Tuitei ontem:
@augustodefranco #provocação Se você tem mais de 15 mil seguidores alguma coisa está errada! O netweaving sucumbiu ao broadcasting?
É claro que isso era apenas uma provocação mesmo. O objetivo era chamar a atenção para o uso do Twitter como broadcasting. Sim, o Twitter foi pensado originalmente como instrumento de broadcasting. Foram os usuários que introduziram a interatividade. Depois os desenvolvedores foram incorporando, aqui e ali, essa dimensão. Vieram em seguida as listas (uma boa funcionalidade, mas que ainda não funciona muito bem).
O fato é que hoje o Twitter não é mais como foi pensado. Gosto de dizer que ele está a meio caminho entre uma plataforma
p-based (baseada na participação, que caracteriza as ferramentas da chamada Web 2.0) e uma plataforma
i-based (
baseada na interação, como serão provavelmente as novas ferramentas que ainda vão surgir para apoiar o netweaving).
Não, o Twitter ainda não é isso. Mas devemos reconhecer que o seu forte é a interatividade e a sua simplicidade. Sim, as ferramentas do Twitter são simples, ainda que nem sempre eficazes (por exemplo, buscas sobre um mesmo assunto feitas a partir de tags (#), perfis (@) e retweets (RT) revelam, não raro, resultados discrepantes).
Então, na minha provocação, quando dizia que deve haver alguma coisa errada com uma pessoa que tem mais de 15 mil seguidores, queria dizer 'errada' do ponto de vista do que eu acho que o Twitter deveria ser: um instrumento de netweaving (e não uma plataforma para fã-clubes, para bisbilhotar a vida de celebridades ou para cultuar personalidades de sex symbols, poderosos e ricos que ficaram famosos e vice-versa). É claro que a maioria dos que têm mais de 15 mil seguidores são pessoas ou marcas difundidas pelo broadcasting. Ninguém consegue atingir facilmente esse número apenas a partir da disseminação molecular (no sentido levyniano do termo), entre seus amigos, os amigos dos seus amigos e os amigos dos amigos dos seus amigos. Considerando apenas dois graus de separação, se uma pessoa tem relações recorrentes de primeiro grau com 150 pessoas (o máximo possível, se acreditarmos em Dunbar) e se cada uma dessas pessoas tem relações de primeiro grau com 100 pessoas, chegamos ao número 15 mil. É claro que isso não está matematicamente correto pois que muitos dos conhecidos dos conhecidos de várias pessoas são as mesmas pessoas. Mas... vá lá! O número serve para chamar a atenção para o problema.
Mas há aqui realmente um problema? E qual seria esse problema?
Sustento que há um problema do ponto de vista do Twitter como ferramenta de netweaving. E esse problema se revela também no descompasso entre o número de seguidores e o número de seguidos para pessoas e marcas que têm muitos seguidores. Tentei fazer uma segunda provocação, estabelecendo um número (ou um intervalo) razoável para a razão seguidores/seguidos, mas minha especulação não resultou razoável.
Porque tudo isso depende de muitas variáveis: o tempo de Twitter, o número de tweets, a sua freqüência ou regularidade e, é claro, a sua qualidade (aliás, sobre as duas últimas variáveis já se escreveu bastante: não faltam manuais com recomendações para alguém ser muito seguido ou retuitado).
Assim, não se pode comparar alguém que está no Twitter desde 2007 com alguém que entrou somente em 2010. Quem está há mais tempo tende (inercialmente) a ter mais seguidores, mesmo que não se esforce muito, do que quem entrou bem depois.
Isso não vale, é claro, para os famosos (para os quais o Twitter, diga-se o que se quiser dizer, foi originalmente pensado). Artistas de cinema, desportistas, apresentadores de TV, escritores de best sellers, líderes políticos e religiosos e outras VIPs que já eram ou ficaram massivamente conhecidas via broadcasting, atingem rapidamente milhares, dezenas de milhares, centenas de milhares, milhões de followers. O tal de
@aplusk tem 4.875.795 seguidores;
@britneyspears, quase a mesma coisa;
@TheEllenShow, 4,5 milhões; a impagável
@ladygaga, 3,9 milhões (empatando com
@BarackObama); em seguida vem a
@Oprah (com 3,5 milhões); todos na frente do próprio
@twitter (com 3, 1 milhões).
O caso mais exemplar - e caricatural - de uso do Twitter como broadcasting, instrumental a não mais poder, é o do presidente da Venezuela, Hugo Chavez
@chavezcandanga, que começou em abril de 2010, acumulou 284 mil seguidores (seguindo 5 pessoas) e declarou que vai contratar 200 auxiliares para responder por ele os apelos, críticas e sugestões que recebe no Twitter. Mas há inumeráveis outros casos. Por exemplo, o de Tenzin Giatzo, o XIV Dalai Lama do Tibet
@dalailama que começou no Twitter em fevereiro de 2009, ficou muito tempo inativo e só tuitou 124 vezes (e é muito provável que nunca tenha sido ele realmente a tuitar, nem uma única vez), atingiu a cifra de 317 mil seguidores (e não segue nenhuma pessoa = 0).
