Escola de Redes

Muito falamos em sustentabilidade por aqui (encontro em Curitiba, onde estou nesse momento). E o ser humano é mesmo contraditório... Temos que aprender a integrar idéias com ações. Caminhar a fala, como costumam dizer os índios. Esta cena me marcou, e estou compartilhando neste rede. É um alerta, uma reflexão para todos nós.

Essa foto é do "fumódromo" ao ar livre, ao lado de uma das salas principais, a maior, eu acho. Alguém indignado "postou" essa papeleta no jardim de cigarros.


E o jardim era bem florido....

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Comentário de Augusto de Franco em 23 março 2010 às 17:05
Mas esse debate não é sobre o fumo. Nem, a rigor, sobre o lixo ("a coisa certa no lugar errado", como dizia o velho Lutzemberger, que cito de memória).

É sobre a proibição. É sobre a ordem imposta (top down) e sobre o comportamento coletivo (bottom up), mesmo quando tal comportamento possa ser julgado prejudicial (ao ambiente).

E é também - porquanto assim começou - sobre essa nossa mania de achar que devemos dar lições de bom-comportamento aos outros.
Comentário de Deborah Dubner em 20 março 2010 às 14:41
Realmente, deve ter latas de lixo e cinzeiros ao ar livre, para que as pessoas jogem o lixo no lixo. Bituca de cigarro é lixo, assim como latas, etc. No momento em que eu fotografei (acho que era o segundo dia), o cinzeiro estava lá (foto mais abaixo). Não sei em que momento foi colocado. O que eu vi e registrei foi a grama cheia de bitucas e o lixo lá pertinho. Mas em algumas situações, a gente não encontra lixo. Várias vezes andando na praia, eu carreguei uma garrrafinha de água vazia por toda a praia, porque demorei pra achar uma lata de lixo. É muito chato passar por isso mesmo, e com quem fuma imagino que deve ser muito chato também. Mas a questão pra mim é a seguinte: quando estamos com algum lixo para descartar (seja qual for) e não achamos onde jogar, o que a gente escolhe fazer? Tem inúmeras possibilidades e cada um escolhe o que acha certo fazer. No caso dessa cena que eu vi, grande parte das pessoas escolheu jogar as bitucas na grama, pois ela estava lotada. Não sei se todos fizeram isso ou não. Eu poderia ter catado tudo e jogado no lixo, já que estava me incomodando. E também não fiz. Portanto, tenho a minha parte de responsabilidade. Se algo nos incomoda, podemos sempre fazer alguma coisa. O que eu fiz foi compartilhar meu sentimento e reflexões nessa rede. Da próxima vez farei diferente.
Comentário de Vera Maria dos Santos Moreira em 20 março 2010 às 12:38
Acho que deveriam colocar cinzeiros ao ar livre. Políticas restritivas não funcionam com pessoas dependentes. Fui fumante inveterada que não podia assistir um filme inteiro sem sair no meio para fumar. Parei há 25 anos, por um movimento interno meu. Tenho uma grande amiga que só conseguiu parar muitos anos depois, uma mulher inteligente, bonita que não consegue mais dar uma caminhada nem dançar. Parar de fumar não é bem uma escolha, é um ato da vontade. Eu não acreditava que conseguiria, fui que nem alcoólatra, "posso aguentar mais uma hora", "posso ficar até amanhã" e assim. Meu profundo amor a todos os meus amigos fumantes , somos todos dependentes uns dos outros.
Bjks
Vera
Bjks
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Comentário de Deborah Dubner em 17 março 2010 às 22:14
Agradeço todas as contribuições que me fizeram refletir. Ainda bem que esta discussão acabou se tornando frutífera, como disse o Augusto. Eu nem imaginava que seria tanto. E sim, claro, a gente só tem que aprender o que quiser aprender, eu assino embaixo desse pensamento, que não é tão comum assim, mas que eu também partilho. Lia, muito agradecida pelo seu depoimento. Achei comovente e profundo.
Comentário de Clara Pelaez Alvarez em 16 março 2010 às 19:39
Uau! " As bitucas são biodegradáveis. O ódio contra o diferente não. " Isso foi brilhante!
Comentário de Francisco Cardoso de Campos em 16 março 2010 às 19:30
Achei essa instalação no jardim muito interessante. As pontas de cigarro impassíveis frente à manifestação agressiva, provocadora e evidentemente intolerante manifesta no texto preso a um galho partido. O texto roga por uma identidade entre "cultura" e "consciência" o que, convenhamos, não quer dizer muita coisa... As bitucas são biodegradáveis. O ódio contra o diferente não.
Comentário de Augusto de Franco em 16 março 2010 às 17:41
Sim, Lia. Concordo. Sobretudo quando você fala do seu pacotinho de adoçante, hehe.

Mas a questão, Deborah, quando você diz que "o coletivo é feito por indivíduos", é a seguinte: os indivíduos não existem a não ser como abstrações estatísticas. Seres humanos são sempre pessoas. E pessoa já é rede. Não estamos mais aqui, portanto, na velha discussão coletivo x indivíduo e sim sob o influxo da constatação, surpreendente, rede <=> pessoa.

Em outras palavras: não é que primeiro existam os indivíduos para depois surgir, quando estes se agrupam, o social. O social não é a coleção dos indivíduos e sim o que está entre eles!

Não é que uma pessoa opte por pertencer ou não à rede. Não há tal opção: a rede não é um novo nome para um tipo de organização. É um padrão de organização. Todos nós, querendo ou não, estamos conectados à múltiplas redes: do contrário não poderíamos ser humanos. O social é a usina do que chamamos de humano. A genética funda o que é humanizável, mas não constitui o humano. Você só é humana porque foi humanizada por outros seres humanos na rede social onde surgiu (sua rede familiar, a rede de seus amigos, conhecidos, vizinhos).

Recomendo vivamente que você dê uma olhada na geração de comportamentos coletivos do ponto de vista das redes (afinal, é também para isso que estudamos as redes). Vale muito a pena dar uma olhadinha no "Ponto de Virada" do Malcolm Gladwell para entender porque não se pode explicar, por exemplo, a depredação de um vagão de metrô com base na falta de consciência dos vândalos enquanto indivíduos. Isso vai explicar também, como disse em meu último comentário, aquele gramado cheio de pontas de cigarro.

Esta discussão, que acabou ficando muito frutífera, como assinalou a Lia, nasceu de um incômodo com essa mania de ficar cobrando coerência das pessoas sobretudo com base em certas visões ambientalistas. Essa história de dar puxão de orelha nas pessoas, do tipo "temos que aprender a integrar idéias com ações" (como você escreveu no início do post) é complicada. Ora, Deborah, eu só tenho que aprender o que eu quiser aprender. Estamos construindo aqui um território livre de exigências.
Comentário de Lía Goren em 16 março 2010 às 12:13
Lo que voy configurando con esta muy fructífera conversación (a mi gusto) es la evidencia de esa dinámica interactiva entre el sistema del individuo con el sistema del que participa.
Lo que me parece que está expresándose todo el tiempo en esta conversación es esa realidad donde no hay adentro y afuera.

"Aquilo que eu contemplo eu me torno, aquilo que eu me torno, eu contemplo".

"... o que chamamos de consciência dos indivíduos (como um fator que condiciona seu comportamento) é função não apenas nem principalmente de suas convicções e valores individuais e sim dos padrões de interação."

Concordo en que no existe tal cosa como conciencia individual pero también concordo en que eso que llamamos conciencia es parte de un proceso de desarrollo del sistema vivo de la persona. Como dice Freire, los seres humanos aprendemos en comunidad" y, al mismo tiempo, "parender" significa "cambiar", un cambio que siempre es individual y colectivo a la vez. Lo que llamamos lo aprendido, la conciencia, etc. es lo que se ha construido a partir de lo que Bárbara Rogoff describe como un proceso de apropiación participativa, lo aprendido como parte de participar de la cultura, haciendo pie en el criterio de que todo aprendizaje es social (Vigotsky).

En este sentido, creo que la experiencia personal de ver tremenda cantidad de colillas de cigarrillos tiradas en un jardín, también es un modo en que un colectivo se expresa y entra en relación con el colectivo interiorizado que otros han adoptado como patrón de vida. Cada quien, en una determinada lógica de coherencia interna.

Como resultado de estas interacciones recíprocas, por momentos y para algunos observadores partícipes de esta dinámica, emerge o se hace evidente un doble discurso que se vivencia como incoherente o contradictorio para un observador dado.

Considero válida y constructiva la posibilidad de dar expresión a lo que se vive como contradictorio, en cuanto esto no signifique abrir juicios hacia los demás. De esto se trata también lo social, como dice Maturana, de ese proceso de coordinaciones recíprocas a través de las conversaciones.

