Escola de Redes

Uma conversação rolando lá no Facebook, me fez lembrar de um tópico de Fluzz (2011), intitulado “Miríades de aldeias globais”, que transcrevo abaixo. É sobre o conceito de unificação, isto é, sobre a emergência de um “organismo universal” ou de que, de algum modo, “todos somos (ou seremos) um”, que herdamos da segunda metade do século passado. Segue o tópico.

 

Tom Wolfe (2003), na introdução da coletânea de palestras e entrevistas de Marshall McLuhan, publicadas postumamente no volume intitulado Undestanding me, escreveu sobre a euforia, que “beirava o espiritual”, dos visionários do ciberespaço no Vale do Silício dos anos 90: “eles diziam a todo mundo no Vale que o que estavam fazendo era muito mais do que desenvolver computadores e criar um novo meio de comunicação maravilhoso, a Internet. Muito mais. A Força estava com eles. Estavam tecendo sobre a Terra uma rede inconsútil que tornaria insignificantes todas as fronteiras nacionais e divisões raciais, transformando literalmente a natureza da besta humana”. Esses visionários foram inspirados, segundo Wolfe, “por um literato canadense que morreu quinze anos antes que a Internet viesse a existir. Seu nome, desconhecido fora do Canadá até a publicação do livro Para entender os meios de comunicação, em 1964, era Marshall McLuhan” (1).

 

McLuhan ficou famoso pela previsão de que “o mundo estava se tornando rapidamente uma ‘aldeia global’ como resultado da difusão da rede inconsútil da televisão por toda a Terra” (2). No entanto, Wolfe teve argúcia suficiente para perceber que havia uma visão espiritual de futuro por trás das suas predições. A nova era anunciada – na qual todos estariam, segundo o próprio McLuhan, “irrevogavelmente envolvidos uns com os outros e seriam responsáveis uns pelos outros” – era algo mais sublime do que uma simples utopia secular. Segundo McLuhan, “o conceito cristão de corpo místico, de todos os homens como membros do corpo de Cristo – isto se torna tecnologicamente um fato sob as condições eletrônicas” (3).

 

Wolfe identifica aí a influência decisiva de Teilhard de Chardin sobre McLuhan. Embora tenha falecido em 1955, antes mesmo da difusão da televisão por todo mundo e quando os computadores ainda eram paquidermes enjaulados em grandes centros de pesquisas e mega-empresas, Chardin (1955) percebeu que a tecnologia estava criando um “sistema nervoso para a humanidade, uma membrana única, organizada, inteiriça sobre a Terra”, uma “estupenda máquina pensante” (4). Teilhard de Chardin escreveu que “a era da civilização terminou e a da civilização unificada está começando” (5) Essa membrana inteiriça (que Chardin chamava de noosfera) – conclui Tom Wolfe – era, naturalmente, a ‘rede inconsútil’ de McLuhan. E essa ‘civilização unificada’ era a sua ‘aldeia global’.

 

Interessantíssima a sacada da membrana envolvendo a Terra (mais pelo paralelo com uma membrana). Recentemente Don Tapscott (2006) encarou a Internet como uma pele que cobre o planeta (6). Mas há um problema com a idéia de que essa membrana seria “inteiriça”. Sim, todo problema foi a idéia de alguma coisa “unificada” – termo que Chardin não só afirmou como quis enfatizar. A unificação – se é que a palavra seria adequada – não é unitária, porém fractal. Pois o mundo não virou, não está virando, nem vai virar uma aldeia global, mas miríades de aldeias globais.

 

A emergência da sociedade-rede vem acompanhada de um processo de globalização do local e, simultaneamente, de localização do global. O futuro mundo das redes distribuídas – se vier – não será, como previa McLuhan, uma aldeia global, senão miríades de aldeias globais. A aldeia global midiática (e “molar”), de Marshall McLuhan, sugere o mundo virando um local. A sociedade-rede (“molecular”) – percebida por Levy, Guéhenno, Castells e vários outros — sugere cada local virando o mundo, fractalmente. Não o local separado, por certo, mas o local conectado que tende a virar o mundo todo, desde que a conexão local-global passou a ser uma possibilidade (7).

 

Em outras palavras: o mundo das redes distribuídas não vem como um mundo único. Não é que haja uma rede (ou várias redes) cobrindo o mundo. É que mundos são redes.

 

A idéia de um mundo único – ao contrário do que vaticinaram à farta os prosélitos da Nova Era e continuam propagando militantes ambientalistas e espiritualistas – é regressiva. Para que haja um mundo único em termos sociais é necessário centralizar a rede (mantendo instâncias centralizadas de difusão um-para-muitos). Para que haja um mundo único em termos políticos também é necessário centralizar a rede (construindo monstruosidades como um Estado planetário ou um governo mundial). Para que haja um mundo único em termos de consciência unificada (noosféricos como queria Chardin), seria preciso admitir a existência de algum ente sobrehumano, seja um deus ou uma consciência coletiva (que fosse capaz de ser consciente de si mesma e, neste caso, não seria humana).

 

Um superorganismo coletivo está nascendo, sim, mas trata-se de um superorganismo humano – um simbionte social –, não de um organismo superhumano. Sua inteligência se compõe por emergência, a partir da interação e não pode ser instalada em qualquer mainframe. É uma inteligência tipicamente humana e não extra-humana, de um deus, de um alienígena, de uma máquina ou da Matrix. Se esse superorganismo for capaz de algo como uma consciência, também se tratará de uma consciência humana composta por emergência e não de uma superconsciência, de um olho que tudo vê e se vê ou sabe que está vendo. Nem o velho deus hebraico (segundo a interpretação mais arguta do esoterismo judaico) possuía tal consciência, de vez que foi levado a criar o mundo para poder se ver no espelho da sua criação.

 

O modelo é autoregulacional. Assim como não há uma instância centralizada de regulação da biosfera, assim também não pode haver uma instância centralizada de regulação de uma sociosfera, até porque não pode existir apenas uma sociosfera. As conexões P2P (quando o “P” significa “pessoa”) que compõem as sociosferas não centralizam; pelo contrário, distribuem.

 

Os visionários do ciberespaço, herdeiros do sonho mcluhiano da aldeia global (segundo Tom Wolfe), acreditando que a Força estava com eles, usaram-na para construir seus mainframes: seus programas e produtos proprietários, suas caixas-pretas para trancar – esconder dos outros em vez de compartilhar – os algoritmos que inventavam, seus bunkers organizativos e suas fortunas pessoais.

 

Todavia, há uma diferença entre o que fizeram Vinton Cerf e Robert Kahn (1975) com o Protocolo TCP/IP, Tim Berners-Lee e Robert Cailliau (1990) com a World Wide Web, Linus Torvalds (1991) e a multidão com o Linux e Rob McColl (1995) e a multidão com o Apache, e o que fizeram Bill Gates e Paul Allen com a Microsoft (1975) e o Windows (1985), Steve Jobs e Steve Wozniak com a Apple (1976) e o Mac OS (1984), Larry Page e Sergey Brin (e Eric Shmidt) (1998) com o Google, Mark Zuckerberg e Dustin Moskovitz (2004) com o Facebook e Evan Willians e Biz Stone (e Jack Dorsey) (2006) com o Twitter. Estamos verificando agora em que medida eles estavam no contra-fluzz ou com-fluzz, o curso que não pode ser aprisionado por qualquer mainframe.

 

Notas

(1) WOLFE, Tom (2003). “Introdução” in McLUHAN, Stephanie & STAINES, David (2003): McLuhan por McLuhan (Understandig me). Rio de Janeiro: Ediouro, 2005.

(2) MCLUHAN, Marshall apud WOLFE: Ed. cit.

(3) Idem.

(4) CHARDIN, Teilhard (1955). O fenômeno humano. São Paulo: Cultrix, 1989.

(5) CHARDIN: Op. cit.

(6) TAPSCOTT, Don e WILLIAMS, Anthony (2006). Wikinomics: como a colaboração pode mudar o seu negócio. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007.

(7) FRANCO, Augusto (2003). A revolução do local: globalização, glocalização, localização. Brasília/São Paulo: AED/Cultura, 2003.

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Comentário de Vivianne Amaral em 16 fevereiro 2012 às 15:37

lembrou um proverbio africano: em muitos lugares pequenos, grupos pequenos de pessoas, fazendo coisas pequenas, mudarão para melhor a face do mundo.

abraços

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