Escola de Redes

Compartilho com vocês um trecho do livro do Capra, que creio, pode contribuir com as reflexões que temos tido:

AS CONEXÕES OCULTAS, ciência para uma vida sustentável
Fritjof Capra
Trecho (pgs 93 a 99)

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A compreensão sistêmica baseia-se no pressuposto de que a vida é dotada de uma unidade fundamental, de que os diversos sistemas vivos apresentam padrões de organização semelhantes. Esse pressuposto é corroborado pela observação de que a evolução operou durante bilhões de anos sem deixar de usar reiteradamente os mesmos padrões. À medida que a vida evolui, esses padrões tendem a tornar-se cada vez mais elaborados; mas nem por isso deixam de ser variações sobre os mesmos temas.

O padrão em rede, especificamente, é um dos padrões de organização mais básicos de todos os sistemas vivos. Em todos os níveis de vida – desde as redes metabólicas das células até as teias alimentares dos ecossistemas – os componentes e os processos dos sistemas vivos se interligam em forma de rede. A aplicação de compreensão sistêmica da vida ao domínio social, portanto, identifica-se à aplicação do nosso conhecimento dos padrões e princípios básicos de organização da vida – e, em específico, da nossa compreensão das redes vivas – à realidade social.

Porém, embora a compreensão das redes biológicas possa nos ajudar a compreender as redes sociais, não devemos ter a intenção de transferir para o domínio social nossa compreensão da estrutura material das redes biológicas. Para ilustrar esse ponto, tomemos como exemplo a rede metabólica das células. Uma rede celular é um padrão não-linear de organização, e precisamos da teoria da complexidade (dinâmica não-linear) para compreender os seus meandros. A célula, além disso, é um sistema químico, e precisamos de biologia molecular e da bioquímica para compreender a natureza das estruturas e processos que constituem os nós e os elos da rede. Se não soubermos o que é uma enzima e como ela acelera a síntese de uma proteína, simplesmente não podemos ter esperança de compreender a rede metabólica da célula.

Também a rede social é um padrão não-linear de organização, de maneira que os conceitos desenvolvidos pela teoria da complexidade, como os de realimentação (feedback) ou surgimento espontâneo (emergence), provavelmente encontrarão também aí sua explicação. Entretanto, os nós e os elos da cadeia não são simplesmente bioquímicos. As redes sociais são, antes de mais nada, redes de comunicação que envolvem a linguagem simbólica, os limites culturais, as relações de poder e assim por diante. Para compreender as estruturas dessas redes, temos que lançar mão de idéias tiradas da teoria social, da filosofia, da ciência da cognição, da antropologia e de outras disciplinas. Uma teoria sistêmica unificada para a compreensão dos fenômenos biológicos e sociais só surgirá quando os conceitos da dinâmica não-linear forem associados a idéias provindas desses outros campos de estudo.

REDES DE COMUNICAÇÃO

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Segundo o sociólogo Niklas Luhmann a comunicação é o elemento central das redes sociais: “os sistemas sociais usam a comunicação como seu modo particular de reprodução auto-poiética. Seus elementos são comunicações produzidas e reproduzidas de modo recorrente (recursively) por uma rede de comunicações, e que não podem existir fora de tal rede.” Essas redes de comunicação geram a si mesmas. Cada comunicação cria pensamentos e um significado que dão origem a outras comunicações, e assim a rede inteira se regenera – é autopoiética. Como as comunicações se dão de modo recorrente em múltiplos anéis de realimentação (feedback loops), produzem um sistema comum de crenças, explicações e valores – um contexto comum de significado – que é continuamente sustentado por novas comunicações. Através desse contexto comum de significado, cada indivíduo adquire sua identidade como membro da rede social, e assim a rede gera seu próprio limite externo. Não se trata de um limite físico, mas de um limite feito de pressupostos, de intimidade e de lealdade – um limite continuamente conservado e renegociado pela rede de comunicações.

