Escola de Redes

Modelos de agremiações políticas do ponto de vista da rede social e não-modelos

Busca-se nesse breve texto identificar padrões de organização em grupos políticos do ponto de vista da rede social, passando pelo modelo centralizado da agremiação jacobina na Revolução Francesa, pela forma descentralizada surgida com o telégrafo e pelo ambiente distribuído que foi potencializado com o advento da internet.

Um modelo político centralizador

“Os Jacobinos não são a Revolução, mas o olho da Revolução, o olho para vigiar, a voz para acusar, o braço para golpear” – disse um membro desse grupo no filme “Danton – O Processo da Revolução (1982)”

Após o processo revolucionário francês de 1789, os jacobinos, que passaram a ter Robespierri  como figura central no embate político, inaugurou o processo centralizado de agremiação política moderna, malgrado o absolutismo já ter demonstrado o rei com atribuições de poder centralizadíssimas. Marat dizia que (...) "É pela violência que se deve estabelecer a liberdade; o momento requer a organização do despotismo da liberdade para esmagar o despotismo dos reis." Marat. - O amigo do povo, 1793” (...).

O grupo formado pelo líder Robespierri, os montanheses, empalmando o poderio e autocratizando o processo revolucionário, instauraram o “Ano do Terror”, revelando os esbirros daqueles que ocupam a centralidade de uma rede de pessoas já verticalizada, isto é, organizada de cima para baixo, com ordens sempre vindas de cima para baixo, tendo muitos agentes cumprindo essas ordens de maneira eficiente e como princípio de legalidade, de que essas ordenações emanam de uma autoridade legítima.

O fanatismo patriótico e a unanimidade jacobina

Reuni de um site elementos relacionados ao fanatismo patriótico e a unanimidade jacobina, que ora transcrevemos. O fanatismo patriótico é como uma resposta a uma rede de pessoas verticalizada. Assim, a virtude pública era amar a pátria acima de qualquer coisa. Em artigo no site (*1) é descrito a forma como o grupo jacobino alçou o poder e como seus membros tinham esse sentimento patriótico:  (...) “Segundo Michelet, «esta terceira legião, convocada de certa forma em nome da igualdade, diferia bastante das outras duas. Para começar, era mais jovem. Depois, a grande maioria compunha-se de homens de condição pouco letrada, como o carpinteiro Duplay. Estes bravos, bastante entusiasmados, eram geralmente honestos e desinteressados. Profundamente fanáticos com relação à salvação da pátria, confessando sua ignorância, careciam de um diretor. Fazia-lhes falta um homem honesto, bastante seguro e sólido, que os representasse; colocaram suas consciências nas mãos de Robespierre. (...) O fanatismo sincero, tão pouco esclarecido de uns, a violência verdadeira ou simulada de outros, a concorrência de fúria que havia entre eles, cada qual querendo superar o outro em cólera patriótica, tornava a sociedade (tão aparentemente disciplinada) muito difícil de manipular. Ela saía constantemente da medida que comportava o momento. »(...)

A unanimidade jacobina

No artigo já citado (*1), “(...) Michelet viu-os [jacobinos] como uma oligarquia de militantes que se pôs no lugar do povo, falando e agindo na suposição de que o povo faria o mesmo se assim pudesse. Essa oligarquia, por sua volta, estava ela mesmo sujeita às solicitações do aparelho, dos seus líderes e dos profissionais da política. Além dessa vocação "substitutiva" (sempre se achando "o povo", o que também marcou os bolcheviques russos de 1917), os jacobinos eram obcecados pela unanimidade. A qual devia ser alcançada a qualquer preço, o que inevitavelmente provocou a "enfermidade da suspeita", fartamente alimentada pela cultura da denúncia e da delação, fazendo com que se envolvessem num redemoinho de escrutínios expurgatórios. (...)”.

O Chefe, o Messias, o Iluminado

É esse padrão de organização, centralizado no chefe, com poder gravitacional sobre qualquer outro elemento político, que alguns líderes partidários populistas se apresentam na atualidade. Geralmente, esse líder, busca sufocar lideranças, militam pelo déficit de liderança e são adeptos do estatismo. Aqui, se houver uma liderança, será aquela que tenha absorvido todo o dogma do partido e o aceitado isso como verdade irretorquível.

