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Entrevista exclusiva: Andrew McAfee, do MIT e criador do conceito Enterprise 2.0

Entrevista exclusiva: Andrew McAfee, do MIT e criador do conceito Enterprise 2.0
por Roberta Prescott

29/04/2010
Especialista aborda dificuldades e desafios para promover mudanças no ambiente de trabalho, e aponta como a geração Y pode influenciar nisto



Diretor-científico de pesquisa do center for Digital Business da Sloan School of Management do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e membro do Berkman center for Internet and Society da Harvard University, Andrew McAfee criou o conceito Enterprise 2.0 em 2006. Sua ideia mostra como o surgimento de novas tecnologias de colaboração está alterando a natureza do trabalho, as fronteiras da empresa, a competição e as responsabilidades de seus líderes. McAfee foi durante dez anos professor de Tecnologia e Operações da Harvard Business School.

IT Web - Como o senhor avalia a adoção do conceito Enterprise 2.0 (Companhia 2.0)?
Andrew McAfee - Notamos que nos seis a 12 meses passados houve um ponto significativo na adoção da Enterprise 2.0. Até esse período, as empresas não tinham tão claro o que o conceito representava, não sabiam se realmente se interessavam e quais poderiam ser os benefícios. Existiam muitas perguntas sobre o fenômeno. Mas, agora, vemos que as empresas se educaram, estão interessadas e acreditam nisto. Elas querem entender como podem adotar novas tecnologias e práticas de negócios.

IT Web - Esta adoção está acontecendo apenas nos países desenvolvidos ou também nas economias emergentes?
McAfee - Nós observamos a adoção ao redor do mundo. As empresas dos Estados Unidos estão, realmente, um pouco à frente, até pelo fato de estarem onde as tecnologias são lançadas. E as companhias americanas tendem a gastar mais com TI. No entanto, tenho notado que a Enterprise 2.0 tem ficado popular na Europa e no mundo em desenvolvimento, porque o desafio que as empresas encaram são parecidos. Elas têm de gerenciar de uma forma melhor o conhecimento, acessar a expertise interna e otimizar a energia das pessoas dentro das corporações. Então, os desafios são muito consistentes. Acredito que Entreprise 2.0 já é fenômeno global.

IT Web - O senhor criou este conceito em 2006 e disse que uma maior adoção começou em 2009. Por que demorou tanto?
McAfee - Na verdade, eu acho que foi em um curto período. Várias ferramentas somente aparecem nos últimos cinco a dez anos. Normalmente, as companhias são conservadoras e gastam muito tempo analisando se vale a pena adotar novas tecnologias. Para mim, é muito interessante que estas ferramentas estão, de fato, entusiasmando as empresas e se mostrando eficientes. Eu olho este período e acho que foi no curto e não no longo prazo.

IT Web - Como as companhias vão trabalhar dentro de dez anos?
McAfee - Sempre penso que é muito perigoso prever como será daqui a dez anos, porque, se alguém tivesse dito no ano 2000 o que estaríamos vivendo agora, teria feito previsões muito diferentes do que aconteceu. Mas, ainda que difícil, digo que haverá uma grande diferença para muitas empresas: no futuro, elas vão avaliar e premiar seus funcionários, pelo menos em parte, baseado em se são bons colegas para o resto da instituição. Historicamente, as pessoas são medidas por uma especifica função, pelo trabalho que são contratadas. O interessante é que existe um portfólio de ferramentas que permitem aos empregados colaborarem, ajudarem uns aos outros, em qualquer tipo de corporação e desde qualquer localidade. Com isto, pode-se medir muito precisamente o quanto eles estão ajudando e colaborando, se são populares, quais pessoas são mais procuradas para quais assuntos. Acho que as empresas deveriam medir isto e bonificar com base nestes resultados.

IT Web - E isso integrando com as redes sociais.
McAfee - Exato. E essas ferramentas são muito úteis para verificar a popularidade das pessoas e de seus blogs ou microblogs. Podemos avaliar a autoridade de um em relação a outro. Algumas organizações vão tirar vantagens disto.

IT Web - Qual é o futuro do e-mail? De acordo com o Gartner, até 2014, as redes sociais substituirão o correio eletrônico como principal meio de comunicação em 20% das empresas em todo o mundo. O senhor acredita nisto?
McAfee - Nós precisamos de um meio para nos comunicar de forma privada. O e-mail é como fazemos isto hoje em dia. Talvez, no futuro, não teremos o mesmo tipo de infraestrutura de e-mail que temos agora ou as pessoas vão trocar menos mensagens privadas por dia. No entanto, defendo que temos de ter um meio de trocar mensagens eletrônicas privadas. O market share do e-mail vai cair, mas não acho que será zero.

IT Web - Então, o conceito - que, no passado, foi a carta, depois o e-mail - continua.
McAfee - Sim. Temos de ter uma maneira de trocar informações sem que os outros visualizem. Hoje temos ferramentas para todos os tipos de comunicação e colaboração, por isto que o market share do e-mail cairá.

