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COMENTÁRIO SOBRE A CRISE CIVILIZATÓRIA CONTEMPORÂNEA



(Dedicado a um amigo anarquista e ecologista...)

Vejo pelo menos três dilemas entrelaçados hierarquicamente: 1. Dilema entre capitalismo versus socialismo (o que restou deste...); 2. Dilema entre democracia versus autoritarismo; 3. Dilema entre energias fósseis versus energias renováveis vinculadas às novas formas de comunicação.
Não existe atalho, especialmente para um projeto de socialismo democrático e ecológico, que seria o ideal. Ou seja, para enfrentar a crise civilizatória contemporânea precisamos conhecer bem a história e aprender a sonhar com os olhos abertos e os pés no chão. Os dois últimos dilemas têm relevância estratégica sobre o primeiro.

Por quê?

Todas as revoluções socialistas, operárias, a pretexto de derrubar o capitalismo, resultaram em autoritarismo, ditaduras e totalitarismo. Não há uma única exceção na história da humanidade. Por isso a democracia não pode ser apenas um discurso instrumental de algum partido pretensamente revolucionário ou reformista hegemônico, com pretensões de se perpetuar no poder. Aqui está o motivo pelo qual o primeiro dilema não pode ignorar o segundo dilema.

Além disso, há diversos capitalismos, não apenas um capitalismo. Há alguns mais democráticos ou menos autoritários que outros. Mas há sobretudo capitalismos insustentáveis, característicos da primeira e da segunda revolução industriais, que concentraram poder, renda e terra, a partir da vinculação entre combustíveis fósseis e tecnologias que viabilizaram organizações centralizadas, hierárquicas.

Carvão e vapor com a imprensa viabilizaram a primeira revolução industrial. Petróleo, carvão e gás com telégrafo, telefone e televisão viabilizaram a segunda revolução industrial, com todas suas implicações urbanas, sociais, ambientais.

Diante desse cenário complexo, a terceira revolução industrial é o caminho...Ou seja, é a vinculação das energias sustentáveis (solar, eólica, geotérmica, das marés, das miniusinas hidroelétricas, dos microgeradores, etc) com a democracia e com as tecnologias de comunicação distribuídas que poderá nos levar para um capitalismo distribuído, e daí, quem sabe, para uma sociedade não capitalista, na qual o trabalho e o meio ambiente tenham tanto ou mais peso do que o capital.

Enquanto as energias insustentáveis estão concentradas em determinadas regiões, gerando conflitos pelo poder em organizações centralizadas e desempregadoras...as energias sustentáveis estão distribuídas geograficamente, viabilizando a ampliação da democracia e organizações que geram empregos e muito trabalho autônomo.

A vinculação das energias sustentáveis com as novas formas distribuídas de comunicação, a partir do fenômeno da internet, é o que pode desencadear a terceira revolução industrial. As grandes empresas convencionais de energia baseadas em combustíveis fósseis ou energia nuclear são a cada dia mais ineficientes diante dos prédios, casas, empresas, cooperativas, bairros, microrregiões organizados com base em tecnologias que distribuem tanto informações quanto energias sustentáveis. Exemplos disso estão emergindo na fronteira entre Canadá e EUA, inclusive ultrapassando o velho princípio da soberania, assim como estão surgindo na Itália, na Espanha, na Alemanha, na Holanda, etc.

Aqui está o motivo pelo qual os dois primeiros dilemas não podem ignorar o terceiro. Não é possível passar diretamente do capitalismo ao socialismo, muito menos ao socialismo democrático e ecológico. Mas é possível passar do capitalismo insustentável para o capitalismo distribuído, com ampliação da democracia representativa com a democracia direta, na terceira revolução industrial. Isso é um desafio urgente para as próximas quatro décadas...

É economicamente viável, ainda que politicamente dramático para as elites dos Estados-nações e dos mercados, já que a ampliação da democracia reduz o poder hierárquico, a corrupção, etc.

Se isso ocorrer em parte significativa nas maiores nações, contrariando a catástrofe socioambiental e econômica que se anuncia (principalmente com a crise climática e a banalização da violência), poderemos talvez falar em socialismo ecológico, ou seja, um sistema em que o capital não tenha mais peso que o trabalho, os seres humanos e os ecossistemas.

Há probabilidades contraditórias, em direções opostas, o que torna qualquer cenário muito complexo, mas sem estas distinções acima a complexidade crescente poderá tornar-se paralisante e depressora. Precisamos aprender a sonhar com os olhos bem abertos e os pés no chão.

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