Escola de Redes

A desobediência é uma recusa ao que nos é imposto, não um enfrentamento físico ou ideológico solicitando substituição de um sistema por outro. Muito menos querendo a inversão da pirâmide hierárquica para que os da base estejam em cima produzindo algum poder e os que estão no pico passem a base.

Henry Thoreau, falando daqueles cidadãos que mantinham escravos e dos coletores de impostos escreveu: “Quando o súdito recusa sua submissão e o funcionário se demite do cargo, a revolução se consuma.

Recusar a obedecer não limita-se em desobedecer alguma medida num ambiente já marcado, valorado e hierarquizado, pois corre-se o risco de ter seu potencial condicionado à utilidade e aperfeiçoamento do próprio cercado hierárquico na qual está inserido.

É possível sentir a vibração de lutar por um “bom combate”, como dizia o padre Lebret e se contagiar por uma esperança de um mundo melhor mediante essa luta, mas a desobediência não reside aqui.

A desobediência pode ser vista também como deixar de mandar em alguém, não cavalgar na costa do outro. Henry Thoreau em “Desobediência Civil” cita que:

 “Não é obrigação de um homem, evidentemente, dedicar-se à erradicação de um mal qualquer, nem mesmo do maior que exista; ele pode muito bem ter outras preocupações que o absorvam. Mas é seu dever, pelo menos, manter as mãos limpas e, mesmo sem pensar no assunto, recusar o apoio prático ao que é errado. Se eu me dedico a outros planos e atividades, devo antes de mais nada garantir, no mínimo, que para realizá-los não estarei pisando nos ombros de outro homem. Devo sair decima dele para que também ele possa perseguir seus objetivos.

Talvez a desobediência tenha mais a ver em “não fazer” algo, muito mais do que “fazer”. Hakim Bey conta-nos das Zonas Autônomas Temporárias (TAZ). Seria um espaço sem vigilância de qualquer instância de poder, clandestino inesperado, que ao primeiro sinal de controle e identificação por alguma autoridade, desaparece e se recria em outro local, por isso sua natureza temporária, nômade. Autônomo pela possibilidade de compartilhar diretamente com cada um, sem pedir permissão, os problemas resolvidos, para que assim toda a comunidade prossiga na resolução de outros novos problemas. É como na ética hacker: por em comum a informação constitui um extraordinário bem e para os hackers é um dever de natureza ética compartilhar sua competência e perícia.

Essas aglomerações em TAZ pode ser algo desobediente. No entanto, táticas de anti-aglomeramento serão disseminadas por dispositivos externos e internos suplantados. O nomadismo então será combatido através da fixação e utilização desse lugar pré definido, imobilizado. O fluxo interativo é represado e a “bolha interativa” pode se decompor, no dizer de Augusto de Franco.

Dessa forma, a aglomeração fortuita e inesperada é desobediente. Uma massa arrebanhada e convocada por um único líder é obediente.

Conta-se que numa região rica em cavernas encontraram uma ossada intacta de uma preguiça gigante dentro de uma delas, onde era o seu local de refúgio contra os predadores da época. Desobediência talvez seria mais ou menos essa idéia de resistência de Megaterius (a preguiça gigante), desviando dos predadores sociais pelos atalhos dos túneis das cavernas.

Em “Desobedeça” de Augusto de Franco, o “predador é uma máquina de converter o semelhante em inimigo. Mas é preciso considerar que não existem inimigos naturais ou permanentes: toda inimizade é circunstancial e pode ser desconstituída pela aceitação do outro no próprio espaço de vida, pelo acolhimento, pelo diálogo, pela cooperação. Assim, o (único) inimigo que existe mesmo é o fazedor de inimigos.

Aos que se recusam a obedecer sempre terão o seu tesouro que é a de ser cúmplice de algo subterrâneo que está rolando, de ser cúmplice de algo por vir que antecipamos, de termos em comum nossa humanidade social.

Exibições: 88

Comentar

Você precisa ser um membro de Escola de Redes para adicionar comentários!

Entrar em Escola de Redes

© 2018   Criado por Augusto de Franco.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço