Escola de Redes

Emergência: o caminho para dar escala às Inovações Sociais

Publicado em  no Blog do Eduardo Rombauer

Por Margaret Wheatley e Deborah Frieze – Instituto Berkana

Tradução: Eduardo Rombauer, em 15/11/2011

COMENTÁRIOS DE AUGUSTO DE FRANCO

SEGUEM ABAIXO EM VERMELHO INTERPOLADOS NO TEXTO

(Sem revisão)

Capa do artigo original

“Fenômenos emergentes sempre tem essas características: eles exercem muito mais poder do que a soma de suas partes, pois eles sempre possuem novas capacidades a partir das diferentes ações locais que os engendrou. Eles sempre surpreendem quando aparecem.”

AF 0 | O título "dar escala" já denota um equívoco quanto ao modo de disseminação em redes distribuídas. Uma inovação social não ganha escala: ela é sempre única (glocalmente falando) e desencadeia outras inovações sociais. Quem pensa em ampliar a efetividade (ganhar escala) é quem aplica programas centralizados ou quem quer replicar uma determinada experiência (às vezes denominada equivocadamente como piloto: piloto, como se sabe é um modo centralizado de pensar a fenomenologia da interação chamada cloning).

Apesar dos anúncios atuais e slogans, o mundo não muda com uma pessoa de cada vez. O mundo muda na medida em que se formam redes de relacionamentos entre as pessoas que descobrem que partilham uma causa comum e uma visão do que é possível.

AF 1 | A nova ciência das redes nos diz exatamente o contrário do que o parágrafo acima afirma: o mundo muda, sim, um instante de cada vez e com uma pessoa de cada vez. Por certo miríades de pessoas estarão sempre envolvidas, mas... uma-a-uma! Ademais não é necessário que as pessoas partilhem uma causa comum e nem uma visão comum do que é possível. As mudanças dependem das interações e o comportamento coletivo não depende do alinhamento de propósitos (causa) e visões e sim dos padrões de interação que se constelam. Todos os fenômenos da interação (como o clustering, o swarming, o cloning e o crunching, as reverberações e loopings etc.) independem do conteúdo e, mais do que isso, das características intrínsecas dos nodos (suas intenções, por exemplo). Se queremos mundos mais cooperativos a primeira coisa que devemos aprender é que a cooperação é um atributo da forma como nos organizamos: e nada mais!

Esta é uma boa notícia para aqueles de nós com a intenção de mudar o mundo e criar um futuro positivo. Ao invés de se preocupar com a massa crítica, nosso trabalho é promover conexões críticas. Nós não precisamos de convencer um grande número de pessoas a mudar, em vez disso, é preciso conectar-se com espíritos afins. Através desses relacionamentos, vamos desenvolver os novos conhecimentos, práticas, coragem e compromisso que levam à base ampla mudança.

AF 2 | Bem... mudar o mundo não é possível: só é possível mudar os mundos que constituímos em nossa convivência. Para tanto, é certo que não precisamos convencer um grande número de pessoas (aliás, as pessoas não mudam porque se convencem disso ou daquilo e sim quando adotam novos comportamentos: ideias não mudam comportamentos, só comportamentos mudam comportamentos), mas isso não significa que devemos nos conectar com "espíritos afins". Devemos, outrossim, permanecer abertos à interação com o outro, mas o outro-imprevisível e não o outro escolhido, selecionado por nós a partir do julgamento de que tem um "espírito afim". Há aqui a mesma incompreensão já revelada no parágrafo anterior.

Mas as redes não são toda a história. Na medida em que as redes crescem e se transformar em, comunidades ativas de prática de trabalho, descobrimos como a vida realmente muda, que é através das emersões. Quando separados, os esforços locais se conectam uns com os outros como redes, então se fortalecem como comunidades de prática, até que de repente – e surpreendentemente um novo sistema surge em um maior nível de escala.

AF 3 | As redes SÃO toda a história. O parágrafo acima (e também o parágrafo abaixo) diz isso, mas começa com uma frase que nega o que afirma. Comunidades ativas de prática são redes: se não, o que seriam? O novo sistema que emerge é uma rede: se não, o que seria? Parece que os autores têm certa dificuldade de entender que redes são padrões de organização, não um tipo determinado de organização. E parece que eles também não entenderam que redes não são um meio para nada, não são um instrumento para promover a mudança, outra mudança: elas já são a mudança!

Este sistema de influência possui qualidades e capacidades que eram desconhecidos nos indivíduos. Não é que eles estivessem escondidos anteriormente; eles simplesmente não existem até que o sistema emerja. Eles são as propriedades do sistema e não dos indivíduos, mas uma vez lá, os indivíduos as possuem. E o sistema que emerge sempre possui maior poder e influência do que é possível através da mudança planejada e incremental. A emersão (ou “surgimento”) é como a vida cria uma mudanças radicais e leva as coisas a uma escala mais ampla.

Desde a sua criação em 1992, O Instituto Berkana tem feito experiências com o ciclo de vida emergente: como os sistemas vivos se iniciam enquanto redes, mudam para comunidades intencionais de prática, e evoluem para sistemas capazes de influenciar globalmente. Através do nosso trabalho com comunidades em nações diversas, estamos aprendendo o que é possível quando nos conectamos pessoas através das diferenças e distâncias. Ao aplicarmos as lições de sistemas de vida e trabalhando intencionalmente com emersões e seus ciclos de vida, estamos demonstrando como a inovação social local pode ser tomadas à escala e providenciar soluções para muitas das questões mais difíceis ​​do mundo, tais como saúde da comunidade, sustentabilidade ecológica e auto-suficiência econômica.

Por que precisamos entender as redes

Pesquisadores e ativistas sociais estão começando a descobrir o poder das redes e do networking. E há um crescente reconhecimento de que as redes são a nova forma de organização. Evidência de redes auto-organizadas estão em toda parte: dos ativistas sociais e grupos de interesse formados na web aos grupos terroristas e gangues de rua. Se vemos agora estas redes em todos os lugares, não é porque eles são uma nova forma de organização. É porque nós removemos nossas cegueiras do velho paradigma que buscam mecanismos de hierarquia e controle na crença de que a organização só acontece através da vontade humana e de intervenção.

As redes são a única forma de organização deste planeta usados ​​pelos sistemas vivos. Estes resultam de redes de auto-organização, onde os indivíduos ou espécies reconhecem a sua interdependência e organizam-se de maneira a apoiar a diversidade e a viabilidade de todos. Redes criam as condições para a emergência, que é como a vida muda. Porque as redes são a primeira etapa de emergência, é essencial compreender sua dinâmica e como elas se desenvolvem em comunidades e sistemas.

AF 4 | Novamente aqui a confusão: redes não são a primeira etapa da emergência (nem a primeira etapa de nada), como se fossem um caminho para a formação de comunidades e sistemas. Redes não são tipos ou formas de organização e sim padrões de interação. Comunidades são redes. Sistemas são redes. O que é importante destacar aqui é a topologia da rede, o seu grau de distribuição (ou, inversamente, de centralização) e, consequentemente, a sua conectividade e interatividade. Redes sociais acontecem quando as pessoas interagem.

No entanto, muito do trabalho atual em redes exibe viés do velho paradigma. Na análise de redes sociais, representações físicas da rede são criadas pelo mapeamento de relações. Isto é útil para convencer as pessoas de que as redes existem, e as pessoas ficam muitas vezes fascinadas ao ver a rede visível. Outros analistas de redes nomeiam os papeis desempenhados pelos membros da rede ou fazendo distinções entre diferentes partes da rede, como centro e periferia. Pode não ser a intenção dos pesquisadores, mas seu trabalho é muitas vezes usado pelos líderes para encontrar maneiras de manipular a rede, para usá-lo de um modo tradicional e controlador.

AF 5 | Exatamente!

O que está faltando nessas análises é uma exploração da dinâmica das redes:
• Por que as redes se formam? Quais são as condições que sustentam sua criação?  • O que mantém uma rede viva e em crescimento? O que mantém os membros conectados?  • Que tipo de liderança é exigida?  • Por que as pessoas se tornam líderes?  • Que tipo de liderança interfere ou destrói a rede?  • O que acontece depois que uma rede saudável se forma? O que vem depois?  • Se entendermos essa dinâmica e ciclo de vida de emergência, o que podemos fazer como líderes, ativistas e empreendedores sociais a intencionalmente fomentar emergência?

