Escola de Redes

Ontem à noite, 23/2, fui assistir ao Carnaval de rua de Catanduva.
Preciso abrir um parêntesis aqui para que percebam o meu ângulo como espectadora. No ano passado, resolvi deixar minha vida de urbanoide moradora de São Paulo e trocar pela placidez do interior. Minha busca era por qualidade de vida e relações mais próximas, sem os percalços que a metrópole naturalmente impõe. Fecho parêntesis.
O interessante no evento de ontem é que o que vi foi um pastiche do que é apresentado na "cidade grande": escolas de samba com carros alegóricos, semi-nudez, plumas e uma distância intransponível daquilo que um dia se chamou manifestação popular.
Havia uma divisão clara entre público e platéia e a participação e a alegria de ambos quase inexistente.
Convém dizer que o Carnaval de rua de Catanduva é organizado pelo poder público.
Confesso que fui em busca de uma bandinha que tocasse marchinhas e fosse seguida por uma multidão embreagada pelo ritmo, pela alegria e pelo lança perfume. Não havia nada disso. Não há.
Não há carnavalização na acepção usada por Bakhtin em "A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento...". Não há a dualidade entre aquilo que é oficial e aquilo que emana naturalmente do povo (compreenda essa palavra com a vastidão que o termo pressupõe e que, portanto, a torna muito includente).
A origem do carnaval está ligada diretamente a uma necessidade de catarse popular, é a grande festa anti-católica, em que uma turba de descontentes sai às ruas para manifestar sua insatisfação por meio de uma arma poderosa: o riso.
Mas onde está a turba? Não consegui vê-la sequer por um segundo. Não vi pessoas se abraçando, cantando e rindo, jogando-se mutuamente confete e serpentina. Até o elemento de torpor era a cerveja patrocinadora do evento.
Quando foi que as manifestações populares deixaram de ser... populares? Em que momento deixamos de agir como multidão?
Há quem se incomode e diga que nossa grande conquista foi deixar de pensar como massa e passar a pensar e agir como indivíduos. Muito bem, somos todos indivíduos, vivendo em nossas embalagens únicas e feitas a vácuo. Acabaram-se as relações.
Outro dia ouvi alguém dizer que a "rede" é o futuro, o que acho bastante equivocado, porque a rede é o passado. Estamos aqui nesta "escola de redes" tentando intelectualmente encontrar um meio de retornarmos ao passado, a uma organização que já existiu, porque, nos primórdios de nossa história, éramos rede. Ninguém ia a caça sozinho simplesmente porque era ineficiente e perigoso. Procuramos uma relação horizontal, mas nos incomodamos com palavras como povo, multidão, massa, turba, bando e uma outra série de coletivos. Tudo isso porque somos indivíduos.
Voltando à manifestação de rua de ontem...
No teatro distinguimos o espetáculo de rua e o espetáculo na rua. Tenho que dizer que o primeiro tem sido cada vez mais raro.
A diferenciação de conceitos vem da idéia de que o espetáculo de rua tem sua origem ligada aos acontecimentos do entorno, ou seja, o artista está na rua, munido de sua máscara e reagindo ao que acontece. A máscara, ao contrário do que normalmente se compreende, é um meio de revelação de características dominantes, é, de uma maneira bem simplista, um princípio que conduz a composição de um personagem. E o artista pode ser qualquer um.
Por outro lado, há o espetáculo na rua, que é feito de forma impositiva, ou seja, um conjunto de artistas, finaliza sua obra e a "coloca" em um ponto qualquer para ser vista pelos transeuntes. Não importando se eles fazem ou não parte do contexto.
Lembro-me de uma musiquinha bastante cantada do final dos anos 80 pelo Milton: "todo artista tem que ir aonde o povo está...", ou seja, o cara não faz parte do povo, mas tem que ir lá para "iluminar" os coitados que podem ter uma produção cultural infinitamente superior a dele, mas como ele é o artista institucionalizado, e ele tem o poder de ditar aquilo que é entendido como cultura, portanto, o que ele promove precisa ser visto pelo... povo.
Falando em poder, lembrei-me de uma outra obra, que julgo pertinente "A microfísica do poder", do Foucault, em que o autor (que ainda é subversivo, diga-se de passagem) propõe uma leitura do poder que não é pontual, não se origina do Estado, por exemplo, e emana para o povo, mas que é constituído de ações que garantam a sua circulação. Não há relações de poder, mas práticas de poder.
Muito bem, o legítimo carnaval de rua é um rito poderoso anti-establishment, porque une os indivíduos de maneira horizontal, permitem que riam juntos daquilo que os incomoda e uma vez unidos, tudo pode acontecer.
Só para lembrar:
Quanto riso, ah, quanta alegria
Mais de mil palhaços no salão
O Arlequim está chorando pelo amor da Colombina
No meio da multidão

O prefeito de Catanduva não precisa se preocupar porque tudo transcorreu bem e sem ocorrências graves.

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