Escola de Redes

Diálogos (Almoçando numa terça-feira)


- Nossa! Incrível! Isso facilita muito a gestão! É só mandar embora os isolados e promover os mais conectados!

- Concordo que isso seria uma solução tradicional... Mas penso que a coisa é bem mais complexa!

- Como assim mais complexa? Parece-me que isso simplifica tudo!

- Depende do ângulo que se olhe! Não se esqueça que teremos que fazer nova medição daqui a um tempo!

- E daí? Certamente com essas ações na próxima medição vai sair tudo redondo!

- Como assim, redondo? O que você quer dizer?

- Ora, na próxima medição não teremos mais isolados uma vez que foram mandados embora! E tem mais, agora que temos clareza que estas áreas não estão se comunicando fica bem fácil fazer algo a respeito!

- E o que você faria?

- Bom, é só falar com os supervisores das áreas e jogar o problema no colo deles! Para isso foram contratados!

- Do jeito que você fala parece até que seres humanos são lineares! Mas lembre-se que seres humanos são sistemas complexos e imprevisíveis.

- Complexo é você, meu caro! Aqui a gente manda e o povo obedece. Todos nós gestores, fomos escolhidos a dedo, muitos de nós temos mestrado/doutorado ou no mínimo MBA, somos extremamente competentes.

- Ah!

- E além disso, temos programas constantes de desenvolvimento de lideranças. Queremos ser a empresa mais admirada do Brasil, ou já esqueceu?

- Sim, isso está claro. Você é casado?

- Não entendi, você está careca de saber que sou casado, mas o que isso tem a ver com a conversa?

- Bem, suponho que casados ou não todos que aqui trabalhamos convivemos com algum tipo de família, certo?

- Sim, e daí?

- Você não acha que essa convivência “externa” afeta o modo como as pessoas agem aqui?

- Quê isso! Profissionais competentes separam muito bem sua vida particular da sua vida profissional!

- Ah! Diga-me, quando você vem para o trabalho todos os dias, você deixa em algum tipo de gaveta as tuas experiências fora do trabalho?

- Não entendi, o que vc quer dizer com isso?

- Bem, entendo que a nossa memória vai conosco para todos os lugares, não há separação possível. Assim, se eu tenho um problema com o meu filho, infelizmente não vou poder deixá-lo em casa, o problema, quero dizer! Vou ter dificuldade de concentração pois o danado do problema vai voltar à minha mente o tempo todo. Posso disfarçar bem e talvez ninguém perceba, mas certamente vou render menos. Não somos robôs! Você mesmo passou uns três dias bicudo por causa daquela discussão que teve com a Beatriz!

Silêncio...

- Vc tem lá certa razão! Mas pensando assim isso aqui vai virar uma zona!

- Como assim “vai virar”? Já é uma zona, só que disfarçada! Hipócrita. Velada. Veja, por exemplo, esse afunilamento hierárquico. Dizem que temos que cooperar uns com os outros. Mas o que acontece é que competimos ferozmente uns com os outros. Sejamos honestos, entre a empresa e eu, primeiro eu! Uma vaga de diretor para 30 gerentes, uma vaga de gerente para 50 supervisores! Planos de carreira têm a ver com subir de cargo, não há outro plano possível numa estrutura hierárquica! Por mais que se tape o sol com a peneira criando faixas salariais dentro de um mesmo cargo o objetivo é sempre subir na estrutura hierárquica! Ou você é sortudo, pois conseguiu ser favorito de algum Deus, ou a alternativa é tentar algo em outra empresa. Aí vão reclamar da evasão de talentos!

- Mas é fato que seres humanos têm enormes diferenças. Quer vc queira ou não, uns são mais competentes que outros!

- Será? Quem é que decide quem é mais ou menos competente? Aponte-me, por favor, algum ser humano que seja neutro!

- Ah, nem vem! Está me dizendo que um Mané que trabalha no chão de fábrica pode ser mais competente que eu ou você?

