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Comprei um jornal que vai fazer 100 anos em 2020

Não é comum um jornal de quase 100 anos de idade ser vendido numa operação internacional. Mais incomum ainda é um jornal fundado na Alemanha ser comprado por dois empreendedores brasileiros que estão ainda na fase de constituir uma empresa global na área de comunicação, edição de livros e ensino de línguas. E o mais inusitado de tudo: o jornal é editado na língua internacional Esperanto. O Heroldo de Esperanto (https://eo.wikipedia.org/wiki/Heroldo_de_Esperanto), fundado por Teo Jung em 1920 na Alemanha, permaneceu sob o seu controle até 1961, quando passou para o controle de uma jornalista polonesa, Ada Fighiera-Sikorska,  que por sua vez em 1996 repassou o controle do jornal para o Centro Italiano de Interlinguística, que imediatamente cedeu os direitos de edição à LF-koop, uma cooperativa cultural suiça, que o edita até hoje.

Mas, Esperanto?

"Se você acha que pode, comece, a ousadia tem gênio poder e magia" é uma boa frase atribuída ao poeta e filósofo alemão Goethe. Sempre acreditei nisso e por isso desde jovem apostei numa ideia que é considerada coisa de idealistas voadores: a língua internacional Esperanto. Mas, a questão é que o Esperanto é uma inovação disruptiva. Não é qualquer um que consegue perceber de forma positiva uma inovação não cosmética, que muda radicalmente paradigmas firmemente assentados no senso comum.

Não é incomum professores de letras, linguistas, jornalistas e formadores de opinião em geral afirmarem que o Esperanto é uma língua que não deu certo, mas contra fatos não há argumentos, pois o Esperanto é uma língua muito viva e passa bem, obrigado. Ele é uma aposta em algo que sempre existiu: uma língua franca para facilitar a comunicação internacional entre os povos. Sempre existiu uma língua franca dominante. Desde o latim do império romano, passando pela época de outro do francês, como também do russo no tempo da União Soviética. O inglês, como sabemos, começou sua ascensão com o Império Britânico e teve seu auge com a hegemonia política, econômica e militar no ocidente pós Segunda Grande Guerra. Mas, o Brexit já desperta discussões sobre se o inglês continuará sendo língua oficial da União Européia, o que pode ser o prenúncio da uma reviravolta na política internacional das línguas e uma chance renovada para o Esperanto. Ele foi iniciado em 1887 e portanto tem apenas 129 anos, muito pouco para uma língua. Pode ser considerado uma criança prodígio, pois sua história é rica de grandes esforços e conquists da sua base de falantes, que hoje encontra-se distribuída em cerca de 120 países. Tem literatura, instituições sólidas, grupos de aplicação especializada, editoras, eventos produtores culturais, músicos e mídia. É reconhecido pela Unesco desde 1954 como língua adequada para a ciência, educação e cultura.

O advento da globalização e da tecnologia da informação deu um grande impulso a essa língua planejada, lógica e relativamente muito mais fácil de se aprender. No começo do ano o Duolingo, uma conhecida escola virtual de línguas, lançou um curso de Esperanto em inglês que já tem mais de 400 mil alunos. A versão em espanhol já está para ser lançada e depois virão as versões em russo, mandarim, português e outras línguas.

Quem, nesse contexto, não compraria o Heroldo de Esperanto, um jornal de grande renome entre os esperantistas e uma história com grandes acontecimentos, como a fuga do seu fundador da Alemanha nazista? Encontrou abrigo na Holanda, que foi em seguida invadida por Hitler. Mas o jornal sobreviveu, fez história, e agora será editado no Brasil, em Goiânia. Até o final do ano continuará a ser editado na Suíça, mas já estamos trabalhando duro, eu e meu sócio, para formalizarmos a empresa que dará concretude a um projeto bastante arrojado: fazer um novo projeto gráfico para o Heroldo de Esperanto, paralelamente a uma profunda reforma editorial, conservando o que tiver que ser conservado, mas dando uma estrutura contemporânea a esse quase centenário jornal, uma grande paixão dos esperantistas, para transformá-lo em um dos principais trunfos da nova empresa goiana.

Dentro os maiores desafios, estará o de transformar o Heroldo de Esperanto em um grande caso de sucesso também fora dos círculos da comunidade internacional esperantista. O mundo precisa dessa língua internacional neutra, mas mal sabe que ela existe e está em franca ascensão. Talvez a vinda do Heroldo para o Brasil esteja acontecendo em meio a novos sinais de uma nova revolução que está por vir: a adoção do Esperanto como segunda língua de cada povo, conservando cada um a sua própria língua, em um sistema que respeite os direitos linguísticos dos povos e dê impulso à chamada economia esperantista, uma economia global baseada numa língua interacional neutra e perfeitamente funcional. É nesse contexto que vamos trabalhar para transformar o Heroldo de Esperanto em um grande empreendimento global. Melhor dizendo, empreendimento global ele já é desde a sua fundação. Vamos transformá-lo a partir do que ele é, o jornal mais tradicional da pequena mas crescente comunidade transnacional esperantista, num jornal dessa grande massa de novos falantes do Esperanto, pré-anunciada pelo sucesso do curso de Esperanto do Duolingo.

> Artigo publicado originamente no Linkedin.

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