Escola de Redes

A psique tratada como “guerra interna” e o self individualizado

Divide et impera disse César, Filipe II da Macedônia, e não tanto à francesa, Napoleão segue a estratégia guerreante do divide ut regnes. Maquiavel afirma que um capitão deve se esforçar ao máximo para dividir as forças do inimigo, seja fazendo-o desconfiar dos homens que confiava antes ou dando-lhe motivos para separar suas forças, enfraquecendo-as. Esse último é talvez o grande mestre da prática da arte da guerra na política.

A consequência dessa estratégia é a dissociação da sociedade em facções inimigas que podem perdurar por muito mais tempo do que os impérios de alguns desses poderosos citados, e pior, pode vir a ser um hábito que vai impregnando tanto nas pessoas que vira cultura. Assim, vale a pena entender os fenômenos sociais, psicológicos e políticos da guerra.

Vou partir da premissa traduzida e trazida por Augusto de Franco (2015) de que a guerra não é feita exatamente para matar, mas para separar e manter separado, como exemplificado na máxima de alguns notórios senhores da guerra citados acima. E a partir daí explorar a ideia de que esse split tem consequencias nefastas e parece ser o pano de fundo do chamado “individualismo”, que é a noção de self atomizada, o self individualizado. Assim como na política usada como continuação da guerra, o individualismo parece prescindir de um fenômeno semelhante oriundo das cisões geradas pela guerra, implicando nos individíduos os sintomas relatados acima.

O “eu” é o herói, como dita a maioria das tradições psicológicas. Aquele que se realiza no mundo, (eu disse “no”, porque é assim que diz o herói, ele é diferente do mundo e assim pode transformar o mundo). A ação do herói é opus contra naturam, o herói salva, luta, descobre, é ajudado por seus guias, é traído, se sacrifica, desce aos infernos e volta, o herói transforma o mundo.

E o mundo? Parece que apenas gira ao seu redor, é praticamente o seu cenário, não participa, não pensa, não age. Esse é o herói individualista. Pode soar tremendamente antipático dizer que o herói das histórias que salva uma vila ou uma cidade é um individualista, até porque o herói se sacrifica. Mas se levarmos essa ideia in extremis, a virtude do herói não é trabalhar com a comunidade, mas para a comunidade, o que em si é uma cisão, pois ele é o único “escolhido”.

Caminhemos com Hillman:

 

“... nós nunca poderemos fazer o suficiente pela cidade, porque ela é, e assim tem sido desde os gregos, o heróico caminho do fazedor de alma. Que nossas cidades hoje em dia, nossa vida política, esteja nesta tal desordem resulta de um profundo erro psicológico: a internalização dos ideais do herói num culto a personalidade do Self individual que deixa a cidade sem alicerces e nossa psicologia terapêutica frustrada.” (Hillman, 1993, p. 15)

 

O self quando vive em estado guerreante vive se separando do contato com a psique como um todo, na mesma medida em que o herói especial perde contato com os comuns da cidade, ou seja, aquele que vive no topo faz rompimento com a alma.

O self em Jung é tão ciumento quanto Yaweh, é uma espécie de Deus internalizado (sim, com “D” maíusculo, porque seria mesmo “O” arquétipo). Dessa forma, caimos em um absolutismo em que tudo tende a “integração” como diria um clássico jungiano (claro que esteriotipado) e assim, por vezes, desconsiderando a multiplicidade. Já o ego, que digamos é aquele que faz o self ser real no dia a dia, e, portanto, vive em um eixo interdependente com o self, quando inflacionado, vive um complexo em que parece ser um absoluto na psique.

E o que o herói tem a ver com esse é um “estado psíquico guerreante”? O herói supõe ser o salvador e realizador de uma organização que depende dele. Guerrea para conquistar um objetivo e conquista. Nesse caso, o que poucas histórias contam é que depois da guerra, é nessária uma espécie de “manutenção da paz” (traduzindo, controle), e se supõe que para “manter a paz”, ou seja, a “paz pra si mesmo” (o que obviamente é um contrasenso), devemos estar sempre alerta contra os inimigos. Aí está a guerra, como dito antes, na manutenção do inimigo e não necessariamente na matança. Para tal, o herói precisa ter um poder autocrático nas mãos.

Assim o ego-self supõe solitário, com uma voz, isolado do mundo. Não flui com as imagens, porque para toda constelação psíquica diz apenas “eu”. Os sonhos são “partes do eu”, as emoções, as ideias, as vontades são todas minhas. Os daimones são calados, a comunidade de imagens não tem vez, não flui, e assim, “esteriotipa” (ou seja, se torna sólida). Portanto, o “eu” vive o sofrimento gerado pelo constante controle, um Big Brother de daimones, apartando (ou reprimindo e até recalcando) os diálogos da comunidade psíquica. O self individualizado é um autocrata psicológico e a psique vive uma ditadura.



Referências Bibliográficas

 

Hillman, J. (1993). Psicologia, Self e Comunidade. Disponível em http://pt.slideshare.net/augustodefranco/psicologia-self-e-comunidade. Acesso em: 18 de fev. 2015.

De Franco, Augusto (2015). Só a Paz é Revolucionária. Disponível em: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=897843243581208&set=a.234462913252581.65192.100000666218375&type=1:. Acesso em: 18 de fev. 2015.



Exibições: 310

Comentar

Você precisa ser um membro de Escola de Redes para adicionar comentários!

Entrar em Escola de Redes

© 2019   Criado por Augusto de Franco.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço