Escola de Redes

Para especialista, constantes atualizações tecnológicas impostas pela indústria condenam o homem à eterna exclusão

por Ana Carolina Saito
Istoé, Edição 2081 - 30 set/2009

A afirmação parece um paradoxo diante dos inacreditáveis avanços tecnológicos da nossa época. No entanto, ela revela a lógica que se estabeleceu no mundo contemporâneo, a da velocidade. Não basta apenas ter acesso ao computador e saber informática. O ser humano precisa acompanhar constantemente as atualizações tecnológicas impostas pela indústria em uma incessante corrida para garantir sua permanência no ciberespaço. “A inclusão digital é uma utopia, um mito”, diz Eugênio Trivinho, professor do programa de estudos pós-graduados em comunicação e semiótica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Trivinho é autor do livro “A Dromocracia Cibercultural”. Dromo, do grego, significa velocidade, característica da época atual. O professor da PUCSP também organizou a recémlançada obra “Flagelos e Horizontes do Mundo em Rede: Política, Estética e Pensamento à Sombra do Pós-Humano”, que reúne ensaios de pesquisadores.

INSEGURANÇA Trivinho: “Aquele que hoje está incluído não tem o seu amanhã garantido na cibercultura” O homem está condenado à exclusão digital.


ISTOÉ – A internet pode ser considerada um veículo democrático?
Trivinho – Do ponto de vista interno, a internet é democrática quando o acesso a todos os espaços é desimpedido. Nem sempre isso ocorre. Há senhas por questões de segurança e proibições. E por trás de uma senha pode existir um custo econômico, que seleciona os que podem e não podem. Do ponto de vista externo, a época exige conhecimentos específicos, que devem ser traduzidos em uma prática interativa, própria de um comportamento de contiguidade de acesso, de fluência e de rapidez. São conhecimentos pragmáticos para usar o hardware, o software e a rede, necessários para operar os dispositivos da era da velocidade.

ISTOÉ – Quais as consequências dessa exigência para a vida das pessoas?
Trivinho – Como forma de pressão social, o sujeito precisa incorporar esses conhecimentos para ter um lugar ao sol na cibercultura, e não só no mercado de trabalho, mesmo para exercer cargos para os quais não é necessário saber informática. Para efeito de seleção exige-se esse conhecimento no currículo. A época requer não só conhecimentos convencionais, como a matemática, mas também o domínio de tecnologias. Isso pressupõe a incorporação de conhecimentos que não estavam disponíveis havia mais de 50 anos. É algo muito recente. É um cerco, como se a época dissesse: “Deves dominar esses conhecimentos, caso contrário o teu lugar ao sol na cibercultura está com os dias contados.”

ISTOÉ – É nesse sentido que a época atual se revela violenta?
Trivinho – É uma violência simbólica, mas no sentido mais sutil. Não passa por símbolos, linguagem, palavras. O racismo se manifesta por palavras e gestos. A violência da cibercultura se realiza como pressão social, que vem de todos os lados e de lugar nenhum. O indivíduo sabe que não tem chances se não dominar as senhas infotécnicas: o computador, o protocolo de acesso, uma prática de continuidade e o conhecimento conforme a exigência da época. Existe ainda uma quinta senha que é uma das mais relevantes, a capacidade econômica e cognitiva de acompanhar as reciclagens estruturais dessas senhas.

ISTOÉ – O que são essas reciclagens?
Trivinho – As indústrias frequentemente lançam hardwares que comportam capacidade de velocidade e de armazenamento diferentes. Quem não lembra do XT no início dos anos 90? Depois ele se transformou em 286, depois 386, 486, Pentium e assim por diante. Essa gramática numérica enseja um deslocamento do que chamo de mais potência do equipamento, do software, que acaba representando a mais potência do indivíduo, da própria cidadania. Essas senhas passam por uma reciclagem estrutural de tempos em tempos. É o discurso publicitário de que o que é lançado agora deve substituir o anterior porque é superior. Isso não é necessariamente verdadeiro, mas é uma lógica da cibercultura. E o drama social começa quando constatamos que essas senhas e o acompanhamento das reciclagens são um capital social que não é dado a todos.

ISTOÉ – A saída seria investir em políticas de inclusão digital?
Trivinho – A inclusão digital é uma utopia, um mito. A inclusão social é um conceito mais abrangente. É a inclusão universal das pessoas. A inclusão digital não consegue se exercer dessa forma. Consegue apenas acontecer como inclusão de grupos de pessoas de uma determinada classe social. São grupos de idosos, não todos os idosos, de habitantes de uma periferia, não toda a periferia. A inclusão digital é impossível de se realizar como inclusão social plena.

ISTOÉ – Por quê?
Trivinho – Porque o capitalismo virtual vai exigir que o indivíduo esteja sempre se atualizando em relação a essas senhas. Se ele não se atualiza, e isso pressupõe dinheiro para bancar essas reciclagens, fatalmente não será um incluído no rigor da palavra. Aquele que hoje está incluído não tem necessariamente o seu dia de amanhã garantido na cibercultura. Ninguém tem, exceto os dromoaptos, aqueles que têm capacidade de ser velozes no trato com as senhas infotécnicas e condições financeiras para bancar a sua inclusão permanente na cibercultura. É uma elite com capacidade econômica e cognitiva e, principalmente, vontade de acompanhar as reciclagens.