No Brasil temos o apresentador de TV e
blogger superpremiado Marcelo Tas
@marcelotas que começou a tuitar em junho de 2007, atingindo a extraordinária cifra de 578 mil seguidores (seguindo 450 pessoas). Temos também o Paulo Coelho
@paulocoelho (que tuita em inglês e português), que começou em abril de 2007 e tem 406 mil seguidores (um caso curioso: ele parou de seguir centenas ou milhares de pessoas e começou tudo de novo seguindo hoje apenas 53 pessoas).
Pessoas que ficam super-expostas à mídia também acumulam milhares de seguidores em pouco tempo. Por exemplo, o candidato brasileiro às eleições presidenciais de 2002 e 2010, José Serra
@joseserra_ começou no Twitter em abril de 2009 (quando ainda era governador de São Paulo) e alcançou neste curto período (até 10/05/10) 227 mil seguidores (conquanto siga cerca de 5 mil pessoas). Outra candidata, Marina Silva
@silva_marina, que começou somente em janeiro de 2010, já chegou a 39 mil seguidores (seguindo apenas 123 pessoas).
Excluindo-se porém as VIPs, o número de seguidores depende também da atividade do tuiteiro: professores com muitos alunos, líderes de movimentos de massa ou ditos "sociais" e dirigentes de grandes organizações hierárquicas (incluindo centrais sindicais, sindicatos e partidos) tendem a ter mais seguidores em virtude de outros fatores (que não os estritamente ligados à freqüência ou regularidade ou à qualidade de suas mensagens). As pessoas tendem a achar que seguindo os que ocupam algum cargo ou função diretamente relacionado à sua própria atividade, ficarão mais próximas dos que "sabem mais" ou têm "mais poder" ou obterão informações importantes em primeira mão.
O professor e palestrante, especialista em Internet, Luli Radfahrer
@radfahrer que começou no Twitter em março de 2007, chegou a 11.400 followers (seguindo 199 pessoas). A professora, palestrante, escritora em Marketing Digital e New Media Artist Martha Gabriel
@marthagabriel que começou em setembro de 2008, atingiu cerca de 6 mil seguidores (seguindo 117 pessoas). Retiro esses exemplos da lista das pessoas que sigo. É claro que, no caso desses dois, junta-se à sua influência (em virtude das múltiplas atividades que exercem), a regularidade e a qualidade de seus tweets.
Quem não é VIP e não tem motivos especiais para induzir outras pessoas a seguí-lo(a), angariando followers apenas a partir do qualidade de seus tweets e da sua dedicação em publicar regularmente, acumula seguidores mais lentamente.
Por exemplo, o empreendedor e blogger Bob Wollheim
@bobwollheim, que começou no Twitter em janeiro de 2007, chegou a 2.300 seguidores (e segue 500 pessoas). No mesmo caso está a Venessa Miemis
@venessamiemis que começou a tuitar em dezembro de 2008 e já alcançou 3.400 seguidores (seguindo 928 pessoas). É claro que tudo isso depende também de uma outra variável que não foi mencionada até agora: o país. Em países com mais usuários de Twitter, é óbvio que as pessoas tendem a ter uma taxa de adesão maior. Também retirei esses exemplos da minha lista following. Eu mesmo
@augustodefranco, que só comecei em março de 2009 cheguei a 1.500 seguidores (seguindo pouco mais de 300 pessoas).
Voltemos, porém, ao uso do Twitter como plataforma de transição entre ferramentas
p-based e
i-based. Neste caso o número total de followers pouco importa. Se o Twitter está sendo usado como um instrumento de articulação e animação de redes sociais, dificilmente se conseguirá ter mais do que 15 mil seguidores, como dizia em minha primeira provocação. Na verdade, em geral, muito menos do que isso. Dificilmente teremos redes sociais (e me refiro aqui às redes voluntariamente tecidas) com um número muito grande de pessoas conectadas; ou, se tivermos, dificilmente essas redes poderão ser distribuídas (a rigor, mais distribuídas do que centralizadas). Haverá necessariamente alta clusterização (que é a única maneira de manter, pelo menos dentro de cada cluster, uma topologia mais distribuída do que centralizada). Se quisermos manter um índice máximo de distribuição-conectividade (todos-com-todos), então é improvável que consigamos manter clusters com mais de 150 pessoas (é o espectro de
Dunbar, nos perseguindo novamente). Neste caso limite, se você é seguido por 150 pessoas, deve seguir
as mesmas 150 pessoas.
Como o Twitter não é isso (uma ferramenta
i-based de netweaving), então isso que acabei de escrever no último parágrafo, a rigor, não vale. Mas é óbvio que se o número de seguidores é muito maior do que o número de seguidos, alguma coisa está errada mesmo. Há um
ab uso da ferramenta, uma deformação da sua natureza (por assim dizer), um definhamento da sua dimensão interativa e uma exacerbação da sua dimensão broadcast.
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