IT Web - O que ganhará espaço; terá mais market share?
McAfee - O mesmo que vemos com a internet e com os jovens. Se eles querem dizer algo para várias pessoas, eles usam a página no Facebook, Twitter, blog etc.
IT Web - Como a nova geração - a Y - vai mudar o ambiente de trabalho nas companhias?
McAfee - Primeiro, é preciso esclarecer que sempre que uma nova geração entra nas empresas há uma enorme discussão sobre como esta geração vai mudar a maneira de se trabalhar. Isto ocorreu com a chegada dos baby boomers, da geração X e vai acontecer com a Y. Mas seguimos tendo as mesmas conversas sobre como estas novas pessoas vão mudar o ambiente de trabalho, porque elas têm novas atitudes, novos anseios e culturas diferentes. A pergunta é: o quanto disto realmente acontece? Eu não sei. Contudo, em um viés esta é uma conversa nova: estes jovens pensam tecnologia e usam-na de uma maneira extremamente diferente das pessoas que já estão no mercado de trabalho. Ou seja, os membros da minha geração (a X) trabalham de modo privado. Em outras palavras, preferem mandar e-mail particular. Mas, quando olhamos a maneira de atuar dos jovens, vemos que é praticamente o oposto. Eles preferem atuar publicamente, conversando com amigos, compartilhando - e tiram benefícios disto. Assim, ao ingressarem no mercado de trabalho, vão buscar ferramentas que possibilitem isto. Particularmente, acredito que a maneira deles tem mais vantagens e será boa para as companhias.

IT Web - Eles podem impulsionar a Entreprise 2.0?
McAfee - Eles forçam a adoção, sim. Mas, de novo, acho que precisamos ser cuidadosos na questão e não superestimar a importância destes jovens. Deve-se ter em mente que, quando eles chegam às companhias, são juniores, inexperientes, não tomam decisões. Não será da noite para o dia que as empresas vão mudar suas tecnologias e suas práticas para acomodar os novos membros. Não é assim que as organizações operam.

IT Web - Ainda há muitas dúvidas sobre o que as empresas ganham com as redes sociais, porque até agora parece que o ROI não ficou muito claro. Que conselhos o senhor dá?
McAfee - É uma pergunta muito importante. Nos Estados Unidos, esta questão do ROI aparece sempre. Querem saber qual é o business case, caso de negócios. A melhor resposta que tive sobre isto veio de um ex-CEO da HP, que apontou o enorme problema de uma grande empresa de não identificar o que está no cérebro de todos funcionários e de não saber o que não sabia. Isto é, existe uma enorme expertise e um conhecimento extenso nas organizações que nós não temos acesso, não sabemos quem é a pessoa certa para conversar. Quando falo sobre Enterprise 2.0, penso em ferramentas e práticas de negócio que ajudam a companhia a conhecer o que as pessoas sabem.

IT Web - Estamos falando de gestão do conhecimento.
McAfee - Sim, mas este é um termo impopular para usar nestes dias, porque muitas empresas gastaram muito dinheiro em projetos de gestão do conhecimento e de conteúdo, mas ficaram desapontados.

IT Web - Por que?
McAfee - Basicamente, porque quando instalaram os sistemas assumiram que conheciam a estrutura do conhecimento.

IT Web - Mas por que a Enterprise 2.0 funcionaria?
McAfee - A aproximação é bem diferente. Ela diz para as pessoas: não vamos falar de antemão quais são as categorias, qual é a estrutura da informação que você vai trabalhar. E, sim, você é quem vai dizer e fará isto simplesmente fazendo seu trabalho e falando sobre ele de maneira pública, como nos blogs. Assim, vai contar quais são as expertises, o que faz, em que é bom.

IT Web - Qual é o maior desafio e problemas mais recorrentes para a adoção da Enterprise 2.0?
McAfee - Há dois problemas principais. Um é sobre o uso individual nas organizações. A maioria dos trabalhadores está acostumada a trabalhar de uma maneira, privada, mandando e-mail um para outro. As pessoas precisam fazer isto, mas também migrar para o estilo Enterprise 2.0, que é mais transparente, divide informações e trabalha-se mais em conjunto, fazendo perguntas e respondendo-as publicamente. Fazer as pessoas atuarem assim é um grande desafio. O outro é deixar os diretores das companhias confortáveis com isto, pois há diversas objeções. Uma é que as pessoas vão perder tempo em vez de serem produtivas; também tem a questão da segurança, do ROI. Quando a alta cúpula olha para Enterprise 2.0 listam várias razões pelas quais não devem adotá-la, mas, na realidade, a maioria delas não é boa, porque todos os riscos são calculados e gerenciáveis, e as pessoas podem usar as ferramentas de modo produtivo.

IT Web - É preciso ensinar?
McAfee - Temos de ensinar os funcionários a usarem as ferramentas e os diretores a ficarem confortáveis com elas. Temos de ter em mente que as companhias, especialmente as grandes, são conversadoras e não vão mudar de uma hora para outra.

Leia mais - especial IT Web 10 anos:
Há dez anos, nascia o portal de notícias de tecnologia e telecomunicações IT Web. Para comemorar a data, diversas reportagens serão publicadas ao longo do mês de abril com objetivo de, mais que fazer uma retrospectiva, analisar as mudanças pelas quais o mundo e os negócios passaram, além de apontar tendências que podem trilhar a próxima década da internet. Acompanhe o especial!

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