Escola de Redes

Segunda versão

Quando o biólogo chileno Humberto Maturana Romesin afirmou, no final dos anos 80, que relações hierárquicas, relações de subordinação, que exigem obediência, baseiam-se na negação do outro e que essas relações não podem ser consideradas relações propriamente sociais, alguns acadêmicos e bem-pensantes e, sobretudo, aqueles que se tinham por indivíduos muito “sérios” e “responsáveis”, ficaram meio escandalizados.

Como assim? – perguntavam, indignados. Pois pensavam que, caso tais idéias heterodoxas (e perigosas) vicejassem, seria o caos!

E a coisa piorou um pouco quando ele, Maturana, duas décadas depois, ousou declarar que o liderazgo (a liderança), o xodó das teorias empresariais que floresceram nos anos 90, não era uma idéia nada boa, posto que “el liderazgo requiere que los liderados abandonen su propia autonomía reflexiva y se dejen guiar por otro confiando o sometiéndose a sus directrices o deseos...” (1).

Mas o fato que até agora ainda não tivemos coragem de derivar todas as conseqüências dessas impactantes constatações de Maturana e desenvolvê-las no contexto da transição de uma sociedade hierárquica, que tende a fenecer, para uma florescente sociedade em rede, diante da emergência de múltiplos mundos altamente conectados de forma cada vez mais distribuída. Embora anunciador de uma visão pioneira sobre redes (que qualificou como “redes de conversações”), Maturana não reestruturou seu pensamento sob o influxo das visões contemporâneas inspiradas pela nova ciência das redes. Cabe a nós, que investigamos o assunto, dar continuidade aos seus insights geniais à luz da teoria e da prática de redes, quer dizer, do netweaving.

Sim, netweaving. Se você quer mesmo aprender a “fazer” redes, então sua primeira “prova” é: desobedeça! Aprenda a desobedecer! Um netweaver é, por definição, um desobediente. Porque é alguém que, criativamente, caminha fora dos trilhos já estabelecidos por alguém.

Mas a quem você deve desobedecer?

Ora, a todos que querem obrigá-lo a obedecer. Em especial aos agentes de um velho mundo hierárquico e autocrático cujos alicerces já estão apodrecendo, mas que continua, resilientemente, a nos assombrar. Dentre tais agentes, que são muitos, merecem ser destacados aqui: os ensinadores, os codificadores de doutrinas, os aprisionadores de corpos, os construtores de pirâmides, os fabricantes de guerras e os condutores de rebanhos.

DESOBEDEÇA aos ensinadores, que dizer, à burocracia privatizadora do conhecimento: aquela casta sacerdotal que constitui as escolas e academias. Essas instituições geraram e continuam gerando um tipo curioso de agente que proliferou na modernidade: o colecionador de diplomas, que julga as outras pessoas pela sua capacidade de se enquadrar nos processos de ensinagem em vez de avaliá-las pela sua capacidade de aprendizagem. Os diplomas são, então, um reconhecimento e uma validação do conhecimento ensinado e não do conhecimento aprendido. Tendo perdido o monopólio do conhecimento (se é que algum dia tiveram-no) as universidades tentam ainda reter em suas mãos o que lhes restou: o monopólio dos diplomas.

Há também os que – por fora dos sistemas formais de ensino - se intitulam (ou são por alguém intitulados) mestres. Alguns são ordenados para tanto, quer dizer, têm reconhecida, sempre por uma organização hierárquica, sua capacidade de reproduzir uma determinada ordem top down. E querem então imprimi-lo, emprenhá-lo, ou seja, enxertar suas idéias-implante em você, para que você se torne também um transmissor desse “vírus”.

Desobedeça a esses caras. Aprenda o que você quiser, quando quiser e do jeito que você quiser. Aprenda com seus amigos. E compartilhe o que aprendeu com quem você quiser, gerando mais conhecimento. Guarde seus conhecimentos nos seus amigos, não na cabeça dos professores; nem nas instituições que sobrevivem trancando o conhecimento e estabelecendo caminhos obrigatórios, cheios de barreiras e permissões, para dificultar-lhe o acesso; ou, ainda, nos livros submetidos à normas odiosas de copyright. Conhecimento trancado apodrece.

E não siga mestres de qualquer tipo: todos somos aprendentes. ‘Quando o “mestre” está preparado o discípulo desaparece’, quer dizer, ele não precisa mais da muleta chamada “discípulo”: pode se tornar, por si mesmo e em interação com outras pessoas, um aprendente, livre... e tão ignorante como todos nós. Mas enquanto eles estiverem pensando em conquistar discípulos, fuja dos “mestres”!

DESOBEDEÇA aos codificadores de doutrinas, que são todos aqueles que querem pavimentar, com as suas crenças religiosas (e sempre o são, mesmo quando se declaram laicas), uma estrada para o futuro. Eles produzem narrativas ideológicas totalizantes para que você veja o mundo a partir da sua ótica, quer dizer, para que você não veja os múltiplos mundos existentes, mas apenas um mundo (o mundo arquitetado e administrado por eles: uma prisão para a sua imaginação).

Quando são (explicitamente) religiosos, os codificadores de doutrinas fornecem a justificativa para a ereção de igrejas e seitas. Quando são políticos, urdem a base conceitual para a formação de correntes e grupos de opinião onde a (livre) opinião propriamente dita não conta para quase nada: o que conta é a ortodoxia de uma opinião oficial ou canônica, a qual tentam autenticar apelando para a revelação ou para a ciência. Em todos os casos são engenheiros meméticos, manipuladores de idéias que inventam passado para legitimar certos caminhos (e deslegitimar outros) para o futuro. Fazem isso para controlar o seu futuro, para levá-lo (a sua alma ou o seu corpo) para algum lugar supostamente melhor, para um paraíso no céu ou na terra, quando, eles mesmos, não podem conhecer tal caminho (simplesmente porque não existe um caminho).

Desobedeça a essa gente. Não entre em suas armações, não replique seus discursos: pense com sua própria cabeça. Ria dos seus vaticínios e ameaças e ponha-se fora do alcance de suas patrulhas. Saia dos trilhos que eles assentaram, escape das valetas (os pré-cursos) que eles cavaram para fazer escorrer por elas as coisas que ainda virão. Recuse tudo isso: faça o seu próprio caminho.

DESOBEDEÇA aos aprisionadores de corpos, que não contentes em usar, comprar ou alugar, sua inteligência humana (que não tem preço), querem também mantê-lo cativo, fisicamente, nos seus prédios ou cercados. São feitores: antes usavam o chicote; hoje usam o relógio ou o livro de ponto, o crachá magnético ou o banco de horas. Nas empresas ou organizações hierárquicas, sejam privadas ou públicas, seqüestram seu corpo para manter você por perto, para poder vigiá-lo, para terem certeza de que você está de fato trabalhando para eles (que coisa, heim?). Não precisavam fazer isso se o seu objetivo fosse o de articular um trabalho coletivo compartilhado. Mas o objetivo deles não é, na verdade, compartilhar nada com outros seres humanos e sim controlá-los-e-comandá-los, em certo sentido desumanizá-los, embotando sua inteligência, castrando sua criatividade, alquebrando sua vontade, para poder usá-los como objetos, para terem-nos disponíveis, sempre à mão, tantas horas por dia: querem um rebanho de servos de prontidão para lhes fazer as vontades. Se quisessem que as pessoas trabalhassem com-eles e não para-eles não seria necessário – na imensa maioria dos casos – aprisionar os seus corpos: bastaria estabelecer uma agenda conjunta, com tarefas e prazos.

Desobedeça a esse pessoal. Monte seu próprio empreendimento individual ou coletivo compartilhado, empresarial ou social. Corra atrás do seu próprio sonho ao invés de servir de instrumento para realizar o sonho alheio. Sim, você é capaz. A evolução investiu quatro bilhões de anos desenvolvendo seu hardware, que é igualzinho ao daquele cara esperto que quer capturá-lo e aprisioná-lo e que ainda por cima tem a desfaçatez de alegar que está fazendo um bem para a humanidade por lhe oferecer um emprego.

DESOBEDEÇA aos construtores de pirâmides, que são os que erigem organizações hierárquicas de todo tipo para mandar nos outros e obrigá-los a fazer (ou deixar de fazer) coisas contra a sua vontade ou sem o seu consentimento ou assentimento ativo. Desobedecer significa também abrir mão de mandar. Você é capturado pelo jogo perverso da obediência quando quer que as pessoas lhe obedeçam.

Desobedeça a esses chefes, em primeiro lugar, cortando o barato daquele “construtorzinho de pirâmide” que mora aí dentro de você: não faça patotas, não erija igrejinhas. Sim, é muito difícil resistir à tentação de juntar “os seus” e separá-los dos “ dos outros”, mas – para quem quer fazer redes – é absolutamente necessário. E, sobretudo, abra mão de querer mandar nos outros. Em vez de arquitetar organizações tradicionais, a partir de organogramas centralizados, para realizar qualquer projeto ou trabalho, teça redes: quase tudo que se organizou até agora de forma hierárquica (com estrutura centralizada) pode ser organizado em forma de rede (com estrutura distribuída); menos, é claro, os sistemas de comando-e-controle.

Em segundo lugar, nunca se enquadre docemente em sistemas de comando-e-controle. Se for obrigado a tanto para sobreviver, por um período (que não pode ser muito longo, do contrário você estará bloqueando seu desenvolvimento humano), faça-o resignadamente, mas sempre resistindo. Isso significa: não se curve a seu chefe, não lhe faça as vontades, vamos dizer assim, tão solicitamente. Não seja tão prestativo, subserviente, serviçal. Não caminhe um quilômetro a mais para agradá-lo. Não fique na penumbra, recuado, servindo de escada para ele subir ou se destacar. Não faça o jogo.

DESOBEDEÇA aos fabricantes de guerras, que são, stricto sensu, os chefes militares e, lato sensu, os que pervertem a política como arte da guerra e os que se entregam à competição adversarial tendo como objetivo destruir seus concorrentes. São, todos, predadores. O predador é uma máquina de converter o semelhante em inimigo. Mas é preciso considerar que não existem inimigos naturais ou permanentes: toda inimizade é circunstancial e pode ser desconstituída pela aceitação do outro no próprio espaço de vida, pelo acolhimento, pelo diálogo, pela cooperação. Assim, o (único) inimigo que existe mesmo é o fazedor de inimigos.

Na civilização patriarcal e guerreira viramos seres cindidos interiormente. O predador é um produto dessa quebra da unidade sinérgica do simbionte (que poderemos ser no futuro, se anteciparmos esse futuro). Preda porque quer recuperar, devorando, suas contrapartes, num ritual antropofágico em busca da unidade perdida (aquela origem que é o alvo, para usar a expressão de Karl Kraus). É por isso que nos apegamos tanto à guerra do bem contra o mal. Mas o problema, como disse Schmookler, é que o recurso da guerra é em si o mal (2).

Desobedeça a esses hierarcas. Recuse-se a entrar em organizações militares ou para-militares de qualquer tipo. Recuse-se a entrar em qualquer organização política de combate, que pregue que o bem só será alcançado com a destruição do mal. Recuse-se a olhar o diferente como adversário em princípio: em princípio todo ser humano é um potencial parceiro de outro ser humano, não um inimigo.

Recuse-se a construir inimigos. Recuse-se a entrar em organizações que elegem inimigos para ser eliminados, física, econômica, psicológica ou politicamente. A ética do netweaver é uma ética do simbionte, não do predador. Adote um comportamento pazeante para não cair na armadilha de travar uma guerra contra o mal, pois, assim procedendo, você mesmo estará gerando o mal ao construir inimigos em vez de fazer amigos, quer dizer, de fazer redes.

DESOBEDEÇA aos condutores de rebanhos, que são, em geral, os líderes que alcançaram popularidade pelo broadcasting para guiar as massas. Algumas vezes esses líderes são carismáticos e se dedicam a mesmerizar multidões em comícios, reuniões e manifestações. Ou pela TV e pelo rádio. Quase sempre são pessoas “pesadas”, que usam sua gravitatem em benefício próprio ou de um grupo, para reter em suas mãos o poder pelo maior tempo que for possível, transformando os outros em seus satélites. E odeiam os princípios de rotatividade ou alternância democrática. Considere que, do ponto de vista social (ou coletivo, da rede), o modo intransitivo de fluição que gera o fenômeno da popularidade do líder de massas é uma sociopatia.

O liderancismo é uma praga que vem contaminando as organizações de todos os setores: segundo tal ideologia, a liderança só é boa se não puder ser exercida por todos, só por alguns. Assim, não se deve estimular a multi-liderança, senão afirmar a precedência da mono-liderança, do líder providencial e permanente, a prevalência do mesmo líder em todos os assuntos e atividades, como se essa – a liderança – fosse uma qualidade rara, de origem genética ou fruto de uma unção extra-humana.

Desobedeça a esses líderes. Não os siga para parte alguma. Não se deixe conduzir, ser puxado pelo nariz ou guiado pelo cabresto como se fosse uma cavalgadura. Não existem guias geniais dos povos. Nos sistemas representativos, as pessoas que você elegeu são seus empregados (mandatados pelos eleitores), não seus patrões.

Arrebanhamentos e assembleísmos são o contrário da interação humanizante entre as pessoas: transformam gente em gado, em contingente moldável e manipulável. Pule para fora desse curral. Aparte-se desse rebanho. “Inclua-se fora” dessas listas de excluídos que ficam olhando para cima de boca aberta, esperando pelas benesses de um salvador (pois o simples fato de pertencer a elas já é um indicador de exclusão, quer dizer, de incapacidade de pensar por si mesmo e de andar com as próprias pernas). Toda pessoa, se estiver disposta a desobedecer, será um alguém (com nome reconhecido) fora da massa, não apenas um número em uma estatística. Toda pessoa que desobedece, em um mundo ainda infestado por organizações hierárquicas, é um ponto fora da curva: alguém único, singular, insubstituível como você.

Isto posto, é tudo.

Mas ainda resta tratar das objeções dos bem-pensantes e dos indivíduos que se levam muito a sério e que se acham responsáveis.

VOCÊ DEVE DESOBEDECER ÀS LEIS?

De uma maneira geral, você nunca deve obedecer a pessoas, sejam elas quais forem. Dizendo de uma forma ainda mais ampla: você nunca deve obedecer a nenhuma individualidade portadora de vontade, real ou imaginária, humana ou extra-humana, seja ela qual for.

Freqüentemente surge uma objeção: mas se as pessoas não obedecerem às normas da vida civilizada será o caos. Por isso, todos devem respeitar as leis.

Será mesmo? Depende. Você não deve, por certo, romper com os pactos livremente celebrados por uma sociedade e que foram transformados em leis em um processo democrático.

Dizer que a democracia é o império da lei significa dizer que ela não é o império de pessoas. Obedecer às leis significa, então, não-obedecer a pessoas. Mas isso depende do processo que fabricou as leis.

Você não tem obrigação moral de obedecer às leis das ditaduras. Assim, leis de exceção podem ser desobedecidas. Por princípio, elas não têm qualquer legitimidade.

A legitimidade é o resultado da confluência de vários critérios democráticos: a liberdade, a publicidade, a eletividade, a rotatividade (ou alternância), a legalidade e a institucionalidade. Sim, não basta alguém ter sido eleito para ter legitimidade.

Tais critérios – ou alguns deles – são violados não somente pelas ditaduras clássicas, mas também por protoditaduras e, ainda, se bem que em menor escala, por democracias parasitadas por regimes manipuladores.

Você mesmo avaliará até onde vão as normas estabelecidas por processos que violam os critérios acima. Se achar que violam, desobedeça-as. E esteja preparado para arcar com as conseqüências, é claro.

Um princípio geral da ética do simbionte poderia ser: o único objetivo realmente humano (e humanizante) das leis é assegurar a convivência pacífica das pessoas em uma sociedade.

VOCÊ DEVE DESOBEDECER AOS DIRIGENTES DAS ORGANIZAÇÕES POLÍTICAS A QUE PERTENCE?

Eis aqui outra questão recorrente. Liminarmente, você não deve pertencer a organizações que não tomam a democracia como um valor.

Ora, com exceção das leis democraticamente aprovadas, a democracia não pode aceitar que alguém faça alguma coisa que não quer ou deixe de fazer alguma coisa que quer em virtude de sanção ou ameaça de sanção proveniente de instância hierárquica. Portanto, respeitado o pacto de convivência, é legítima a desobediência política e ninguém é obrigado a acatar uma decisão com a qual não concorde ou mesmo concordando não queira acatar, por medo de sanção, ainda que tal decisão tenha sido tomada por maioria. Obediência nada tem a ver com colaboração, que pressupõe adesão voluntária, seja por concordância, seja por resultado de convencimento ou por livre assentimento.

