Escola de Redes

O clima no Jardim Botânico era de conspiração quando me aproximei do Bruno , Fernando, Iuri, Chico Lins e outros netweavers do Portal do Voluntário no verão de 2004. Só se falava “na rede”. O Bruno (Ayres) fechava sua dissertação de mestrado onde defendia que se é possível conectar computadores para trocarem arquivos num esquema P2P, sem a intermediação de um servidor central, porque não conectar voluntários com voluntários sem necessariamente intermediação institucional? Afinal, dizia, a percepção de voluntário atrelado a uma instituição, pelo menos no contexto brasileiro, é um dos pontos principais de estrangulamento entre voluntário e oportunidade de ação. Meses depois, nascia o V2V volunteer-to-volunteer, uma rede de voluntários que se conectam entre si de forma distribuída (sem necessariamente contar com intermediação institucional). A rede se multiplicou como um vírus, foi adotada como plataforma para voluntariado corporativo em várias empresas e desbravou para novos países.

Esta experiência foi pra mim um tipping point .. Na época eu estava interessado nos Coletivos (inteligentes). Depois de anos levando minha empresa de uma forma “tradicional”: escritório, reuniões presenciais.. resolvi partir para um caminho menos óbvio: trabalhar com a equipe de forma predominantemente virtual. O primeiro ensaio de atuar com o conceito de distancia foi em 99, quando passei uma temporada em San Francisco. Segui de lá com dois clientes no Brasil e através do ICQ comecei a escrever um futuro a distancia. Depois de alguns anos em Brasília, bateu aquela pergunta do ratinho (quem mexeu no meu queijo) “o que vc faria se não tivesse medo?”. Eu respondi: mudaria pra praia e seguiria com meu trabalho normalmente. Criei uma plataforma de trabalho a distancia (Maestro) e fui de mala e cuia pra Floripa - por um ano :| - me rendeu, dentre outras coisas, clientes a menos, um curso de Cosmologia, outro de Reiki Xamânico e o gosto pela estrada. Mudei o sobrenome da Planner, minha empresa, de ‘marketing de relacionamento’ para ‘mobilidade’ e assumi de vez uma vida nômade. Criei o nomade.blog.br e ultimamente me encontro mais na parte prática de viver em movimento do que de alimentar o blog.. mas acho que ainda vai dar jogo :-}

Li Pierre Levy começando por ‘A Conexão Planetária’ e depois encontrei um texto do André Gorz na Trópico. Na sequência li ‘Misérias do Presente, Riqueza do Possível’ e ‘O Imaterial: conhecimento, valor e capital’ (Annablume). O texto sobre o fim do trabalho assalariado em que ele propõe em tom de manifesto uma reapropriação da vida no jargão “do pleno emprego para a vida plena” me nocauteou. Emancipação do indivíduo e rede tem tudo a ver! Foi natural encampar o discurso e a prática (não sem riscos) de que trabalho e trabalhador não são duas entidades separadas. Já tinha lido ‘A Teia da Vida’ (Capra) e visto o filme ‘O Ponto de Mutação’ e era impossível não enxergar o padrão de rede em tudo que olhava.

Descobri que amador é quem faz por (((amor))) e não necessariamente o anti-profissional. Fiz até um encontro em Goiânia pra discutir o tema. Aliás vejo um ótimo link entre o conceito de amadorismo e o de autodidatismo. Escrevi um artigo sobre Coletivos Inteligentes e outro com o Bruno sobre Voluntariado em Rede.

Estive quatro vezes no GIFE, acompanhando o Bruno no curso ferramentas de gestão. Eu vinha de dez anos de trabalho com CRM (gestão de relacionamentos com clientes) onde a perspectiva era de centralização (organização falando com público) e não pessoas falando com pessoas, o que pra mim se apresentava como um novo desafio. Como pensar em ‘gestão’ de relacionamentos numa rede, em que as pessoas se relacionam entre si? Gladwell (O ponto de desequilíbrio), Steven Johnson (Emergência, a dinâmica de rede em formigas, cérebros, cidades e sotwares) e Barabasi (Linked: How Everything Is Connected to Everything Else and What It Means) apoiaram os novos argumentos, mas os dois volumes de Escola de Redes: ‘Novas Visões’ e ‘Tudo que é sustentável tem o padrão de rede’ deram uma nova dimensão sobre o assunto. Fiquei especialmente interessado em investigar os fenômenos aglomeramento, enxameamento e ‘redução do tamanho (social) do mundo’ utilizando SNA (Social Network Analysis) no MOOV, meu principal projeto atualmente.

Tenho interagido nos últimos anos com a equipe do Somosmas, em Bogotá, onde estive duas vezes e onde mantenho uma frutífera cooperação técnica no tema Redes Sociais. Trabalhamos juntos no projeto Destapa Futuro, que transformou um concurso de empreendedorismo em um contexto, onde empreendedores se conhecem e se interconectam de forma distribuída a partir de afinidades. Em Bogotá participei ainda como conferencista em dois encontros sobre Redes Sociais e fiquei muito impressionado em como o tema está avançado por lá.

Participei de um curso no IPPUR que tinha como um dos objetivos debater de que formas as redes técno-sociais podem ser uma alternativa, que redefine as relações entre Estado e Sociedade. Conheci então o trabalho da Professora Tamara Egler organizadora do encontro e li seu livro Ciberpólis – Redes no governo da cidade (7letras) e do Professor Camilo Penna (ainda procuro o link de dois artigos sobre SNA que ele escreveu).

Participei de vários encontros de arte e musica eletrônica onde o sagrado e o lírico se misturavam e foi neles que experimentei na pele fenômenos como emergência e autoorganização. Li TAZ Zona Autônoma Temporária (super-recomendo!) na época do Goiastexas, um encontro de gastronomia (tudo a base de mandioca), musica eletrônica e artes plásticas em Santa Teresa que organizei com amigos e que depois virou blog (goiastexas.blog.br),. As manifestações se multiplicaram em outros encontros e blogs .. e pelo menos pra mim ficou provado que real e virtual não se dicotomizam e senti o poder da rede ao reunir pessoas por afinidade reconfigurando o sentido de pertencimento.

Meu envolvimento com a Escola de Redes começou com um convite do Augusto para o encontro com David de Ugarte em Campos do Jordão. Reencontrei com Ugarte em Madrid numa animada conversa no bar em frente às Índias Eletrônicas. Li ‘o poder das redes’ e quando comentei com ele meu interesse sobre nomadismo, ele me deu o PDF do seu novo livro ‘De las naciones a las redes’, na época ainda inacabado e para minha surpresa o capitulo de nomadismo estava em branco, prontinho para ser escrito. Interessante que a abundância da rede se manifesta até no silencio da página em branco.

Acompanho há um bom tempo as Cartas Redes Sociais (antes Cartas Capital Social e Cartas DLIS) e a série Aminoácidos. Noutro dia revisando o número 3 de 2002 achei um debate ótimo entre o Cássio, Augusto, Cláudia e Dolabela (que conheci na época do projeto Gênesis) já com os fundamentos do que estamos falando agora. A AED foi uma escola, pois foi lá que uma nova perspectiva se abriu a partir do Terceiro Setor, território que eu gravitaria nos anos seguintes. Foi lá também que conheci alem do Augusto, o Mário Salimon, Bia Simonassi e Cláudia Amaral, pessoas que tem feito diferença na minha carreira.

Bem.. a idéia aqui era fazer uma apresentação-histórico com um itinerário de leitura. Parafraseando Augusto na apresentação do livro do Ugarde, “por amor à brevidade” paro aqui – mas continuo vestido com os ‘óculos de ver rede’. \o_

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Comentário de Carlos Boyle em 3 março 2009 às 6:42
Bem-vindo Fabiano, tengo un itinerario parecido al tuyo, me interesa el tema del voluntariado y eso del V2V, Aquí en la Argentina el gobierno de el socialista Binner de mi provincia, está tratando de armar una red de voluntariado. Me interesaría poderlos conectar

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