ambientes de trabalho ou de convivência, a tal mudança que promovemos não costuma durar duas semanas... Por quê?

Ora, porque, ao se reconectar à sua rede, as pessoas começam a rodar o programa que roda nessa rede e que mantem uma determinada cultura por meio das conversações que recorrentemente travam seus membros entre si. Ou seja, existem circularidades inerentes nessas conversações! É o software agindo.

Se não mudarmos esse progama que roda na rede (e é necessário descobrir a sua, vamos dizer, "linguagem de máquina" para fazer tal mudança), não adianta. É tempo perdido querer mudar o que está "arquivado" em um nodo, pois logo que ele se reconecta à rede todo o script que modificamos é novamente "carrregado".

Estou falando aqui dos memes como softwares que "rodam" na rede social e instruem a construção de comportamentos. Se tiver interesse, dê uma olhadinha na 'Carta Rede Social 178', intitulada "O Olho de Horus".

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Comentário de Gustavo Gitti em 22 fevereiro 2010 às 10:54
Ah, o Lama Samten é meu professor. Muito de sua linguagem é voltada à prática de meditação, algo mais específico do budismo, mas ele dialoga muito bem com outros meios (em encontros com psicólogos, economistas, empresários, líderes sociais...). Dá uma olhada nesses vídeos:

http://www.youtube.com/watch?v=5N7edvwR6tk

http://www.youtube.com/watch?v=gTdkAKKoS64

http://www.youtube.com/watch?v=aoJNrsPnzzk

Abraços!
Comentário de Gustavo Gitti em 22 fevereiro 2010 às 10:47
Augusto, recomendo muito o livro THEORY U (http://www.amazon.com/Theory-Leading-C-Otto-Scharmer/dp/0974239054), que tenho aqui, mas ainda não terminei, senão emprestava já. Pelo que conheço do seu trabalho, você vai adorar.

O Scharmer tem muita coisa online. Veja qual quer linkar na Biblioteca aqui do Ning:

http://www.ottoscharmer.com/publications/articles.php

http://www.presencing.com/docs/publications/execsums/Theory_U_Exec_...

http://www.ottoscharmer.com/docs/articles/2002_ScharmerInterview_us...

http://www.ottoscharmer.com/docs/articles/2003_TheBlindSpot.pdf

http://www.ottoscharmer.com/docs/articles/2000_STK.pdf
Comentário de Angela Regina Pilon Vivarelli em 22 fevereiro 2010 às 10:34
Ando estudando butismo tibetano e fazendo ligações fantásticas com o que ando lendo nesta rede...
Comentário de Augusto de Franco em 11 fevereiro 2010 às 5:08
E aí Gustavo? Este pequeno artigo remete a um tema mais desenvolvido em O Olho de Horus. Não conheço o trabalho do Otto Scharmer e dele nunca ouvi falar. Você teria algum texto dele em versão digital para pendurarmos aqui na BIBLI.E=R? De qualquer modo, quais textos dele você recomenda? Do Lama Padma Samten só ouvi falar. Idem. Abraços.
Comentário de Gustavo Gitti em 11 fevereiro 2010 às 0:16
Augusto, texto excelente.

Concordo totalmente. Além do clássico Francisco Varela (gosto muito das obras mais recentes, pós-Maturana), encontramos ideias parecidas no trabalho do Otto Scharmer, que você já deve conhecer, e também nos ensinamentos do Lama Padma Samten. Você conhece?

A esse aspecto social da mente, esse contexto, o software, a rede, ele dá o nome de PAISAGEM. E trabalha muito em como desenvolver liberdade em relação a nossas paisagens.

Sobre isso, um livro muito bom é o MANDALA DO LÓTUS.

Abração.
Comentário de Augusto de Franco em 8 junho 2009 às 7:42
Republiquei aqui o artigo O Olho de Horus.
Comentário de Catherine Henry em 14 fevereiro 2009 às 22:34
Essa tecnologia nova da internet que permite publicar e se conectar a outras pessoas nos fez redescobrir um processo natural. A rede. Tudo na Vida funciona em rede. Eu gosto de pensar nos sistemas do nosso corpo e nas células, em como elas funcionam para a outra, dando à outra o que ela precisa, continuamente, para a manutenção (conservação) do sistema maior, o corpo.
É dando que se recebe, no sentido mais próprio das palavras. Elas estão em constante conexão e comunicação, e quando não estão mais, adoecem.
Sempre viajo na comparação entre as células e a sociedade, eu na sociedade, eu célula, dentro de um sistema humano, ... e vejo que nós conseguimos inventar a melhor ferramenta do mundo, aquela que nos permite re-exercitar a conexão e a comunicação. Vejo no meu dia a dia o quanto isso é transformador, alentador, emocionante (trabalho com inclusão digital) ... Porque é natural. :)
Nós aqui, estamos nos comunicando, dentro de uma comunidade de pessoas interessadas na sociedade em rede. Essa troca de idéias, de opiniões, de pontos de vista, carregada das emoções que sentimos quando conversamos virtualmente, isso é transformador. Faz vc pensar no silêncio de sua razão, afinar seus pensamentos, criar novas coisas...a magia toda disso aqui é a comunicação plena, cheia de ferramentas para comunicar. Quando todos puderem se comunicar e formar grupos de interesse e aprendizagem, a sociedade evoluirá. Nós inventamos a tecnologia para fazer diferente, coletivamente, comunitariamente. Oxalá vinguemos a tempo.
Comentário de Augusto de Franco em 4 fevereiro 2009 às 15:31
Muito interessante seu comentário, Bia. Sim, trata-se de pensar radicalmente em rede. Aliás, o cérebro está preparado para pensar assim (é assim que ele "pensa": estabelecendo conexões e reconhecendo padrões), mas... os softwares instalados obrigam-no, me parece, a fazer voltas para permanecer em determinadas centros que hierarquizam o processo. E como cavar sulcos para fazer escorrer por ele as coisas que ainda virão. Todavia, o que você chama de estruturas-redes são, na verdade, processos (como observou a Clara em outro comentário).
Comentário de Augusto de Franco em 2 fevereiro 2009 às 17:03
Adorei o dito do mestre Sufi, he he. Logo mais comento sua instigante mensagem, Bia. Abraços.
Comentário de Bia Machado em 2 fevereiro 2009 às 15:31
Caro Augusto,

Gostei muito da sua reflexão a respeito dos modelos mentais como "determinantes (ou quase) do comportamento do indivíduo". Li também a sua carta "O olho de Horus" (Carta Rede Social 178 – 04/12/08) e acho que a idéia de um software rodando na rede e toda a sua concepção a respeito podem ser extremamente úteis no meu trabalho e na minha pesquisa teórica, fiquei empolgada com as possibilidades. Gostaria, então, de acrescentar alguns pontos à sua reflexão.

Minha idéia é propor uma concepção de modelos mentais diferente desta que você, indo ao cerne da questão, critica. Acho que podemos pensá-los de um modo que, acredito, está em sinergia com o que você diz e é com prazer que aproveito a oportunidade para bater essa bola com você e com o pessoal da rede.

A idéia de que os modelos mentais são determinantes do comportamento é que me parece ser o problema. Muitas consultorias empresariais, na busca de agradar o cliente e prometer o impossível, fazem esse uso simplificador dessa estrutura operativa.

A procura de uma causalidade eficiente, isto é, de determinar o que determina algo, é uma busca ideológica, própria da Modernidade. O mesmo se dá – como você aponta no "O olho de Horus" – com a competitividade e o, por assim dizer, egoísmo natural postulados por Darwin. Para falar de um modo simples, na pós-modernidade, a idéia de causa-e-efeito perde seu antigo valor: já não vemos mais as coisas pontualmente, elas estão conectadas em rede e o pensamento agora é também uma rede que já não pode mais ocupar-se do determinismo pois seu foco está em outro(s) lugar(es).

A idéia de modelo mental vem justamente para tentar dar conta dessa nova concepção. A já usada metáfora da plataforma windows pode esclarecer o ponto: o windows não determina que utilizemos o word, ou o powerpoint, ele é um ambiente. Você pode usar o programa que quiser, o problema é 1) se você não sabe que tem os programas 2) se você acha que é o "word" que é "o certo" e o "excell" é "errado".

Por exemplo: consideremos os "Seis chapéus" de Edward de Bono (ver livro do mesmo nome). Ele propõe que consideremos 6 tipos de pensamento, dos quais destacarei aqui 2: o pensamento das oportunidades (chapéu amarelo) e o dos possíveis riscos (chapéu preto). Imaginemos uma reunião de gerentes responsáveis por um projeto organizacional. Um deles traz uma idéia utilizando o chapéu amarelo. Ele não sabe que o modo com que encara sua idéia foi batizado de "chapéu amarelo" por um pesquisador inglês. Ele não sabe que está traduzindo sua idéia segundo um certo jeito de traduzi-la e que haveria outros. Ele simplesmente crê que este é o jeito "certo" – honesto, franco, "pró-ativo" – de contá-la para seus colegas. Ele fala das oportunidades, de sua visão de como a idéia pode dar certo, ele está otimista. O seu colega ao lado "põe" o chapéu preto e começa a pensar quais os riscos e obstáculos possíveis, o que pode dar errado. O que vocês acham que acontece? Sob um certo ponto de vista, muita coisa. Sob outro, não acontece nada, porque a reunião não vai prá frente. Entre as muitas coisas que acontecem estão: os interlocutores não se entendem porque estão operando em registros diferentes. Cada um passa a "interpretar" o outro segundo o seu próprio registro. O "chapéu amarelo" acha que o colega não entendeu a idéia e, por isso, "está dizendo que ela é ruim" (notem, esta é uma interpretação, o seu colega não está dizendo isso, ele está fazendo aquilo que acha certo, de acordo com o registro que está utilizando no momento). Então, com boa vontade, o "chapéu amarelo" começa a repetir a idéia, com o objetivo de que o outro a entenda finalmente. O "chapéu preto" fica impaciente ao ter que escutar de novo uma coisa que já entendeu perfeitamente e acha que o cara é prolixo (outra interpretação), o prolixo, quer dizer, o outro, acha que o "chapéu preto" é um lesado, sem visão, uma típica toupeira (interpretação + jugamento rotulador). Tudo isso, claro, é pensado e não dito porque, afinal, somos pessoas objetivas e nosso foco é o negócio. Na prática, a idéia que prevalece depende de quem é o hierarquicamente superior (ou de quem sabe melhor fazer o "lobby" junto ao hierarquicamente superior); se é o "chapéu amarelo", a idéia avança e todos são levados a desconsiderar as colocações do "mala pessimista", se é o "chapéu preto", quem se dá mal é aquele "chato porra-louca". Outras coisas também "se dão mal" e a rede horizontal certamente é uma delas.

