Escola de Redes

Os entusiastas em educação normalmente vibram com os vídeos que mostram algumas fichas caídas sobre a nossa educação atual — os vídeos no youtube do Ken Robinson sobre criatividade e paradigma da educação são vistos como quebras do modelo de pensar atual. Acabei de ver um trailer de fime muito interessante — “Race to Nowhere” — Corrida para Lugar Nenhum — vejam:

 

 

O começo mostra como é hoje — um sistema que conhecemos e apesar de não gostar, ainda não sabemos como substituí-lo de maneira completa e sistemática. Ter consciência de que é uma corrida a lugar nenhum é realmente um passo, mas o que me impressiona é o final — a mesma crítica que eu fiz ao vídeo do Ken Robinson. Lá, percebendo que a definição de sucesso que as crianças tem que engolir hoje não faz sentido, a proposta implícita é a de um bando de experts em crianças e educação definirem o sucesso que elas terão que engolir daqui para frente.

Claro que o filme será legal — e com certeza vai valer a pena assistir. Só acho que ele tem grande chance de ser ótimo em mostrar o nonsense da educação atual e no entanto ser bem fraco em mostrar um caminho além do trocar seis por meia dúzia, de vender um tipo de pressão por outra.

Essa segunda parte vem de umas poucas frases copiadas abaixo que me fizeram pensar que a turma ainda não entendeu que não é por aí:

“Nós precisamos redefinir o que é sucesso para as nossas crianças” — ah, deixem as crianças em paz para definirem o que é sucesso para elas, qualquer outra coisa é receita para decepcionar-se no futuro — aos pais mais preocupados eu digo o que acho: elas terão a capacidade de começar orat race se elas quiserem, só talvez não sejam o/a virtuoso/a com dez mil horas de matemática como você gostaria que fossem.

“Os empregos exigem que você saiba pensar criticamente…” — isso cai na mesma idéia do vídeo de paradigmas do Ken que eu já comentei.

“Precisamos realmente pensar o que é necessário para produzir [formar] pessoas felizes, motivadas e criativas.” — Ué, mas as crianças já não são felizes e criativas sem essa tal produção?

Não duvido que o filme vai fazer muito sentido e será bem-vindo. Estou me esforçando para deixar para lá a idéia de que muita gente vai achar revolucionário. Paciência.

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Comentário de Mário Salimon em 27 fevereiro 2011 às 7:46
Cada dia que passa penso mais fortemente que estamos destruindo o presente em função da preparação para um futuro muito difícil de se antecipar. Ao destruir o presente, é lógico, estamos ferrando com o futuro também.
Comentário de Augusto de Franco em 21 fevereiro 2011 às 14:18
Acho que é - formal e recorrentemente - a mesma conversação que já mantivemos aqui ao discutir hierarquia (inúmeras vezes). Como se alguém dissesse: há uma hierarquia boa e outra ruim. Há um sucesso bom e outro ruim. Mas como o próprio conceito de hierarquia refere-se sempre a um hieros + arché, a um poder sagrado = separado (i. e., em termos de rede: uma centralização que separa), o conceito de sucesso também evoca uma separação da comunidade. Quem fez sucesso é quem se separou do emaranhado onde existia como pessoa, quer dizer, onde vivia sua convivência. Daí os problemas psicológicos que assaltam, frequentemente, os que fazem sucesso (nos casos extremos os famosos, as chamadas celebridades) e temos um vídeo aqui na E=R de um "famoso" (hehe) psicanalista do Rio de Janeiro comentando isso (esqueci o nome agora, talvez significativamente, porquanto não dou muita bola para o sucesso). Quando você se afasta daquela Entidade (com 'E' maiúsculo) de que falava Jane Jacobs (1961) no Morte e Vida das Cidades Americanas, sem a qual você não existe propriamente como pessoa, algumas coisas desumanizantes começam a acontecer.
Comentário de Nilton Lessa em 21 fevereiro 2011 às 14:11

"Só tomo o cuidado para não demonizar "sucesso" porque para mim eles são e devem ser muitos-assim podem servir bem a todos que escolherem defini-lo." 

Isto aí, bacana.

 

E acho que concordo com uma versão mais genérica dela: "cuidado para não demonizar X porque  eles são e devem ser muitos-assim podem servir bem a todos que escolherem defini-lo." , onde X varia numa { lista bastante grande de palavras}


Abs.

Comentário de Augusto Cuginotti em 21 fevereiro 2011 às 13:55

Olá Paulo e Nilton,

Muito legal suas considerações - faz todo sentido para mim. Só tomo o cuidado para não demonizar "sucesso" porque para mim eles são e devem ser muitos - assim podem servir bem a todos que escolherem defini-lo.

Comentário de Nilton Lessa em 21 fevereiro 2011 às 13:27

Augusto, Paulo,

Definir sucesso para si mesmo é saudável apenas para quem sente esta necessidade. :-)

O que quis dizer é bem simples:definir "sucesso", mesmo que relativo a algo abstrato ou transcendente, para mim ou para os outros, não me interessa neste momento, nem sinto-me motivado a fazê-lo.

De resto, concordo com as observações de Paulo sobre esta imbricação de conceitos com a ideia mais usual de "sucesso": tem  que ser "mensurável" para que possa ser "administrado"-> "conduzido".

Forte abraço.

 

Comentário de Augusto Cuginotti em 21 fevereiro 2011 às 10:57

Olá Nilton,

Se eu te entendi bem, discordamos um pouco por aí - eu acho que predefinir caminhos é inútil simplesmente porque não é possível pré-denifi-los, mas acredito que definir sucesso para si é bastante saudável - não é um sucesso absoluto que nos é oferecido, mas um que se vai determinando com o tempo. O perigo de cegueira acontece se a pessoa não senta para revisitar a sua própria definição sabendo que o que está a nossa volta sempre muda.

 

Acho que a ideia de sucesso absoluto que o meu xará coloca no texto é realmente desastrosa. Me parece o tipo de sucesso lugar-comum no ocidente. Para este sucesso, Van Gogh e Camões foram uns perdedores na vida - mas se eles não compraram essa ideia de sucesso na época, certamente foram felizes com suas pinturas e seus sonetos.

Comentário de Paulo Ganns @pganns em 21 fevereiro 2011 às 10:46

Nilton e Augusto,

 

Existe um ditado conhecido e batido na administração que diz:

 

"O que não se pode medir, não se pode gerenciar!"

 

Mas essa martelação, também esconde, na minha visão, um outro ensinamento:

 

"Não se deve gerenciar, o que não se pode medir!"

 

Então, mesmo a contragosto de muitos, atualmente, sucesso é totalmente mensurável para que o mesmo seja administrável.

Daí temos, nesse nosso sistema de crenças, as questões que acompanham e vinculam o sucesso: quanto de grana você acumulou, que patrimônio você construiu, qual a relevância do CV , qual foi o ROI da sua empresa, quanto de bônus você recebeu, qual é o seu portfólio, etc, etc, etc!

 

Logo, precisamos ou não redefinir o que é sucesso, para as nossas crianças e também, para nós mesmos?

 

Nessa linha, não seria a crítica que o Augusto fez, uma das redefinições necessárias?

 

[ ]s

 

Paulo Ganns

 

Curiosidade engraçada:

 

No Wikipedia, ninguém se arriscou em definir sucesso tão extensa como os alemães. http://de.wikipedia.org/wiki/Erfolg

Na língua inglesa, o verbete sucesso é quase um tabu (http://en.wikipedia.org/wiki/Success), mas fracasso, comparativamente, até que está bem detalhado!  http://en.wikipedia.org/wiki/Failure

 

Comentário de Nilton Lessa em 21 fevereiro 2011 às 9:18

Pois é, Augusto. Até para nós mesmos, predefinir caminhos é não só inútil, mas muitas vezes nos "cega" para o que está acontecendo a nossa volta.

Paulo, me inclua fora desta. rsrsrs Não estou interessado em definir sucesso nem interessado nestas categorias de "medição".

Aliás, sobre "sucesso" há um texto muito bom do Augusto(de Franco) : "A desastrosa ideia do sucesso".

 

Abraços,

Comentário de Augusto Cuginotti em 21 fevereiro 2011 às 5:16
@Nilton - pois é, predefinir caminho para si mesmo até vai, mas para os outros - principalmente de maneira tão determinante (10 anos de escolarização, por ex) - aí é difícil de explicar.

@Paulo - Minha definição de sucesso muda muito e vai continuar mudando - já foi ter uma bicicleta, passar no vestibular, mudar o mundo... eu acredito que a definição de sucesso absoluto é o medo do adulto aplicado às crianças. Não importa qual seja a definição, desde que ela seja sua.
Comentário de Paulo Ganns @pganns em 20 fevereiro 2011 às 18:56

Caros,

 

Gostaria de saber o que seria "sucesso" no entendimento de ambos?

 

[]s

 

Paulo Ganns

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