ISTOÉ – Há como escapar dessa lógica da velocidade?
Trivinho – Não existe possibilidade. Não há capacidade para ser veloz sem dispositivos. É o celular, o carro ou o caixa eletrônico. Todos estão no mesmo processo, até aqueles que não têm capacidade econômica e cognitiva porque a sociedade lhes retirou esse direito. As pessoas não são dromoinaptas por voluntariedade. A época seleciona do ponto de vista econômico e cognitivo quem está habilitado para ir para o ciberespaço e os que vão ficar somente no território geográfico de pedra. Os que farão compras pela internet e aqueles que terão que caminhar pelas ruas e passar por lugares de violência. Na base da pirâmide estão os novos pobres sobre cujos ombros a época contemporânea faz recair dissabores de uma nova miséria, que é a miséria informática. Estamos às voltas com uma época implacável, que acaba de alguma forma se autogerenciando.

ISTOÉ – É um sistema excludente em sua essência?
Trivinho – Endogenamente excludente. É um processo social impessoal, independente de qualquer controle institucional, empresarial, nacional, internacional. Ele pressiona de todos os lados naquela dinâmica que se faz segundo a distribuição do capital cognitivo, que não é dada a todos. Uma pessoa que não tem computador em casa resolve fazer um curso introdutório de informática para voltar ao mercado de trabalho. Um ano depois, ela é entrevistada e não consegue o emprego. Pergunto: esses cursos dão reciclagem? Têm computadores atualizados? É fácil falar em acesso universal, como se os indivíduos fossem iguais na cibercultura, mas aquele que há três anos não atualiza o seu computador é diferente do que participa da elite virtual. Há diferenças dromocráticas, ou seja, de velocidade.

ISTOÉ – E qual o papel da indústria de tecnologia nesse processo?
Trivinho – Ela alimenta e necessita dessa realimentação do mercado, mas controla apenas a sua linha de produção. Precisa evidentemente fomentar o mercado. Mas essa mesma indústria não tem controle do todo, daquilo em que se transformou o capitalismo na cibercultura e a vida regida pela lógica do ciberespaço.

ISTOÉ – Mas temos empresas que dominam o mercado de tecnologia.
Trivinho – Há diferenças de escalas. O fato de se controlar informação no ciberespaço não significa controlar os rumos do mundo. Se há um espaço social que detém o segredo sobre para onde o mundo está caminhando é o mercado. E o mercado é volátil, incerto, imprevisível, precário. Ele se faz de acordo com o jogo da concorrência. Uma cartada aqui e, seis meses depois, o mundo vai para outro caminho.

ISTOÉ – Como o sr. vê o crescimento das redes sociais e blogs?
Trivinho – Hoje, temos dispositivos que articulam um corpo ao outro, uma casa a outra, uma empresa a outra. E não obstante isso não aboliu a nossa solidão. Nós somos talvez os seres mais solitários e, por isso, precisamos de vínculo. O fenômeno do vínculo só é reforçado historicamente porque ele se realiza como forma de compensação. As redes sociais são um termômetro da necessidade de compensação de um processo de solidão que ficou mais intenso. É aquele exemplo bem frugal de irmos para as vitrines e fazermos compras ou para a internet comprar com o cartão de crédito, compensar, portanto, algo. Não é dar-se presentes porque a gente se ama, mas justamente o contrário, para compensar alguma coisa que está desajustada.

ISTOÉ – Por outro lado, ferramentas como o Twitter podem ser usadas como forma de garantir a livre expressão, a exemplo do que aconteceu no Irã.
Trivinho – As redes sociais são um fenômeno. Podemos considerá-las um grande horizonte do humano, porque criam possibilidade de laços, de aprendizado e crescimento coletivo. Fala-se hoje de inteligência coletiva como forma de reprodução da criatividade, da inovação. Tudo isso é verdadeiro do ponto de vista dos horizontes que a cibercultura nos coloca, mas temos de ter um olhar menos entregue. Não é simplesmente o caso de abraçarmos o discurso vigente, que é ciberufanista. Ele é ufanista porque promove produto, governo, o acesso universal.

ISTOÉ – E qual é a sua visão?
Trivinho – Do ponto de vista social, o Twitter repõe em novas bases, no ciberespaço, as regras de liderança e seguidores. Ele coagula uma determinada energia social em torno de um indivíduo que em geral tem alguma expressão midiática e, portanto, se coloca legítimo para ter seguidores. Nesse sentido, o Twitter presta um desserviço ao processo social na medida em que estimula as pessoas a seguirem líderes, quando deveriam seguir a si próprias.

ISTOÉ – Mas os seguidores também têm seguidores.
Trivinho – Na verdade, qualquer líder tem a ilusão de que tem poder porque conta com seguidores. Antes, ter status era comprar um carro do ano e depois passou a ser ter um computador atualizado. Hoje, ter tantos mil seguidores se tornou alguma forma de currículo. O Twitter repõe uma hierarquização das pessoas, de laços pessoais por subordinação em que o status se renova. Como se um indivíduo com 300 seguidores ou cinco mil seja mais do que aquele que está entrando agora e só tem dois.


Fotos: Karime Xavier/Ag. Istoé; NG Han Guan/ap; Leonardo Wen/Folha Imagem

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Comentário de Lía Goren em 28 setembro 2009 às 23:26
Gracias por compartir esta nota!!
Importante romper el falso mito de que las tecnologías brindan posibilidades ciertas de inclusión social.
Saludos codiales.

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