Escola de Redes

Critérios em evolução de pequenas empresas em programa da FAPESP

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18/6/2010

Por Fábio de Castro


Agência FAPESP – A elaboração de um projeto científico e tecnológico inovador de alta qualidade não é a única condição para a obtenção de auxílio no Programa FAPESP Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE).


Para que a proposta seja bem-sucedida, é preciso também demonstrar excelência em aspectos que não têm relação direta com a pesquisa, como o arranjo institucional, o planejamento orçamentário, o entrosamento da equipe e a organização da documentação.


Esses e outros tópicos foram discutidos durante uma reunião técnica sobre o PIPE realizada na última quarta-feira (16/6), na sede da FAPESP, e voltada para as empresas que apresentaram ou têm interesse em apresentar projetos ao programa.


De acordo com João Furtado, coordenador adjunto de Pesquisa para Inovação da FAPESP e professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), o evento teve o objetivo de esclarecer dúvidas antes do dia 1º de julho, fim do prazo para apresentar propostas para o segundo ciclo de análise do programa em 2010.


“Quisemos oferecer aos interessados na submissão de propostas ao PIPE uma oportunidade de esclarecimentos, ajudando a preparar propostas mais robustas, que possam ser avaliadas de modo mais efetivo. A reunião também foi importante para colher impressões dos representantes da empresa e do pessoal interno envolvido com o programa”, disse à Agência FAPESP.


Segundo Furtado, a reunião serviu para mostrar à comunidade que a FAPESP vem tornando a avaliação dos projetos gradualmente mais rigorosa, com base na experiência acumulada desde a criação do PIPE, em 1997.


“Queremos que a comunidade saiba que a cobrança da Fundação é feita em duas dimensões. Uma delas é a qualidade do projeto científico e tecnológico. A outra é o arranjo institucional da empresa, envolvendo contratos entre sócios, pesquisadores, equipe de pesquisa, universidades, prestadores de serviço, consultores e a relação com a própria FAPESP. Tudo isso é tão importante como a excelência científica”, explicou.


O planejamento orçamentário e a dedicação à organização da documentação também são aspectos que precisam ser tão valorizados como a dedicação à pesquisa.


“As empresas têm recursos limitados e isso dificulta enormemente o cumprimento de um conjunto de exigências e formalidades. Percebemos que as empresas têm dificuldade para planejar as outras dimensões que vão além da pesquisa tecnológica, como montar uma equipe de venda e planejar a produção, por exemplo. O arranjo institucional precisa ser muito bem montado para que a empresa possa dar conta dessas outras dimensões”, destacou.


O PIPE garante o auxílio à empresa no âmbito científico e tecnológico, segundo Furtado, mas elas precisam encontrar meios para obter sucesso nas demais dimensões empresariais e, nesse terreno, costumam encontrar um ambiente altamente inóspito.


“Não basta que a empresa tenha boas ideias tecnológicas. Ela precisa de um conjunto de outros elementos que, somados e articulados de forma coerente, sejam capazes de produzir um bom resultado empresarial”, disse.


Furtado comentou que a FAPESP, durante certo tempo, foi flexível com determinadas exigências, porque reconhecia as dificuldades encontradas pelas empresas de base tecnológica no inóspito ambiente brasileiro.


“No entanto, à medida que o PIPE avançou, a experiência permitiu que firmássemos uma jurisprudência e os critérios se tornaram mais rígidos. Vimos que não compensava sermos tolerantes com os imbróglios e o programa se tornou mais seletivo”, disse.


Um dos fatores para o qual a tolerância foi reduzida, por exemplo, é a necessidade de dedicação intensa ao projeto. Segundo Furtado, o pesquisador principal deve ser vinculado à empresa e sua atividade principal deve ser o projeto.


“Achamos que um projeto tecnológico é algo tão desafiador que exige do pesquisador uma dedicação elevadíssima, de preferência integral. Não tivemos boas experiências com a tolerância nesse quesito. Nunca fomos permissivos, mas testamos várias modalidades para aprender. Avaliando os resultados, estamos convencidos de que a dedicação integral e muito intensa é um critério importante de sucesso para os projetos”, afirmou.


Outro critério de sucesso relevante é que a empresa tenha feito um investimento prévio de capacitação intelectual e tecnológica. “Esse investimento deve ser capaz de fazer convergir as competências do pesquisador responsável pelo projeto às competências complementares de outros pesquisadores”, disse.

Furtado cita ainda como critério de sucesso os fatores conhecidos, na linguagem técnica, como ativos complementares. “Além dos ativos tecnológicos, existem os ativos complementares, que vão da imagem da empresa à rede de comercialização, passando pelo ambiente da propriedade intelectual e a articulação das parcerias. Tudo isso é essencial”, indicou.


Outro fator fundamental para o sucesso consiste em ter assimilado o ambiente econômico e social em que a inovação será introduzida. “É muito diferente introduzir uma inovação no setor de informática e no setor de alimentos, por exemplo. Trabalhar com um mercado concentrado ou pulverizado também requer estratégias diferenciadas. Saber como a inovação vai influenciar o ambiente e ser influenciada por ele é fundamental. Mas o PIPE não financia itens como pesquisa de mercado e análise de concorrência. Para isso, a empresa precisa procurar outros parceiros”, explicou.


Pesquisa consolidada



Durante a reunião técnica, Furtado esclareceu que eventualmente aparecem nos projetos itens orçamentários que não se enquadram nos critérios do PIPE. “O estatuto da FAPESP determina que a Fundação não pode fazer outra coisa que não seja apoiar pesquisa. Se o projeto inclui itens que não se enquadram, ele não passa. Não porque não queremos, mas porque não podemos”, disse.

Alguns projetos são excluídos por falta de adequação à proposta do PIPE. A pesquisa precisa necessariamente ter relação com a aquisição de novos conhecimentos. “Não se enquadram projetos para aplicar conhecimentos existentes. O projeto precisa envolver um desafio que será superado pela criação de conhecimento original”, disse.


Outro equívoco comum nos primeiros anos do PIPE é a confusão entre atuação na empresa e na instituição de pesquisa. “O objetivo é não apenas consolidar a pesquisa da empresa, mas na empresa. É preciso criar condições para fazer pesquisa na empresa, por isso é preciso que alguém tenha a missão de pensar exclusivamente na pesquisa na empresa”, disse.


“O objetivo é que, no fim do processo, tenhamos uma empresa com capacidade de pensar mais projetos. Não queremos apenas que a empresa tenha resultados com um produto ou processo inovador, mas que crie uma estrutura inteligente de pesquisa”, completou.


Outro aspecto levantado durante a reunião é que o PIPE não se limita a tentar resolver um problema rotineiro de pesquisa, mas tem a missão de ajudar a empresa a desenvolver soluções para problemas muito complexos.

“Não se justifica o investimento de recursos públicos em projetos de engenharia rotineira. O dinheiro público só se justifica quando se trata de um projeto que tenha grandes oportunidades envolvidas, mas que pode dar errado e que, por isso, não seria levado adiante com investimento da própria empresa”, disse Furtado.


O PIPE se destina a apoiar a execução de pesquisa científica e/ou tecnológica em pequenas empresas sediadas no Estado de São Paulo. Os projetos de pesquisa selecionados para apoio no PIPE deverão ser desenvolvidos por pesquisadores que tenham vínculo empregatício com pequenas empresas ou que estejam associados a elas para sua realização.


As propostas de pesquisa submetidas ao programa devem ser organizadas em três fases: Fase 1 – Análise de Viabilidade Técnico-Científica; Fase 2 – Desenvolvimento da Proposta de Pesquisa; e Fase 3 – Aplicação dos resultados visando à comercialização do produto ou processo que foi objeto da inovação criada a partir da pesquisa apoiada na Fase 1 e/ou Fase 2.


As propostas de pesquisa para a Fase 1 ou Fase 2 Direta do PIPE são avaliadas em lotes, três vezes ao ano. A proposta de pesquisa deve ser encaminhada à FAPESP pelo pesquisador responsável. A proposta deve ser endossada pela pequena empresa que o sedia.


Mais informações sobre o PIPE: www.fapesp.br/pipe
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