Para explorar todas as implicações da concepção dos sistemas sociais como redes de comunicações, é conveniente lembrar da natureza dual da comunicação humana. À semelhança de toda a comunicação que ocorre entre organismos vivos, ela envolve uma contínua coordenação de comportamentos, e por envolver o pensamento conceitual e a linguagem simbólica, ela também gera imagens mentais, pensamentos e significados. Do mesmo modo, podemos supor que as redes de comunicação tenham um duplo efeito: vão gerar, por um lado, idéias e contexto de significado e, por outro, regras de comportamento ou, estruturas sociais.




O SIGNIFICADO, A INTENCIONALIDADE E A LIBERDADE HUMANA

Depois de identificar o tipo de organização dos sistemas sociais – redes autogeradoras -, precisamos agora voltar nossa atenção para as estruturas produzidas por essas redes e para a natureza das relações que são engendradas por elas. A rede metabólica de uma célula, por exemplo, gera estruturas materiais. Algumas delas tornam-se componentes estruturais do sistema, formando partes da membrana da célula ou de outras estruturas celulares. Outras são intercambiadas entre os nós da rede, na qualidade de portadoras de energia ou informações ou de catalisadoras de processos metabólicos.

Também as redes sociais geram estruturas materiais – edifícios, estradas, tecnologias, etc – que se tornam componentes estruturais da rede; e produzem bens e artefatos materiais que são intercambiados entre os nós da rede. Entretanto, a produção de estruturas materiais nas redes é muito diferente da sua análoga nas redes biológicas e ecológicas. Na sociedade humana, as estruturas são criadas em vista de determinada intenção, de acordo com uma forma predeterminada, e constituem a corporificação de um determinado significado. Por isso, para compreender as atividades dos sistemas sociais, é essencial estudá-los a partir desse ponto de vista.

O ponto de vista do significado abarca um sem-número de características inter-relacionadas que são essenciais para a compreensão da realidade social. O próprio significado já é um fenômeno sistêmico; sempre está ligado a um determinado contexto. O dicionário Webster define a palavra significado (meaning) como “uma idéia transmitida à mente, que exige ou permite uma interpretação”; e define a interpretação como “uma concepção feita à luz das crenças individuais, de um juízo ou de uma circunstância”. Em outras palavras, para interpretar alguma coisa, nós a situamos dentro de um determinado contexto de conceitos, valores, crenças ou circunstâncias. Para compreender o significado de uma coisa temos que relaciona-la com outras coisas no ambiente, no seu passado ou no seu futuro. Nada tem sentido em si mesmo.

O significado é essencial para os seres humanos. Temos a contínua necessidade de captar o sentido dos nossos mundos exterior e interior, de encontrar o significado do ambiente em que estamos e das nossas relações com os outros seres humanos, e de agir de acordo com esse significado. Estamos falando aqui, em específico, da nossa necessidade de agir de acordo com uma determinada intenção ou objetivo. Em virtude da nossa capacidade de projetar imagens mentais para o futuro, nós, quando agimos, temos convicção – válida ou não – de que nossas ações são voluntárias, intencionais e voltadas para um determinado objetivo.

Na qualidade de seres humanos, somos capazes de dois tipos de ações. À semelhança de todos os demais organismos vivos, dedicamo-nos a atividades involuntárias e inconscientes, como a digestão do alimento ou a circulação do sangue, que fazem parte do processo da vida e são, portanto cognitivas, no sentido que a teoria de Santiago dá a essa palavra. Além disso, dedicamo-nos a atividades voluntárias e intencionais, e é nessa ação movida pela intenção e por um objetivo que nós conhecemos a liberdade humana.

A nova compreensão da vida lança nova luz sobre o antiqüíssimo debate filosófico entre a liberdade e o determinismo. O fato fundamental é o de que o comportamento do organismo vivo não é completamente livre, mas também não é determinado por forças exteriores. Os organismos vivos são dotados da capacidade de auto-organização, o que significa que seu comportamento não é imposto pelo ambiente, mas estabelecido pelo próprio sistema. Em específico, o comportamento do organismo é determinado pela sua própria estrutura, estrutura essa que é formada por uma sucessão de mudanças estruturais autônomas.

A autonomia dos sistemas vivos não pode ser confundida com uma interdependência. Os sistemas vivos não são isolados do ambiente em que vivem. Interagem com esse ambiente de modo contínuo, mas não é o ambiente que lhes determina a organização. No nível humano, essa autodeterminação se reflete em nossa consciência como a liberdade de agir de acordo com nossas convicções e decisões. O fato de essas convicções e decisões serem consideradas “nossas” significa que elas são determinadas pela nossa natureza, no contexto da qual incluem-se nossas experiências passadas e nossa hereditariedade. Na mesma medida em que não somos constrangidos pelas relações de poder humanas, nosso comportamento é determinado por nós mesmos e é, portanto, livre.

A DINÂMICA DA CULTURA

Nossa capacidade de formar imagens mentais e associa-las ao futuro não só nos permite identificar metas e objetivos e desenvolver estratégias e planos como também nos habilita a escolher entre diversas alternativas e, assim, formular valores e regras sociais de comportamento. Todos esses fenômenos sociais são gerados por redes de comunicações em virtude da natureza dual da comunicação humana. Por um lado, a rede continuamente gera imagens mentais, pensamentos e significados; por outro, coordena continuamente o comportamento dos seus membros. É da dinâmica e da complexa interdependência desses processos que nasce (emerge) o sistema integrado de valores, crenças e regras de conduta que associamos ao fenômeno cultura.

O termo “cultura” tem uma história longa e complicada; atualmente é usado em diversas disciplinas intelectuais com significados igualmente diversos e às vezes confusos... Para nossa análise sistêmica da realidade social, vamos adotar o sentido antropológico da palavra cultura, que a Columbia Encyclopedia define como “o sistema integrado de valores, crenças e regras de conduta adquiridas pelo convívio social e que determina e delimita quais são os comportamentos aceitos por uma determinada sociedade”. Quando exploramos os detalhes dessa definição, descobrimos que a cultura nasce de uma dinâmica complexa e altamente não-linear. É criada por uma rede social dotada de múltiplos elos de realimentação através dos quais os valores, crenças e regras de conduta são continuamente comunicados, modificados e preservados. A cultura nasce de uma rede de comunicação entre os indivíduos; e, à medida que nasce, impõe limites à ação desses mesmos indivíduos. Em outras palavras, as estruturas sociais ou regras de comportamento que delimitam a ação dos indivíduos são produzidas e continuamente reforçadas pelas próprias redes de comunicações deles.

A rede social também produz um corpo de conhecimentos comuns – feito de informações, idéias e capacidades práticas – que molda não só os valores e crenças da cultura, mas também seu modo de vida específico. Por outro lado, os valores e crenças da cultura também afetam seu corpo de conhecimentos. Fazem parte das lentes através das quais vemos o mundo; ajudam-nos a interpretar nossas experiências e a determinar quais espécies de conhecimento são significativas. Esse conhecimento significativo, continuamente modificado pela rede de comunicações, é transmitido de geração em geração junto com os valores, crenças e regras de conduta da cultura.

O sistema de valores e crenças comuns cria uma identidade entre os membros da rede social, identidade essa baseada na percepção de fazer parte de um grupo maior. Nas diversas culturas, as pessoas têm identidades diferentes porque esposam conjuntos diferentes de valores e crenças. Ao mesmo tempo, um só individuo pode pertencer a diversas culturas. O comportamento das pessoas é moldado e delimitado pela identidade cultural delas, a qual, por sua vez, reforça nelas a sensação de fazer parte de um grupo maior. A cultura se insere e permanece profundamente entranhada no modo de vida das pessoas e essa inserção tende a ser tão profunda que até escapa à nossa consciência durante a maior parte do tempo.

A identidade cultural também reforça o fechamento da rede, na medida em que cria um limite feito de significados e exigências que não permitem que quaisquer pessoas e informações entrem na rede. Assim, a rede social intercambia suas comunicações dentro de um determinado limite cultural, o qual é continuamente recriado e renegociado por seus membros. Os limites sociais não são necessariamente limites físicos, mas limites feitos de significados e exigências. Não envolvem literalmente a rede, mas existem num mundo mental que tem as propriedades topológicas do espaço físico.

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