- Pois é, está aí outra questão interessante... Isso podia ser verdade há 100 anos quando o acesso ao ensino era restrito a uns poucos. Mas veja que até o Mané para ser contratado precisa ter, no mínimo, uma faculdade, uma especialização qualquer, conhecimento de informática, saber se relacionar, ser emocionalmente estável e sei lá o que mais. As linhas de produção são mecanizadas! Mesmo os Manés, não trabalham mais com os músculos, mas com o cérebro! No nosso caso é pior ainda pois somos uma empresa de consultoria, cujo produto tem a ver com conhecimento.

- E isso quer dizer o que, exatamente?

- Quer dizer que o fato de ocuparmos um cargo gerencial é mais oportunidade do que competência... Têm uns garotos que trabalham na minha área que são feras. Estão o tempo todo questionando minhas decisões e, para ser honesto, algumas vezes tenho que concordar com eles...

- Ah, meu caro, se é comigo ponho na rua!

- Com que justificativa? Desacato à autoridade?

- Não irmão, digo que eles têm problemas de relacionamento... Simples assim!

- Ah! E é bem fácil achar outros para por no lugar, não é? Você tem duas vagas na tua área há mais de três meses, e até onde sei não conseguiu preenchê-las... Hummm!

- Isso se ajeita, mais cedo ou mais tarde!

- É, se ajeita, vai contratar um loiro no lugar de um moreno que muito provavelmente vai te confrontar também, mais cedo ou mais tarde. O que mesmo estamos ajeitando?

- Bom, para isso serve o RH, eles que selecionem candidatos adequados para trabalhar comigo! Já rejeitei uma meia dúzia porque senti que não ia dar certo.

- É... até que apareça um cara suficientemente esperto que responda de uma forma que nos pareça adequada... Isso não garante nada, estamos o tempo todo lidando com imprevisibilidade! O mundo mudou, irmão, e muito!

- Algumas coisas nunca mudam! Se o cara não é gerenciável ele que não se meta a trabalhar numa empresa!

- Ah! Tocou em outro ponto-chave! As empresas estão gestando sua própria concorrência. Olha aí o pessoal de TI! Há trinta anos havia uma meia dúzia de empresas, IBM, Honeywell Bull, Labo, Cobra... lembra? Me diga quantas existem hoje? Milhares! E foram criadas por quem? Por ex-funcionários que nelas trabalhavam, que adquiriram know-how e foram trabalhar por conta própria... Já era, hoje tudo o que um cara precisa para criar uma empresa é um computador e um cérebro. Foi-se o tempo em que as ferramentas de produção eram inacessíveis e caríssimas!

- Ok, supondo que você esteja certo na sua argumentação, qual seria a solução?

- Não vejo opção a não ser a queda das hierarquias e a distribuição dos lucros...

- Fala baixo! Isso é sacrilégio!

- Direitos humanos também eram sacrilégio há 50 anos! Irmão, o único sacrilégio é não perceber que está tudo mudando e continuar tentando solucionar as coisas fragmentada e tradicionalmente! Você há de convir que apesar de todas as “novas” soluções que o mercado oferece os problemas não estão diminuindo, estão aumentando!

- Ainda bem que estamos almoçando bem longe da empresa. Nem quero pensar se alguém de lá tivesse ouvido essa conversa! Bruno, toma jeito, pense no seu futuro e no da sua família... Desse jeito vão te botar para fora e queimar teu filme!

- Simples! Abro uma concorrente e, de quebra, ainda levo comigo os melhores cérebros... Queimar meu filme? Difícil! Os clientes me conhecem! Aliás... que tal? (piscando o olho)

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Comentário de Clara Pelaez Alvarez em 19 abril 2010 às 16:42
Augusto...he he... Vai sim! Aguarde!
Comentário de Augusto de Franco em 19 abril 2010 às 15:44
Legal, Clara. A conversa vai continuar no jantar?

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