Escola de Redes

Talvez tenha passe despercebido um post de Carlos Boyle na página original da Escola-de-Redes por ser um texto em espanhol com um vídeo em inglês (não dá pra medir o ibope do post, já que não há um sistema de comentários lá - aliás, que confuso esse sistema de duas páginas! Na minha opinião deviam todos migrar pra cá que é bem melhor...). Mas trata-se de uma pesquisa altamente relevante para nós que nos interessamos pela dinâmica de funcionamento de organizações em rede.

Trocando em miúdos, as conclusões a que chegou a Dra. Deborah Gordon sobre estas sociedades altamente sustentáveis são surpreendentes. Primeiro de que, definitivamente, não existe nenhum formigueiro com controle central. Nenhuma formiga, em nenhum momento, é capaz de ter uma idéia da situação geral do formigueiro. E mesmo que elas tivessem capacidade intelectual para isso, seria um desperdício de energia, já que seu sistema funciona com eficácia há milhões de anos, em todos os ambientes do planeta, apesar de cada formiga contar apenas com uma capacidade minúscula de processamento de informações. Não há nenhuma formiga dizendo à outra o que fazer (a rainha não passa de uma reserva genética reprodutora de formigas, condenada a colocar ovos a vida inteira metida em um buraco profundo, sem contato com o mundo exterior), e apesar de não haver diferenciação entre os indivíduos (à exceção dos reprodutores), elas são competentíssimas em assumir diferentes funções na cadeia produtiva do formigueiro e fazê-lo funcionar, e mesmo em mudar de função quando necessário para dar uma resposta coletiva a uma variação do ambiente externo. Tudo isso sem nenhum tipo de gerência ou governo. Sim, o formigueiro do seu quintal é uma sociedade em rede, e das mais avançadas!

Desprovidas de internet, a comunicação das formigas se dá pelo hábito de "cheirar" umas às outras, sempre que se encontram. Por este canal trafegam informações muito simples: quem é você, o que você está fazendo, de onde veio, pra onde vai? É mantendo contato constante com muitas de suas companheiras que cada formiga recolhe as informações de que precisa para decidir sobre suas ações. Das múltiplas interações entre milhares de indivíduos emerge uma inteligência coletiva capaz de determinar e alcançar objetivos tão complexos quanto construir uma nova cidade e mudar para lá toda a população da antiga, que é o que elas fazem quando resolvem se livrar de um formigueiro infestado ou em situação de risco.

Também é interessante notar que o sistema das formigas não é tão eficiente quanto nós costumamos pensar. Em qualquer momento, por exemplo, metade das formigas que estão dentro do formigueiro estão aparentemente ociosas. Muita energia é gasta fazendo coisas que, no fim das contas, não dão em nada. Parece que há um processo de tentativa e erro em curso constante, que de fato resulta em muitos erros, mas cujo prejuízo não compromete o sucesso do todo. Pode ser extraído daí um paralelo interessante com os nossos próprios sistemas em rede: ao serem apresentadas a uma iniciativa que siga mais ou menos este padrão, a maioria das pessoas tende a associar a ausência de um controle central a uma deficiência no estabelecimento de objetivos e na capacidade de atingí-los. Vocês notam o mesmo? Percebo que reside aí um forte argumento usado em favor de sistemas de controle, que é de difícil dissuação. Um bom exemplo:

Sou arquiteto e estou iniciando um negócio na área com colegas (há um ano e meio, e ainda iniciando...). Na tentativa de disseminação da idéia da empresa-rede, estou sistematicamente enviando inputs aos meus sócios sobre o assunto. Recentemente entabulei um debate sobre redes com o mais politizado deles. Tratando-se de um autodidata sagaz e versado em muitos temas, ele rapidamente compreendeu o conceito. Sendo filho de um intelectual de esquerda, da geração do Augusto de Franco, ele também podia dar exemplos em primeira mão de movimentos de resistência à ditadura que funcionavam exatamente em padrão de rede, já que era (e ainda é, vide Al Qaeda) a estrutura organizacional que melhor resiste à pressão de um inimigo poderoso. Pois bem, ocorre que, pela sua tese, o mesmo padrão que tornou estes movimentos resistentes, contribuiu para a sua incapacidade de convergir em torno de um objetivo claro, e daí para o seu enfraquecimento. Segundo esse meu sócio, os movimentos da mesma época que eram mais centralizados - e mesmo assim lograram sobreviver - é que formaram a base dos nossos atuais partidos de esquerda, enquanto que as organizações-rede perderam sua influência.

Diante da defesa declarada de uma rede com mais centralidades como superior em termos de objetivação (ele chegou a indicar o diagrama de rede descentralizada, o do meio no diagrama de Baran, como sendo o ideal), me dei por vencido. Restou a pulga atrás da orelha, que voltou a picar quando vi as conclusões sobre formigas da Dra. Gordon. Afinal, redes distribuídas são mesmo capazes de definir e alcançar objetivos? Como, e em que nível? Nos falta uma compreensão maior do que venha a ser um objetivo no contexto de uma rede? O que atrasou os movimentos democráticos dos anos 60 na perseguição dos seus objetivos (pelo menos até agora)?

Eu apreciaria muitíssimo outras opiniões e perspectivas sobre o tema. Alguém se habilita?

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Comentário de Célia Schlithler em 1 dezembro 2008 às 15:09
Pois é, cada vez mais estou achando possível as redes serem aplicáveis até às estruturas supostamente hierárquicas, graças a pessoas como você! Que bom, né?
Alguns autores que analisam instituições, como Jose Bleger, falam de dois tipos de instituições: aquelas em que tudo é muito instituído e inflexível (que têm o estatuto gravado na pedra) e as que tem um "movimento instituinte", como parece ser seu escritório, em que há acordos e políticas, mas eles vão sendo revistos e decididos de maneira democrática. Não ter burocracia é isso. Sartre dizia que quanto mais ditatorial for uma sociedade, mais burocrática ela é, porque a burocracia impede o acesso aos direitos (sempre falta um papel, um carimbo...).
Já a hierarquia, em minha opinião, é o poder de uns sobre os outros. Se há "funções específicas e determinadas de forma coletiva", como você diz, a estrutura é mais semelhante a de uma rede. A grande diferença nas redes é que ninguém tem o poder de demitir alguém, o que leva a um tipo de comprometimento diferente. Mas é possível haver co-responsabilidade em uma empresa, se os sócios imprimirem uma gestão inovadora e participativa.
Quanto à grupalização, é um processo de passagem de "agrupamento" para "grupo". Vou colocar um texto sobre isso em minha página.
Se você tiver um tempinho, leia o texto sobre Gestão de Redes que postei, acho que ele explica um pouco melhor. Até mais!
Comentário de João Pedro Torres em 1 dezembro 2008 às 13:03
"As redes são sistemas abertos, sem nenhuma hierarquia e burocracia. Dá para uma empresa ser assim?"

Pois então, essa é a grande questão, pelo menos no caso de nosso pequeno escritório. Eu acho que, em grande parte, já funcionamos como rede, até mesmo porque é o padrão natural... O que acontece é que à medida em que começamos a ter uma atividade econômica mais intensa e há um envolvimento maior da pessoas, e conseqüentemente também aumenta a expectativa geral, começam a surgir manifestações no sentido de organizar a coisa toda. Por isso achei curioso você falar em gestão "pouco instituída". Quando falamos "burocracia" a idéia tende a ser negativa, mas parece que o conceito é variável: o que para mim é uma forma de comunicação e registro para outra pessoa pode parece muito burocrático. Aqui no escritório chegamos a um consenso de que "alguma" burocracia é necessária e tolerável. Um exemplo:
O procedimento de "marcar o ponto", a hora de entrada e saída de um trabalho, é tido como uma das piores formas de controle burocrático. Pois bem, aqui convencionamos que os rendimentos de uma pessoa seriam diretamente proporcionais ao tempo que ela gastou em um projeto. Dentro da nossa prática que arquitetura, isso faz sentido, mais horas de trabalho em um projeto significa maior participação, e o trabalho nas diversas etapas de um projeto tem o mesmo valor do ponto de vista do produto final. Daí estabelecemos um sistema para cada um anotar suas horas de entrada e saída de cada trabalho, o que com alguma prática se tornou um hábito. Sem maiores conflitos, até o momento.
Me parece possível uma rede tirar proveito de sistemas de registro e padronização tais como esse, operando em função da rede, ao invés de as pessoas operarem em função do sistema. O que não consigo determinar é em que ponto o modelo hierárquico se sobrepõe ao de "formigas" com funções específicas flexíveis e determinadas de forma coletiva. Que tipo de métodos uma rede pode usar para otimizar e ampliar sua atuação?
Fiquei curioso: o que seria a "grupalização" das redes?
Comentário de Célia Schlithler em 26 novembro 2008 às 17:51
Gostei de seus comentários! Vamos aos meus: embora as redes não sejam nenhuma novidade na natureza, elas são, em minha opinião, muito inovadoras como forma de organização de pessoas. Como diz o Augusto de Franco, elas são a mudança.
Estudo e trabalho com a formação de redes comunitárias há mais de 10 anos e o maior desafio é justamente facilitar o processo de aprendizagem deste "novo", porque os modelos mentais, as matrizes de aprendizagem, de todos nós são outras. Conhecemos bem as organizações piramidais, ainda que algumas sejam mais hierárquicas do que outras e os movimentos sociais, que embora mais informais e menos institucionalizados, também podem ser bastante hierárquicos.
Na década de 60 eu ainda era uma criancinha, mas no final dos anos 70 eu estava terminando o curso de Serviço Social na PUC-SP e a coisa lá fervia (eu estava lá quando ela foi invadida pela polícia e o que vi foi muuuito triste). Pois bem, o movimento estudantil estava muito ativo, mas não acho que ele se configurava como uma rede, sobretudo porque os processos decisórios eram na base da votação, quase sempre com muita disputa para "ganhar". Sim, porque votar já era bom demais! Não tínhamos noção de poderia haver uma democracia participativa, pois ainda estávamos lutando pela democracia representativa.
Sempre comento com as redes com quem trabalho que minha geração queria acreditar que com o fim da ditadura todo mundo sairia por aí participando. No entanto, vejo que até hoje muita gente não sabe o que é participar, tanto que usamos o termo "participação ativa" para expressar melhor uma participação que vai além do estar presente.
Os modelos que a maioria tem são dois: a organização instituída e piramidal, ou os movimentos e fóruns em que um grupo se organiza para reivindicar ou exigir de outros. Mas as redes são outro tipo de organização: nelas todos são convidados a debater juntos e a decidir coletivamennte o que fazer - o processo de construção de objetivos pode ser mais demorado, mas é compartilhado, dinâmico, flexível e, o que é mais bacana nesta história, gera co-responsabilidade na hora de agir!
Estou falando do que acompanho em meu dia-a-dia: vejo pessoas que trabalham em OSCs tomando decisões em conjunto com pessoas que trabalham no governo ou em empresas. Para isso acontecer, defendo que é preciso investir na "grupalização" das redes (mas essa é outra história).
Quanto a sua empresa-rede, este é um assunto que me interessa muito discutir, assim como as OSCs-rede. Acho perfeitamente possível uma empresa ou uma OSC ter uma gestão horizontalizada e pouco instituída, o que já é maravilhoso. Mas será que isso é ser uma rede? As redes são sistemas abertos, sem nenhuma hierarquia e burocracia. Dá para uma empresa ser assim? O que você, e quem mais quiser opinar, me diz?

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