Escola de Redes


Ganhei do Luis Fernando Guggenberger (presente de ano novo) a tradução brasileira do livro Connected de Nicholas Christakis e James Fowler (Little, Brown and Company: 2009).

Eis uma foto dos autores:


Aqui o título ficou assim: O poder das conexões: a importância do networking e como ele molda nossas vidas (Rio de Janeiro: Elsevier, 2010). A tradução é de Edson Furmankiewicz.

Bem, para começar devo dizer que me surpreendi. O livro (até agora pelo menos) é muito bom. Christakis e Fowler não são idiotas (no sentido grego, original do termo), ou seja, sua pesquisa não tem nada a ver com uma literatura rasa sobre redes que prolifera atualmente, urdida para dizer aos empresários que eles devem aderir as redes para aumentar a eficiência, a influência, as vendas e a sobrevivência de suas organizações hierárquicas.

É uma leitura obrigatória, a meu ver, para quem está na Escola-de-Redes. Infelizmente, porém, o conteúdo está protegido pelo maldito Copyright (que, como sabemos, nada tem a ver com direito autoral e sim com direito editorial de trancar o conhecimento para ganhar dinheiro com sua venda). Mais cedo ou mais tarde, porém, o texto será digitalizado e disponibilizado para download free, aqui ou algures.

Vou transcrever abaixo o Prefácio da obra e aduzir alguns breves comentários:

CONNECTED

Nicholas Christakis & James Fowler (2009)

Prefácio

AS REDES SOCIAIS SÃO DE estranha beleza. Elas são tão elaboradas e complexas - na verdade, tão onipresentes - que devemos perguntar a qual objetivo servem. Por que estamos integrados a ela? Como se formam? Como funcionam? Como nos afetam?

Eu (Nicholas) me inspirei nessas questões por boa parte dos últimos dez anos. Comecei me interessando pela rede social mais simples de todas: um par de pessoas, uma díade. Inicialmente, as díades que estudei eram maridos e esposas. Como médico, atendendo doentes terminais e suas famílias, percebi os sérios danos que a morte de uma pessoa inflige ao cônjuge. Ao longo de tempo, me interessei em como uma doença em uma pessoa poderia causar doenças em outra. Parecia para mim que, se as pessoas estivessem interconectadas, sua saúde também deveria estar. Se uma esposa ficar doente ou morrer, o risco de morte de seu marido seguramente aumentará. Por fim, comecei a perceber que havia todo tipo de díade que eu poderia estudar, como pares de irmãos ou pares de amigos ou pares de vizinhos que estão conectados (não separados) pelo muro de um quintal.

Aqui já teria duas observações:

1) Não costumo considerar díades como redes (pelo fato de que não se pode, em um mundo de dois nodos, estabelecer qualquer distinção entre centralização e distribuição). Redes propriamente ditas começam com tríades.

2) O muro do quintal não conecta, de fato separa, ao contrário do que afirma Nicholas. O que conecta, no caso, é a contigüidade dos terrenos. Um muro sempre separa.

São observações, contudo, laterais, que não diminuem a importância da obra, nem deslustram o excelente texto de Nicholas e Fowler.

Continuemos, pois, a transcrever o Prefácio.


Mas o cerne intelectual da questão não estava nessas estruturas simples. Em vez disso, a compreensão fundamental era a de que essas díades se agregavam para formar teias enormes de laços que iam muito mais longe. A esposa de um homem tem uma melhor amiga que tem um marido que tem um colega de trabalho que tem um irmão que tem um amigo e assim por diante. Essas cadeias se ramificam como raios, formando padrões intrincados por toda a sociedade humana. A situação, aparentemente, era muito mais complexa. Sempre que nos afastamos de um indivíduo em uma rede social, o número de laços com outros seres humanos e a complexidade da ramificação aumentam muito, muito rapidamente. À medida que refletia sobre esse problema, comecei a ler o trabalho de outros cientistas sociais, de solitários estudiosos alemães na virada do século XX a sociólogos visionários nos anos 1970, que tinham estudado redes sociais que variavam de 3 a 30 pessoas. Mas meu interesse eram redes sociais de 3 mil, 30 mil ou mesmo 3 milhões de pessoas.