Para J.P Lebret (*2) “(...) O chefe é aquele que recebeu, ou se encarregou de um setor da humanidade e do universo para orientá-lo de conformidade com o plano de Deus. São palavras de Bossuet: “A realeza é um poder universal de fazer o bem”. Quanto mais autoridade tivermos, mais dela nos aproximamos.(...)”

Afirma ainda o Padre Lebret que (...) “Disciplina intelectual, inteligente e ativa”, dizia Foch, isso quer dizer que cada um deve procurar compreender a situação e a posição do Chefe diante dessa situação; que cada um deve procurar os meios de realizar o pensamento do Chefe, e que cada um efetivamente o realize. Obedecer é completar o Chefe. (...)”

Para Augusto de Franco, em “Fluzz: vida humana e convivência social nos novos mundos altamente conectados do terceiro milênio (2011)”, “(...) A liderança considerada por essas justificativas não é aquela que emerge espontaneamente na rede, quando alguém toma uma iniciativa que é seguida por outros, em circunstâncias sempre temporárias, mas a “liderança” que se quer permanente de alguém que, tendo liderado algum dia, tenta congelar a configuração que permitiu essa eventualidade para enxertá-la continuamente no presente de sorte a poder liderar para sempre, em todas as circunstâncias. Isto é: monoliderança, na verdade o contrário da liderança, a qual, como fenômeno emergente, é sempre multiliderança (possibilidade, aberta a qualquer um, de liderar em determinadas circunstâncias fortuitas).      

A liderança é fluzz, ela flui como um rio. Os líderes que se sucedem, aparecem, desaparecem e reaparecem como “remoinhos num rio de água sempre a correr” (para usar a bela imagem de  Wiener). A monoliderança – na verdade uma justificativa para a centralização e para a chefia – é sempre uma tentativa de represar o curso. (...)”.  

A descentralização: dos “partidos-clube” aos “partidos de massas”

Com a invenção do telégrafo as comunicações começaram a descentralizar, dando um norte de organização descentralizado aos movimentos políticos de grupos. A II Internacional adota um modelo descentralizado, não-nacional. Os bolcheviques acreditavam na centralização ao estilo jacobino entendo a distribuição como uma cisão e não como forma de se agremiar fortuitamente a outros grupos de pessoas.

“(...) Pode-se dizer que a social-democracia original e seu modelo, o SPD, são filhos daquela visão “descentralizada” (não distribuída) do mundo, desde a sua organização territorial até sua concepção do Estado. O caso do socialismo francês é anedoticamente eloquente, já que sua história está ligada, não a Paris, mas a uma pequena cidade provinciana, Clermont Ferrand, centro da estrutura ferroviária e telegráfica francesa (...)” – David de Ugarte em “O Poder das Redes”.

Na organização descentralizada desse poder político haverá muitos centros controladores. Será multicentralizado. Ainda que não haja no grupo um poderio concentrado em um cargo somente, a conectividade entre os membros ainda não está em sua maior potência.

Rola também uma estrutura quem tem um órgão acima dos multicentros, um diretório que daria as ordens e a linha ideológica a toda a estrutura. Aí que para o J.P. Lebret (...) “Na alta direção devem existir muitos responsáveis. Temo o “Diretor” único, quando se trata de obras que vão além da possibilidade de um só homem. É preciso que muitos de igual inteligência se unam à obra comum, para juntos abrangerem todo o horizonte, e resolverem as aposições pela submissão ao objeto, e pela afeição mútua. O coração representa aqui um grande papel.”

A distribuição: das massas arrebanhadas para as multidões consteladas ou “ciberturbas”.

O poder não reside mais em estruturas de agremiações políticas, mas nas pessoas, que com a rede distribuída, podem compartilhar idéias livremente. A tecnologia da internet possibilitou essa potencialidade humana de comunicar um interesse ao outro. A blogosfera é um dos ambientes em que o campo de poder está a todo o momento sendo trabalhado pelas próprias pessoas, sem qualquer ligação com grupos partidários. Daí a atual crise de representatividade política. Até mesmo porque “os nossos sonhos não cabem nas vossas urnas”, como disse um dos gritos de protesto dos Indignados na Espanha. Manuel Castells cita que os movimentos da era da sociedade em rede "ao se juntar a uma área ocupada e ao desafiar as normas burocráticas sobre o uso do espaço, outros cidadãos podem participar do movimento sem aderir a nenhuma ideologia ou organização, apenas estando lá por suas próprias razões" (no livro Redes de Indignação e Esperança).