Quero ressaltar o seguinte: se essas pessoas conhecessem, por exemplo, essa "plataforma" dos 6 chapéus, poderiam facilmente identificar, no discurso do primeiro gerente, o amarelo. Rapidamente, todos na reunião passariam a usar o mesmo chapéu – que é um modo de pensar, tão bom e útil quanto qualquer outro. Em seguida, depois de esgotado esse jeito, todos passariam, por exemplo, a pensar nos riscos e obstáculos, e assim por diante até a questão ser pensada de 6 modos diferentes e, com isso, ser trabalhada em diversos níveis, garantindo, dessa forma, mais precisão, mais riqueza, mais abrangência, enfim, maior complexidade. Ninguém precisaria ficar perdendo energia e sinergia com julgamentos ocultos – "lesado, sem visão, prolixo" ou "fulano é competitivo", "ciclano quer poder", etc., etc. e etc. – que, efetiva e comprovadamente, enfraquecem, quando não destróem, as relações de confiança, produzem consideráveis obstáculos na motivação, no entendimento, na lucidez e na capacidade de troca das pessoas, comprometem as decisões, desviam do foco, entorpecem e estupidificam as equipes e levam a essas crenças de que "sem hierarquia, sem comando e sem controle nada funciona", de que "o ser humano é naturalmente competitivo, sem foco, preguiçoso" e de que "precisamos de uma consultoria para trazer mudança".

Justamente, outra questão, correlata a essa, parece-me ser a concepção de mudança vigente em certos grupos. A crença de que "é preciso mudar" baseia-se fundamentalmente numa idéia do indivíduo-bloco. Há consultorias que utilizam a técnica dos 6 Chapéus fazendo com que as pessoas busquem saber "qual é o seu chapéu", por mais absurdo e contraditório com a técnica que isso possa ser. Imaginem o estrago que pode causar a simples crença de que "fulano é um chapéu preto". A idéia vai justamente na direção contrária, a da desidentificação. De fato, o estudo dos processos identificatórios – processos de captura das pessoas pelos discursos da suspeita, do vigiar e punir, do controle vertical, etc. – pode ser bastante elucidador aqui (sobretudo se incluírmos os memes e nossa "wikipédia memética", ver a já citada Carta Rede Social 178 – 04/12/08).

As pessoas são julgadas e rotuladas na escola, no trabalho, na família e acham que são assim – depois, acham que têm que mudar! O gerente que estava usando o chapéu amarelo não é um chapéu amarelo, ele pode perfeitamente usar qualquer outro "chapéu", basta que ele saiba disso. Ninguém diria: fulano é word, fulano é powerpoint!

Um mestre sufi, na Turquia, disse uma vez a um grupo de visitantes: "as pessoas no ocidente são engraçadas, elas dizem: 'eu sinto muito mas eu sou assim'; quando, na verdade, elas nem sentem muito e nem são assim."

A idéia de modelo mental introduz a noção do indivíduo-rede. Nós não somos uma coisa, pronta, fechada, definida, que precisa mudar com um grande esforço, que precisa ser outra coisa. Como disse F.M. Alexander, o grande pesquisador e formulador da técnica de "terapia" corporal batizada com o seu nome: "o corpo não é uma massa, é um conjunto de direções". Nós somos muito mais móveis do que pensamos.

Olhando desse jeito, a questão ganha outro foco: trata-se de pensar radicalmente em rede. O indivíduo-rede pode aprender a pensar-se como tal. Ele pode descobrir as inúmeras estruturas-redes que suportam seus comportamentos e transitar por elas. As implicações, sobretudo éticas, dessa concepção são, a meu ver, fascinantes. Eis uma discussão que gostaria de colocar em pauta.

abraço a todos
bia

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