En relación a estos temas del cuidado del medio ambiente, al mismo tiempo, me conmovió ver como algunas personas tomaban la actitud de cuidar el lugar tirando cosas que otros dejaban por allí. Y soy testigo de esto, pues yo misma vi como Cida y otros recogían un vaso que aquí y allá quedaba tirado.
Más aun, en lo personal, en un momento del encuentro me serví un café y lo endulcé con un sobrecito de endulzante artificial que apoyé en la mesa mientras revolvía el café. Distraída o porque alguien me habría dicho algo, lo dejé sobre la mesa (como hago en mi hogar, jaja) pensando en tirarlo después. Cuando me di cuenta de que lo había dejado allí fui a buscarlo para arrojarlo al cesto de basura (lijo) ¡¡no estaba más!! Alguien lo había tirado "por mi", y seguramente habría sido un participante!!!
Hace muchos años, nadie habría cuidado nada. Ahora, ya tenemos de las dos experiencias, las colillas de cigarrillos y mi sobrecito de endulzante, las dos conviviendo y conmoviendo lo social. Demos gracias a Di-s!!! jaja

Abraços,
Lía
Comentário de Deborah Dubner em 16 março 2010 às 10:19
Olá Augusto!

Acho ótimo esse ping pong. Concordo em muitos pontos com você. Posso mesmo ter entrado no “automático” sem perceber. Sou muito crítica, em primeiro lugar comigo mesma, faz parte da minha busca pessoal em andar minha palavra.

Pessoalmente, não tenho nada contra fumantes e nem policio qualquer um deles (rsrsr), mas aquela cena realmente me incomodou, achei triste e feio. Mas isso não tem dada a ver com a questão dos fumantes. Me incomodo igualmente quando estou andando na praia e vejo latas de cerveja jogadas na areia (eu pego e jogo na lata de lixo mais próxima, e se precisar carrego por quilômetros até achar uma).

No caso do evento, faz total diferença a lixeira ter sido colocada depois, como você mencionou. Isso demonstra como a informação pode ser lida de inúmeras formas, a partir das informações que temos disponível no momento.

No mais, volto a salientar que minha intenção ao trazer esse ponto era apenas refletir sobre essa dificuldade de unir o discurso à pratica e alertar. Dificuldade onde eu certamente me incluo. Muitas vezes quero fazer coisas e na prática elas estão distantes das idéias. Acho que compartilhar essa dificuldade, pelo menos pra mim, traz à tona a nossa humanidade, e ao mesmo tempo coragem para não desistir.

Mas permita-me ampliar suas colocações na questão do individual X coletivo.

Quanto à mudança de consciência, que vc escreveu: " parece que os padrões de interação não são alterados pela ampliação de nossa consciência enquanto atributo individual. Se fosse assim, a meu ver, não precisariamos estudar as redes."

Eu vejo de uma forma bem simples. Sim, o coletivo transforma e leva à mudança do padrão e é por isso que a rede é tão poderosa e eu tenho tanta esperança. Somos o tempo todo afetados pelo coletivo e transformados por ele. Mas... por que alguns se conectam a redes como essa, por exemplo, e outros não se conectam? Porque alguns preferem assistir BBB (apenas um exemplo) e outros preferem ir à CIRS? O coletivo é determinante sim, mas temos o nosso poder pessoal de escolher. Não consigo deixar de lado o atributo individual. Posso estar cega, ou míope, ou ser romântica demais, sei lá. Mas eu sinceramente acredito que o coletivo é feito por indivíduos e cada um pode fazer diferença em seu pequeno pedaço. Do contrário, isso tiraria a responsabilidade de cada um ocupar o seu lugar, fazer suas escolhas e agir de acordo com seus princípios.

A história está repleta de exemplos de pessoas que deram o start em novas formas de ver e agir, e isso gerou um movimento que se tornou coletivo e aí sim alterou um padrão. Eu gosto da teoria do centésimo macaco, mas lembro que para chegar ao centésimo, começou com o primeiro.

No exemplo do papelzinho no jardim, uma pessoa, com um único gesto, pode ter interferido na tendência do grupo. A colocação da lixeira também pode ter interferido. Assim, ações individuais podem sim, a meu ver, fazer uma diferença e ajudar a ampliar a consciência, alterando um padrão a longo prazo.

É assim que eu penso hoje, mas quem sabe, posso pensar diferente amanhã :-)

Abraços

Deborah
Comentário de Augusto de Franco em 16 março 2010 às 5:55
Oi Deborah, também fiquei impressionado com a sujeira no gramado. A lixeira, obviamente, foi colocada depois do mal-feito, por alguém que se impressionou também. Posso afirmar isso porque frequento o local há muitos anos e tenho observado o movimento contínuo de afastamento e até de sumiço das lixeiras.

As pessoas têm esse tipo de reação: "- Eles continuam fumando? Ah!... vamos então tirar as lixeiras para dar o recado de que é proibido fumar". A preocupação não é com a preservação do meio ambiente e sim com a proibição, com a lei, com a regra, com a ordem. É como se pensassem: "Que desplante desse pessoal - os transgressores - que teima em não obedecer..." Sei disso também porque vários funcionários vieram falar comigo (um transgressor que, em geral, não joga ponta de cigarros no gramado, mas no chão mesmo, quando não encontra cinzeiro).

Concordo com você sobre o absurdo do fato em si: o gramado cheio de pontas de cigarro. Ponto. Mas a razão do meu comentário ao seu post foi outra. Creio que não faz bem, para a construção de um ethos libertário, ficar apontando contradições éticas nas pessoas, confrontando suas visões e seus desejos com suas práticas, como se quiséssemos dizer: "- Ora, se você não respeita nem o meio ambiente no seu entorno e joga ponta de cigarros no chão, como é que pode vir aqui falar de uma nova sociedade em rede distribuída?" Penso que esse tipo de exigência, como toda exigência transplantada do universo mental-moral de uma pessoa para outra, tem uma raiz autoritária.

Conto um episódio que aconteceu comigo recentemente (omitindo o nome dos atores) para ilustrar o que estou querendo dizer. Convidado para a reunião do conselho científico de uma grande empresa que faz pesquisa em bem-estar, me dirigi ao local do encontro juntamente com uma médica chinesa. Chegando lá encontramos na reunião, dentre várias pessoas, outro médico, que tem um consultório de medicina ayurvédica na India. Cabia-me fazer uma exposição sobre a transição para a sociedade em rede e sobre as consequências dessa mudança de época no bem-estar das pessoas. Por algum motivo, o médico ayurvédico ficou profundamente incomodado com minha exposição. Disse que era preciso respeitar as hierarquias espirituais etc. Veladamente me ameaçou insinuando que tanta inteligência sem obediência e sem reverência às tradições não poderia ter um bom fim. Acrescentou, para sua infelicidade, o exemplo do filósofo Gilles Deleuze que, apesar de sua enorme inteligência, era um fumante inveterado e teve um fim trágico, passando por terríveis tormentos antes de morrer.

Gilles Deleuze (1925-1955)


Foi aí que a médica chinesa, aquela que me acompanhou na ida ao evento, profundamente contrariada, tomou a palavra e disse ao médico ayurvédico que ele não tinha o direito de ameaçar assim outras pessoas. E explicou em detalhes porque tal comportamento era incompatível com o "ethos da cura" (por assim dizer) e com o papel liberador daqueles que se dedicam à medicina. Disse, em outras palavras, que a cura era o resultado da energia liberada pela própria doença quando o paciente estabelece um conjunto de relações adequadas ("se você tem energia para ficar doente, então tem energia para se curar", não me esqueço dessa frase). O mais curioso, porém - veja só! - é que o médico ayurvédico tinha sido discípulo, na sua juventude, justamente daquela médica chinesa que agora o repreendia com tanta autoridade. Quando ele ouviu sua fala ficou totalmente desconcertado e se calou.

No seu primeiro best-seller, "The Tipping Point" (2000), Malcolm Gladwell, tentando entender a dinâmica do Tolerância Zero, fornece uma explicação convincente para esses fenômenos do comportamento coletivo. Se o gramado está limpo, dificilmente alguém jogará nele um copo descartável ou uma ponta de cigarro. Se já está sujo, então as pessoas seguem sujando-o. Um automóvel pode ficar abandonado na rua em perfeito estado durante meses. Se alguém quebra uma janela, em poucos dias o carro será totalmente depredado. A explicação não está na consciência dos indivíduos e sim no comportamento coletivo; ou melhor, o que chamamos de consciência dos indivíduos (como um fator que condiciona seu comportamento) é função não apenas nem principalmente de suas convicções e valores individuais e sim dos padrões de interação.

Em suma, cara Deborah, parece que os padrões de interação não são alterados pela ampliação de nossa consciência enquanto atributo individual. Se fosse assim, a meu ver, não precisariamos estudar as redes.

Comentei agora de maneira mais demorada o seu post porque não acho que seja nosso papel, aqui na E=R, ficar mostrando às pessoas "como é difícil aliar a prática às idéias", cobrando coerência dos outros etc.

Abraços.

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