Escola de Redes

No último dia 27 de outubro foi lançado mais um nodo da Escola-de-Redes: o Nodo-Porto-Alegre. No próximo dia 5 de dezembro será a vez do Nodo-Brasília (a partir das 18:30, na Representação do IICA no Brasil: SHIS QI 03, Lote A, Bloco F - Centro Empresarial Terracotta). Agora já serão 4 escolas de redes: Curitiba (21 de junho), São Paulo (26 de setembro), Porto Alegre (27 de outubro) e Brasília (5 de dezembro). No início de 2009 teremos provavelmente mais 10 nodos no Brasil, além de 3 no exterior.

Não, não se trata de uma nova organização se expandindo. Trata-se de uma idéia-força se disseminando. Cada nodo da Escola-de-Redes é a própria escola. A rigor, cada nodo é uma escola diferente. O slogan ‘A escola é a rede’ significa que as escolas são redes. E, simultaneamente, que cada rede (distribuída) que organizamos será uma escola diferente.

O temor de que a Escola-de-Redes pudesse ser ‘um círculo intelectual de elite, formado por grandes teóricos a título individual, no qual não tivessem sentido comunidades’, está, portanto, desautorizado pelos fatos. Dentre seus 225 conectados [241 = atualização de 26/11/08 às 18:10] encontram-se estudiosos das redes, acadêmicos, participantes de movimentos sociais e de organizações da sociedade civil voltadas ao desenvolvimento local e à promoção do voluntariado, militantes do software-livre, hackers, netweavers, além de empresários e outros cidadãos e cidadãs comuns, interessados na idéia dos pontos de vista teórica e prático. Qualquer pessoa pode se conectar à Escola-de-Redes: não há nem mesmo alguma instância capaz de aprovar ou desaprovar a conexão. E qualquer grupo de pessoas ou comunidade virtual ou territorial pode abrir um nodo da escola.

Sei que – acostumados como estamos às formas hierárquicas ou centralizadas de conexão – é muito difícil entender isso. Dedico esta mensagem ao assunto, de certo modo dando continuidade às considerações feitas no texto “Sobre as nossas dificuldades de organizar redes”.


O florescimento das escolas de redes

Retomo, para começar, excertos do último capítulo do texto indicado acima, no qual dizia que “um novo tipo de padrão de organização – distribuído – vai substituir os velhos padrões, centralizados (ou multicentralizados, quer dizer, descentralizados). Até agora, 99% de nossas organizações, em todos os setores – governamentais, empresariais e sociais – seguem ainda um padrão predominantemente multicentralizado. Mas os graus de descentralização em direção a mais distribuição estão aumentando rapidamente... Sim, nos conectarmos aos amigos que querem conviver, conversar, compartilhar experiências, estudar, pesquisar e – por que não? – empreender e trabalhar conosco, parece ser a coisa certa a fazer... Imagino que haverá um florescimento de escolas de redes, lato sensu, quer dizer, de iniciativas de articulação e animação de redes (netweaving) que conectam pessoas-com-pessoas, com grau máximo de topologia distribuída que for possível alcançar – independentemente dos objetivos dessas redes... Organizações desse tipo podem ser chamadas genericamente de escolas de redes porque serão as novas escolas de uma sociedade rede, ou seja, comunidades de aprendizagem que reconhecem que a escola é a rede e exploram as inéditas possibilidades relacionais e convivenciais, cognitivas e produtivas, de um novo multiverso de conexões, de um espaço-tempo de fluxos que, afinal, começa a ser desvelado”.

O que chamamos de Escola-de-Redes - assim com hífens entre as palavras e que usa o blog de animação www.redes.org.br - é apenas uma (mais uma, oxalá uma entre tantas) rede disseminadora de escolas de redes.

Em qualquer lugar pode haver uma escola de redes

Sim, em qualquer lugar: na sua vizinhança, na sua empresa, na sua ONG, entidade ou organização da sociedade civil, no seu órgão governamental et coetera. Pouco importa se a estrutura dessas localidades ou organizações é vertical, hierárquica, centralizada: as pessoas que estão lá não são e não há como impedir que elas se conectem horizontalmente, de modo distribuído, umas com as outras. E não importa se todas as pessoas não estiverem dispostas a fazer isso. E não importa se a maiora das pessoas em cada uma dessas territorialidades ou organizações for contra isso. A partir de três pessoas já é possível começar uma rede distribuída. Fazendo isso, articulando uma rede distribuída, você criou uma “zona autônoma” (em relação ao poder centralizado). Se for uma rede distribuída (a rigor, mais distribuída do que centralizada), coisas surpreendentes começarão a acontecer (na medida do grau de distribuição e de conectividade alcançados). Uma nova fenomenologia certamente acompanhará a nova topologia.

Pode apostar: isso fará diferença. E a diferença será notável

Portanto, você e mais alguns amigos e amigas podem começar já a fazer isso, estejam onde estiverem. Fazer rede é fazer amigos. Amigos políticos, no sentido original, grego, do termo ‘político’, que se refere à interação e à inserção na comunidade política; i. e., à polis – que não era a cidade-Estado e sim a koinomia política (como assinalou Hannah Arendt em “A condição humana” (1958): “a polis não era Atenas, e sim os atenienses”). Isso é uma subversão completa das identidades organizacionais abstratas, construídas top down para alocar você num degrau da escada. Para que você pise na cabeça de quem está no degrau de baixo e tente ultrapassar quem está no degrau de cima, agarrando-se a ele e puxando-o para baixo, como fazem os caranguejos numa lata...

Essa é a grande descoberta da democracia como movimento de desconstituição de autocracia, instaurada na experiência local dos gregos para evitar a volta da tirania dos Psistrátidas (que, como qualquer poder vertical, se baseava na inimizade política). Tratava-se de preservar a liberdade. Mas como escreveu a mesma Arendt, em “A questão da guerra” (1959): [para os gregos] “a liberdade... é um atributo do modo como os seres humanos se organizam e nada mais”. Dizendo de outra maneira (e pulando algumas passagens da argumentação): a falta de liberdade é uma função direta dos superávits de ordem top down.

É difícil reconhecer isso, mas todas as organizações verticais se baseiam na inimizade política: quanto mais centralizadas, mais “se alimentam” de inimizade e de seus bad feelings acompanhantes, como a desconfiança. Ora, isso torna imperativa a necessidade de controle e, por decorrência, a exigência de obediência.

Fazer amigos é uma subversão de todos os mecanismos de comando-e-controle. Fazer amigos que se conectam em rede distribuída dentro de uma organização hierárquica vai desabilitando ou corrompendo os scripts dos programas verticalizadores que rodam nessa organização. Redes distribuídas, mesmo com pequeno número de nodos, funcionam, assim, dentro de uma organização hierárquica, como espécies de vírus; ou melhor, de anti-virus (pois em relação à “rede-mãe” – aquela rede que existe independentemente de nossos esforços conectivos voluntários, à rede que existe desde que existam seres humanos que se relacionam entre si – são os programas verticalizadores que devem ser encarados como vírus).

Trata-se de uma infecção antiga, resistente, resiliente, que permanece na medida em que nós nos transformamos em vetores de contaminação por meio de nossas formas de relacionamento. Cada piramidezinha que construímos, nos espaços privados e públicos que habitamos, na nossa família, escola, igreja, entidade, corporação, empresa, partido ou governo, vai viabilizando a prorrogação da infestação do poder vertical. Pelo contrário, cada rede que articulamos vai dificultando a propagação desse vírus ou a replicação desse meme, por meio da criação de zonas autônomas, mesmo que sejam temporárias (e são, como percebeu Hakim Bey), criando condições para que a confiança possa transitar (ou para que o capital social possa fluir, se preferirmos usar essa metáfora), para que a competição possa ser convertida em cooperação; enfim – num sentido ampliado do termo – para a manifestação da amizade (ou para fazer “downloads” daquela emoção que Maturana chamou... veja só!, de amor, mas a palavra parece ser forte demais – um verdadeiro escândalo – e acaba chocando as pessoas que se imaginam preocupadas com coisas “mais sérias”).

Não, não se trata de converter as almas por meio do proselitismo, do discurso ético normativo, exalçando as vantagens da cooperação sobre a competição. Trata-se de adotar padrões de organização que viabilizem a conversão de competição em cooperação. Parodiando Arendt, “a cooperação... é um atributo do modo como os seres humanos se organizam e nada mais”. Se nos organizamos segundo um padrão de rede distribuída, isso começa a ocorrer “naturalmente”; quero dizer, é uma fenomenologia que se manifesta em função da topologia (e não das boas intenções dos sujeitos). Pela milésima vez quero repetir – e parece que nunca é demais repetir isso – que uma organização hierárquica de seres animados pelas melhores intenções, cheios de amor-prá-dar, não se constitui como um ambiente favorável à cooperação. Em outras palavras, o capital social de uma organização rigidamente centralizada será sempre próximo de zero, mesmo que tal organização seja composta por clones de Francisco de Assis ou por réplicas perfeitas de Mohandas Ghandi.

Por que temos tanta dificuldade de compreender essas coisas? Essa pergunta já constitui uma boa justificativa para a articulação de escolas de redes.

Articule você também uma escola de redes

Na verdade, uma escola (ou um nodo de uma escola) de redes é apenas uma comunidade de aprendizagem (na visão: "a escola é a rede"). Para articulá-la basta um grupo de pessoas interessadas em compartilhar conhecimentos, tecnologias e opiniões por meio da conversação e da troca de livros, textos, vídeos ou outros materiais sobre redes. E dispostas a formular uma agenda de eventos, que podem ser conferências, seminários, encontros, palestras, cursos ou, simplesmente, reuniões para bater-papo sobre o assunto. É claro que desse estudo, dessa interação e reflexão coletivas, poderão surgir muitas iniciativas inovadoras, organizadas já segundo um padrão de rede distribuída. Mas não é necessário ter alguém "encarregado" da burocracia, nem mesmo da secretaria, simplesmente porque não há (ou não deveria haver, em redes distribuídas) qualquer burocracia ou secretaria. Portanto, mesmo que você seja ou esteja agora muito ocupado, é possível, sim, articular uma escola de redes.

Você pode estar se perguntando: mas para quê, afinal, devo fazer esse esforço? Ora, antes de qualquer coisa, se você considerar que isso um “esforço” – no sentido de sofrimento por ter que carregar mais um fardo, e não um prazer – é melhor deixar pra lá. Os propósitos, porém, são muito claros, óbvios mesmo:

a) para entender melhor o mundo que se avizinha. E para se antecipar às mudanças que virão, em todos os setores;

b) para adotar um novo padrão organizativo naquelas iniciativas sociais, culturais, empresariais ou políticas com as quais você está envolvido;

c) mas, fundamentalmente, porque a transição do padrão hierárquico para o padrão de rede é um imperativo – na verdade, creio que poderíamos dizer: é o imperativo – da sustentabilidade em qualquer campo. Assim, por exemplo, se você está interessado em colocar sua organização (social, política ou empresarial) no caminho da sustentabilidade, não há como escapar disso: se tudo que é sustentável tem o padrão de rede, você tem que entender do assunto.

Se e quando você organizar uma escola de redes, então essa escola poderá se conectar à Escola-de-Redes (que agora estamos articulando por meio do blog www.redes.org.br (e por este http://escoladeredes.ning.com/) e que coloca apenas três exigências para a abertura de nodos: a) assumir os objetivos da escola; b) não se organizar segundo padrões hierárquicos; e, c) contar com a concordância dos que já estão conectados).

Ou não. Pouco importa. O importante é disseminar a idéia e ensaiar cada vez mais experiências de redes distribuídas.

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Comentário de ELISANGELA BANDEIRA MENDES em 27 novembro 2008 às 7:05
Percebo que em alguns casos, um eixo norteador, como geração de renda (entre outros) limita as pessoas expor suas mais diversar potencialidades, pela Rede tratar apenas um tema central, uma bandeira de militância única. Mas com o desenvolvimento do ser humano e local as pessoas começam a perceber que existem muito mais ações que podem fazer de forma conjunta, conseguindo um efeito significativo na sociedade.
Será que numa Rede onde há um eixo norteador, possamos encontrar uma dificuldade na sua formação?

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