AF 6 | O parágrafo acima estraga a boa análise contida no imediatamente anterior. Vou comentar ponto por ponto respondendo as perguntas retóricas que foram colocadas.

. Por que as redes se formam?  A pergunta é ociosa. Redes (sociais) sempre se formam quando pessoas interagem.

. Quais são as condições que sustentam sua criação?  As redes já existem (desde que existam pessoas em interação). Não são propriamente criadas como resultado da aplicação de uma diretiva organizacional. A condição para sua criação é que as pessoas interajam. Se elas interagirem livremente a rede será distribuída (ou mais distribuída do que centralizada na exata medida dos seus graus de liberdade para interagir).

. O que mantém uma rede viva e em crescimento?  A vitalidade de uma rede é sinônimo de sua interatividade. A palavra crescimento é equívoca neste contexto: só tem sentido se imaginarmos que estamos montando um tipo de organização que vai acrescentando pessoas (e engordando). Talvez fosse melhor trocar crescimento pelo conceito de desenvolvimento (que, a rigor, conota exatamente o mesmo que queremos conotar quando falamos em vida ou sustentabilidade).

. O que mantém os membros conectados?  Nada mantém os membros conectados: eles simplesmente se conectam. Enquanto estão conectados (e interagindo) estão na rede. Mas não há um dentro e um fora além disso. Quem está conectado (quando está conectado) está dentro. Redes são fluições. Como escreveu Goethe, "a fonte só pode ser pensada enquanto flui".

. Que tipo de liderança é exigida?  Redes (mais distribuídas do que centralizadas) são ambientes para a emersão de multilideranças. Não há propriamente um tipo de liderança exigida (que seria, no caso, exigida por quem ou por que?)

. Por que as pessoas se tornam líderes?  É uma pergunta que denota uma incompreensão da multiliderança emergente em uma rede mais distribuída do que centralizada. A palavra liderança evoca aqui a monoliderança, do líder que lidera em várias circunstâncias e que prorroga essa sua capacidade de liderar. Mas só há monoliderança quando há centralização (hierarquia), quer dizer, quando se pode desatalhar clusters, eliminar conexões e excluir nodos. Se isso não puder ser feito, haverá necessariamente multiliderança.

. Que tipo de liderança interfere ou destrói a rede?  Bem... o que faz isso é a monoliderança, que não se refere propriamente a um tipo de líder (resultado de suas características intrínsecas) e sim a um padrão de organização que permite que tal aconteça (e esse padrão é a topologia mais centralizado do que distribuída da rede).

. O que acontece depois que uma rede saudável se forma?  A pergunta chega a ser ingênua. O que seria uma "rede saudável"? Aquela conformada a partir de nossas "intenções saudáveis"? Se saudável se refere a condições análogas àquelas dos seres vivos (autopoiéticos), então isso depende do grau de distribuição (e de conectividade e de interatividade) e não de qualquer intenção.

. O que vem depois?  Esta é a pergunta mais fascinante! Ela denota a incompreensão de que as redes não são instrumentos para realizar a mudança e sim a própria mudança. A resposta é muito simples (e desconcertante). O que vem depois? NADA!

• Se entendermos essa dinâmica e ciclo de vida de emergência, o que podemos fazer como líderes, ativistas e empreendedores sociais a intencionalmente fomentar emergência?  Ciclo de vida da emergência é a própria emergência (é ela que define o que chamamos de ciclo de vida). Como líderes (monolíderes) não podemos fazer nada para ajudar, só para atrapalhar. Se queremos fomentar emergência devemos configurar ambientes favoráveis à emergência, quer dizer, ambientes de alta interatividade (de alta conectividade e de alta distribuição). Devemos deixar, por exemplo, de querer liderar!

O que é Emergência?

A emergência viola tantos das nossas suposições ocidentais de como a mudança acontece que muitas vezes leva algum tempo para compreendê-la. Na natureza, mudanças nunca acontecem como resultado de algo que vem de cima para baixo, planos estratégicos pré-concebidos, ou a partir do mandato de um único indivíduo ou chefe. A mudança começa na medida em que ações locais  surgem simultaneamente em muitas áreas diferentes. Se estas alterações permanecem desconectados, nada acontece além de cada localidade. No entanto, quando eles se tornam conectados, ações locais podem emergir como um sistema poderoso, com influência em um nível mais global ou abrangente. (Global, aqui, significa uma escala maior, não necessariamente todo o planeta.)

AF 7 | Global não significa "uma escala maior". Global é o que não é local. Por outro lado, havendo possibilidade de conexão global-local, emerge a possibilidade do glocal. O conceito que os autores queriam usar é este: glocal (o local conectado é o mundo todo), que surge quando a globalização do local encontra a localização do global.

Estes poderosos fenômenos emergentes aparecem repentina e surpreendentemente. Pense em como o Muro de Berlim de repente veio para baixo, como a União Soviética acabou, como o poder das corporações rapidamente passou a dominar todo o mundo. Em cada caso, houve muitas ações locais e decisões, a maioria das quais eram invisíveis e desconhecidos entre si, e ninguém poderoso o suficiente por si só para criar estas mudanças. Mas quando essas alterações locais se uniram, novos poderes surgiram.

O que não poderia ser realizado pela diplomacia, política, protestos ou estratégias, de repente aconteceu. E quando cada um destes fenômenos se materializou, a maioria de nós fomos surpreendidos. Fenômenos emergentes sempre tem essas características: eles exercem muito mais poder do que a soma de suas partes, pois eles sempre possuem novas capacidades a partir das diferentes ações locais que os engendrou. Eles sempre surpreendem quando aparecem.

É importante notar que uma emersão sempre resulta em um sistema potente que tem capacidades muito maiores do que jamais poderia ser previsto através da análise das suas partes individualmente.

Vemos isso no comportamento dos insetos de colmeia, como as abelhas e os cupins. Como seres individuais, nenhum deles possui as informações ou habilidades que estão na colmeia.  Não importa o quão atentamente os cientistas estudem o comportamento das formigas individuais, eles nunca podem ver o comportamento da colmeia  Mas, uma vez formada a colmeia  cada formiga age com a inteligência e a habilidade do todo.

Este aspecto da emergência tem profundas implicações para empreendedores sociais. Ao invés de ajudá-los a desenvolverem-se individualmente como líderes e profissionais habilidosos, faríamos melhor em conectá-los com outros afins e criar as condições para a emergência. As habilidades e capacidades necessárias por eles serão encontrados no sistema que emerge, e não em programas de treinamento melhores.

Porque emergência só acontece por meio de conexões, Berkana desenvolveu um modelo de quatro estágios que catalisa conexões como o meio para alcançar mudança em larga escala: Nomear, Conectar, Nutrir, Iluminar (ver apêndice). Nós nos concentramos em descobrir esforços pioneiros e nomeá-los como tal. Em seguida, conectar esses esforços com outro trabalho similar no mundo. Nutrimos esta rede de várias maneiras, mas essencialmente através da criação de oportunidades de aprendizagem e partilha de experiências e transformação em comunidades de prática. Nós também iluminamos esses esforços pioneiros para que muitas outras pessoas aprendam com os mesmos. Estamos trabalhando intencionalmente com as emergências de modo que os pequenos, os esforços locais possam tornar-se uma força global para a mudança.

AF 8 | Penso que os autores deveriam começar a estudar a fenomenologia da interação.

O ciclo de vida de Emergência

Primeiro estágio: as Redes

Redes: descobrindo sentidos e propósitos comuns

Vivemos em uma época em que as coligações, alianças e redes estão se formando como um meio para criar mudanças sociais. Existem cada vez mais redes, e agora, as redes de redes. Estas redes são essenciais para encontrar pessoas afins, o primeiro estágio do ciclo de vida de emergência. É importante notar que as redes são só o começo. Elas são baseadas em interesse próprio: as pessoas costumam se enredar juntas para seu próprio benefício e para desenvolver seu próprio trabalho. Redes tendem a ter a adesão fluida, as pessoas entram e saem delas baseado em quanto eles pessoalmente beneficiam-se de participar.

AF 9 | As redes, como já foi dito acima, não são primeiro estágio de nada: elas acontecem quando as pessoas interagem, não dependem da intenção de ir para algum lugar. Elas não estão se formando como um meio para criar mudanças sociais. Elas acontecem em qualquer família, grupo de amigos, conhecidos, vizinhos etc. Dá a impressão de que os autores acham que o Facebook é uma (ou "a") rede social, quando dizem que elas "são essenciais para encontrar pessoas afins". 

Segundo Estágio: Comunidades de Prática

Comunidades de Prática: desenvolvendo juntos novas práticas

Redes tornam possível que as pessoas a encontrar outros envolvidos em trabalhos similares. A segunda etapa da emergência é o desenvolvimento de comunidades de prática (CPs). Dessas pequenas comunidades individualizada pode brotar de uma rede robusta. As CPs também são auto-organizadas. As pessoas compartilham um trabalho comum e percebem que há grande benefício por estarem relacionando-se. Elas usam esta comunidade para compartilhar o que sabem, para se apoiarem mutuamente, e com a intenção de criar novos conhecimentos para o seu campo de prática.

Estas CPs diferem das redes de maneira significativa. São comunidades, o que significa que as pessoas fazem um compromisso de estarem disponíveis umas para as outras; elas participam não apenas para suas próprias necessidades, mas para servir as necessidades dos outros.

AF 10 | Novamente aqui a mesma besteira. Comunidades (clusters) são formadas a partir de uma fenomenologia da interação (chamada clustering). Só acontecem se existirem pessoas interagindo, mas se existirem pessoas interagindo então existe rede (social). Tudo que interage clusteriza. Comunidades (grupos) não são um estágio além das redes. Há uma confusão horrível aqui entre tipo de organização e padrão de interação.

Em uma comunidade de prática, o foco se estende para além das necessidades do grupo. Há um compromisso intencional para avançar no campo da prática, e compartilhar essas descobertas com um público mais vasto. Eles fazem seus recursos e conhecimentos disponíveis a qualquer um, especialmente aqueles que fazem trabalhos relacionados.

A velocidade com que as pessoas aprendem e crescem em uma comunidade de prática é notável. Boas idéias movem-se rapidamente entre os membros. Novos conhecimentos e práticas sejam implementadas rapidamente. A velocidade com que o desenvolvimento do conhecimento e a troca acontece é crucial, porque as localidades e o mundo precisam deste conhecimento e sabedoria agora.

AF 11 | A impressão que fica é que os autores querem criar uma nova marca, lançar ou ressignificar um novo tipo de organização: a tal "comunidade de prática", e não entender realmente as redes.

Terceira Fase: Sistemas de Influência

Sistemas de Influência: as novas práticas se tornam a norma.

O terceiro estágio na emergência nunca pode ser previsto. É o súbito aparecimento de um sistema que tem real poder e influência. Esforços pioneiros que pairavam na periferia de repente se tornam a norma. As práticas desenvolvidas pelas comunidades corajosas se tornar o padrão aceito. As pessoas já não hesitam em adotar essas abordagens e métodos, e eles aprendem com facilidade. Debates políticos e de financiamento incluem agora as perspectivas e experiências desses pioneiros. Tornam-se líderes no campo e são reconhecidos como os detentores da sabedoria em suas questões específicas. E os críticos que disseram que nunca poderia ser feito de repente se tornam seus grandes defensores (muitas vezes dizendo que sabia disso o tempo todo).

Emergência é a explicação científica fundamental de como as mudanças locais podem materializar-se como sistemas globais de influência. Como uma teoria da mudança, oferece métodos e práticas para realizar as mudanças de sistemas à escala que são tão necessários neste momento. Como líderes e comunidades de pessoas com causas, precisamos intencionalmente trabalhar com as emergência de modo que os nossos esforços possam resultar em um futuro realmente promissor. Não importa que outras estratégias de mudança aprendemos ou temos favorecido, a emergência é a única maneira que a mudança realmente acontece neste planeta. E isso é uma notícia muito boa.

AF 12 | Bah!... Para mim é uma noticia muito ruim que, apesar dos seus esforços para entender as redes, os autores continuem pensando assim, em coisas do tipo "tornam-se líderes no campo e são reconhecidos como os detentores da sabedoria". Isso é uma pura reprodução do velho mundo que o texto propõe mudar.

Uma nota: se os autores querem encontrar uma explicação científica deveriam fazer investigações científicas no lugar de urdir um conjunto de crenças; poderiam começar lendo o Linked do Barabási (2002), o Six Degrees do Watts (2003) e o Connected do Christakis e do Fowler (2009). Uma vez entendido o básico, poderiam então começar a ler os papers recentes: está disponível para download free uma lista com algumas centenas).

Apêndice

Quatro Estágios de Desenvolvimento de Liderança-em-comunidades

Berkana trabalha com líderes pioneiros e comunidades utilizando uma abordagem de quatro estágios. Esta abordagem evoluiu a partir de nossa compreensão de como os sistemas vivos crescem e mudam, e de anos de prática e experimentação.

AF 13 | Pois é. Este é o problema. Berkana quer trabalhar com "líderes pioneiros". Deviam desistir disso. Ademais, essa história de quatro estágios parece mais uma metologia, quer dizer, uma tentativa de pavimentar com a crença um caminho para o futuro, cavar um sulco fazendo escorrer por ele as coisas que ainda virão...

Paro por aqui porque o resto... francamente!


I. Nomear
Líderes pioneiros agem isoladamente, sem saber que seu trabalho tem maior valor. Eles estão ocupados demais para poder pensar em estender seu trabalho, e são humildes demais a pensar que os outros seriam beneficiados. Primeiro ato Berkana é reconhecê-los como pioneiros com experiências que são de valor para os outros.


II. Conectar
A vida cresce e muda com a força de suas conexões e relacionamentos. (Na natureza, se um sistema carece de saúde, a solução é conectá-lo a mais de si mesmo.) Berkana cria conexões em modos diferentes. Desenhamos e facilitamos reuniões da comunidade. Animamos redes onde as pessoas podem trocar idéias e recursos. Nossa tecnologia de colaboração suporta comunidades de prática através de sites dedicados, conferências on-line, conversas assíncronas e co-criação de conhecimentos.


III. Nutrir
Comunidades de prática precisam de muitos recursos diferentes: idéias, mentores, processos, tecnologia, equipamentos, dinheiro. Cada um é importante, mas acima de tudo entre estes é a aprendizagem e conhecimento: saber quais as técnicas e processos dão certo, e aprender a partir da experiência conforme as pessoas fazem seu trabalho. Berkana fornece muitas dessas fontes de alimento, e, cada vez mais, percebemos que o alimento mais significativo vem da interação e intercâmbios entre os próprios líderes pioneiros. Eles precisam e querem compartilhar suas práticas, experiências e sonhos. Criar oportunidades para que as pessoas aprendam em conjunto tornou-se nossa principal forma de nutrir os seus esforços.


IV. Iluminar
É difícil para qualquer um ver o trabalho baseado em um paradigma diferente. Se as pessoas percebem estes trabalhos, muitas vezes caracterizam-nos como inspiradores desvios da norma. É preciso tempo e atenção para que as pessoas conseguirem ver abordagens diferentes pelo que são: exemplos do que o novo mundo poderia ser. A comunidade Berkana publica artigos, conta nossas histórias em conferências, e os anfitriã jornadas de aprendizagem onde as pessoas visitam os esforços pioneiros, aprendem com eles diretamente e desenvolvem relacionamentos duradouros.

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Comentário de Claudio Estevam Próspero em 21 maio 2013 às 11:15

Recomendo aos pares:

EMERGÊNCIA - resenha* -

Celso Candido**

JOHNSON, Steven. 2003.

Emergência – a vida integrada de formigas, cérebros, cidades e softwares. Tradução: Maria Carmelita Pádua Dias, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 231 p.

http://www.caosmose.net/candido/unisinos/textos/Emergencia_Johson.pdf

Comentário de José Gilberto Formanski em 17 maio 2013 às 10:48

Augusto,

Você comentou: "Se queremos mundos mais cooperativos a primeira coisa que devemos aprender é que a cooperação é um atributo da forma como nos organizamos: e nada mais!"

A frase me cativou e quero entender melhor. Entendi que a forma que nos organizamos é a arquitetura da rede, correto? se for, esta arquitetura deve emergir naturalmente ou podemos 'provocar' as conexões de nosso interesse? sem perder o atributo: cooperação.

 

Comentário de Augusto de Franco em 16 maio 2013 às 15:24

Dizer que as redes não são instrumentos para realizar a mudança, mas já são a própria mudança é, antes de qualquer coisa, uma maneira retórica de dizer que elas não são... instrumentos para realizar a mudança :P

O objetivo dessa, como direi?, recursão, é espancar a ideia instrumental das redes como expedientes para se alcançar alguma coisa. A maior parte das pessoas que falam sobre redes sociais tomam as redes por ferramentas (em geral, por mídias, confundindo o site da rede com a rede), como tipo ou forma de organização de que se possa lançar mão (não raro centralizadamente) para obter tal ou qual resultado. É assim que, por exemplo, como diz o texto (na sua melhor parte: acima do meu comentário AF5) as pessoas acham que podem usar as redes (distribuídas, ou mais distribuídas do que centralizadas) para reforçar padrões de organização centralizados (ou mais centralizado do que distribuídos).

Mas há mais. Significa dizer que as sociedades são redes distribuídas na ausência de restrições de fluxos. Ou seja: já são. Ou são, como as redes. A mudança em questão não é caminho para mudança e sim resultado da mudança. Se as pessoas interagem livremente (sem restrições de fluxos), nada haverá além que se possa determinar aquém (de antemão). Como perguntou retoricamente o texto e resolvi responder:

O que vem depois? NADA.

Comentário de Augusto Cuginotti em 16 maio 2013 às 6:56

Gostei do texto e dos comentários. Obrigado por compartilhar.

Claramente o entendimento de 'rede' é outro no caso da Berkana e aqui da E=R.

No lado da Berkana tem o trabalho ativista de alimentar comunidades que aposta em pessoas (líderes?) como criadores de espaço para que as relações e conexões existentes (emergentes?) sejam explicitadas. Existe uma contribuição das autoras em verificar que espaços relacionais de comunidade vão além de pessoas estarem conectadas (na visão de rede como forma de organização) e se beneficiam de convites ao compartilhamento. Conheço o trabalho em campo de muitas dessas pessoas e suas intervenções são ótimos exemplos de ações que convidam a padrões de interação mais distribuídos (me arrisquei na linguagem redóloga :).

Entendo como esse trabalho gera os comentários que gerou pelos óculos do que entendo se desenvolve aqui na E=R. Novamente, gostei de ler os comentários sob esta ótica.

Olhando já pela ótica da E=R, e sendo aqui a casa deste entendimento, o que não consigo entender: redes não são o caminho para a mudança, mas também não são a mudança. Redes são. Depois olhamos para ela para tirar uma fotografia da tipologia, interpretar padrões e, do que interpretamos, interpretar o que 'mudou'.

Se rede for a mudança, me parece o caso da turma aqui querer lançar uma nova marca com aspirações de trocar algo que deve 'deixar de ser' para outra coisa que deve 'passar a ser'. 

Enfim, acho que para a definição de rede da Berkana, faz todo sentido o que propõe. Isso não tira o mérito de 1) olhar sob a ótica de redes em seu conceito científico e 2) o mérito direto de alguns bons comentários do AF em relação à necessidade de "líderes pioneiros" ou de metodologia de interação.

Comentário de Luciano Lameira em 15 maio 2013 às 15:36

Interessantes comentários...

Comentário de nedio antonio seminotti em 15 maio 2013 às 10:51

Inspiradora tua crítica ao texto Margaret Wheatley e Deborah Frieze. Ela produz reflexão. Sublinho que a emergência na rede, ou no sistema de sistemas, nasce da interação e a emergência retroage sobre as partes e o todo produzindo modificações em ambos. A interação, portanto, significa mudar. Quem interage muda, queiramos, ou não.

Comentário de Augusto de Franco em 15 maio 2013 às 9:08

Terminei meus comentários. Estão em vermelho, interpolados no texto acima. Não posso dizer que tive uma decepção. Na verdade, para Berkana assim como para muita gente que fala de redes, a ficha ainda não caiu.

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