Assim, em coletivos políticos de adesão voluntária, nenhum tipo de disciplina deve ser imposto e nenhum tipo de obediência deve ser exigida dos participantes, além daquelas às regras a que voluntariamente aderiram. Nenhum tipo de sanção pode ser imposta aos participantes, nem mesmo em virtude do descumprimento das regras a que voluntariamente aderiram. Todos têm o direito de não acatar decisões.

Ordem, hierarquia, disciplina e obediência, vigilância (ou patrulha) e punição; e fidelidade imposta top down, são virtudes de sistemas autocráticos. Nada disso tem a ver com a democracia. Quanto mais autocrática for uma organização, mais ela insistirá na exaltação de tais “virtudes”. As razões para isso são tão claras que dispensariam comentários. Todas as organizações não-estatais e não baseadas em contratos (de trabalho ou de prestação de serviços) são (ou deveriam ser) constituídas por adesão voluntária. Em organizações voluntárias, “obedece” (ou melhor, acata) quem concorda. Querer exigir disciplina e obediência em relações sociais (stricto sensu) é um absurdo. Impor sanções para quem não obedece é uma violência e, como tal, um comportamento antidemocrático.

Organizações que visem chegar à (ou praticar a) democracia (no sentido “forte” do conceito), não podem se organizar autocraticamente para atingir seus fins. Não existe caminho para a democracia a não ser a democratização contínua das relações; ou, parafraseando Mohandas Ghandi, não existe caminho para a democracia: a democracia é o caminho...

VOCÊ DEVE DESOBEDECER AOS SEUS PATRÕES?

Outra objeção freqüente diz respeito à obediência àquele que paga o seu salário: como você pode não-obedecer aos seus patrões se tem que sobreviver?

Uma boa regra geral seria: nunca trabalhe para alguém e sim com alguém. Todas as coisas podem ser feitas em parceria. A obediência não é necessária.

Mas é você quem decide. Quanto mais você trabalha para alguém, menos alguém você é. O espírito de liberdade é a fonte de toda criatividade! Para sentir esse sopro criador só há uma via: desobedeça!

Você não concorda e querem que você faça assim mesmo? Desobedeça! Uma pessoa (qualquer pessoa, em especial, a sua pessoa) vale muito mais do que a bosta de um emprego.

É preciso considerar que a organização piramidal trabalha para o cume. Ou, dizendo de outro modo, a organização centralizada trabalha para o centro, para o chefe, para o líder. E as pessoas que trabalham em geral não aparecem, pois seu papel precípuo é o de fazer o chefe aparecer (ou ficar com o crédito por todas as realizações, inclusive por aquelas alcançadas pelo seu esforço e pela sua inteligência). Aí o chefe fica contente e mantém tais pessoas nas suas funções (empregadas ou contratadas). Se o chefe ficar muito contente com o resultado, pode até retribuir com uma promoção do "colaborador" que lhe fez tão bem as vontades.

Ocorre que quando um conjunto de pessoas aplica seus talentos para promover uma atividade, todas as pessoas devem aparecer. Para quê? Ora, para poder ser reconhecidas, para poder compartilhar, aumentar e desenvolver esses talentos. Essa é uma característica central daquele tipo de inteligência tipicamente humana de que falava Humberto Maturana: uma inteligência que cresce e se realiza com a troca, com o jogo ganha-ganha, com a colaboração. Uma inteligência colaborativa.

Se as pessoas abrem mão de fazer isso em prol da projeção de outras pessoas que estão acima delas na estrutura hierárquica, elas estão renunciando, em alguma medida, a exercer suas qualidades propriamente humanas. O diabo é que os funcionários burocráticos e outros empregados ou prestadores de serviços em organizações hierárquicas já introjetaram tão fundo as idéias que sustentam tais práticas, que o hábito, já não diria de servir, mas de ser serviçal, se instalou no andar de baixo da sua consciência e emerge como uma pulsão. Freqüentemente eles se escondem para promover seus superiores, tendo medo, inclusive, de proferir uma opinião própria em uma reunião, escrever um artigo em um blog, dar uma entrevista ou gravar um vídeo para um meio de comunicação. Essas pessoas até se orgulham de habitar a penumbra e se vestir de cinza, adotando a servidão voluntária e, com isso, violando sua própria humanidade ou, no mínimo, deixando de explorá-la e desenvolvê-la como poderiam.

Alguns fazem isso taticamente (e imaginam que estão agindo conscientemente), em troca do emprego ou da contratação. Argumentam que se não obedecerem e fizerem a vontade dos chefes, perderão a remuneração sem a qual não terão como viver. Mas dá no mesmo. Se, para sobreviver, uma pessoa precisa castrar suas potencialidades, então tal sobrevivência não poderá ser digna. Um trabalho que deixe de promover o desenvolvimento humano de quem trabalha não pode ser digno.

Os chefes, por sua vez - como aquele senhor de escravo, escravo do escravo, a que se referia Hegel, em outros termos - também estão aprisionados neste círculo desumanizante. Estão intoxicados pelas ideologias do comando-e-controle e do liderancismo, segundo as quais se não for assim, as coisas não funcionam. De que alguém tem sempre que liderar - quer dizer, deixando a frescura de lado e traduzindo em bom português: mandar nos outros - para que uma ação possa ser realizada a contento. Por isso não se adaptam à cultura e à prática de rede, onde não é possível mandar alguém fazer alguma coisa contra a sua vontade.

É por isso que organizar as coisas em rede distribuída é um desafio tremendo em um mundo ainda infestado, em grande parte, por organizações hierárquicas.

Quando organizações hierárquicas se interessam por redes, quase sempre esse interesse é instrumental. Querem usar as redes para obter alguma coisa que fortaleça os seus objetivos e a manutenção das suas estruturas... hierárquicas! Seus chefes – e isso quando mais ilustrados – acham que usando as "tecnologias de rede" vão conseguir aumentar sua influência, seu poder ou, quem sabe, suas vendas (daí todo esse súbito interesse cretino pelo tal "marketing viral", de resto uma vigarice).

As organizações hierárquicas - em termos do ser coletivo que se forma, diga-se: não, é claro, das pessoas que as integram - não vêem as redes como fim, como uma nova forma de interação propriamente humana ou humanizada pelo social, e sim como meio para alguma coisa não-humana. Sim, organizações hierárquicas de seres humanos geram seres não-humanos. A afirmação é forte, mas não há como dizer de outro modo se quisermos ir ao coração do problema. Entenda-se bem: as pessoas continuarão sendo humanas, mas o ser coletivo que se forma não será, posto que não será 'social' (naquele especialíssimo sentido que Maturana empresta ao termo).

QUEBRANDO O CÍRCULO VICIOSO DO PODER

Em que medida você tem coragem de desobedecer e arcar com as conseqüências? A resposta a essa pergunta define o seu campo de liberdade e de possibilidade.

Dependendo das circunstâncias, desobedecer pode acarretar demissão, reprovação, agressão, perseguição, condenação, prisão, tortura, mutilação e morte. Você não deve se suicidar. Quando não há condições objetivas para desobedecer (ou seja, quando isso colocar em risco a sua vida ou a vida de terceiros, a sua liberdade ou a liberdade de seus semelhantes) você deve avaliar cuidadosamente os riscos e as possibilidades. Mas nunca deve deixar de desobedecer interiormente. O que importa aqui é sua atitude, vamos dizer assim, espiritual, de desobediência. Não se curve, não se abaixe, não se deixe instrumentalizar, não se conforme em ser mandado, não colabore (voluntariamente) com o poder vertical. Desobedecer é, antes de qualquer coisa, resistir.

Quando você resiste ao poder vertical, você estabelece uma sintonia com as grandes correntes de humanização do mundo. Quando você cede, sujeitando-se a alguém ou sujeitando outras pessoas a você (no fundo, dá no mesmo), contribui para desumanizar o mundo e a você mesmo.

O mais importante é: não faça um pacto com a morte. Sim, toda vez que você vende sua alma, sujeitando-se a alguém ou toda vez que você sente um ímpeto de controlar alguém, é sinal de que uma pulsão de morte está irrompendo na sua vida.

Se organizações hierárquicas de seres humanos geram seres não-humanos, ao obedecer voluntariamente aos chefes, enquadrando-se nas dinâmicas dessas organizações, você está, na verdade, subordinando-se a seres não-humanos.

Ordem => hierarquia => disciplina => obediência => +ordem...


Eis é a seqüencia maligna, o círculo vicioso que deve ser quebrado pela saudável desobediência.



Notas e referências

(1) MATURANA, Humberto et all. (2009): Ethical matrix of human habitat (texto enviado pelo autor para uma lista de discussão).

(2) SCHMOOKLER, Andrew (1991): “O reconhecimento de nossa cisão interior” in ZWEIG, Connie e ABRAMS, Jeremiah (orgs.). Ao Encontro da Sombra: o potencial oculto do lado escuro da natureza humana. São Paulo: Cultrix, 1994.

É sempre bom ler aquele instigante livrinho de David Henry Thoreau: A desobediência civil (1849). E, em seguida, ler o ensaio de Hannah Arendt: “Desobediência civil” in Crises da República (1969).

Sobre obediência (e desobediência), é vital ler a obra de Humberto Maturana, em especial os textos: Lenguaje, emociones y etica en el quehacer politico (1988); El sentido de lo humano (1991); Amor y Juego: fundamentos olvidados de lo humano – desde el Patriarcado a la Democracia (com Gerda Verden-Zöller) (1993); e A democracia é uma obra de arte (s./d.).

Sobre o fetiche das organizações é importantíssimo ler o discurso de Jiddu Krishnamurti: A dissolução da Ordem da Estrela (1929).

Sobre democracia em redes altamente distribuídas (ou pluriarquia), pode-se ler os meus livros Alfabetização Democrática (2007) e Escola de Redes: Novas Visões sobre a Sociedade, o Desenvolvimento, a Internet, a Política e o Mundo Glocalizado (2008). Sobre isso vale a pena ler também meu pequeno artigo: “A lógica da abundância” (2009).

Boa parte dessa literatura está disponível para download free na BIBLI.E=R Biblioteca da Escola-de-Redes: http://escoladeredes.ning.com

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Comentário de Augusto de Franco em 23 janeiro 2011 às 5:34
Na coletânea Histórias do Sr. Keuner, que reúne textos de Bertold Brecht escritos entre 1926 e 1956, encontra-se a deliciosa parábola “Se os Tubarões Fossem Homens” (excertos) (*):

Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas do mar, para os peixes pequenos... Naturalmente também haveria escolas nas grandes caixas, nessas aulas os peixinhos aprenderiam como nadar para a guela dos tubarões... Aula principal seria naturalmente a formação moral dos peixinhos. Eles seriam ensinados de que o ato mais grandioso e mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo futuro dos peixinhos. Se encucaria nos peixinhos que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência... Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre si a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros. As guerras seriam conduzidas pelos seus próprios peixinhos. Eles ensinariam os peixinhos que, entre os peixinhos e outros tubarões existem gigantescas diferenças... Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos da outra língua silenciosos, seria condecorado com uma pequena ordem das algas e receberia o título de herói...
Também haveria uma religião ali. Se os tubarões fossem homens, eles ensinariam essa religião. E só na barriga dos tubarões é que começaria verdadeiramente a vida. Ademais, se os tubarões fossem homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos, alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros. Os que fossem um pouquinho maiores poderiam inclusive comer os menores, isso só seria agradável aos tubarões, pois eles mesmos obteriam assim mais constantemente maiores bocados para devorar. E os peixinhos maiores que deteriam os cargos valeriam pela ordem entre os peixinhos para que estes chegassem a ser professores, oficiais, engenheiros da construção de caixas e assim por diante. Curto e grosso, só então haveria civilização no mar, se os tubarões fossem homens.


(*) BRECHT, Bertold (1926-1956). Histórias do Sr. Keuner. São Paulo: Editora 34, 2006.
Comentário de Ana Silva em 18 abril 2010 às 21:07
Nenhuma faculdade ou escola, ou mesmo ensinamentos que a vida me trouxeram ,foram tão profundo quanto essas palavras escritas de uma forma tão real, honesta e concreta.
Acho que devemos realmente repensar quantas vezes dizemos SIM, quando gostariamos de dizer NÃO!
Desobedecer! Também estou certa de que este é o melhor caminho para crescer como ser humano!
Comentário de Sérgio Luis Langer em 1 março 2010 às 13:28
A sociedade que instituiu-se neste século, mediante questionamentos e a difícil aceitação dos confrontos diretos com certos paradigmas existenciais, direcionam o pensamento franco sobre a importância da liberdade consciente ao buscarmos pela razão uma forma de organização das relações diretas entre os homens; considerados os aspectos de dimensionamento do seu poder de transformação como agente que se faz conciso na integridade de um meio no qual inserem-se os seus anseios de desenvolvimento. Para isso, o "comando" deve estar magnificamente associado ao livre arbítrio, onde pela essência do pensamento, redistribuimos o grau de importâncias e associações das necessidades de uma sociedade. A rede social não necessita de fiscais ou patrões, muito pelo contrário, através das vias que rompem com as conformidades das rotinas, inferem-se as possibilidades para que possamos interpretar as confogurações alternativas; porém, complementares ao permitirem a complementariedade na construção de uma sociedade mais justa e equivalente.
As regras não podem tornarem-se limítrofes e condicionantes da imposição dos métodos para que se consiga resultados; muito pelo contrário, o seu conhecimento deve permitir a consideração de que uma postura ética seja determinante ao respeito como diferencial da sua complexidade existencial.
Comentário de Denise Vilardo em 19 fevereiro 2010 às 19:18
Todos deveriam experimentar a sensação de desobedecer.

Costumo dizer que, o difícil mesmo, é ensinar a "desler"... porque sou professora e penso que o melhor que posso fazer por meus alunos e professores é fortalecê-los para aprenderem a dizer NÃO.

Não ao senso comum; não à naturalização do que não é humano; não à cretinice generalizada; não às ordens idiotas; não aos que pensam que são superiores aos outros em qualquer âmbito; não ao não pelo não.

Ao mesmo tempo, equilibrar com os sins que foram postos pra dormir e que precisam ser acordados: sim para as emoções; sim para os "não sei"; sim para o novo; sim para os "eu te amo", eu te ajudo; eu te compreendo, eu compartilho; sim para a ousadia de dizer não.

Um grande abraço a todos
Comentário de Edson Pavoni em 19 fevereiro 2010 às 11:54
Bom dia amigos,

Confesso que fiquei muito surpreso/contente em ver nossa experiência em NY fazer parte de uma discussão tão consistente e contemporânea sobre o ser humano e suas relações sociais.
Somos uma empresa muito jovem, feita por jovens e neste sentido temos a vantagem de ter menos forças tentando nos fazer obedecer aos pilares pré estabelecidos das relações entre as pessoas no trabalho.

Se alguém se interessar um pouco mais sobre a viagem, seus motivos, conceitos e resultados recomendo darem uma olhada nestes posts do nosso blog:

Porque?
NYC Breakfast
Video e Links para imagens

Acabei de chegar no ER, já conhecia a idéia por cima e acompanhava as provocações do Augusto de Franco via Twitter. Vou dar uma olhada com mais tempo nos artigos e tentar participar com mais frequência das discussões.
Um grande abraço.
Comentário de Bosco Carvalho em 19 fevereiro 2010 às 7:47
Bom dia amigos da ER,

obrigado pela manisfestação de apreço pelo artigo do Jordão.
O convite ao pessoal da D3 e o Jordão da BIZREVOLUTION foram convidados.

Luciano, ter autorrespeito cria dificuldades para quem tem este tipo de atitude.
Em alguns casos, é confundido com arrogância e superoridade.
Quem se destaca da massa inconsciente e meramente 'operativa' sofre também um certo tipo de isolamento.
A atitude grupista de uma grande maioria de tupiniquins é contra 'picos', sejam eles de auto conhecimento ou de amor próprio.
Comentário de Luciano Palma em 18 fevereiro 2010 às 16:21
Que bom ler comentários que reforçam a esperança em crer que existem seres humanos que NÃO se comportam como Lemmings. Obrigado Augusto, Bosco, Angela e demais amigos!
E não estou dizendo que a maioria se comporta como Lemmings porque seguem os auto-proclamados "líderes" não! O Bosco deixou claro que tais "líderes" são - absoluta e exemplarmente - Lemmings!
Confesso que já acreditei que a "falta de liderança" era um grande problema da sociedade.
Hoje estou convencido que não. Falta mesmo é uma causa. Falta auto-respeito. Falta as pessoas levantarem a cabeça e pensarem: "O que eu quero dessa minha vida, que uma hora acaba e eu não vivi?". E falta coragem para responderem e agirem conforme a resposta.
O pessoal aqui está fazendo sua parte. Você que está de passagem, aproveite e dê uma paradinha. Reflita. Pense. Aja. Conecte-se!
Comentário de Clara Pelaez Alvarez em 18 fevereiro 2010 às 10:09
Bosco, adorei também!
Obrigada por compartilhar!
Comentário de Augusto de Franco em 18 fevereiro 2010 às 7:17
Oi Bosco. Muito legal o artigo! Se você puder, convide o Ricardo Jordão e alguém da D3 (o Edson ou o João) para participarem da #CIRS. Seria um excelente case para, pelo menos, três dos temas já inseridos no Open Space. E para mais coisas ainda. Abraços.
Comentário de Bosco Carvalho em 18 fevereiro 2010 às 3:03
O Ricardo Jordão escreveu e eu apresento aqui:

Ninguém se importa como o dono se importa.


Todo empresário diz a mesma coisa, "Ninguém se importa com a empresa como o dono se importa. Ninguém trabalha duro como o dono trabalha. Tome cuidado! As pessoas vão roubar a empresa. As pessoas vão dar para trás quando a empresa mais precisar. ". Eu quero provar que essas pessoas estão erradas. Eu quero criar uma empresa onde todos trabalham duro e se importam com a empresa; onde as pessoas se sentem a vontade em trabalhar; e não se sentem motivadas a roubar ou faltar. Se eu não puder ter esse tipo de empresa, eu não quero ter empresa nenhuma.

Querida(o) Amiga(o),

Ninguém se importa como o Dono se importa porque o Dono não deixa todos se importarem como ele se importa.

Você já viu como uma mãe de primeira viagem trata a divisão entre o stress da carreira e a preocupação com os filhos? Ela simplesmente não consegue separar as coisas. Ela reclama da falta de envolvimento do maridão, da babá e da vovó no cuidado com os seus filhos , mas ela também não consegue delegar o simples ato de escolher a roupa dos filhos.

Quando a mãe de primeira viagem se sentir confortável ao ver os filhos usando roupas que ela não escolheu, ela terá superado um grande obstáculo em sua vida.

O mesmo acontece com o empreendedor.

Todas as escolas convencionais dizem que administração é sobre planejar, organizar, executar e controlar as coisas. As escolas dizem que se você fizer bem essas funções você terá uma grande empresa.

Bullshit!

Quando você reune os seus diretores para PLANEJAR o futuro da empresa, os funcionários passam a acreditar que não tem que planejar nada, o chefe vai planejar tudo para eles.

Quando você reune os seus funcionários para uma reunião onde todos tem que dizer o que cada um está fazendo, você está dizendo a todos que não confia em ninguém. Você está dizendo que o seu trabalho é CONTROLAR a empresa porque acredita que eles não são ORGANIZADOS o suficiente para EXECUTAR o que tem que ser feito.

Se você quer ter uma empresa onde todos se importam como o dono se importa, você precisa rasgar todos os manuais de administração que você conhece. Nenhum deles ensina como construir uma cultura matadora em uma empresa, muito menos como conscientizar os funcionários sobre o que tem que ser feito, ou treiná-los a lidar com autonomia, ou atrair as melhores pessoas. Todos os manuais de administração estão desatualizados, bem como seus professores e escolas. Pule fora imediatamente!

Antes que você comece a me xingar, olhe o quanto as seguintes afirmações parecem estúpidas, burras e imbecis:

"Eu quero controlar a minha empresa!", Você quer controlar a sua empresa? O que você quer controlar? Você quer controlar as pessoas? Você quer controlar o horário que elas chegam, o que elas fazem e como fazem? Tá brincando! Você quer controlar os clientes e fornecedores? Você só pode ter fumado alguma coisa! Você quer controlar o futuro, o clima e a vida das pessoas? Bebeu todas! Só imbecil vai trabalhar para alguém assim.

Você não consegue nem fazer os seus funcionários trabalharem por livre e espontânea vontade durante esse pseudo-feriado chamado Carnaval mesmo tendo toneladas de trabalho para fazer, e você ainda quer controlar alguma coisa? Você acha mesmo que essa falta de comprometimento é consequência da falta de controle sobre as pessoas?

"Eu quero organizar a minha empresa!", O que você pensa que vai conseguir organizar?? O departamento de Organização e Métodos foi enterrado, morto e sepultado duas décadas atrás por falta de quórum. Nem as máquinas você consegue organizar, quanto mais os seres humanos e suas emoções inesperadas. Você quer organizar o processo de vendas? Hahahaha. Você quer organizar o processo de marketing? Hahaha. Você quer organizar o processo de contratar pessoas? Hahaha, somente a Catho está com 180 mil vagas de trabalho abertas e não preenchidas.

"Eu quero planejar a minha empresa!", Tá zoando comigo? Você realmenta acredita que 150 pessoas vão seguir um plano de 20 páginas feito no final de semana pelos diretores e seus smartphones? Seja sincero! Você mesmo sabe que não consegue seguir plano nenhum. O que a turma consegue mesmo seguir é o chicote da planilha eletrônica com as metas que ninguém sabe ao certo como consegue atingir. Só o Padre Cícero sabe como.

"Eu quero executar tudo que foi combinado na minha empresa!", Agora você só pode ter ficado maluco. Você realmente acha que vai rolar? Não rola nem aí e nem aqui. A nossa cabeça é muito mais produtiva que os nossos braços. Papel aceita qualquer coisa. A realidade é diferente. Leva 20 anos para um grande sonho virar realidade; quanto mais a "idéia da semana" .

Quem aqui não conhece alguma empresa que é movida pela "idéia da semana"? O diretor lê na Revista Exame que o Zé Mané tá fazendo Twitter, e manda a empresa inteira implementar o Twitter em 5 dias.

Só tem maluco!

Rasga tudo!!!

Vamos rebutar a "argh" Administração!

Em novembro de 2009, uma pequena grande empresa de São Caetano do Sul em São Paulo rebutou tudo que você conhece sobre administração de pessoas e empresas.

Você está pronto para conhecer uma das idéias mais malucas que você já ouviu na vida? Uma idéia fascinante que você JAMAIS irá ouvir da boca de um teórico da administração que acredita em planejar, controlar, executar e organizar.

Então lá vai.

Em Novembro de 2009, Edson Pavoni e João Marcos de Souza, os dois sócios da pequena grande D3 Estúdio de Mídia Interativa, resolveram fechar o escritório da empresa em São Caetano do Sul em São Paulo e transferir tudo que eles tinham aqui + todos os funcionários com todas as despesas pagas para um apartamento no Harlem em Nova Iorque. Durante os 30 dias de Novembro, eles conviveram juntos, trabalharam juntos, experimentaram grandes sensações em Nova Iorque sem qualquer queda no rendimento do trabalho, pelo contrário.

O experimento tinha alguns objetivos: (1) provar a todos que é possível trabalhar de qualquer lugar no planeta sem qualquer tipo de organização e métodos, (2) proporcionar a equipe de profissionais uma experiência de vida única sem qualquer tipo de pré-controle sobre suas vidas, (3) estabelecer novos contatos e networking com a gringolândia sem qualquer tipo de planejamento prévio sobre onde poderiam chegar com tais parcerias, (4) aproximar o trabalho da agência do trabalho desenvolvido nos EUA sem qualquer tipo de paranóia sobre execução.

Eles atingiram todos esses objetivos.

A experiência deu tão certo que eles já soltaram um desafio público para toda a comunidade que seguem os seus trabalhos: "Para onde vocês querem que a D3 se mude em 2010?".

Que tipo de cultura empresarial você pensa que o Edson e o João estão conseguindo criar em uma empresa que realiza tamanho empreendimento?

Quem não gostaria de trabalhar em uma empresa que leva os seus funcionários para Nova Iorque por 30 dias para se entretar e trabalhar?

Quem não confiaria na visão de negócios dos líderes de uma empresa como essa?

Quem não se sentiria orgulhoso de fazer parte da equipe da D3 que foi para Nova Iorque e agora tem dezenas de belas histórias para contar para os novos funcionários que estão chegando?

Todos os funcionários que viveram essa experiência serão eternamente gratos ao Edson e ao João pela oportunidade. Todos estão trabalhando duro como o Edson e o João trabalham. Todos se sentem em dívida, todos se sentem parte do sonho dos caras, todos se sentem reconhecidos, todos sentem que tem a oportunidade profissional de suas vidas nas mãos e não podem perdê-la.

A D3 é diferente em tudo. A começar pelo nome. D3 significa Deus elevado a terceira potência: Pai, Filho e Espírito Santo. Edson e João são cristãos de carteirinha, e procuram aplicar nos negócios e nas pessoas que se relacionam com eles tudo que acreditam sobre como tratar os outros como gostariam de ser tratados. Você já viu algum consultor convencional de administração recomendar a um empresário que ele misture suas crenças com os negócios? Eu imagino que não.

Tá todo mundo obsoleto!

As "doideras" da D3 não param por aí.

O trabalho dos caras é ajudar as empresas a criar web sites fantásticos que levem os seus visitantes a terem uma experiência web que nunca tiveram antes. Como você pode imaginar, com tantos web sites pipocando por aí, a realização de tal feito é meio difícil. A começar pela dificuldade de encontrar material humano capaz de criar maluquices fantásticas na web. Falta mãos e cérebros para realizar tal obra.

Como a D3 resolveu esse problema?

Baseada no princípio que diz "Não é possível ser bem sucedido em um país que não é bem sucedido", a D3 criou a D3 Academy.

O que é a D3 Academy?

O D3 Academy é um estágio & treinamento onde os caras bancam três meses de aprendizado para os candidatos a funcionários. Durante 90 dias o cidadão aprende a ser um animador que programa e um hard coder avançado. Ao final do período, se o cara foi bem, se a turma da D3 gostou do cara, o treinando tem a chance de ser efetivado como funcionário.

A D3 não é uma grande empresa. Eles não tem dinheiro saindo pelo ladrão. O D3 Academy e os 30 dias em Nova Iorque são iniciativas tradicionalmente acessíveis apenas para as grandes empresas. Entretanto, a D3 prefere investir nas pessoas e em um método não convencional de administrar a empresa ao invés de investir em controles, organizações, planejamentos mil e execuções descabeladas.

Quem não gostaria de trabalhar em uma empresa que paga para te atualizar sobre técnicas avançadas que te farão necessário e útil no século 21?

Quem não gostaria de trabalhar em uma empresa que pensa na evolução da comunidade e não apenas na evolução do próprio umbigo?

Aposto que você gostaria.

Aposto que você trabalharia por livre e espontânea durante o feriado de Carnaval se encontrasse um lugar assim.

É ou não é?

NADA MENOS QUE ISSO INTERESSA.

QUEBRA TUDO! Foi para isso que eu vim! E Você?

QUEBRA TUDO! Foi para isso que eu vim! E Você?
Ricardo Jordão Magalhães
30 dias em Nova Iorque, NADA MENOS QUE ISSO INTERESSA.
E-Mail e Messenger: ricardom@bizrevolution.com.br
Twitter twitter.com/bizrevolution
Linkedin http://www.linkedin.com/in/ricardojordao
www.bizrevolution.com.br
BIZREVOLUTION

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