David de Ugarte citando Arquilla e Rosfeld em Swarming and The Future of Conflict em seu livro “O Poder das Redes”) (*3) transcreve que “(...) A revolução informacional está mudando a forma pela qual as pessoas lutam ao longo de todo o espectro do conflito e o estão fazendo, fundamentalmente, mediante a melhoria da potencia e da capacidade de ação de pequenas unidades, favorecendo a emergência de formas reticulares de organização, doutrina e estratégia que tornam cada vez mais difícil a vida das grandes e hierárquicas formas tradicionais de organização. A tecnologia importa, sim, porém subordinada á forma organizacional que se adota ou desenvolve. Hoje a forma emergente de organização é a rede (...)” .

Num ambiente politico distribuído não há ordens que emanam de uma autoridade consciente e central. Não há ímpetos organizativos. O que há é auto-organização. Tudo ocorre dentro do próprio processo de encontros das pessoas, numa “ciberturba”, termo usado por David de Ugarte que a descreveu como “(...) A culminância na mobilização de rua de um processo de discussão social, levado a cabo por meios eletrônicos de comunicação e publicações pessoais, na qual deixa de existir a divisão entre ciberativistas e mobilizados. (...)”.

O espaço da rede social não é o Estado Nação, uma ilusão criada militarmente para dividir e fazer muros. O local da rede será na aglutinação das pessoas que se encontram e se conectam diretamente, sem uma estrutura que filtra tais comunicações. Não tem mediações. O contato é direto e de um para um, se espalhando ruidosamente, em formas de micro tendências.

É num ambiente assim, muito semelhante de manifestações pacíficas que ocorreram em  junho de 2013 no Brasil, que surgem comportamentos baseados em relações mais distribuídas do que centralizadas e não é só, é isso tudo acontecendo no espaço do tempo dos fluxos muito rapidamente.

Nesse campo de manifestação política “o swarming é a forma do conflito na sociedade rede, a forma na qual o poder é controlado no novo mundo e, no seu devido tempo, a forma em que o novo mundo alcança a sua tradução do virtual ao material.” – David de Ugarte.

Na rede social distribuída os manifestantes não estão preocupados em servir Partidos, muito menos procurando alinhamento à uma ideologia. Não estão praticando uma democracia popular participativa, na onde se cria lideranças e cargos para tão somente se prorrogarem indefinidamente nas assembleias, desvirtuando todo um processo de democratização. É algo mais interativo e pazeante.

Assim, no ambiente político distribuído, será a revolução será a paz e não a guerra criada por grupos descentralizados. A Paz, no sentido que fala Augusto de Franco “não é não-violência e sim não-guerra. Paz não é ausência de conflito e sim ausência do modo guerreiro de regulação de conflitos (baseado na eliminação do polo considerado conflitante). Paz é desobediência civil e política aos modos guerreiros: seja à guerra quente, seja à guerra fria, seja à política praticada como continuação da guerra por outros meios (tudo é guerra, pois a guerra não é o confronto e sim a preparação para o confronto, a construção e manutenção de inimigos como pretexto para organizar cosmos sociais segundo padrões hierárquicos e regidos por modos autocráticos, quer dizer, guerreiros).” (*4).

Não-organização das formas políticas

Para fechar este breve texto, transcrevo essa reflexão-pergunta de David de Ugarte: “(...) Então, as redes distribuídas não têm formas políticas de organização? Não, o que ocorre é que estamos tão acostumados a viver em redes de poder descentralizadas, que confundimos a organização da representação com a organização da ação coletiva. A perversão da descentralização chegou a tal ponto que “democracia” transformou-se em sinônimo de eleição de representantes, isto é, de nodos filtro. (...)”

Fontes citadas do mundo virtual:

 (*1): http://educaterra.terra.com.br/voltaire/mundo/jacobinos2.htm

(*2): http://www.ebah.com.br/content/ABAAAgGhQAB/principios-acao?part=2

(*3) https://books.google.com.br/books?id=dt1Hu5-Cj5gC&pg=PA38&l...

(*4) Só a Paz é Revolucionária:

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=897843243581208&set=pb....

Exibições: 184

Comentar

Você precisa ser um membro de Escola de Redes para adicionar comentários!

Entrar em Escola de Redes

© 2018   Criado por Augusto de Franco.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço