Escola de Redes

Algumas consideraçoes a respeito da Escola de Vida e Resiliencia

 

Acrescento algumas reflexoes a respeito da ideia

"Escola de Vida e Resiliencia"   

 

Algumas consideraçoes

Escola de Vida nao quer dizer que alguem vai ensinar aos outros como viver. Nao existem receitas e ninguem pode saber qual é a melhor maneira  que cada pessoa teria para viver a propria vida. Como viver melhor ou que estrada seguir na vida è um processo,  uma construçao, uma descoberta pessoal que se vai modelando e renovando a cada passo, a partir de diversas relaçoes e interaçoes com outras pessoas, com a realidade, envolvendo tambem fatores casuais, boa ou a ma’ sorte, etc… Depende de multiplos fatores e tece uma trama assaz complexa.  Ok, nao se pode ensinar ninguem a viver,  mas sera’ possivel aprender a viver? De que maneira? O que è necessario, que elementos podem favorecer ou dificultar este processo?  E como viver em tempos de crises com mudanças dramaticas, vertiginosas e incessantes, como as que se apresentam  nos dias de hoje?                                                                                                                                                                                          De acordo com a minha experiencia de vida no plano pessoal e profissional, e considerando as tantas observaçoes que venho fazendo ao longo dos anos em torno a este tema fundamental, penso que atualmente nao existe um espaço apropriado e pensado especificamente para focalizar a atençao nesta importante questao.                                                                                                                                             A familia, a escola, a igreja, as demais instituiçoes e grupos sociais que produziram durante seculos modelos, ideologias e diretrizes que  controlaram e administraram a sociedade, vem sendo terremotadas e desgastadas pelas constantes e multiplas crises das ultimas decadas, principalmente nestes tempestuosos  ultimos  5 anos. As instituiçoes  estao entrando em colapso. Sao uma sucessao de crises: de valores, de papeis, da educaçao, de autoridade, de sustentabilidade economica, ecologica. Fragmentadas, perdidas, confusas, desacreditadas, as instituiçoes tem sempre menos recursos e legitimidade para ajudar as pessoas  a  enfrentar e superar a crise e ainda menos na construçao de um valido e realizavel projeto de vida.                                                                                                                                                                    No ambito da saude e da prevençao, grupos psicoterapeuticos, psicanaliticos e tantos outros, seriam em principio um espaço adequado para focalizar esta questao, mas deixam de poder  utilizar o enorme potenzial criativo e tranformativo dos elementos do grupo. O terapeuta se apresenta e è visto como um especialista, uma pessoa superior, resolvida na vida, bem diversa das outras no grupo, ocupa a posiçao de um que sabe (ou de um suposto saber). E’ bom recordar que até bem pouco tempo,  as interpretaçoes dos analistas soavam  como a voz de um verdadeiro horaculo! Ja nao è mais assim, felizmente, mas permanecem muitos dos problemas e limites que tornam as psicoterapias de grupo meios insuficientes para lidar com as questoes sempre mais dificeis da vida contemporanea,  uma  vida sempre mais  precaria e instavel,  em um mundo sacudido por continuas crises e violentas mudanças .  Os recursos para a soluçao dos problemas sao tranferidos ao  terapeuta pois os integrantes do grupo o idealizzam e o investem com o poder de um guru ou um messias salvador. Existe ainda em boa parte uma visao nao sistemica das relaçoes pessoais e uma nao clara percepçao do fato que nas ultimas decadas vem ocorrendo uma importante mudança de paradigma. Um dos problemas neste tipo de grupos de deve à posiçao hierarquica do terapeuta no grupo.   Outro aspecto carateristico do corpo teorico-clinico de muitas psicoterapias è o fato que a vida pratica em geral è considerada de certa maneira banal, “ muito concreta” e sem a importancia da metapsicologia das profundas dinamicas psiquicas, do inconsciente, aspectos estes muito abstratos que tendem a permanecer distantes e pouco vinculados à vida quotidiana.                                                                                                                                           Por outro lado, è possivel observar que as pessoas nao foram preparadas para enfrentar a vida e a realidade no seu aspeto pratico, nao foram facilidadas a desenvolver uma arte de viver. A educaçao tradicional è baseada em grande parte na obediencia e no bom comportamento. Conjugada e assiciada à cultura e à mentalidade  catolica da nossa sociedade nao favorecem um crescimento autonomo.                                                                           E’ interessante notar a defasagem existente entre a  velocidade acelerada das crises e das revoluçoes e inovaçoes tecnologicas e a velocidade e o ritmo das mudanças de mentalidade das pessoas, que se  processa muito lentamente. F. Capra em 1982 (O ponto de mutaçao) descreveu uma mudança de paradigma ja clara naquele momento mas observavel como algo que vinha-se processando nas ciencias ha cerca 3 decadas! Hoje, passados tantos anos, ainda podemos observar a permanencia de antigas mentalidades, bastante difusas, que ainda resistem embora convivendo com floridas mudanças e inovaçoes  promovidas pelas ciencias e pela tecnologia.                                                                                                                       Ao longo da historia da civilizaçao, com excesao de um  hipotizavel periodo inicial de “anarquia selvagem”, os individuos  viveram sempre em grupos e ambientes estruturados hierarquicamente (familia, escola, universidade, igreja, forças militares, partidos politicos, governos, etc, etc). A hierarquia infantiliza e inibe o desenvolvimento de uma  propria autonomia e liberdade de pensamento. A necessidade de procurar  figuras de referimento para se apoiar, para lhes guiar, tranquilizar, dizer o que devem ou nao fazer è um impulso forte que se manifesta em muitas pessoas. Procuram os pais, as maes e seus substitutos: Nosso Senhor, o Papa, pastores, gurus, herois,  patroes, professores, ditadores, rockstars, autoridades intelectuais, formadores de opiniao, celebridades, etc,etc… A crise porem tem contaminado e corroido os antigos modelos que nao se sustentam mais, nao oferecem a segurança e a tranquilidade de um tempo. Muitas  pessoas vivem em uma condiçao de dependencia patologica e sao  despreparadas para viver a vida de forma livre, criativa e autonoma.  O potenzial  de auto-regulaçao, auto-observaçao, auto-disciplina, aprendizagem auto-didatica que cada  um tem dentro em forma latente, è em geral pouco estimulado se nao   inibido com a educaçao e o ensino.  E os casos mais extremos,  tal potencial è dramaticamente sufocado.                                                                                                                                       O que se pode fazer para melhorar a vida das pessoas?                                                                                                                                  Foi pensando em tudo isto que me veio em mente a importancia de se poder criar grupos que funcionassem como Escola de Vida e Resiliencia, possibilitando a mudança de mentalidade nesta dificil transiçao em direçao a um novo paradigma. A criaçao de um humus interativo pode ajudar  a superar dificuldades e favorecer a descoberta de uma vida criativa,  de uma “potencia de esistir”.  Muitas iniciativas tem surgido em sintonia com o espirito inovador do nosso tempo e tem-se a sensaçao de estarmos vivendo um verdadeiro Renascimento. Contudo, me parece nao existir um espaço mais especifico e apropriado, onde as pessoas possam conversar livremente sobre a  vida, trocar ideias e descobrir  juntas, a partir da polinizaçao e da troca de experiencias, os melhores e mais creativos modos de ativar e utilizar os proprios recursos para sanar carencias, superar dificuldades, e abrir vias que as possibilitem viver uma vida mais feliz e satisfatoria.

Os grupos Escola de Vida e Resiliencia podem favorecer a interaçao das pessoas que sintam a necessidade de viver criativamente.                                                                                                           A ideia deste tipo de grupo me parece estar  em sintonia com os principios da Escola de Redes e com a estrutura dos grupos de cocriaçao. A Escola de Vida e Resiliencia se estruturaria de forma horizontal, nao hierarquica,   nao haveria condutores, lideres, terapeutas ou facilitadores . As interaçoes seriam paritarias e apesar dos diferentes  graus de estudo e de formaçao profissional, experiencias de vida,  idade,  sexo, etc, todos seriam considerados iguais,  paritarios, igualmente capazes de contribuir, a partir da propria diversidade, ao enriquecimento das experiencias no grupo. Nao existem metas pre-fixadas ou objetivos a serem atingidos. Cada um contribui espontaneamente com a sua experiencia e criatividade, dizendo o que pensa. A circulaçao, a ressonancia e o entrelaçar das ideias podera’ conduzir a territorios inesperados e inexplorados,  inspirando novas visoes e perspectivas.                                                                                                                                                 Seria desejavel que as pessoas que quizessem viver tal experiencia fossem dispostas a desenvolver  uma suficiente abertura mental (“A mente è como um paraquedas, so’ funciona se abre” Einstein). Outras qualidades desejaveis seriam a capacidade de auto-observaçao, a possibilidade de fazer autocritica, despojar-se do proprio narcisismo e da pretençao de  ter razao e querer impor suas convicçoes aos outros. Importante tambem èé a aceitaçao de poder correr riscos, e  suportar viver situaçoes desconhecidas e imprevistas. E’ importante poder inspirar um ambiente em que todos se sintam bastante à vontade, de modo que as ideias possam fluir o mais livremente possivel, propiciando interaçoes espontaneas, novas conexoes e arranjos.                                                                                                                                       A esperiencia interativa neste tipo de grupo è tambem um rico exercicio de anarco-democrazia.                                                                                                                                          Acredito  no potenzial criativo de cada pessoa e penso que em um grupo paritario as ideias podem  se multiplicar como em uma sala de espelhos, misturando tintas, cores e formas, produzindo imagens novas, emocionantes e  surpreendentes.                                                                                                                                             O tema “viver criativamente” nao è um rotulo, nao impoe um limite restrittivo ja que falar da propria vida em termos praticos ou oniricos, inclui um universo quase  infinito de possibilidades: as pessoas sao convidadas a entrarem em sintonia com uma dimensao da existencia cujo centro è a experiencia criativa. Procura-se promover  a ressonancia de ideias imaginativas em relaçao à vida de cada um, ativando e estimulando a emergencia da vitalidade potencial geradora de saude, criatividade, alegria, otimismo, entusiasmo, que em experiencias interativas e compartilhadas se manifesta com sentimentos de cooperaçao e  fraternidade.

Sobrevivencia e Resiliencia

Diante da continua pressao e stress  impostos por uma longa e grave crise,   podemos nos sentir em um opressivo e asfixiante beco sem saida: impotentes, habitados por  sentimentos depressivos,  cai-se prostrados em um apatico estado de desistencia, de nao existencia.  Ou talvez uma desesperada angustia de morte impoe uma reaçao de defesa extrema e toda a energia vital disponivel se concentra  em uma extenuante luta pela sobrevivencia. E a luta continua, mesmo se viver desta maneira nao ha o menor sentido.                                                                                                                    A crise    tambem pode oferecer uma oportunidade. Suportando a opressao extrema, aceitando a gravidade da situaçao sem deixar a peteca cair,  mantendo-se a esperança e a confiança na Vida, vemos com surpresa abrir-se uma nova e insuspeitada passagem em direçao à vida. Delinha-se a possibilidade de um novo inicio. Um rinascimento. Atraves da resiliencia se atingiu o nucleo vital,  o nectar da renovaçao, a mola da evoluçao criativa. Diante de enormes pressoes e ameaças, causadas por situaçoes limite, eminencia de catastrofes,  se è obrigado a usar  recursos vitais que embora existissem  em um estado potencial, de reserva virtual,  nao eram reconhecidos como tais, e como tal nao disponiveis. Como uma laranja que se precisou espremer para se poder  beber o suco! Esta è uma metafora. Ninguem aguenta ser espremido infinitamente. “Ser espremido” para um ser humano è util somente se se adquire a consiencia da existencia de algo como a resiliencia, e se existe um “setting” adequado e capaz de promover a sua educaçao e exercicio.  Este è o aspecto fundamental da resiliencia. Juntos, em um grupo interativo e colaborativo, pode-se aprender a identificar, desenvolver e utilizar este precioso recurso, que nos capacita nao so’ enfrentar as dificuldades da vida em tempos de crise, mas viver melhor e creativamente.

 

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