Percebi que, para estudar coisas com esse nível de complexidade, eu faria melhor progresso se trabalhasse com outro pesquisador. Como se constatou mais tarde, James Fowler, também da Harvard, estudava redes de uma perspectiva completamente diferente. James e eu não nos conhecíamos, apesar de trabalharmos em edifícios vizinhos no mesmo campus havia vários anos. Em 2002, fomos apresentados por um colega comum, o cientista político Gary King. Em outras palavras, iniciamos nossa jornada como amigos de um amigo. Gary achava que poderíamos ter interesses intelectuais comuns, e ele estava certo. Na verdade, o simples fato de termos nos conhecido em virtude de nossa rede social ilustra a questão essencial que queríamos demonstrar: como e por que as redes sociais operam e quanto elas nos beneficiam.

James tinha passado alguns anos estudando a origem das convicções políticas das pessoas e examinando como a tentativa de uma pessoa de resolver um problema social ou político influenciava outras. Como os seres humanos se reúnem para realizar aquilo que não podem fazer sozinhos? Ele compartilhou interesses por outros temas que foram essenciais na história: altruísmo e bondade, ambos fundamentais para que as redes sociais cresçam e sobrevivam.

Juntos, à medida que começamos a pensar na idéia de que as pessoas estão conectadas em vastas redes sociais, percebemos que a influência social não termina com as pessoas que conhecemos. Se influenciarmos nossos amigos, e eles influenciarem seus amigos, nossas ações podem, então, potencialmente, influenciar as pessoas que não conhecemos. Começamos estudando vários efeitos sobre a saúde. Descobrimos que se o amigo do amigo de seu amigo ganhou peso, você ganhou peso. Descobrimos que se o amigo do amigo de seu amigo parou de fumar, você parou de fumar. Descobrimos que se o amigo do amigo de seu amigo tornou-se feliz, você tornou-se feliz.

O parágrafo acima é surpreendente. O amigo do amigo do seu amigo (ou seja, aquele que está no terceiro círculo de suas conexões) pode afetar seu comportamento e pode, inclusive, desencadear uma constelação de fatores que altere suas condições de vida (posto que altera suas condições de convivência social, ou seja, altera a estrutura e a dinâmica da rede social a que você está conectado). E isso tem mais chances de acontecer do que a influência direta (com um grau de separação) do seu amigo porquanto os fluxos emitidos pelo amigo do amigo do seu amigo podem se espalhar pela rede, ser amplificados por laços de retroalimentação de reforço, e "atingí-lo" de modo mais sistêmico (de todos os "lados"). Estou desenvolvendo algo parecido na minha investigação sobre a influência sistêmica das organizações no campo social do seu entorno.

Com o tempo, percebemos que havia regras fundamentais que regulamentavam tanto a formação quanto a operação das redes sociais. Concluímos que, se íamos estudar a maneira como as redes funcionavam, também teríamos de entender como são montadas. Não é possível, por exemplo, viver absolutamente sozinho. As pessoas são compelidas pela geografia, pelo status socioeconômico, pela tecnologia e mesmo por genes para que tenham certos tipos de relacionamentos sociais e certo número deles. O segredo para entender as pessoas é entender os laços entre elas; conseqüentemente, nosso foco passou a ser esses laços.

Grifei a frase acima pois ela indica uma visão, a meu ver correta, sobre as redes sociais como redes de pessoas. Ou seja: não é entendendo o comportamento dos indivíduos que vamos entender o comportamento da coletividade (como supunha a economia ortodoxa). Para entender as pessoas é necessário entender a rede. Costumo resumir essa compreensão dizendo que "pessoa já é rede"...

Nosso interesse por esses temas correspondia aos interesses de muitos outros pesquisadores que promoveram a matemática e a ciência das redes ao longo dos últimos dez anos. À medida que começamos a estudar as conexões humanas, encontramos engenheiros estudando redes de centrais elétricas, neurocientistas estudando redes de neurônios, geneticistas estudando redes de genes e físicos estudando redes de praticamente tudo. As redes desses pesquisadores também poderiam ser interessantes, pensamos, a a nossa era muito mais: muito mais complicada e muito mais significativa, afinal, os nós em nossas redes são seres humanos que pensam. Eles podem tomar decisões, mudar potencialmente suas redes mesmo quando incorporados a elas, e ser influenciados por elas. Uma rede de seres humanos tem um tipo de vida próprio.

Sim, um tipo de vida próprio que não pode ser derivado ou inferido de algum modo dos tipos de vida das pessoas que compõem a rede.

Assim como os cientistas, que se interessam pela beleza subjacente e pelo poder explicativo das redes, a maioria das pessoas também pensa sobre elas. Isso basicamente se deve ao surgimento da internet nos lares, que deu a todo mundo a noção de como várias coisas podem estar interconectadas. As pessoas começaram a falar coloquialmente de "Net" e, por fim, em "World Wide Web" (sem mencionar o filme "Matrix", sucesso de bilheteria). Elas começaram a perceber que estavam tão interconectadas quanto seu computadores. Essas conexões tornaram-se tão explicitamente sociais que hoje quase todo mundo está familiarizado com os sites de redes sociais, como Facebook e MySpace.

À medida que estudamos as redes sociais mais profundamente, começamos a pensar nelas como um tipo de superorganismo humano. Elas crescem e evoluem. Tudo flui e se move dentro delas. Esse superorganismo tem sua própria estrutura e uma função, e nos tornamos obcecados em entender ambas.

Brilhante! Mas o que é extraordinário aqui não é o fato de as redes sociais serem um tipo de superorganismo (hipótese já conhecida há tempos), e sim o fato das redes sociais serem um tipo de superorganismo humano, quer dizer, não super-humano ou extra-humano. Isso nos leva ao próximo comentário abaixo.

Ao nos vermos como parte de um superorganismo, entendemos nossas ações, escolhas e experiências sob uma nova luz. Se formos afetados por nossa incorporação às redes sociais e também por outras pessoas com as quais estamos ou não intimamente ligados, perdemos necessariamente parte do poder em relação a nossas próprias decisões. Essa perda do controle pode provocar reações especialmente fortes quando as pessoas descobrem que seu vizinhos, ou mesmo estranhos, podem influenciar comportamentos e resultados que têm implicações morais e repercussões sociais. Mas o outro lado dessa compreensão é que as pessoas podem transcender a elas mesmas e suas próprias limitações. Neste livro, defendemos que nossa interconexão não é apenas parte natural e necessária de nossas vidas, mas também uma força que veio para ficar. Assim como cérebros podem fazer coisas que nenhum neurônio individual pode, também as redes sociais podem fazer coisas que nenhum indivíduo pode.

Ecce punto! A relação entre as redes sociais e os indivíduos. Já se sabe que os sistemas têm propriedades que não podem ser derivadas das propriedades de suas partes et coetera. Mas a questão aqui é mais profunda. Christakis não chegou a afirmar isso, mas o que está subsumido na sua visão é que o 'social' não é o resultado do ajuntamento dos indivíduos e sim o gerador de humanos. O social é o processo que transforma indivíduos em pessoas. Não é que primeiro existam as pessoas que, ao se agregarem, formam o social (a rede social). Não! Não existem pessoas (ou seja, indivíduos realmente humanos) na ausência da rede social!

Há décadas, ou mesmo séculos, preocupações humanas sérias, por exemplo, se uma pessoa irá viver ou morrer, será rica ou pobre ou agirá justa ou injustamente, foram reduzidas a um debate sobre responsabilidade individual versus coletiva. Cientistas, filósofos e os que estudam a sociedade geralmente se dividem em duas áreas: aquelas que acham que indivíduos têm controle sobre seus destinos e aqueles que acreditam que as forças sociais (variando da falta da boa educação pública até a presença de um governo corrupto) são responsáveis pelo que nos acontece.

Mas achamos que há um terceiro fator não mencionado nesse debate. Dadas as nossas pesquisas e nossas diversas experiências de vida - desde encontrar nossos cônjuges, encontrar um ao outro, cuidar de pacientes terminais até construir latrinas em aldeias pobres - acreditamos que nossas conexões com outras pessoas são o que há de mais importante, e que, ao vincular o estudo de indivíduos ao estudo de grupos, a ciência das redes sociais pode explicar muito sobre a experiência humana. Este livro focaliza nossos laços com outras pessoas e como estes influenciam emoções, sexo, saúde, política, situação financeira, evolução e tecnologia. Mas ele trata, principalmente, do que nos torna singularmente humanos. Para saber quem somos, devemos entender como estamos conectados. [FIM DO PREFÁCIO]

Avalio que este prefácio, escrito por Nicholas Christakis, serve como uma definição dos objetivos da Escola-de-Redes. Agora vamos ao livro. Quem sabe abrindo aqui um grupo específico na BIBLE.E=R para transcrevê-lo capítulo a capítulo e estudá-lo coletivamente.



Eis vídeo onde Christakis e Fowler explicam o seu Connected:

Exibições: 1303

Comentar

Você precisa ser um membro de Escola de Redes para adicionar comentários!

Entrar em Escola de Redes

Comentário de Jorge Elias em 26 junho 2010 às 10:20
Augusto, enviei uma mensagem para o seu gmail. Confirme por favor se recebeu.
Comentário de Jorge Elias em 26 junho 2010 às 10:19
Luiz, vc poderia disponibilizar o arquivo pdf em inglês?
Comentário de Luiz de Campos Jr em 2 março 2010 às 17:48

Versão pdf de "O Poder das Conexões" de Nicholas Christakis e James Fowler:
http://migre.me/lYbK

Comentário de Augusto de Franco em 26 janeiro 2010 às 5:48
Bem, então agora temos um novo grupo chamado CONNECTED para estudar e comentar este livro de Nicholas Christakis e James Fowler.
Comentário de Luiz de Campos Jr em 25 janeiro 2010 às 19:24

Olás. Bem, desafio aceito e encaminhado (pelo menos o cap 1).
As apresentações não têm animações bem configuradas, minha sugestão é de eliminá-las e de mantermos só os slides. O arquivo ainda está em formato ppt porque necessitamos que alguém(ns) ajude(m) a melhor minha tradução. Talvez seja bom quem já conheça o texto do livro (Augusto, Luis Guggen, ?), assim pode(m) sugerir os termos e traduções utilizadas na edição brasileira.
Depois que chegarem as revisões do texto - e quaisquer outras sugestões - eu posso disponibilizar uma versão pdf também aqui...
Arquivo: Conectado_Cap1.ppt Abraços, Luiz CJr.

Comentário de Augusto de Franco em 25 janeiro 2010 às 13:24
Bem, então seguindo a dica do Luis Guggen (abaixo), aqui vai um desafio (quem sabe para o Luiz de Campos Jr começar a esquentar os tamborins enquanto espera o Carnaval e não chega o seu exemplar novinho do Connected): colocar em português (e enquadrar melhor para ser aceito pelo Slideshare) os PPTs meio artesanais preparados pelo Christakis e pelo Fowler:

1 - In the Thick of It | Introduction

2 - When You Smile, The World Smiles with You | Emotions

3 - Love the One You're With | Love and Sex

4 - This Hurts Me as Much as It Hurts You | Health

5 - The Buck Starts Here | Money

6 - Politically Connected | Politics

7 - It's in Our Nature | Evolution

8 - Hyperconnected | Technology

9 - The Whole Is Great | Conclusion
Comentário de Luis Fernando Guggenberger em 24 janeiro 2010 às 20:51
Complementando a leitura do livro, recomendo acessarem o link abaixo, onde os autores disponibilizaram alguns slides deles sobre o conteúdo que discutem no livro:
http://connectedthebook.com/pages/slides.html
Comentário de Augusto de Franco em 24 janeiro 2010 às 4:09
Jaqueline, a idéia de que o social é o gerador de humanos não é propriamente dos autores do Connected, mas do meu comentário. Creio, entretanto, que é compatível com a visão deles. Mais um pequeno salto e eles afirmariam isso.

Vivianne, os autores trabalham com dois conceitos básicos: conexões e contágio. Mas penso que laços (conexões) são constituídos sempre por fluxos (contágio), ainda que - para eles, Christakis e Fowler - o que flui pode ser qualquer coisa. Para mim, são sempre a mesma coisa: uma espécie de "sintonia" (vamos dizer assim) que se estabelece no espaço-tempo dos fluxos (os autores, entretanto, não chegaram a esse nível de abstração).
Comentário de Vivianne Amaral em 23 janeiro 2010 às 22:43
Achei interessante a valorização dos laços e não apenas do fluxos no processo da abordagem da rede. Tenho uma perspectiva semelhante ao procura entender os fenômenos da comunicação e da vinculação entre as pessoas nas redes.
abraços
Comentário de Jaqueline de Camargo em 23 janeiro 2010 às 21:22
Augusto, muito interessante. Essa coisa de que "as pessoas são rede" é muito ligada com uma ideia de Cultura, quer dizer, é um insight que eu ja vinha lendo nos seus textos na ER. Mas agora com os destaques deste Prefacio do Nicholas Christakis, como o que o social é o gerador de humanos, ou que as redes sociais podem fazer coisas que nenhum indivíduo pode, reforça para mim a ideia de que é na dinamica cultural claro que tudo isso acontece, quando o individuo vira pessoa, capta influencias do "amigo do amigo", que de certa maneira é e faz o grupo.
Achei boa a ideia de estudar os capítulos, segue o link de uma apresentaçaõ do livro pelos autores,
http://www.youtube.com/watch?v=UMszS1ssMRQ&feature=player_embedded
abs,

© 2014   Criado por Augusto de Franco.

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço